O fato é que os historiadores estabeleceram uma leitura peculiar da Gazeta que em parte contribuiu para fortalecer as avaliações preconceituosas aqui referidas. Autores que não leram as coleções disponíveis em nossos arquivos e bibliotecas públicas, já que esse não era o objetivo primário de sua pesquisa e assim estipularam uma linha de corte, em torno de um período específico do jornal (1821/22) marcado pelos acontecimentos políticos. O embate de idéias em torno da Independência do Brasil é a linha de corte preponderante e nesse viés julga-se o todo pela parte, assim mesmo num contexto partidário (onde os vencedores fazem a história) que não se justifica.
Nesse contexto, condena-se ou deprecia-se a Gazeta, enquanto se enaltece o Correio Braziliense, um contraponto que a rigor não teria parâmetros já que o primeiro é órgão informativo e o segundo de opinião.
Percepção distorcida
As alcunhas de “áulico” e “diário oficial” com toda a carga pejorativa que Sodré impugnou à Gazeta do Rio de Janeiro não correspondem à realidade. A percepção que ficou dessa qualificação é a de que o jornal apenas bajulava a corte e publicava os atos oficiais do governo. Uma percepção agregada dessa avaliação induz, ainda, os pesquisadores e estudantes a acreditar que era uma publicação de menor categoria quanto à técnica e conteúdo.
Se a Gazeta era, na avaliação de Sodré, um “pobre papel impresso”, também eram os seus concorrentes e isso o autor não diz, considerando o padrão gráfico, atualidade da noticia, formato e número de páginas, acesso às fontes… A Gazeta do Rio de Janeiro não era melhor, nem pior do que a Idade D’ouro do Brasil, Semanário Cívico, O Constitucional, Revérbero Constitucional Fluminense, Aurora Pernambucana, O Espelho ou A Malagueta.
Diário oficial não era
Em todo caso diário oficial e jornal áulico, no sentido estrito das palavras, a Gazeta do Rio de Janeiro com certeza não era. É só ler as edições e conferir. Do ponto de vista quantitativo estes dois temas (a dita bajulação da corte e atos oficiais do governo) correspondem juntos a menos de 10% do conteúdo editorial do jornal, pelo menos no período 1808-1811, edições que conheço e posso afiançar o que digo. São temas estranhos ao dia-a-dia da publicação e quando abordados, com raríssimas exceções, sempre nas páginas internas, sem maior destaque. A prioridade naquela fase inicial era a cobertura da guerra na Europa.
E isso não é nenhum defeito, conforme arrolado pelos historiadores que definem essa opção da gazeta pelo noticiário internacional como “intermináveis relatos”, “cansativos feitos”, e há quem a chame por isso de “periódico sensaborão”.
A guerra era a noticia
A verdade é que todos os jornais do mundo, naqueles idos, cobriam a guerra européia e todos contavam com as mesmas fontes, as malas de correspondência que as embaixadas dos países envolvidos no conflito faziam circular nos portos amigos. E no caso específico da Gazeta do Rio de Janeiro a opção pelo noticiário internacional é corretíssima. O seu público alvo era o funcionalismo público e os comerciantes, em sua maioria cidadãos portugueses que residiam no Rio de Janeiro, não por gosto, mas pelas circunstâncias da diáspora provocada pela invasão das tropas napoleônicas em Portugal. Ou seja, gente que vivia no Brasil provisoriamente, tinha família e bens na Europa e sonhava com retornar a seu país de origem, logo que re-estabelecida a paz.
Reduzir o papel da Gazeta do Rio de Janeiro ao de um “diário oficial” é grave injustiça que precisa ser corrigida. Impugnar-lhe o rótulo de “áulica” porque era situação é bobagem. Nessa mesma linha de raciocínio, coerente com seu preconceito, Sodré deveria ter chamado o “Revérbero” e o “Constitucional” de “subversivos”.
Nelson Cadena
artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 06/01/2009