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Entrevista com José Marques de Melo

José Marques de Melo

Jornalista, autor de vários livros, professor da Universidade Metodista de São Paulo

Entrevista realizada por Boanerges Lopes e Luciana Gomes em 2000

Fonte: Site da universidade Metodista

Link: http://www2.metodista.br/unesco/PCLA/revista3/entrevista3-2.htm

- Quando começou seu interesse pela pesquisa jornalística?

JMM - Meu interesse pela pesquisa em jornalismo começou durante a minha fase estudantil. Ou seja, quando aluno do curso de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco fui estimulado a pesquisar os fenômenos jornalísticos pelo meu mestre Luiz Beltrão. Assinei com ele meu primeiro artigo científico, dedicado à crônica policial na imprensa do Recife e publicado na revista “Comunicações & Problemas”, o primeiro periódico brasileiro da área de ciências da comunicação.

- Quantas publicações tem e quais são as mais lidas? Tem alguma que te orgulha mais?

JMM - Publiquei 20 livros e organizei 40 coletâneas. A lista dessas publicações está no perfil bio-bliográfico incluído no meu livro “Teoria da Comunicação: paradigmas latino-americanos”. Tenho orgulho de todos eles, pois representam momentos singulares da minha trajetória intelectual. Contudo, os mais significativos do ponto de vista bibliográfico na área do Jornalismo são: “Estudos de Jornalismo Comparado” (São Paulo, Pioneira, 1972), “Sociologia da Imprensa Brasileira” (Petrópolis, Vozes, 1974) e “A Opinião no Jornalismo Brasileiro” (Petrópolis, Vozes, 1985).

- O que o jornalismo brasileiro tem de bom e o que tem de ruim?

JMM - De bom, o jornalismo brasileiro tem a capacidade antropofágica, ou melhor, a vocação mestiça, de assimilar modelos forâneos e adaptá-los às demandas e singularidades nacionais. De ruim, tem o vício da superficialidade e da irresponsabilidade, seja difundindo fatos sem aprofundamento, seja divulgando versões sem apuração correta.

- Como você encara a formação do jovem jornalista hoje? O que deixaria de mensagem para os que começam a carreira agora? A universidade tem cumprido seu papel na formação desses jovens?

JMM - Os jovens jornalistas possuem hoje uma melhor formação porque passam pela universidade, onde adquirem conhecimentos culturais, técnicos e científicos sobre a profissão. No entanto, são vítimas do atual estágio da universidade brasileira, que explodiu quantitativamente e implodiu qualitativamente. De qualquer maneira, os mais talentosos e os que possuem vocação profissional buscam superar tais deficiências, estocando conhecimentos que lhes garantem sucesso ocupacional e recompensa intelectual.

- Quem você tem como espelho? Alguém impulsionou sua carreira?

JMM - Eu aprendi a fazer jornalismo antes de ingressar na universidade. Meu primeiro editor, o jornalista Carvalho Veras, no tempo em que trabalhava no “Jornal de Alagoas” deu-me as lições básicas. Procurei suprí-las e ampliá-las lendo a bibliografia disponível no Brasil. Depois, fiz o curso superior de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. Ali completei minha formação teórica com os ensinamentos de Luiz Beltrão. Mas não os considerei suficientes. Procurei atualizar-me. Por um lado, continuei tomando lições práticas. Aprendi muito com Mucio Borges da Fonseca e Milton Coelho da Graça, quando trabalhei na edição nordestina do jornal “Última Hora”, editada na cidade do Recife. E procurei acompanhar o trabalho dos grandes jornalistas da minha juventude, como por exemplo Edmar Morel, David Nasser, Assis Chateubriand, Barbosa Lima Sobrinho. Também enveredei pelos clássicos do jornalismo, lendo autores nacionais e estrangeiros.

- Atualmente, o que faz em relação ao jornalismo? Alguma pesquisa nova?

JMM - Continuo atuando nas duas fronteiras do jornalismo. Como profissional, mantenho a coluna Campus na revista IMPRENSA. Como pesquisador, estou desvendando a trajetória jornalística do primeiro professor de jornalismo do Brasil, Costa Rego, que foi editor do “Correio da Manhã”, na primeira metade do século passado. Comecei também a pesquisar o protagonismo de Hipólito José da Costa como precursor do jornalismo científico brasileiro.

- Ao longo de sua carreira, se especializou em algum assunto? Qual?

JMM - Minha carreira teve um certo determinismo “orteguiano” (Ortega y Gasset, filósofo espanhol). Ela foi motivada pelas “circunstâncias” com que me deparei, enfrentando-as com bonomia e ousadia. Esse traço foi notado, com perspicácia por Luiz Beltrão, no prefácio que ele escreveu para o meu livro “Sociologia da Imprensa Brasileira”, quando estabelece conexões entre a minha origem “sertaneja” e a minha “valentia” acadêmica. Pois bem, eu abri muitos “caminhos” no campo comunicacional, sem oportunidade para me dedicar em particular a um deles, até mesmo pela minha disposição de formar equipes, incentivando os mais jovens a pesquisar e em alguns casos a ceder-lhes objetos de estudos para os quais os motivei. Agora, na minha fase de maturidade, procuro recuperar o tempo perdido. Dedico-me a um objeto concreto, apesar de polifacetado, que é a construção da memória histórica do pensamento comunicacional na América Latina, particularmente no Brasil.

- Quais foram suas maiores descobertas no jornalismo?

JMM - A primeira evidência que demonstrei academicamente foi a de que o Brasil ingressou de modo tardio na civilização jornalística (três séculos depois da Europa) não por maldade dos nossos colonizadores, como defende a história oficial, mas em decorrência das nossa formação sócio-cultural, que reprimiu as demandas nacionais pela informação impressa, retardando desta maneira a produção de jornais e revistas. Trabalhei com esse objeto na minha tese de doutorado, defendida na USP em 1973. Dediquei-me posteriormente ao estudo da natureza do jornalismo praticado no Brasil, identificando seus gêneros, formatos e tipos. Chequei à conclusão de que o jornalismo brasileiro transplanta os modelos e padrões das culturas com as quais nos defrontamos historicamente (lusitana, francesa, inglesa, norte-americana) sem reproduzí-las. Ao contrário, trata de domesticá-las, nacionalizá-las, hibridizando-as. Ou seja, opera criativamente, produzindo novas formas de expressão jornalística, sintonizadas com os padrões hegemônicos, mas suficientemente autônomas em relação a eles. Esta é a constatação apresentada em minha tese de livre-docência (1984).

- Como o jornalismo brasileiro está frente ao jornalismo americano?

JMM - Ambos são jornalismos dinâmicos, construindo identidades consentâneas com as respectivas tradições culturais. O jornalismo americano tem mais tradição de independência, vertente que a imprensa brasileira procura acompanhar. Por sua vez, o jornalismo brasileiro exercita maior criatividade, removendo as fronteiras entre informação e diversão, combinando humorismo opinativo e seriedade noticiosa.

- Qual sua opinião sobre o jornalismo investigativo, como o que ocorre no programa “Linha Direta”?

JMM - Trata-se de uma tendência jornalística que corresponde ao momento de vazio democrático que experimenta o Brasil. Como a justiça é falha e lenta, o jornalismo tenta ocupar o espaço deixado pelo poder judiciário. Trata-se, contudo, de precedente perigoso, pois à imprensa cabe informar e não agir. Existe aí o perigo da hipertrofia noticiosa, passando o jornalismo da observação, registro e interpretação dos fatos para atuar como indutor e justiceiro.

- O que tem realizado na USP?

JMM - Desde 1993 estou aposentado na USP. Trabalho atualmente na Universidade Metodista de São Paulo, onde sou Titular da Cátedra UNESCO de Comunicação. Ali venho realizando pesquisas sobre a identidade da imprensa brasileira e sobre a identidade cultural brasileira a partir de imagens midiáticas disseminadas paradigmaticamente (como o Natal e o Carnaval).

- Que trabalhos já realizou no Rio de Janeiro?

JMM - Realizei algumas pesquisas cujos objetos também contemplaram variáveis cariocas. Na década de 70, comparei a violência na agenda de jornais paulistas e cariocas. Voltei a analisar comparativamente a imprensa das duas cidades nos anos 80, procurando saber quando a ciência se convertia em notícia. Na década de 90, estudei as imagens do Natal e do Carnaval na imprensa no Rio de Janeiro, como parte de projetos que avaliaram toda a imprensa nacional.

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