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José, o ingênuo de Jorge

Nem todos os personagens de Jorge Amado nasceram dentro da literatura. Alguns deles ficaram restritos às páginas dos jornais, o caso de José, o ingênuo, que nasceu em 2 de novembro de 1943 nas páginas de O Imparcial, num espaço denominado Novela Sintética, publicado na seção nobre do matutino, bem ao lado da coluna Notas e Tópicos, que vinha a ser uma espécie de editorial.

José, o ingênuo, convivia com João, o sabido, e Joana, os três protagonistas de uma crônica diária, no formato de histórias curtas, contadas num estilo de humor ferino e irreverente, inspiradas em fatos e personalidades do cotidiano de Salvador. Algumas dessas histórias foram reunidas em livro, numa edição fora do comércio, patrocinada pelo Shopping Iguatemi, em 1981, com ilustrações de Floriano Teixeira e texto de uma palestra de Wilson Lins na Academia Baiana de Letras, distribuída a formadores de opinião.

O estilo da crônica era anedota, mas o formato, a inspiração e as suas referências lembravam ao leitor os versos satíricos de Lulu Parola no Jornal de Notícias, de inícios do Século XX. Talvez a sátira irreverente de Silvio Valente, em A Tarde, ou os epigramas do mestre Pinheiro Viegas, “descendente direto na inteligência”, do poeta Castro Alves, no sentimento do próprio Jorge Amado. O personagem estreou já fustigando o inimigo de estimação do proprietário do O Imparcial, o coronel Franklin Lins de Albuquerque, o ex-interventor Landulfo Alves. No desgoverno passado, José, o ingênuo, denunciou um quinto colunista, integralista escachado à polícia de então. José, o ingênuo, só foi solto seis meses depois.

Em 12 de fevereiro de 1944, a crônica denunciava o câmbio negro na compra das fichas para o Elevador Lacerda, sempre em falta no ponto de venda oficial: “José, o ingênuo…. Ultimamente, porém, em vez de fichas, recebe, no guichê da Circular, descomposturas. E teve que começar a adquirir fichas no câmbio negro, onde estão valendo 300 reis cada. Economia desgraçada, comentou José, o ingênuo, ao comprar as fichas valorizadas. Se não fosse para cumprir a lei eu preferia pagar os duzentos reis, mas lei é lei e a lei manda que se pague com ficha que é mais barato. No fim fica mais caro, mas a Circular coitadinha! Precisa, já que seus diretores andam tendo tanto prejuízo que faz pena”.

Numa outra crônica, intitulada Queixa do Espoliado, o escritor brincava com o seu patrão, seu amigo Wilson Lins: “José, o ingênuo, deu às editoras que lhe enviam livros o endereço do jornal em que trabalha. A biblioteca do redator chefe do jornal em que José, o ingênuo, trabalha está aumentando dia a dia”. E em 12/3/1944 provocava: “O que demora mais: um bonde da Circular na viagem da Rua Chile a Brotas ou um garçom de restaurante chique do centro, a atender a um cliente?”.

As anedotas de Jorge Amado foram publicadas entre 1943 e 1944, sem a sua assinatura; naquele tempo o escritor estava exilado na sua própria terra, proibido pela ditadura de Vargas de deixar a Bahia e vivia dos honorários que recebia do jornal onde também escrevia uma crônica diária: Hora da Guerra. Textos sobre o conflito em curso, a segunda guerra mundial, que Miryam Fraga e Ilana Goldstein selecionaram e reuniram num livro póstumo, com prefácio do historiador Boris Fausto, editado pela Companhia das Letras em 2008.

José, o ingênuo, não era tão ingênuo assim. Farejou os ventos da mudança, a ditadura Vargas já esfacelada, e recolheu-se para sempre; a criatura num canto de jornal, enquanto seu criador seguia outros rumos e se eleger deputado federal pelo PCB de São Paulo para a Assembleia Constituinte de 1945.

Artigo de autoria de Nelson Váron Cadena, originalmente publicado no jornal Correio da Bahia, em 03/02/2012.