Incursões pioneiras de Hipólito da Costa no mundo da imprensa. Por José Marques de Melo

Por José Marques de Melo

1. Imprensa tardia

Em contraste com a América Hispânica, cujo Jornalismo floresceu durante o período colonial , iniciando-se em 1722 com a circulação da Gaceta de Mexico y Noticias de Nueva España (CIMORRA, 1946, p. 109/111), o Brasil só presenciaria no início do século XIX a imprensa periódica e consequentemente a circulação de notícias tipográficas. Isso ocorre no momento em que a Corte Lusitana se transfere para o Rio de Janeiro, convertendo sua antiga colônia americana em Reino Unido a Portugal. (MARQUES DE MELO, 1973, p. 65-83)

Os governantes portugueses, acantonados no Brasil durante o período de ocupação da Península Ibérica pelas tropas de Napoleão Bonaparte, providenciaram a instalação de prelos e tipografias, ensejando a circulação do primeiro jornal em língua portuguesa na América - a Gazeta do Rio de Janeiro, editada pelo Frei Tibúrcio José da Rocha. (BAHIA, 1990, p. 9-22)

Precedendo esse jornal oficialista, que sofre as penas da censura estatal, Hipólito José da Costa lançara em Londres e enviara clandestinamente ao Brasil o jornal Correio Braziliense, considerado o mais antigo periódico brasileiro, pelo sua natureza independente e pelo seu caráter noticioso. (RIZZINI, 1946, p. 341)

2. Fundador polêmico

O debate sobre quem merece o título de fundador do Jornalismo Brasileiro constitui capítulo inconcluso da História nacional.

Durante mais de meio século, prevaleceu a versão de que essa honra cabia ao Frei Tibúrcio José da Rocha, legitimada pela corporação jornalística e legalizada pelo Estado. O Presidente Getúlio Vargas oficializou a comemoração do Dia da Imprensa na data de lançamento da primeira edição da Gazeta (10 de setembro de 1808).

Hipólito da Costa, por sua vez, foi proclamado personagem maldita do Jornalismo Brasileiro, de acordo com resolução do VII Congresso Nacional de Jornalistas, realizado no Rio de Janeiro, em 1957. Os participantes daquele encontro aprovaram com louvor a tese de Fernando Segismundo denominada “”Hipólito da Costa, jornalista venal”, cujo enunciado era o seguinte: “Hipólito da Costa é falso ídolo, e deve tombar do alto pedestal a que o elevou a admiração fácil de seus ingênuos concidadãos”. (SEGISMUNDO, 1962, p. 167-190)

Agora no limiar do novo século, o Congresso Nacional aprovou projeto de lei, sancionado pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso , atribuindo essa primazia a Hipólito José da Costa, cujo Correio teve o seu primeiro número datado de 1 de junho de 1808. A partir do ano 2000, a celebração do Dia da Imprensa passou a coincidir com aquela data. (MARQUES DE MELO, 2000, p. 78/79)

Há, contudo, analistas que rejeitam as duas hipóteses anteriores.

COSTA REGO, o primeiro professor de Jornalismo do Brasil , advogou a tese de que nosso primeiro jornalista não foi nem Frei Tibúrcio, nem Hipólito da Costa, pois suas atividades não configuram o exercício autônomo do registro dos acontecimentos e sua interpretação não partidária. O primeiro por ser um duplo funcionário: do Estado português e da Igreja Católica; o segundo por ser um político organicamente vinculado ao capitalismo britânico, também comprometido com os interesses da Maçonaria.

Na opinião do referido estudioso, o primeiro jornalista brasileiro foi o publicista Tavares Bastos. (MARQUES DE MELO, 200b) Seu argumento é o de que ele militou na imprensa do Segundo Reinado, rompendo as amarras partidárias ou governamentais que desfiguravam os escritos dos homens públicos até então responsáveis pelo registro dos fatos e seus comentários nas páginas dos jornais e revistas brasileiros. (COSTA REGO, 1952, p. 22-28)

Mais recentemente, quando o Congresso Nacional discutiu o projeto de lei do Deputado Nelson Marchesan, Carlos Alves MULLER, ex-editor do “Jornal da ANJ” e membro ativo da FENAJ, duvidOU sobre o acerto dessa providência legislativa. Seus argumentos são de natureza eminentemente política, como se pode ver a seguir:

“A questão de fundo no debate é: qual a fonte histórica de inspiração do jornalismo brasileiro? O oficialismo da Gazeta do Rio de Janeiro ou o Correio Braziliense de Hipólito José da Costa, explicitamente contrário à independência do Brasil? Por que não Antônio Isidoro da Fonseca (o primeiro tipógrafo a se instalar e a imprimir no Brasil, em 1746)? Ou João Soares Lisboa (editor do Correio do Rio de Janeiro, que se insurgiu contra uma lei de imprensa baixada por D. Pedro I e propugnou pela convocação de uma constituinte brasileira)? Ou Frei Caneca (Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo), um dos líderes intelectuais da Revolução Pernambucana de 1817 e, posteriormente, da Confederação do Equador? (Frei Caneca morreria fuzilado, tornando-se o primeiro mártir da imprensa brasileira.) Ou Líbero Badaró (médico italiano Giovanni Baptista Libero Badaró, editor do Observador Constitucional, defensor com igual veemência da liberdade e da responsabilidade da imprensa, assassinado em novembro de 1830)? Ou ainda Bento Teixeira, autor da Prosopopéia, o primeiro livro escrito no Brasil e que, por suas convicções, expostas a quem o quisesse ouvir, enfrentou a Inquisição?” (MULLER, 1999)

Deixando de lado essa controvérsia sobre o patrono do Jornalismo Brasileiro, a merecer estudos mais rigorosos e sistemáticos por parte dos historiadores da mídia nacional, não existe dúvida sobre a natureza informativa do trabalho realizado por Hipólito José da Costa desde os seus tempos de juventude. Tanto assim que o seu biógrafo e exegeta Barbosa Lima Sobrinho não hesita em apontá-lo como “o mais brasileiro dos nossos jornalistas”. Sua justificativa, fundamentada na coerência e lucidez do jornalista, é plausível, convincente e difícil de ser refutada.

“E não se pode negar que, do primeiro ao último número do Correio Braziliense, há uma admirável linha de coerência, imutável e lúcida. Como se houvesse, de um lado, o campo das idéias efêmeras e provisórias ou das impressões não elaboradas e, do outro, o domínio das convicções intocáveis, o que havia de decidido e permanente nas suas decisões e nos ideais. Em relação a essas convicções, não transige, não cede, não recua. A começar pelas idéias liberais, em cuja defesa ocupa sempre a linha de vanguarda. (…) A defesa da liberdade de imprensa é uma de suas religiões. (…) Não há, nos 14 anos de sua campanha, mudança de posição ou alteração de atitude. Quanto muito, uma ou outra vez, pode não concordar de todo com o julgamento de algumas personalidades. Mas Hipólito da Costa tinha por sistema não se deixar arrastar pelos aspectos de natureza pessoal. Interessava-se pela idéias, pelas atitude, pelas posições tomadas, não pelas pessoas que no momento as esposassem. (…) chamar o seu periódico de Braziliense, em pleno regime colonial e numa cidade estrangeira, já significava um programa e um compromisso…” (BARBOSA LIMA SOBRINHO, 1996, p. 119-120)

Assim sendo, Hipólito José da Costa Pereira é considerado o fundador do Jornalismo Brasileiro por sua atuação como editor do mensário “Correio Braziliense” (1808-1822). Trata-se de publicação essencialmente política, mas que abriu espaço para a informação de natureza científica, quase sempre divulgando fatos e idéias gerados na Europa e considerados relevantes pelo jornalista para aplicação no Brasil.

Antes disso (1798-1800), ele realizou uma missão diplomática a serviço da Coroa Portuguesa, com a finalidade de observar a economia agrícola norte-americana, discernindo quais inventos científicos e inovações tecnológicas eram factíveis de transplantação para o Brasil, então Colônia de Portugal na América. A memória dessa missão foi preservada sob a forma de Diário de Viagem, prenunciando a vocação do repórter que o autor desenvolveria dez anos depois em seu periódico.

O ingresso efetivo de Hipólito da Costa no mundo da imprensa deu-se no ano de 1801, quando ele retornou da América do Norte , prestando conta de sua missão ao Conde de Linhares, então Ministro da Marinha e do Ultramar, que viria a seria Ministro de D. João VI no Brasil. (CASTRO, 1985, p. 12).

Essa incursão pioneira está assim registrado pelo principal biógrafo de Hipólito da Costa:

“Tornado a Lisboa, em fins de 1800, Hipólito trazia o plano formado de regressar ao Brasil. (…) Não obstante, determinando o contrário, deixou-se ficar em Lisboa, e no ano seguinte, ao incorporar-se a Casa Literária do Arco do Cego à Impressão Régia, ocupou um dos lugares de diretor literário, ao lado de Conceição Veloso, continuando a perceber a pensão que lhe fora abonada desde a ida para Filadélfia. Nesse cargo traduziu e publicou: Ensaios políticos econômicos e filosóficos de Benjamin, conde Rumford; História breve e autêntica do Banco de Inglaterra, de E. F. Thomas Fortune; e Memória sobre a broncelose ou papo da América Setentrional, de Benjamin Smith Berthou. Publicou também dois opúsculos originais: Descrição da Árvore Açucareira e da sua utilidade e cultura e Descrição de uma máquina para tocar a bomba a bordo dos navios sem o trabalho de homens. E março ou abril de 1802 partiu Hipólito para Londres, a negócios particulares e encarregado por D. Rodrigo de adquirir livros para a biblioteca Pública e máquionas e objetos para a Impressão Régia.” (RIZZINI, 1957, p. 6/7)

3. Biografia atribulada

Nascido na Colônia do Sacramento, então território luso-brasileiro, mas criado em terras gaúchas, onde sua família se estabeleceu após o Tratado de Santo Idelfonso , Hipólito da Costa fez os estudos básicos em Porto Alegre. Aos 19 anos já estava matriculado na Universidade de Coimbra, estudando Leis e Filosofia. (CASTRO, 1985, p. 11-12)

Ao se matricular em Coimbra, em 1792, Hipólito seria beneficiário da reforma curricular feita pela Universidade na sua Faculdade de Filosofia, neutralizando o viés jurídico-filosófico que a dominava até então, para dar-lhe uma orientação moderna, de natureza científico-naturalista. Tanto assim que ele estudaria as novas disciplinares introduzidas: Agricultura, Zoologia, Mineralogia, Física, Química e Metalurgia. Além da tradicional formação clássico-humanística, ele enveredaria por novas dimensões do saber, adquirindo um embasamento técnico-científico. Só depois ele se dedicaria ao estudo do Direito, diplomando-se em 1798. (DOURADO, 1957, p. 45)

Seus biógrafos são unânimes em afirmar que essa busca de uma fundamentação científico-tecnológica fora motivada pelo desejo de, regressando ao Brasil, dedicar-se à agricultura, otimizando a propriedade rural que a família possuía no hoje município gaúcho de Pelotas .

Seus planos de retorno à terra de origem foram sendo postergados e afinal nunca se realizaram. Mas a formação acadêmica adquirida conferiu-lhe competência para a primeira atividade profissional que iria realizar, credenciando-o depois ao engajamento como funcionário do governo português.

Foi no desempenho da missão diplomática nos Estados Unidos da América, a ele atribuída pelo Conde de Linhares, que Hipólito da Costa realizou sua precoce incursão como repórter, tornando-se o primeiro divulgador científico brasileiro. Essa faceta merece registro preciso e sumário do seu principal biógrafo.

“Mal saído dos cueiros universitários, em 1798, aos 24 anos, recebeu de D. Rodrigo, então ministro da Marinha e do Ultramar, o encargo de estudar na República Norte-Americana, para aplicação no Brasil, a cultura de árvores nativas, do cânhamo, tabaco, algodão, cana, índigo, arroz e, principalmente, a da cochinilha; a formação de pastagens; a construção de pontes, moinhos e engenhos d’água; a mineração; a pesca da baleia e o preparo do peixe salgado. Do encargo, desempenhou-se acima do esperável de bacharel novato, conforme atestam os documentos que a respeito redigiu. Simultaneamente, o Ministro o teria incumbido de outros estudos…” (RIZZINI, 1957, p. 4)

A viagem foi iniciada no dia 11 de outubro de 1798 e concluída no final de 1800. O jovem brasileiro recebeu nomeação do governo lusitano para atuar como encarregado de negócios nos Estados Unidos. Sua missão era observar as inovações agrícolas e industriais ali desenvolvidas, verificando que aplicabilidade poderiam ter na colônia portuguesa situada ao sul das Américas.

Durante o ano de 1801 ele se dedica a prestar contas de sua missão na América do Norte. Em seguida, assume o cargo de diretor literário da Impressão Régia de Lisboa, em função do qual viaja a Londres, onde mantém ligações com a Maçonaria (enraizadas nos contatos prévios durante a viagem a Filadélfia).

Rizzini explica que os “negócios particulares” a justificarem sua viagem à Inglaterra em 1802 “eram os negócios maçônicos”. Sua hipótese era de Hipólito “ia advogar a filiação das incipientes lojas maçônicas portuguesas (…) ao Grande Oriente de Londres. Da incumbência não deu contas e a ela nunca se referiu”. (RIZZINI, 1957, p. 7)

Mas o certo é que ao regressar de Londres seria denunciado, preso e perseguido. Ele permaneceu nos cárceres da Inquisição de 1803 a 1805, quando evadiu-se, optando pelo caminho do exílio na Inglaterra. Ali permaneceu até a morte, em 11 de setembro de 1823, nove dias antes de ser nomeado Cônsul Geral do Império Brasileiro da Inglaterra.

4. Jornalismo controvertido

Na inscrição necrológica aposta à sua lápide tumular em Berkshire, seu amigo, o Duque de Sussex, irmão do Rei da Inglaterra, destaca a propensão científica de Hipólito da Costa, tanto por formação acadêmica quanto pela vocação difusionista.

“… um homem que se distinguiu não menos pelo vigor de sua inteligência e de sua proficiência na ciência e na literatura do que pela integridade de costumes e de caráter. Descendente de uma nobre família do Brasil, residiu neste país os seus derradeiros 18 anos de vida e daqui, pelos seus numerosos e importantes escritos, difundiu entre os habitantes daquele imenso império o gosto pelos conhecimentos úteis, a inclinação pelas artes que embelezam a vida e o amor pela liberdade constitucional, fundada na obediência às leis e aos princípios de mútua benevolência e boa vontade.” (BARBOSA LIMA SOBRINHO, 1996, p. 121)

Esse traço da personalidade jornalística de Hipólito da Costa tem sido minimizado pelos historiadores do Jornalismo Científico no Brasil. É o que assegura explicitamente Gastão Thomaz de Almeida, caracterizando como residual e periférico seu interesse pela divulgação científica.

“Se em seu Correio Braziliense, Hipólito da Costa tratava primordialmente de aspectos políticos e sociais e a Economia e a Ciência surgiam como consequência desses problemas, outros jornais surgidos nos primórdios de nossa imprensa, no seu estilo e de acordo com sua época, não deixavam de dar notícias de diferentes setores, entre os de caráter científico”. (ALMEIDA, 1984, p. 143)

O viés político do jornalismo praticado por Hipólito da Costa emerge com clareza na análise de discurso realizada por Bethania Mariani. Ela examinou os textos publicados no primeiro ano de funcionamento do seu Correio Braziliense.

“O dizer de Hipólito retoma sentidos que já há alguns séculos vêm sendo constituídos no imaginário europeu, como, ao mesmo tempo, já está re-inaugurando esses mesmos sentidos para o lugar a ser ocupado pelo Novo Império. (…) Podemos perceber, lendo as páginas do jornal, que está sendo construída uma versão da história”. (MARIANI, 1993, p. 38)

Que versão da história ele privilegia em seus escritos ? Percorrendo detidamente a linha de pensamento desenvolvida nas páginas do jornal, o historiador português João Pedro Rosa Ferreira conclui que ela está impregnada da ideologia burguesa. “Este grupo vinha ascendendo progressivamente à voz política, era já um elemento determinante em mecanismos micro da circulação do poder e aspirava com urgência à partilha da área de decisões estratégicas, do vértice do sistema de poder na sociedade”. (FERREIRA, 1992, p. 30)

É justamente esse projeto político que conduz Hipólito da Costa a se engajar numa campanha por alguns considerada “tecnocrática”, pois ele procura difundir inovações agrícolas ou comerciais suscetíveis de aplicação imediata .

“Sucedem-se os artigos revelando uma profunda preocupação com o pensar do econômico, desenvolvendo não só o aspecto teórico, mas também o técnico das questões abordadas, constituindo um corpo de saber aplicado. Aí se divulgaram invenções e tecnologias, foram diagnosticadas situações e fatores de retardamento, e avançadas propostas concretas de reformas setoriais para a agricultura, a indústria, o comércio e as finanças de Portugal e do Brasil.´(FERREIRA, 1992, p. 133)

Sua presumível inclinação tecnocrática não passa de um equívoco analítico. Ele tem um projeto claramente modernizante., refletindo a ampla formação científica recebida na Universidade de Coimbra. Em função disso, foi-lhe possível desenvolver um tipo de jornalismo enciclopédico e pragmático, com pretensões de natureza civilizatória.

“O que mais nos surpreende no Correio Braziliense é a extrema variedade de temas que o compõem e a extensão de cultura que nele revela Hipólito da Costa. Conhece e discute tudo, desde a questão do tráfico e da escravidão até o problema da mudança da capital do Brasil. Mesmo em paralelo com os periódicos que surgem no Brasil, é o melhor informado de todos eles, o que melhor conhece e discute os problemas brasileiros”. (BARBOSA LIMA SOBRINHO , 1977

Fonte: Rede Alfredo de Carvalho