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O new journalism como grife

Quando o new journalism surgiu na década de 60 os norte-americanos estavam saturados do estilo de reportagem objetivo, telegráfico, impessoal e tal vez por isso a conservadora sociedade estaudinense encantou-se com a narrativa quase ficcional, alegórica até, porém próxima dos fatos, daqueles que se tornariam os maiores expoentes do movimento. O new journalism nasceu nas revistas (The New Yorker, Esquire e The Rolling Stone, dentre outras referências) e não foi por acaso. Os magazines, diferente dos jornais, tinham de oferecer a seus leitores um cardápio mais atraente, diferente do feijão com arroz servido pelos jornais e da salada de tomate e alface, a entrada básica dos telejornais. As revistas apuravam o tempero, tinham tempo para isso, e serviam ao leitor um prato preparado nas minúcias; o jornalista, ele próprio, metia as mãos na massa.

Os ventos do Norte também sopraram no hemisfério sul e logo os brasileiros encantaram-se com a novidade. Paulo Patarra que comandava a equipe original da revista “Realidade” (1966) comprou a idéia desde os primórdios da publicação e incentivou a turma a produzir reportagens do gênero. Que logo teriam grande acolhida entre o público alvo: ” A revista dos homens e das mulheres inteligentes que querem saber mais a respeito de tudo”, segundo o slogan da campanha da Editora Abril que marcou o seu lançamento. A revista definia o seu nicho : os brasileiros que pensam. O fato é que “Realidade” inspirou-se no modelo da “Esquire” e à semelhança do magazine norte-americano investiu no texto livre, investigativo e elaborado, priorizando a narrativa.  Tamanho o cuidado com o estilo que Patarra criou na redação um cargo até então inédito na imprensa brasileira: editor de texto.

O fim do gênero

O New Journalism foi um movimento atemporal, marcou várias gerações e deixou a narrativa e a alegoria como seu grande legado, mas deixou algo também imaterial. Nos Estados Unidos o estilo virou grife, enquanto no Brasil apenas uma vaga lembrança. Na América destacaram-se como os principais expoentes do movimento Gay Talese, Tom Wolfe, Normam Mailler, Truman Capote e, digamos, o John Hersey que transformou as suas reportagens da cobertura do impacto da bomba de Hiroshima num best-seller editorial com o acréscimo de uma nova reportagem realizada com os mesmos personagens 40 anos depois. Deveríamos citar, ainda, a turma da “Esquire”: Thomas B. Morgan, Brock Brower, Terry Southern e a rapaziada do “The New Yorker”: Jimmy Breslin, Robert Christgau, Doon Arbus, Gail Sheehy, Lillian Ross, Tom Gallagher, Robert Benton e David Newman. E por que não, James Mill, o repórter especial da “Life”.

Já no Brasil fora o Paulo Patarra, o grande incentivador, conta-se com os dedos da mão os seguidores do New Journalism: José Hamilton Ribeiro, Joel Silveira, Marcos Faerman, Fernando Portela, Cláudio Bojunga, dentre outros. Os remanescentes daquele tempo citam a revista “Realidade” e o “Jornal da Tarde” como precursores do gênero no país, mas tem dificuldades em apontar nomes. Por quê? Não importa, mas é evidente que se para a rapaziada do hemisfério norte o New Journalism tornou-se uma grife e um meio de vida (rentável aposentadoria), no Brasil o gênero representa apenas saudades e apenas isso.

O pragmatismo e a grife

Os americanos, sempre pragmáticos e cientes do papel que lhes foi atribuído pelos teóricos da comunicação de difusores culturais, viajam pelo mundo fazendo palestras, dando entrevistas, recriando e reinventando a sua própria história, vendendo livros… Enchendo os bolsos de dólares. Para Tom Wolfe e Gay Talese, para citar os maiores expoentes do movimento grife, a saudade do estilo jornalístico lhes rende muito dinheiro. A propósito, em meados de novembro Tom Wolfe esteve no Brasil, mais uma vez, faturou 100 mil dólares, convidado do evento Braskem Fronteiras do Pensamento. Elegante como sempre, representa bem o figurino da estética, disse a minha amiga Mônica Valle, no camarim do Teatro Castro Alves, que o New Journalism não morreu e não morrera: “Sempre haverá um editor pronto para lhe dar espaço”. Tem razão. É a sobrevivência, não mais do gênero, mais da grife.

Autor: Nelson Váron Cadena

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