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O mensalão da mídia

Há meio século o Brasil descobria que o Instituto Brasileiro de Ação Democrática-Ibad, sigla de uma entidade criada em 1959 com o propósito declarado de conter o suposto avanço do comunismo no país, transformara-se numa organização criminosa envolvida com tráfico de armas, suborno de parlamentares, compra de votos, falsidade ideológica, contratação de jagunços e a compra da opinião de jornais e jornalistas, dezenas, provavelmente centenas de profissionais. Foi em 1961 que vieram à tona as primeiras denúncias contra o Instituto, que nem por isso se intimidou e agiu com toda desenvoltura nas eleições para governador realizadas no ano seguinte. Milhões de dólares do orçamento do Ibad foram destinados, nesse pleito, para influenciar a opinião pública através de um “mensalão” pago regularmente a redatores e editorialistas.

Em 1963, instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito-CPI, no Congresso, é que o país conheceu as entranhas desse monstro gerado por políticos, empreiteiros, pecuaristas, banqueiros, industriais, em conluio com o Instituto Brasileiro de Pesquisas Sociais-Ipes, a Embaixada Americana e a CIA. Segundo apurou a CPI, interrompida pelo golpe de 31 de março/64 e prejudicada pelo sumiço dos arquivos da organização (queimados num incêndio), apenas numa conta de uma agência de propaganda, a Incrementadora de Vendas Promotion, o Ibad movimentou US$ 1,3 bilhão. O equivalente a US$ 3 bilhões hoje, numa atualização do valor de compra da moeda americana.

A agência de propaganda que tinha como operador Ivan Hasslocher (o Marcos Valério da época) e atendia dentre outras contas a da Atlantic, repassava verbas a parlamentares e à imprensa e financiava operações de bastidores (suspeita de envolvimento com o incêndio das instalações do Jornal do Brasil). Transitava com desenvoltura na mídia, “financiando” mais de 80 programas de rádio e televisão e firmando contratos escusos com os jornais. Naquele tempo, a corrupção tinha regras estabelecidas em cláusulas contratuais, conforme provou o então deputado gaúcho Leonel Brizola quando exibiu na CPI a minuta de um documento de aluguel da linha editorial do veículo, entre a Incrementadora de Vendas Promotion e o então respeitadíssimo vespertino A Noite.

O contrato previa, mediante o pagamento de 5 milhões de cruzeiros, o controle da editoria de política pela agência de propaganda, que também fornecia os editoriais já prontos, fotografias e assumia durante 90 dias o fechamento da primeira página. Uma cláusula contratual determinava ainda a possibilidade de veto à publicação de anúncios (matérias pagas) não condizentes com os objetivos do Ibad. A queima dos documentos e as pressões da própria mídia envolvida com os escândalos e, finalmente, o fim da CPI com o golpe de 31 de março, jogaram embaixo do tapete o nome das empresas e jornalistas envolvidos. O governador Miguel Arraes chegou a apontar alguns veículos e jornalistas de Pernambuco mas, diferente de Brizola, não mostrou provas documentais.

Os tentáculos do Ibad também chegaram na Bahia, a organização atuava em todo o país, mas não se tem provas (contratos) de nenhum veículo ou jornalista envolvido. Apenas evidências em função de uma linha editorial alinhada com o discurso do Ibad. Mas, isso não é assunto que nos compete e sim uma questão para ser estudada pelos cientistas sociais e políticos e os historiadores da mídia.

Autor: Nelson Váron Cadena, originalmente publicado no Correio da Bahia em 11.11.2010

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