Mino Carta
Diretor da Carta Capital
Entrevista realizada por Geneton Moraes Neto
Título: Os mandamentos do Jornalista
Fonte: Site Geneton
Link: http://www.geneton.com.br/archives/000027.html
Nestes últimos tempos, o jornalista Mino Carta vem dividindo espaço com o romancista Mino Carta. O escritor noviço lançou em 2000 um romance parcialmente autobiográfico – “O Castelo de Âmbar’. Aqui, um Mino Carta que – lastimavelmente – não se animou até agora a publicar uma autobiografia emerge na pele de um personagem chamado Mercúcio Parla. Agora, o romancista Mino Carta lança o segundo – e último – volume da odisséia de Mercúcio Parla , o romance “A Sombra do Silêncio”,publicado no selo Francis da W11 Editores.
Procuro o quase novato romancista na Livraria da Travessa, em Ipanema, palco do lançamento carioca de “A Sombra do Silêncio”. Cadê o homem? A mesa destinada à sessão de autógrafos, no primeiro andar deste supermercado de livros, permanece enigmaticamente vazia. Um porta-voz da livraria apressa-se a dizer que não, nenhum motivo de força maior impediu o lançamento. Mino Carta se instalou numa mesa do café da livraria, para regar com champagne a garganta presumivelmente já cansada de tantos embates.
De repente, Mercúcio Parla se materializa na mesa de autógrafos, na pele de Mino Carta, em companhia de uma taça de champagne . A procissão de leitores em busca de um autógrafo não faria inveja a nenhum santo : são poucos os fãs que se aventuraram ao ritual de beija-mão nesta catedral de livros erguida na zona sul do Rio. É provável que o grosso do eleitorado de Mercúcio Parla se concentre em São Paulo.
Camisa azul-claro, paletó quadriculado,cabelos grisalhos aparentemente intocados por tinturas, Mino Carta distribui adjetivos afáveis nas dedicatórias, posa para fotos, cumpre o ritual de romancista sem dar sinais de enfado.
“Quero logo dizer duas coisas”, avisa Carta, na entrevista telefônica que me concedeu quando já tinha voado para São Paulo, na tarde seguinte.” Primeira: jornalismo é trabalho de equipe. Não existe herói solitário no jornalismo. O que existe é aquele pequeno grupo formado por gente que carrega o piano – e sabe tocá-lo. Segunda: digo, com absoluta sinceridade, que tive sorte na vida profissional, porque estava no lugar certo, na hora certa. Nunca trabalhei num órgão de imprensa que existisse antes do meu comparecimento. Isso tornou minha vida profissional estimulante. Não tive a chance de me entediar na profissão”.
Fica a dúvida: por que diabos Mino Carta não se despe dos recursos ficcionais para escrever logo uma autobiografia descarada? Os bastidores de momentos importantes da moderna imprensa brasileira escapariam do castigo de serem exilados para sempre na Terra do Esquecimento – o destino irrecorrível de tudo o que não é registrado em papel.
“Em primeiro lugar, uso nomes fictícios para personagens reais”- vai explicando o criador de revistas travestido de criador de romances.” O primeiro livro nasceu como uma reação espontânea – e talvez irritada demais – ao livro “Notícias do Planalto”. Mário Sérgio, o autor, sustenta a tese de que a figura de Collor foi criada pelos jornalistas. Mas a figura de Collor foi criada pelos patrões dos jornalistas!. Além de tudo, “Notícias do Planalto” terminou valorizando as versões patronais a meu respeito. Por exemplo: a de que a Editora Abril me demitiu. Não é verdade. Eu me demiti. Se a Abril me tivesse demitido, eu teria levado uma belíssima grana. Não levei – até porque não queria levar. Queria ter a satisfação de não levar um único e escasso tostão dos senhores Civita – que comigo se portaram como pulhas que cederam a pressões do senhor Armando Falcão”. (ministro da Justiça do governo Geisel).
Um dos capítulos de “O Castelo de Âmbar” traz um aperitivo explosivo do que seria uma autobiografia do autor. Num intrigante jogo de espelhos, o imaginário Mercúcio descreve, como se fosse um repórter, os bastidores da traumática saída de Mino Carta da direção da revista Veja – à época submetida à censura. É Mino Carta escrevendo, com a pele de Mercúcio Parla, um capítulo descaradamente autobiográfico. Os nomes dos bois estão lá: Golbery do Couto e Silva, Ernesto Geisel, Victor Civita.
Tido como vaidoso, Mino Carta faz uma declaração modesta sobre por que recorreu à ficção para fazer uma quase autobiografia:
- Não tenho estatura para chegar e dizer: eis o meu livro de memórias. Não me sinto à vontade.
Os registros da imprensa sobre as expedições de Mino Carta ao território das ficção foram, na melhor das hipóteses, modestíssimos, se confrontados à fama do autor. Por que terá sido? O silêncio – quase ensurdecedor – é intrigante.
- O Castelo de Âmbar – queixa-se – foi boicotado claramente pela chamada “grande imprensa”: com exceção do Jornal do Brasil, o livro não mereceu nenhum tipo de cobertura – menos ainda de crítica por parte de Globo, Folha, Estado de S.Paulo,Veja, Istoé, Época. Mas vendeu cerca de 20 mil exemplares. A Sombra do Silêncio acaba de ser lançado. Não sei o que vai acontecer.
A lista de possíveis desafetos do jornalista Mino com certeza não seria suficiente para condenar ao limbo o romancista Mino – um italiano de nascença que adotou o País Tropical como pátria no final dos anos quarenta, quando aqui desembarcou em companhia do pai, também jornalista. A intimidade com a língua portuguesa foi adquirida com a leitura de Machado de Assis (a quem chama de gênio), Camões, Gil Vicente, Eça de Queiroz, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Guimarães de Rosa – um escrete de primeiríssima.
Um crítico mal-humorado poderia reclamar: de tão sofisticado e elegante, o texto do romancista Mino corre eventualmente o risco de pecar por rebuscamento excessivo. Mas pobre do país em que um texto seja passível de condenação por excesso de qualidades.
Se lhe fosse dado o direito de escolher que destino teria neste vale de lágrimas, Mino Carta cravaria a opção “jornalista” em terceiro lugar. Porque, antes de se dedicar à nobre tarefa de passar a vida dedilhando vogais e consoantes num teclado, Mino pensou em ser, pela ordem, santo e pintor.
Já disse que, jovem,sonhava em ter um cartão de visitas em que estivesse escrito,no espaço dedicado à profissão, a palavra “santo”. Logo viu que faltava-lhe vocação para um dia ser entronizado nas paredes da Capela Sistina.
Pintor nunca deixou de ser. Mas terminou se rendendo ao determinismo genético: neto e filho de jornalista, virou jornalista.
Numa das passagens de “A Sombra do Silêncio”, o personagem Mercúcio Parla/Mino Carta faz ao avô, também jornalista, indagações sobre a natureza do Jornalismo. Pergunto ao nosso personagem: e se, por um truque dramatúrgico, o Mino Carta quase setentão pudesse se encontrar com o Mino Carta de vinte anos de idade, que conselhos o Mino Carta experiente daria ao Mino Carta noviço, candidato a jornalista?
- Tenho três mandamentos, além da crença de que é fundamental respeitar o texto e não aviltar a língua. Os três mandamentos para um jornalista são os seguintes: primeiro, a fidelidade canina à verdade factual. Segundo: o exercício desabrido do espírito crítico – sempre. Terceiro: fiscalizar diuturnamente o Poder, onde quer que se manifeste – não somente no Palácio do Planalto ou no Congresso.
O jornalista e escritor Mino Carta conseguiria definir, em apenas uma só palavra, o jornalista e escritor Mino Carta?
- Não. Eu diria que, profissionalmente, tive a sorte que não tive em minha vida como indivíduo.
“Sortudo”, então, poderia ser uma palavra razoável?
- Por que não? Sortudo como jornalista que sempre teve bons colegas e equipes ótimas. Mas o escritor sofre muito.
Portal Almanaque da Comunicação - 2011
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