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O bombardeio midiático

O bombardeio da Bahia em 10 de janeiro de 1912 arrefeceu os ânimos dos governistas que, amedrontados, moderaram o discurso nos veículos de comunicação, e também dos seabristas, que mesmo fortalecidos e sentindo-se mais próximos da conquista do poder aliviaram o tom.

Não contavam com a repercussão negativa na mídia sulista, provocada pela renúncia do ministro da Marinha, almirante Marques de Leão, por discordar da atitude do presidente da República ao ordenar a intervenção federal com o envio de tropas para Salvador e as ações militares que destruíram prédios da Rua Chile e o Palácio do Governo. Muito menos com o discurso veemente do Barão do Rio Branco, que ameaçou deixar o governo e, no mês seguinte, falecia, vítima de uma crise renal, dizem que agravada pela repercussão do episódio em outros países; o Brasil selvagem que a diplomacia do Barão não teve como explicar.

A verdade é que o bombardeio da Bahia se deu em duas frentes. Uma militar, opondo tropas federais à Policia Militar; outra midiática, opondo a Gazeta do Povo e o Diário de Noticias, dos partidários de José Joaquim Seabra (Antônio Muniz, Simões Filho, Luis Viana), às forças divididas de José Marcelino e Severino Vieira, representadas pelo Diário da Tarde, A Bahia e Diário da Bahia.

Apenas o Jornal de Notícias manteve-se neutro com Aloísio de Carvalho Filho ironizando os fatos, coincidentes com a Festa do Bonfim, celebrada naqueles dias, nos versos satíricos, assinados sob o pseudônimo de Lulu Parola: “Por causa da artilharia/ Lá fui parar na Pituba/ Machuca morena o samba/ Sapateia coração/ Que é melhor dançar no chão/ Que dançar na corda bamba”. O tom mais moderado dos jornais na ressaca do bombardeio não foi suficiente para desarmar os ânimos. Na noite de 23 de janeiro, tiros supostamente disparados das janelas do Diário da Bahia feriram de morte um manifestante.

Invasão e empastelamentos

Foi o estopim para, no dia seguinte, um grupo de populares invadir a redação “dando em resultado o empastelamento, danificação e um começo de incêndio” segundo noticiou o Diário de Noticias. “A massa popular dividiu-se então em dois grupos, seguindo um para o edifício do órgão oficial A Bahia, na Praça Castro Alves, descendo o outro para o bairro comercial onde funcionava o Diário da Tarde e em ambas as redações repetiram-se os empastelamentos e danificações”.

Desconsiderando a fúria encomendada de populares para destruir a imprensa governista, a Gazeta do Povo eximia a culpa dos seabristas, jogando a responsabilidade na população, supostamente revoltada com o topete das oligarquias baianas, na sua resistência à intervenção federal. “É de lastimar o ataque a jornais governistas que não teve maiores proporções devido à intervenção imediata de amigos nossos… Quaisquer que sejam as dissensões entre nós e o Diário da Bahia, não podemos, entretanto, deixar de manifestar-lhe a solidariedade desta folha, no desagravo com que lastimamos o que ontem aconteceu”, contemporizava.

O certo é que as balas de canhão da quarta-feira,  10 de janeiro de 1912, o empastelamento dos jornais que apoiavam o governo no dia 24 do mesmo mês e o refúgio do governador interino nas embaixadas, primeiro da Venezuela e depois da França, surtiram efeito. Domados e amedrontados, os governistas abriram a guarda e o caminho para José Joaquim Seabra concorrer às eleições como candidato único, fato até então inédito na política baiana, e nessa condição e privilégio tomar posse como governador da Bahia em 29 de março de 1912. A pretexto de combater e eliminar para sempre as oligarquias, Seabra estabelecia um domínio oligárquico (com direito a um governador tampão sobre sua influência, entre um e outro mandato) como até então a Bahia não conhecera.

Artigo de Nelson Cadena originalmente publicado no Correio* edição de 13/01/2012

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