200 Anos de Imprensa no Brasil/Hora do Reclame: A escrava que falava inglês

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Em 25 de fevereiro de 1809, ou seja, cinco meses após a estréia da Gazeta do Rio de janeiro, o Sr Vicente descobria que o jornal era um veículo para atingir um número maior de pessoas do que o boca-a-boca tradicional ou o aviso manuscrito, à intempérie, colado num predio público. Então, publicava o primeiro anúncio de escravos da imprensa brasileira, reportando a fuga durante o carnaval de uma mulata com educação acima da média: “No dia de entrudo pelas nove horas e meia da noite, fugiu a Vicente Guedes de Souza, uma mulata filha do Cabo da Boa Esperança por nome Dina, de estatura ordinária, clara e com sinais de sardas pela cara, fala português e inglês, cabelo um pouco crespo, idade pouco mais ou menos de 25 anos:Quem dela tiver noticias avisará ao mesmo na Rua da Misericórdia, defronte do açougue grande, ou na loja da Gazeta, e receberá boas alvíssaras”.

Fora os aspectos culturais implícitos no texto, este anúncio inaugura um estilo (a descrição minuciosa com requintes de ficha policial) doravante peculiar, nos anúncios de fuga de escravos com recompensa. Por outro lado sinaliza a importância da mídia para este tipo de negócio, já que o tráfico e posse de seres humanos representava um importante ativo financeiro. E até aquele momento, 47 edições da Gazeta já distribuídas, não ocorrera a nenhum comerciante ou senhor de engenho que o jornal poderia ser um bom veículo para impulsionar este comércio. O Sr Vicente estabeleceu um precedente, de modo que em 08 de março do mesmo ano o Sargento Mor José Inácio de Almeida anunciava a fuga “de uma escrava ainda boçal” e na mesma data um comerciante não identificado oferecia um sitio “com casas de vivenda, grande arvoredo, muitas mandiocas… belíssimas vargens para arroz como também cinco escravos”.

Em 1º de abril Antônio Monteiro ofertava recompensa por um escravo Angola e no dia 15 do mesmo mês a Sra Ana Emerenciana anunciava a fuga da “negra boçal” Rita. Em 19 de abril João Pinto descrevia o perfil de Joana: “muito fula, unhas roídas a dente, saia de chita escura, camisa e um pano que lhe serviu de tanga; tem no peito direito, junto ao pescoço, ainda fresco, um sinal de caustico”. Daí por diante o escravo como “mercadoria” seria uma constante na imprensa brasileira, disputando espaço com os anúncios de fretes, leilões, venda de casas, terrenos e fazendas e a partir de 1840 com os anúncios de remédios. Um eminente historiador, cujo nome me foge a memória, estimou com algum exagero em 1 milhão o número de anúncios publicados no século XIX. Em todo caso foram muitos até 1851 e com menor incidência a partir da data. Os fabricantes de tipos na Europa farejaram o mercado e logo desenvolveram para as tipografias no Brasil a vinheta de um negro carregando uma trouxa, elemento visual a ilustrar os anúncios do gênero publicados nos jornais.

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