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Entrevista com Mino Carta – 4

Mino Carta

Diretor de Redação da revista Carta Capital

Entrevista realizada por Breno Costa, Juliana Sá, Victor Ribeiro e Carolina Rangel

Fonte: Blog FazendoMédia

Link: http://www.fazendomedia.com/fm0029/entrevista0029.htm

Breno Costa – Hoje, na era da Internet, da televisão, enfim, de outros meios de informação, qual é o papel do livro para você, que é mais tradicionalista, ainda usa máquina de escrever?
É, é verdade… Veja, para mim o livro ainda é o caroço, ainda é a semente. A leitura ainda é fundamental. O homem não pode abandonar a leitura em proveito da observação das imagens. Claro que a imagem também tem seu papel, mas eu acho que valorizar a escrita é fundamental. Eu, pessoalmente, sou um pobre diabo que tem medo do computador. Eu receio que o computador vá, de uma hora para outra, me engolir, literalmente. Me engolir: ele abre a bocarra e me puxa para dentro dele e me tritura lá dentro, mastiga, me engole e me digere. Então, eu sou a favor do livro até por uma razão de defesa. Eu tento desesperadamente me defender. E acho que, ao defender a causa do livro, eu estou defendendo todo mundo. Espero que o homem não perca de vista que a leitura é fundamental.

Carolina Rangel – Eu tenho visto no jornalismo literário hoje em dia a teoria do agendamento: um livro é lançado numa grande editora, por um grande autor, sai em todos os jornais e acaba deixando de lado quem não é conhecido. O que você acha?
Eu encaro essa questão de dois pontos de vista. Primeiro, o ponto de vista, digamos, mais específico. Eu acho que o país padece de um mal gravíssimo, que é a ausência de crítica. Não me refiro somente à crítica literária, mas à crítica em geral, em total decadência. Em alguns casos ela nem existe mais, como nas artes plásticas. Mas eu acho que você propôs a pergunta muito corretamente. Existe o registro, existe uma história exclusivamente jornalística e não existe a reflexão sobre aquele livro. Não existe a indicação, para os leitores possíveis, relativa à qualidade do livro, aos problemas que o livro levanta, à discussão do que está nas páginas.

Isso não tem e é gravíssimo. Do outro canto, eu acho que, de um modo geral, a imprensa – e quando eu falo em imprensa eu falo em jornalismo escrito – não contribui em nada, ela tem se esmerado no propósito de nivelar por baixo, na crença de que o leitor é um pobre diabo, ignorante e cuja ignorância tende a ser secundária. Então, a qualidade da língua nos nossos jornais e revistas é muito ruim, com um desrespeito ao vernáculo, com uma lida tão complicada com a língua, que realmente não é estímulo para quem gosta de ler. Houve um incentivo a reduzir tudo a um palavreado pobre, a uma língua medíocre, enquanto o português é uma língua belíssima, riquíssima, flexível, forte e suave. Enfim, uma língua extraordinária. E ela foi aviltada pela imprensa brasileira.

Breno Costa – É papel do jornalista lutar por uma sociedade melhor, tem que haver esse compromisso?
O papel do jornalista pode ter suas peculiaridades em relação ao papel do escritor. Eu contestaria a tese de que não se deve escrever ficção, porque a ficção é sempre proposta de uma situação que evoca a realidade. O bom escritor cria personagens que são absolutamente plausíveis. A seu modo, têm vida própria. Eu, por exemplo, os dois livros que eu escrevi (O Castelo de Âmbar e A Sombra do Silêncio) são livros que remetem a personagens. Não, o personagem sou eu colocado num contexto metafórico, mas sou eu descrevendo situações que eu vivi. É absolutamente a realidade. Mas eu acho que sempre se escreve, inevitavelmente, sobre a realidade. Tudo contribui para um melhor conhecimento das coisas, tudo contribui para a iluminação do leitor.

Quanto ao jornalista, eu acho que este tem sim obrigações específicas. Eu acho que não se pratica jornalismo sem se obedecer a três princípio básicos: a fidelidade canina à verdade factual; o exercício desabrido e constante do espírito crítico; e, importantíssimo, a fiscalização do poder, onde quer que ele se manifeste. Sem isso, não há jornalismo. Agora, repare: o jornalismo brasileiro trabalha a favor de uma minoria privilegiada, não está interessado no país. Por quê? Porque está na mão de senhores que pertencem a essa minoria privilegiada e nunca farão concessões. Digamos, o Lula. O Lula é burro, o Lula é ignorante, o Lula só fala bobagem. Aqui não estou defendendo o governo do PT, veja bem. Mas por que eles fazem isso? Porque não admitem que um metalúrgico seja presidente deles! Essa é a concepção do jornalismo brasileiro hoje e, aliás, de alguma forma, sempre foi. Só que o Brasil já foi um país bem mais inteligente, teve jornalistas de muito mais qualidade.

Breno Costa – De que maneira essa concepção do jornalismo pode se alastrar para a sociedade como um todo?
O jornalista deveria praticar esse tipo de jornalismo apenas para a sociedade, sem impor verdades absolutas, mas oferecendo visões diversas, situações igualmente diversas, oferecendo aos leitores a oportunidade de meditar efetivamente sobre a realidade e perceberem isso ou aquilo que convenha ser percebido. Não esse bombardeio constante, essa manipulação vergonhosa que está sendo cometida diariamente. Nem se fale, então, da mídia eletrônica, não se fale da Globo, que é a desgraça do Brasil.

Julianna Sá – O que você acha da iniciativa do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de criar uma TV para a América Latina?
Talvez. Eu confesso que não conheço bem a proposta do Hugo Chávez, mas acho que tudo aquilo que permite escapar à manipulação é bem-vindo. Se for assim, né? Teremos que ver se será assim.

Victor Ribeiro – Para você a mídia é democrática?
Não, não há democracia no Brasil. Nós não somos um país democrático. Você acha possível um país democrático onde o desequilíbrio social é tão profundo, onde as pessoas são, efetivamente, manipuladas? Não adianta virem dizer que o povo vota de quatro em quatro anos; isso não prova democracia alguma. Além de tudo, o voto é obrigatório. Nos países civilizados, o voto não é obrigatório.

Victor Ribeiro – E qual seria a saída para democratizar a comunicação brasileira? Precisaria democratizar o governo brasileiro?
Precisaria democratizar o país, mas isso, evidentemente, é um processo excepcionalmente lento. Não é algo que acontece da noite para o dia.

Carolina Rangel – Falando um pouco da sua trajetória como jornalista, você que fundou a Veja, a Istoé e agora está na CartaCapital, que se distingue totalmente das outras…
Atuais. Não quando eu as fazia…

Carolina Rangel – Você conseguiu concretizar na CartaCapital esse jornalismo que você carregou durante toda a sua trajetória?
Eu acho que sim, eu acho que CartaCapital é a melhor coisa que eu fiz como jornalista. Mas acho que a Veja e a Istoé, no meu tempo, tiveram seu papel. Agora, os patrões são o que são; eles querem servir ao poder, querem fazer o negócio pessoal deles. Estão apenas interessados em predar, estão pouco ligando para o país. Eu trabalhei para muitos patrões e posso garantir para vocês que é uma vergonha. Eles só pensam na grana deles, no poder deles e dos pares deles. Estão minimamente interessados no país e no povo brasileiro.

Breno Costa – Você chegou a ser empregado do Roberto Civita?
Claro…

Breno Costa – E ele está nessa lista aí?
Roberto Civita? Além do fato de que Roberto Civita é um bobão, ele não merece meu respeito, inclusive porque é bobo. Mas, além de bobo, ele também pertence à categoria dos predadores. Ele é bobo; eu tive outros patrões que não eram tão bobos quanto ele.

Breno Costa – Como é que pode uma revista que atinge milhões de leitores ter como chefe editorial uma pessoa com esses adjetivos?
Chefe editorial eu nem sei mais se ele é. Você veja o quanto ele é incompetente: a editora Abril deve US$ 400 milhões, está falida, né? Toda a nossa mídia está falida, está quebrada, a começar pela Globo. E resiste porque a política ainda acha que precisa deles, são instrumentos que estão na mão de quem manda no país.

Carolina Rangel – Mas como se explica o número de leitores que a Veja tem?
Mas a Veja dá pena, né? Se você compara a Veja com os grandes jornais brasileiros, com os grandes jornais do mundo, você fica com pena. E são exemplos irretorquíveis de exigência mental, porque a manipulação é total. A classe média brasileira também acha que o Jornal Nacional da Globo é uma maravilha e não perdem um único e escasso capítulo da novela. E o que a gente vai fazer? As pessoas assistem ao Faustão, ao Gugu, a não sei mais quem… É ou não é? Então, porque a manipulação é selvagem.

Carolina Rangel – E ainda tem aquela imagem da imparcialidade, que não existe, né?
Não sei se o melhor termo é imparcialidade, acho que o melhor seria isenção. Eu acho que não se deve exigir do jornalista a objetividade. Quando me falam em objetividade eu não entendo, porque não há um jornalista de verdade que possa ser objetivo, porque nós somos subjetivos ao colocar uma vírgula numa frase. Agora, você tem que exigir a honestidade, ou seja, o relato fiel daquilo que ele viu, que é o respeito pela verdade factual. A partir daí, o jornalista tem todo o direito e o dever de expor a postura dele, a posição dele, e é fundamental que ele fiscalize o poder, senão não existiria jornalista.

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