200 Anos De Imprensa No Brasil: A apreensão da revista “Realidade”
Em 29 de dezembro de 1966, atendendo à solicitação de um Juiz de Menores de São Paulo, a polícia adentrou na gráfica onde era impressa Realidade e apreendeu quase a metade da tiragem (231.680 revistas); os demais exemplares com capa de janeiro de 1967 já estavam sendo distribuídos aos assinantes e em bancas. Dias depois um outro Juiz de Menores, da Guanabara, determinava nova apreensão. O motivo alegado em ambas as intervenções foi o conteúdo da publicação, supostamente contrário ao moral e bons costumes, referência não explícita às fotos inéditas de um parto e a declaração de uma moça que se orgulhava de ser mãe solteira, dentre outros assuntos-tabus abordados, naquela edição.
Realidade tinha apenas seis meses de vida, revista inspirada no modelo Fortune ou Realites, naquele momento e até a decretação do AI-5, considerada um marco estilístico pelo seu visual inovador, jornalismo investigativo e abordagem de temas polêmicos em profundidade. O fato é que a inusitada intervenção judiciária levantou suspeitas em torno de outras motivações, inclusive no âmbito do STJ, quando do julgamento do mandato de segurança impetrado pela Editora Abril. Na época o Ministro Aliomar Baleeiro estranhou a ação (”até que ponto outros interesses ?”), então justificando o seu voto : ” Pervaguei a vista pelo exemplar de Realidade… e não lhe atribuo o caráter de publicação obscena, imoral, sórdida, ou contrária aos bons costumes”. Antes o magistrado fundamentara sua decisão, com exemplos históricos, em torno da tese de que autoridades “devem guiar-se pela consciência do homem meio de seu tempo”. Ou seja, o Ministro considerava receptivo o brasileiro dos anos 60 ao tipo de informação argüida como imoral.
A edição apreendida doeu no bolso da Abril. Por outro lado frustrou uma equipe de jornalistas que se debruçou sobre o tema da nova mulher durante três meses : Luiz Fernando Mercadante, Geraldo Mori, Roberto freire, David Zingg, Narciso Kalili, Claúdia Andujar, Alessandro Porro, Paulo Henrique Amorim, Daysi Carta, José Carlos Marão, Eduardo Barreto, Jaime Figuerola, Carmen da Silva, Gilda Grillo e Luigi Mamprin. Uma equipe que percorrera o país para produzir um conteúdo de qualidade, infelizmente comprometido pelo arbítrio ou capricho de uma pessoa só, investida de uma autoridade que não tinha.



19 de Dezembro de 2008 às 16:45
29 de dezembro de 1966 ou de 1967?
Entrei para trabalhar na revista em Dezembro de 1967, no numero 10, exatamente o aprendido por ter uma foto de uma mulher com as pernas abertas, durante o parto.