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O Radiojornalismo Baiano no Contexto dos Anos 60

Perfilino Neto

Pode-se dizer que o Rádio deu voz ao texto, desde seu invento,quando em 1879, o gaúcho Roberto Landell de Moura, então jovem seminarista  começou a desenvolver suas primeiras teorias a cerca da unidade das forças físicas com a harmonia do universo. Seu invento, no entanto, revolucionouos céticos com a ideia de levar sua voz a grande distância sem utilização de fios. Aquele brasileiro que ordenou-se sacerdote em 1886 estudando no Colégio  Pio Americano, destacando-se na área de ciências e físicas da Universidade Gregoriana de Roma, já levava daqui algumas experiências  adquiridas em seu precário e rudimentar laboratório, ainda do tempo em que estudava no Colégio dos Jesuítas de São Leopoldo,  Rio  Grande do  Sul. Ali depois de muitos anosde exaustivos estudos e pesquisas cientificas inventou uma válvula amplificadora, com três eletródios que transmitia e recebia a palavra humana através do espaço.

De volta ao Brasil, entusiasmado com o invento e julgando ter o reconhecimento de sua pátria fez as primeiras experiências em público na cidade de Campinas, São Paulo, em 1892 (dois anos antes de Marconi -1894). Antecipando-se ao italiano, com seu aparelhomarcou o inicio da radiodifusão entre nós,  transmitindo sua voz a uma distância de oito quilômetros entre o Alto da Avenida Paulista para o Alto de Santana,  São Paulo, feito que foi repetido e ganhou o mundo, enquanto o padre  Landell inocentemente, iniciava um calvário que iria durar até o fim  de sua vida. Éque além da reação popular que o taxou de louco, impostor, bruxo, a Igreja Católica da época não aceitava a mistura dos estudos religiosos com os científicos. O religioso foi renegado, considerado herege por sua Diocese, perseguido, transferido de paróquias e por fim teve seu laboratório queimado por um grupo de fanáticos enfurecidos que destruíram válvulas, ferramentas e outros inventos. Com aquela violência, o Brasil perdia assim, o pioneirismo dessa invenção que alcança os dias atuaiscom as ondas sonoras conduzindo a voz e o som pelo mundo afora.

Ja na Bahia, uma das primeiras recepções de som transmitidos por radiotelegrafia, aindanão era radiodifusão, conforme o pesquisador José Ramos Tinhorão, aconteceu em 1912, quando na recém instalada Estação Radiotelegráfica de Amaralina, seus funcionários ouviram  recados e até músicas, transmitidos pelo rádio do navio Von DenTann, de  bandeira alemã,  estava ancorado no porto de Salvador. Diante de tal testemunho não há dúvidas que as irradiações experimentais nesta cidade também apareciam com finalidade nobre, mesmo com transmissores precários, a exemplo das estações: Sociedade Rádio da Bahia (14/04/1924), Rádio Comercial (1930) e Rádio Club (1930). Com o Brasil vivendo a fase da Revolução de 30 e a Constitucionalista de 32, o rádio localsofria naturalmente  as limitações impostas  ainda que sutilmente, pelo   Ministério da Viação e Obras Públicas que através do  Departamento de Correios e Telégrafos.

Era o DCT o responsável pela fiscalização e organização do tráfego no meio das ondas eletromagnéticas para evitar que forças políticas adversárias fossem usaro rádio como um meio de oposição. Porém, até ali a operação do rádio local era um tanto amadorístico,passiva, ao contrário do Rio e São Paulo, onde o  mais tarde famoso locutor César Ladeira chegava a ocupar o microfone da Rádio Sociedade Record para pronunciamentos críticos e exortações  contra os revolucionários.

Mas nem por isso, o rádio baiano ficou imune aos ditames do Governo federal que naquele momento passou a exigir identificação das emissorase adotar uma série de medidas para sua funcionalidade. Era naquele ano que Getúlio Vargas iniciava o namoro com o veículo que viria culminar com o Decreto nº24.655, de 10/10/1934 (o mesmo que criou a Voz do Brasil), estabelecendo normas e obrigando que até julho de 1936  somente poderiam permanecer  operando no país as estações que tivessem um mínimo de 30 Watts. O ato regulando os serviços de radiodifusão no Brasil, baseado em trabalho da Comissão Técnica de Rádio, do Ministério da Viação, tratava ainda das Ondas Curtas e criava a obrigatoriedade do registro de todo receptor para que o proprietário contribuísse anualmente comuma taxa equivalente a dois por  cento do valor do aparelho que era cobrado pelo DCT.

Com o golpe autoritário de 1937,endurecimento do Estado Novo,  o Governo decide que as estações que não se enquadrassem teriam que sair do ar.  O rádio baiano sofria seu primeiro impacto, pois operando com frequências inferiores ao exigido, a Clube da Bahia e Rádio Comercial foram obrigadas a encerrarem suas atividades, com a Sociedade aproveitando alguns profissionais das extintas emissoras, enquanto outrosforam tentar a vida no rádio carioca, a exemplo do cantor Victor Bacellar, principal intérprete das músicas   de Assis Valente, Erasmo Silva, compositor, cantor e ritmista que trabalhou com Luiz Gonzaga, foi o descobridor de Ângela Maria, Humberto Porto (autor da marchinha de carnaval A Jardineira) e de  Erick Cerqueira, primeiro locutor baiano a transmitir os Jogos da Copa de 38.

Operando sozinha a Sociedade reforça seu quadro de locutores a partir de 37 contratando Gabriel Castilho, Fernando Pedreira eUbaldo Câncio de Carvalho, ao tempo em que criava uma grade de programação voltada mais para a prestação de serviço através de informações sobre  meteorologia, movimento do porto, cotação da Bolsa de Valores, o que na verdade simbolizava o prenúncio  do radiojornalismo, missão nobre que o rádio persegue desde suas primeiras experiências, tanto em nosso país quanto no exterior. Sabe-se porexemplo que a inauguração oficial da radiofonia propriamente dita aconteceu nos Estados Unidos em 1920 com a transmissão dos resultados das eleições americanas pela KDKA, da cidade de Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia, enquanto no Brasil ocorre a 7 de setembro de 1922, quando o então Presidente Epitácio Pessoa teve a glória de ocupar o microfone de uma estaçãozinha, para discursar durante as comemorações do Primeiro Centenário da Independência.

Com a chegada de 1940 e a eclosão da II Guerra Mundial, acentuam-se no rádio as noticias dos confrontos bélicos captados pelo trabalho de rádio escuta das emissorase alimentados pelos telegramas das agências internacionais como UPI, France Press, Western e Meridional. Os noticiários passaram a dominar a programação dasemissoras.  Entre nós,a Sociedade que ainda era a única a operar  moldava a opinião pública com seus programas ao vivo, recitais de piano, contratações  de artistas de outros estados e  boletins informativos, que a todo momento entrava no ar, de preferência com noticias do conflito bélico. A 5 de junho de junho de 1942, o Governo de Vargas  autoriza o funcionamento de mais uma emissora em Salvador – A Rádio Excelsior da Bahia, cujo prefixo ZYD-8 somente seria in augurado festivamente  a 21 de junho de 1944. Para sua inauguração, a direção trouxe da Rádio Nacional o locutor César Ladeira que passou uma semana com outros artistas de seu estado, implantando programação também mesclada com jornalismo, música, hora certa e esporte, elementos básicos do AM.

Salvador a essa altura contava com duas emissoras de rádio e três jornais de porte: A Tarde, Diário de Noticias e Estado da Bahia, adquiridos em 1942 pelosDiários Associados, cujo proprietário, jornalista Assis Chateaubriand também comprara no mesmo ano a Rádio Sociedade da Bahia, ampliando seu leque na comunicação no país, quando sua rede passa a chamar-se Diários e Emissoras Associados do Brasil. Ligada ao poderoso grupo, a  antiga PRA-4, Rádio Sociedade da Bahia tem sua programação toda reformulada com programas ao vivo, a maioria com artistas vindos de São Paulo e Rio de Janeiro, contratados das Rádios Tupi e Tamoio, estações associadas.

Em que pese a valorização da chamada prata de casa, orádio baiano cobre toda década de 40 importando cantores, músicos, locutores e profissionais outros, vindos do sul, bem como do norte e nordeste. Vivenciamos esse tempo ainda como ouvinte e mais tarde como seu personagem,quando nele passamos a trabalhar, o que se deu a partir de novembro de 1959 na então Rádio Cultura da Bahia, ZYN-20, cuja inauguração acontece a 20 de agosto de 1950, com seus estúdios instalados na Avenida Sete, 311, vizinho ao Palácio Arquiepiscopal, local onde foi construído o atual Palácio dos Cardeais, no Campo Grande. Seu proprietário, o engenheirocivil José Ribeiro Rocha, dono de outras emissoras em Minas Gerais e São Paulo, iniciou os trabalhos de instalação da torre em Amaralina, bairro de veraneio, com poucas residências, preferido dos veranistas e turistas devido aos coqueirais, proximidades com a orla e por isso convidativo ao banho de mar nos fins de semana. Mas quando as obras já estavam bem adiantadas, houve um embargo do Ministério da Viação, sob pretexto de interferirnas comunicações da Estação dos Correios e Telégrafos, a mesma que captara som transmitido pelo navio alemão ancorado no porto de Salvador em 1912.

Diante do veto, Dr. Rocha decidiu comprar um terreno de 50 mil metros quadrados nos fundos da Roça de “Seu” Juventino, nas proximidades do local que seria construída a sede do Colégio Militar,no bairro da Pituba,  onde  por muito tempo  funcionaram os transmissores da ZYN-20, uma emissora da Organização José Ribeiro Rocha que a partir de janeiro de 1951 passou a contar com outra estação, a ZYN-21, Rádio Itaparica, inaugurada na ilha do mesmo nome e que ao completar 10 anos(1961) teve seu nome mudado para Rádio Bahia. A partir daí, o ouvinte soteropolitano passa a ter no dial quatro prefixos com formatos diferentes de programação. Mas a Cultura toma a dianteira no jornalismo graças a contratação de Otávio Augusto Vampré, trazido por Rocha, da Rádio Cosmos, de São Paulo e com passagens por estações de outros estados.

Por sua indicação, a ZYN-20 contratou o radialista Newton Spínola Cardoso que a frente do Departamento de Noticias lançou o Na Polícia e nas Ruas, programa que em pouco tempo revolucionou o rádio baiano, com seu estilo de jornalismo investigativo. Inicialmente era apenas uma edição, às 11h30min, de segunda a sábado, mas devido a grande repercussão passou empoucas semanas a  ter mais duas, às 7h30min e 21 horas. Chefiando o setor de noticias da emissora, Newton Cardoso, que logo caiu na simpatia do Dr. Rocha, criou outros informativosque eram diluídos nas 18 horas de sua  programação.  Porém o ponto alto doseu jornalismo estava nas edições do Na Policia e nas Ruas, bem como nas campanhas em favor  das pessoas necessitadas que acorriam a sede  da Cultura em busca dos mais variados tipos de ajuda.

Mesmo com a c idade e o estado vivendo um clima devida completamente diferente  dos dias atuais, as edições de extraordinárias não cessavam, já  que a toda hora a programação era interrompida com o som da sirene que identificava aquele programa, fato que deu a emissora o slogan de Rádio Fuxico. Naturalmente, quem viveu nesta cidade entre as décadas de 50 a 60ainda identifica a estação por esse apelido. Figuracorajosa e destemida, muito discutida e invejada em seu tempo de rádio, devido ao alcance de seu trabalho, Newton Spínola Cardoso  estava voltando do Rio de Janeiro, trazia uma bagagem do jornalismo policial carioca que aprendera dos tempos da  “Tribuna da Imprensa” em que trabalhara com o polêmico jornalista Carlos Lacerda, mais tarde governador do Estado da Guanabara.

Pioneiro do jornalismo policial investigado nesta cidade, tinha na sede da rádio, no Campo Grande duas salas equipadas com receptores de radiotelegrafia e rádio escuta que lhe deixavam antenados com o estado e o mundo. Cobrindo e acompanhando os acontecimentos, sobretudoos crimes na capital e no interior, entrevistava acusados, esmiuçava perícias, ouvia testemunhas, vizinhos e policiais, sempre em busca da elucidação do delito ou qualquer outro ilícito penal, o que nem sempre agradava a todas as partes.  Apaixonadopela crônica policial, dele podemos dar nosso testemunho por que    chegamos a trabalhar juntos duas vezes, em nosso começo no rádio, na ZYN-20 e na Rádio Educadora, em sua  estação de Ondas Curtas. Repórter metódico e o mais rigoroso que já conhecemos, não se contentava em ficar limitadoao que levantava nos Livros de Ocorrências das Delegacias ou Posto de Polícia do extinto Hospital Getúlio Vargas, no bairro do Canela, onde atualmente funciona o Colégio Manoel Novaes.

Com essa dedicação, morando praticamente na rádio, onde dormia na maioria das vezes, antecipava-se a mídia escrita, possibilitando desse modo que a Cultura saísse na frente da Sociedadee Excelsior, com aquele profissional  divulgando os mais variados acontecimentos do cotidiano de seu tempo. Newton Cardoso criou uma escola na Bahia que depois dele não teve seguidores. Com seus apontamentos e um pesado gravador portátil saía pela cidade, vielas, ruas, becos e até cidades dorecôncavoem busca de um novo detalhe, investigando, comparando informações, procurando contraditório ou então ouvindo por telefone pessoas que sabiam ou estavam envolvidas direta ou indiretamente com os fatos policiais. Sabia gerar a notícia, numa época em que não havia Assessorias de Imprensa, Internet ou asferramentas que dispomos nos dias atuais.

Justificando o tratamento popular de Rádio Fuxico, aqueleradiojornalismo  da Cultura liderou sozinho a noticia até 1962 quando o empresário Deraldo  Motta inaugurou na Ladeira da Praça,  a Rádio Cruzeiro da Bahia, surpreendendo ouvintes e radialistas com uma grade de programação diferente das demais AMs que aqui operavam. Com suasintonia na última frequência   do dial, a Cruzeira  que chegara com equipamentos de última geração, montou uma equipe com os melhores profissionais do momento. Dotada de teletipo, tinha o privilégio de receber em primeira mão as notícias nacionais e internacionais e com o novidade maior: passou a ser a primeira do Estado a permanecer 24 horas no ar, tendo como eixo de sua grade jornalismo e música. Com som limpo, noticiário de hora em hora, bons programas esportivos, entrevistas, intervalos curtos destinados a publicidade, ficou ainda com o pioneirismo de aparecer em outdoor pelo centro da cidade.

Em seu quadro de profissionais do microfone, da técnica e redação, só havia locutores, operadores, jornalistas e apresentadores do mais alto nível.

Aquele era um tempo em que o rádio gerava noticia, daí a permanência de um receptor nas salas de redação dos jornais locais, a essa altura com cinco periódicos: A Tarde, Diário de Noticia, Estado da Bahia, Jornal da Bahia e Tribuna da Bahia. Toda mídia impressa até começos dos anos 70 escutava nossos informativos para desdobrar o assunto ou fazer suíte de matérias que normalmente chegavam ao público através dos noticiários das emissoras. Não eram raras as vezesem que o plantonista de um jornal telefonava em busca de maiores detalhes a cerca de um fato divulgado no informativo. Manuel Canário, com seu Rádio Repórter Petrobrás e mais tarde Rádio Repórter A-4, transmitido pela Rádio Sociedade da Bahia, era com frequênciaprocurado pelos redatores de jornais para fornecer mais informações que as vezes dava até cabeça de página, como se dizia na época.

O radiojornalismo baiano já viveu seus momentos de glória, não sóatravés de seus pequenos informativos, bem como  dos grandes jornais falados, cuja duração variava entre 30 a 60 minutos, com roteiros divididos por sessões: noticiário local, estadual e internacional,  horóscopo, entrevistas, movimento do porto, boletim meteorológico, santo do dia, crônica com opinião do editor e até filatelia. Mas tudo isso, até enquanto seu lobo não veiocom o aparecimento da televisão, sua grande rival, ao mesmo tempo em que eclodia o golpe militar de 64 que passou a censurar toda imprensa e nessa história o rádio talvez tenha sido o veículo mais castigado. Muitos jornais foram empastelados, emissoras de televisão fechadas e o Rádio AM, com suas estações de Ondas Curtas, Médias e Tropicais, como senãobastassem as cassações sofridas,  concessões não renovadas, por representar perigo ao regime vigente, passou a perder sua força, diante da ampliação do número de FMs que  a se espalhara por todo o país.

As autoridades desse tempo viam no AMseu grande inimigo devido ao longo alcance daquelas estações, capazes de transmitir mensagens de um estado para o outro, criando mitos idolatrados por multidões ou ajudando a derrubar  governantes como aconteceu nas décadas, de 40, 50 e ou mesmo 60. Sua força era tanta que fez ainda rainhas, a exemplo das irmãs Batista, Marlene e Emilinha Borba, ao tempo em que fazia seu público chorar com o rádio teatro ou rir com os programas humorísticos que tanta gente fabricou e deu de mãos beijadas àtelevisão. Primogênito da radiodifusão, fez escola e fez a galera vibrar com as transmissões esportivas.

Tudo isso, jamais iria acontecer com o FM, na visão daquelas autoridades, já que a permissão de Frequência Modulada, estação de pouca potência com um raio de ação relativamente curto, limitado a sua região,com finalidade musical, deixaria de espalhar emoção por todo o país e exercer papel crítico ao sistema. Vemdaí o aumento exagerado dessas concessões, enquanto àquelas  outras não eram mais renovadas ou indeferidas. A proliferação do novo modelo acompanhava o progresso natural do processo de comunicação à distância, mas o propósito era limitar a força de penetração do AM sem que aquelas autoridades imaginassem que mais tarde o rádio iria encontrar na Internet e no celularseus grandes aliados. Imbatível como formador de opinião, pois sua grande arma é a palavra, conta eleagora com tantas ferramentas eletrônicas, esse velhinho chega  aos 88 anos, ainda muito forte, bom de papo,com área de cobertura regional, nacional e mundial, esbanjando vigor e atualidade ao ser bafejado com a era digital, reforçada pelo celular, que parecendo irmão gêmeo, anda com ele mundo afora, levando informação ao homem.

Perfilino Neto

Radialista, jornalista, pesquisador, escritor, prêmio FourthInternational Shangai Rádio Music Show, República Popular da China.

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