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Bombardeio da Bahia: A Influência da Mídia

Na manhã da sexta-feira 12 de janeiro de 1912 cadáveres de soldados boiaram nas praias da Barra e do Rio Vermelho. Moradores e pescadores da região não sabiam o que estava acontecendo, especulavam; naquele tempo, o boato era o mais eficiente meio de comunicação. Desde a quarta-feira, quatro jornais diários da cidade não circulavam. Tinham suspenso as suas atividades, alguns por prudência, outros pela impossibilidade de redatores, tipógrafos e também gazeteiros chegarem ao centro da cidade, naquele dia alvo dos tiros de canhão dos Fortes de São Marcelo, Barbalho e São Pedro. Cheiro de pólvora, prédios em ruínas e muito sangue compunham um cenário de guerra, desolador, resultado da intervenção federal ordenada pelo presidente Hermes da Fonseca.

O Diário de Notícias, de Vicente Ferreira Lins de Amaral, e A Gazeta do Povo, que tinha como redator-chefe Antônio Moniz, futuro governador do estado, órgãos seabristas, somente eles circularam, distribuindo com seus postilhões alguns exemplares apenas. Na segunda-feira, 15/1, A Gazeta colocava na rua uma edição de maior tiragem com uma manchete no mínimo intrigante: “A capital não foi bombardeada. A ação do Exercito foi humanitária”. No editorial de primeira página, o jornal afirmava “É uma inverdade dizer que esta capital foi bombardeada no dia 10 do corrente. Tal fato absolutamente não se deu”.

O sangue dos soldados que flutuavam no mar desmentia o matutino, como também a fumaça do rescaldo das cinzas que os bombeiros se esforçavam em apagar no Palácio do Rio Branco; o fogo alimentado por milhares de livros e todas as coleções de jornais do século XIX, então arquivadas numa das dependências do edifício. Havia fumaça também no telhado da pastelaria Triunfo, na loja Au Printemps, na sapataria da Rafael Buffone, na farmácia de Aurelino Ribeiro, na tinturaria de Emil Gaudolphe, no gabinete dos dentistas Cerqueira Lima e Álvaro Barbosa, no armarinho dos irmãos Rodrigues e no consultório do Dr Bonifácio Costa que perdeu os originais de um dicionário histórico já pronto que levara anos para escrever. O cheiro das balas de canhão confundia-se com o das cinzas da madeira de lei dos velhos sobrados da Rua Chile.

Palácio do Rio Branco após o incêndio de 1912

Na quarta-feira em que cadáveres de soldados boiaram nas praias distantes do centro da cidade, o Jornal de Notícias, de Aloísio de Carvalho Filho, o Diário da Tarde dirigido por Lemos de Brito e A Bahia retomaram as suas atividades, enquanto o Diário da Bahia de Severino Vieira teria de aguardar até 16/1 para colocar o jornal na rua, sob a alegação de falta de segurança. Então, lamentava a censura imposta pelo governo federal que interviera nos Correios e Telégrafos, bloqueando o envio de telegramas da capital da República para Salvador. A Gazeta do Povo ironizava essas e outras restrições alegadas: “Até que afinal reapareceu hoje o Diário da Bahia, veio manso, meio escabriado, cheio de tiradas filosóficas, menos groseirão… Não é incrível que somente o operariado do órgão severinista seja covarde… Deixe de tolices, confesse logo a verdade… O que lhe faltou foram redatores”.

Os jornais acusavam-se mutuamente e nisso tinham razão. O bombardeio da Bahia foi o resultado da ambição desmedida dos postulantes ao governo do estado, incapacidade de negociação das autoridades, abuso de poder de um juiz federal e dos interesses partidários do presidente da República. Mas, foi também o desfecho de uma guerra suja travada pelos editorialistas dos jornais, a serviço dos partidos e das oligarquias, cujas consequências a mídia governista sentiria na pele duas semanas após o último tiro de canhão, disparado na fatídica quarta-feira 10/1/1912. Mas isso é uma outra história, que fica para a próxima semana.

 

Artigo de Nelson Váron Cadena, originalmente publicado no Correio da Bahia, em 06 de janeiro de 2012

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