Brasil e Eritrea. Repórteres Sem Fronteiras

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Se você não sabe o que é Eritrea você está tão mal informado quanto eu, deveria saber pois este pequeno país africano, agora você já sabe que é um pais, é um dos destaques do ranking do Reporters Whithout Borders, organização sem fins lucrativos que zela pela liberdade de imprensa, divulgado anualmente, sempre em outubro. Eritrea é banhado ao leste pelo Mar Vermelho, tem cinco milhões de habitantes, Índice de Desenvolvimento Humano compatível com o dos municípios do polígono das secas na Bahia. Famosa por ser o berço do elefante, segundo os paleontologistas e um dos santuários de hominídeos do mundo, Eritrea lidera agora o ranking mundial de atentados contra a liberdade de imprensa, superando Cuba, Birmânia, Iran e Coréia do Norte.

O Brasil não é destaque do ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras, figura no meio da tabela, no 71º lugar, em todo caso onze posições acima, em relação ao ranking do ano passado, mas ainda distante do 54º lugar de referência do ranking de 2002, a sua melhor performance até agora. O que isso significa? Há hoje menos restrições à liberdade de imprensa do que no ano passado e muito mais do que em 2002 ? Não é essa a leitura correta que as aparências sugerem. Se olharmos o ranking com atenção verificamos que há dezesseis países com índice de 15 pontos e alguns decimais, muito próximos uns dos outros. O Brasil é o 71º, mas poderia estar no 55º, segundo essa linha de raciocínio.

Percepção

A organização Repórteres sem Fronteiras atua desde 1985 em favor da liberdade de imprensa. Vive de doações que são descontadas do contribuinte no imposto de renda, venda de camisetas e álbuns, possui escritórios em vários países e representantes, ou olheiros, em mais de 170 nações, incluindo o Brasil. São esses representantes que informam sobre as restrições e atentados sofridos pela imprensa. E aí a gente se pergunta: estamos tão mal na fita, por que? A nossa percepção é de que gozamos de liberdade de imprensa, com raras exceções. Mas não é essa a percepção dos avaliadores que enviam os relatórios para a sede da organização que vale ressaltar tem assento (estatuto) nas Nações Unidas.

A impressão que eu tenho é que nosso problema não é macro. Não é a censura imposta ao O Estado de São Paulo por um desembargador atendendo um pedido da família Sarney, ou a ação de traficantes contra repórteres do jornal O Dia, nem as várias interferências da justiça na imprensa regional que marcam pontos negativos no relatório do Repórteres Sem Fronteiras. O nosso problema está no varejo, na pequena imprensa do interior do país que é alvo recorrente de autoridades policiais e sicários contratados por prefeitos, deputados, vereadores. São episódios “menores” sequer noticiados pela grande imprensa que apenas destaca o fato quando a agressão ao radialista, ou jornalista resulta em morte.

Violência regional

O relatório do RWB sugere isso nas entrelinhas e cita nominalmente o Norte e Nordeste : “Potência regional, o Brasil (71º) se viu finalmente livre, a 1 de maio de 2009, da lei de imprensa herdada da ditadura militar, e beneficia dos esforços desenvolvidos pelo governo Lula em matéria de acesso à informação. Apesar dessas evoluções positivas, o país ainda padece de uma violência persistente contra os meios de comunicação nas grandes aglomerações urbanas e nas regiões do Norte e do Nordeste. A censura preventiva permanece ativa em certos Estados, nos quais as autoridades controlam a mídia local”. Vale a pena ler o relatório disponível em inglés, francés, espanhol, árabe, disponibiliza os rankings completos ano a ano. Leitura para reflexão. E agora que você sabe onde fica Eritrea, que tal incluir o roteiro em sua próxima viagem de férias? 

 Artigo de minha autoria originalmente publicado no jornal Correio em 22/10/2009

1 Resposta para “Brasil e Eritrea. Repórteres Sem Fronteiras”

  1. almanaque 2010 disse:

    Voy a venir seguido
    Muy buen post
    Nos vemos!

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