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Rádio Sociedade. Os primórdios da primeira PR da Bahia

Por Nelson Varón Cadena

Os antecedentes

No final da primeira década do século XX o mundo vivia a expectativa de uma nova tecnologia, então denominada de sistema de telefonia sem fios, mais tarde de rádio- telegrafia e em alguns paises de rádio-telefonia. Ou seja, estava sendo desenvolvido em vários lugares do mundo um sistema que utilizava as ondas magnéticas e se imaginava, na prática, seria um aprimoramento do telégrafo ou do telefone. As experiências do cientista italiano Guglielmo Marconi, tido como o inventor do rádio, repercutiam também no Brasil. As revistas publicavam na sua seção erudita artigos e relatos em torno da nova tecnologia, da qual nada mais se sabia além da possibilidade de transmitir à distância sons e palavras. Para que? Fins militares era uma das possibilidades, logo posta em prática com o irromper da I Guerra Mundial.

A outra possibilidade cogitada era a de ser um veiculo para difusão de cultura, entendendo como tal música clássica e conferências, conteúdos para consumo da mesma elite (intelectual e econômica) que aprimorava o novo invento e se preparava para explorar todo seu potencial de veículo de comunicação.

O Rádio no Brasil

Em 07 de setembro de 1922 o Brasil conhecia oficialmente o rádio. Na data, o Presidente da República Epitácio Pessoa apresentava a novidade aos brasileiros na solenidade de abertura da Exposição Comemorativa do Centenário da Independência realizada no Rio de Janeiro. Dentre os presentes dois baianos que mais tarde seriam alguns dos fundadores da Rádio Sociedade da Bahia: os Doutores Agenor Augusto de Miranda e Cesário de Andrade. Foi apenas uma transmissão experimental, mas que teve grande repercussão na imprensa, e muito mais entre os convidados ao evento que ouviram, através dos monitores instalados em pontos estratégicos, o discurso da autoridade máxima da República e mais os acordes da opera o Guarani de Carlos Gomes.

Também participava da solenidade o Dr Roquete Pinto que logo cogitaria instalar uma emissora, na capital, com programação regular, conforme experiências bem sucedidas então realizadas nos Estados Unidos e Europa.

Antecedentes na Bahia

Enquanto cientistas em todo o mundo realizavam experiências em torno do novo invento os legisladores cuidavam de estabelecer limites que se fizeram mais necessários a partir do uso do veículo durante a I Guerra Mundial. No Brasil não seria diferente, de modo que no mesmo ano da transmissão pioneira do Rio de Janeiro, o Governo determinava que a instalação de postos receptores e transmissores de ondas magnéticas deveria ter o seu aval, assim como a venda de aparelhos receptores.

O cidadão que deseja-se adquirir um aparelho receptor para ouvir rádio, por exemplo, deveria se cadastrar e seguir os trâmites burocráticos até receber do estado o deferimento. Foi nesse contexto que o Dr Cesário de Andrade, Acadêmico da Escola de Medicina da Bahia, requereu do Governo permissão para instalar em sua residência um posto receptor tele-radiofônico. Concessão assinada pelo  Ministro da Viação e Obras Públicas, o Dr Cesário inaugurou oficialmente a sua estação em Junho de 1923. Convidados seus assistiram, semanas após, a emissão de duas conferências com os temas “Como evitar a tuberculose” e “Necessidade de exames antes do casamento”.

Os preparativos na Bahia

Em janeiro de 1924 aportou na Bahia para uma audiência com o Governador do Estado, o engenheiro Moreno Del Valle, técnico da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro recém instalada e já em operação na capital da República. Se fez acompanhar de acadêmicos de medicina e engenheiros baianos interessados em instalar uma emissora no Estado. Del Valle requereu da autoridade baiana as condições de infra-estrutura para instalação dos equipamentos, além de seu empenho para facilitar as guias de importação e os trâmites burocráticos da alfândega, junto ao Governo Federal.

Em 12 de março do mesmo ano os jovens entusiastas publicavam edital de convocação para uma Assembléia Geral destinada à discussão dos estatutos e fundação da Rádio Sociedade da Bahia. No dia seguinte em reunião realizada nos salões do Instituto Politécnico da Bahia, Largo de São Pedro, era constituída oficialmente a Rádio Sociedade da Bahia, então definida em ata como “Elemento de Cultura Popular”. 

Os fundadores da rádio

A Radio Sociedade da Bahia passou a ser a representação de uma sociedade constituída por 200 associados. A sua primeira Diretoria foi constituída justamente pelos seus idealizadores que assumiram as funções executivas, enquanto os apoiadores assumiram cargos na comissão técnica e fiscal. Os primeiros podem ser considerados os legítimos fundadores, já que coube a eles a iniciativa da instalação da emissora e as gestões em todas as instâncias de poder.

Diretoria Executiva
Presidente Executivo- Engenheiro Agenor Augusto de Miranda-Chefe do Distrito de Telégrafos
Presidente da Assembléia Geral: Dr Caio Moura- Professor da Escola de Medicina
1º Vice-Presidente: Dr Cesário de Andrade-Professor da Escola de Medicina
2º Vice-Presidente: Engenheiro Arquimedes Gonçalves-Diretor da Escola Politécnica
1º Secretário: Engenheiro Oscar Carrascosa-Comerciante
2º Secretário: Engenheiro Filinto de Mello-Fiscal de Saneamento

Comissão Técnica
Engenheiros Dagoberto de Menezes-Chefe do Distrito Telegráfico; Gustavo Lopez-Chefe do Serviço Telefônico e Gastão Oliveira-Encarregado da Estação Radiográfica de Amaralina.

Comissão Fiscal
Engenheiro Epaminondas dos Santos Torres-Presidente do Instituto Politécnico; Dr Urbano Pires-Banqueiro e Anísio Masorra-Diretor da Companhia Brasileira de Energia Elétrica da Bahia.

A razão do nome

Enquanto em outros paises a denominação das emissoras de rádio adotou como padrão referências históricas, da natureza, ou comerciais (associado a marcas de empresas voltadas para a tecnologia de comunicações), no Brasil o próprio sistema de grupos fechados favoreceu um padrão único no mundo. No país as emissoras de rádios foram constituídas por grupos de engenheiros, cientistas, radio-amadores, em geral reunidos em Sociedades ou Clubes que funcionavam através de contribuições mensais regulares. De modo que na primeira década do rádio brasileiro, mais de vinte emissoras adotaram essa denominação sempre acrescida da marca do Estado ou Cidade.

No caso específico de Salvador prevaleceu a palavra Bahia, influência da mídia sulista que assim qualificava a capital do Estado. O certo é que esse sistema de sociedades e clubes criou uma situação onde os associados da rádio eram proprietários e audiência ao mesmo tempo.

A razão do prefixo

A Radio Sociedade da Bahia nasceu identificada como PRA-4, sigla de prefixo 4. O “A” era uma classificação para ordenar alfabeticamente as emissoras. Prefixo era uma convenção internacional que determinou para o Brasil as letras PR, sigla que prevaleceu durante quase duas décadas, depois sendo substituída pelas iniciais ZY acrescida da faixa de freqüência. A Radio Sociedade da Bahia recebeu o prefixo número 4 por ter sido a quarta rádio a ter autorização oficial para funcionar.

As três emissoras que a precederam foram a PRA-1 que seria uma emissora, digamos experimental , operada com os mesmos transmissores que possibilitaram a primeira irradiação oficial em 07/09/1922; PRA-2 denominação dada a Radio Sociedade do Rio de Janeiro e PRA-3 denominação da Rádio Clube, também do Rio de Janeiro. A Radio Sociedade da Bahia recebeu o prefixo PRA-4 e a Rádio Clube de Pernambuco (que se diz pioneira e possui registro de radiotelegrafia e não radiofonia desde 1919)  recebeu apenas o PRA-8.

A inauguração oficial

24 de março de 1924 passou para a história como inicio de atividades da Radio Sociedade da Bahia, embora não haja nenhum registro sobre irradiações realizadas naquele dia.  Porém, testemunhos orais e as comemorações de aniversário realizadas desde a década de 30 oficializaram a data. O certo é que em 10 de abril de 1924 através do posto receptor instalado na residência do Dr Cesário de Andrade foram ouvidas, inicialmente, irradiações dos Estados Unidos e mais tarde os acordes da Banda da Real Nave-Ítalia, através de um link providenciado pelo engenheiro Elba Dias.

São as primeiras irradiações das quais existem registros concretos. A inauguração oficial da rádio, esta efetivamente ocorreu em solenidade pública realizada no dia 27 de abril de 1924, com registro fotográfico publicado na revista Renascença. A cerimônia que contou com a presença do Governador do Estado foi realizada na sede do Palacete Mercury  (Rua Chile) de propriedade do imigrante italiano Giovanno Mercury, visavô da cantora Daniela Mercuri e proprietário da Chapelaria Mercury, instalada no térreo do edifício. Instalações cedidas pelo imigrante por alguns meses. A Rádio transferia-se do Instituto Politécnico onde funcionava provisoriamente para a Rua Chile, também provisoriamente.

A grade de programação

No fim do Governo Góes Calmon (1928) a Rádio Sociedade da Bahia passa a operar com freqüência no Passeio Público da Bahia  (ao lado do Palácio da Aclamação, residência oficial do Governador) e ali tem a oportunidade de realizar as primeiras irradiações ao vivo num pavilhão montado com essa finalidade. A sua grade de programação era especificamente de música erudita, conferências, poesias e algumas noticias comentadas dos jornais, sempre num âmbito científico. Nada a ver com conteúdos jornalísticos, apenas referências culturais.

Os poucos baianos que possuíam aparelhos receptores, de custo muito elevado, podiam ouvir a rapsódia Húngara, operas de Verdi, clássicos de Chopin, Mozart e Listz, as sinfonias de Beethoven, mazurcas com solos de violino, valsas vienenses, mas também tinha espaço para a música, então, chamada popular : tangos argentinos e chorinhos regionais. Despontavam os nomes de alguns intérpretes baianos como Oswaldo Benjamin e as senhoritas Nair Tenório de Albuquerque, Arthemia de Souza, Nair Pereira de Carvalho, Zenith Soares, Carmen Alves de Moraes, Jandyra Mendonça, Adelaide Santos, Ricardo Peixoto de Melo, Haydeé de Almeida Castro e Lourdes Freitas.

Nova Direção e novos rumos

A rádio deixa de ser uma sociedade e passa a ser adquirida pelo empresário Armando Correia da Rocha, não se sabe ao certo como se deu a transferência de ações e em que circunstâncias isso ocorreu. O certo é que o novo proprietário obtêm os favores do Governo revolucionário representando pelo interventor Juracy Magalhães e em 1932 se transfere em definitivo para o Passeio Público onde, conforme registramos, realizava eventos públicos desde 1928.  A nova direção estabelece novos rumos, priorizando uma programação comercial, voltada para o entretenimento, com ênfase na música popular, sem abrir mão totalmente do erudito.

E nessa década de 30 a Radio Sociedade monta o seu departamento de Radio-Teatro e também o núcleo inicial do jornalismo, voltado quase que exclusivamente para esportes, em função da censura vigente e medidas restritivas aos meios de comunicação adotadas pelo Governo Vargas. Iniciava a transmissão dos jogos realizados no Campo da Graça com Roberto Machado Freitas e logo em seguida Ubaldo Cãncio de Carvalho, então, considerado pela imprensa escrita o melhor locutor esportivo do Norte e Nordeste, naquele tempo. As transmissões eram realizadas através de uma linha telefônica, com grande comprometimento do sinal; o locutor não dispunha de cabine, ficava no campo sempre atento ao emaranhado de fios que poderiam interromper a sua transmissão.

É nessa mesma década a Rádio Sociedade passa a dispor de recursos extras de publicidade na sua receita, favorecida pelo Decreto-Lei 21.111 de 1932 que liberava e legitimava o espaço comercial para o veículo.

Dorival Caymmi e Zé Trindade

Num domingo de 1935 Dorival Caymmi recebeu o seu primeiro cachê artístico, o pagador era a Radio Sociedade da Bahia. Tinha 21 anos e coube-lhe apenas uma parcela dos 40 mil reis pagos ao grupo musical Três e Meio do qual fazia parte, inspirado no Bando da Lua cujo repertório incluía composições de Francisco Alves, Carmem Miranda, Aracy De Almeida, Noel Rosa e Silvio Caldas, dentre outros) . O grupo apresentava-se regularmente nas três rádios baianas existentes (Sociedade, Clube e Commercial).

Não por muito tempo, pois sem perspectivas de um sucesso mais consistente e com a sua situação financeira agravada rumou para o Rio de Janeiro em 1º de abril de 1938. Lá conquistaria fama, dinheiro e admiração.

Pela mesma época em que Caymmi freqüentava a Radio Sociedade aportou na emissora um jovem comediante, filho de um industrial abastado, renegado pelo pai. Era Zé Trindade que durante muito tempo divertiria os baianos numa versão soteropolitana do programa “Teatro pelos Ares” da radio Mayrink Veiga, chamado “Divertimento em Casa”. Na emissora do Passeio Público Trindade faria dupla com o personagem “Chico Fulô”, mais tarde seguindo para o Rio de Janeiro onde se tornaria um dos maiores humoristas brasileiros de todos os tempos.

Em tempos de guerra

Em 1935 a Radio Sociedade da Bahia iniciava transmissões da Radio Berlim, então a emissora de maior potência no mundo, detentora de uma torre de 150 metros de altura, treliçada em aço a semelhança da Torre Eiffel. A Radio Berlim já operava no país desde 1933 no seu idioma, irradiando regularmente os discursos de Adolf Hitler, com audiência cativa em comunidades de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A tecnologia de ondas curtas disponibilizada pelos holandeses desde 1927 permitia a invasão do espaço aéreo das nações sem o seu consentimento; no Brasil não seria diferente. Alemães, Italianos e russos fizeram bom proveito dessa tecnologia, de inicio irradiando no idioma pátrio, a partir de 1935 em outras línguas, incluindo o português. Daí por diante elas próprias estabeleceram convênios para retransmissão de seu sinal.

Mas a Radio Sociedade transmitiria também programas da Radio SIC Italiana e na medida em que a guerra se fez evidente (1939) passou a priorizar a programação da BBC de Londres, com transmissões regulares, em especial aos domingos. Em 1941 quando já operava no país a rede clandestina alemã, deixou de irradiar a Radio Berlim. E a partir de 1942 retransmitiu comunicados da Voz da América e outras emissoras Norte-Americanas de menor porte alinhadas na proposta ideológica do Pan-americanismo.

Foi nesse ano de 1942 que a Radio Sociedade desempenhou papel fundamental na mobilização das massas na Bahia, logo após o torpedeamento de navios brasileiros por navios alemães no litoral baiano. Manifestações ocorreram em Salvador, com estudantes realizando passeatas para exigir do Governo atitude mais firme contra o eixo nazi-fascista.
Ainda durante a guerra a Radio Sociedade irradiaria o programa “A Marcha para a Vitória” que narrava a bravura dos aliados e logo lançava um programa de noticias apresentado pelo jovem militante do Partido Comunista Jacob Gorender, redator de O Imparcial, este defensor assumido do combate ao nazi-fascismo. Gorender abandonaria meses depois a lide jornalística para alistar-se como voluntário na Força Expedicionária Brasileira.

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