200 Anos de Imprensa no Brasil: O hábito de leitura das revistas estrangeiras
O que liam os brasileiros no século XIX e inícios do século XX em matéria de publicações estrangeiras? Não conheço nenhum trabalho sobre o assunto, as fontes existentes são periféricas. Mas, pode-se traçar, sim, um perfil dessas leituras, através de um mapeamento nos acervos públicos (bibliotecas e arquivos) e em particular nos sebos de cidades como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Estes, em particular, nos dão uma noção do quantitativo, penetração do meio, que as bibliotecas não nos podem proporcionar. Sabemos pela própria mídia brasileira da época que nos primórdios da imprensa circulavam em nosso país as gazetas de Lisboa, Londres, Madrid e Paris e também dos vizinhos: Montevidéu, Buenos Aires, Bogotá, Lima e Caracas…Mas estas eram folhas que serviam de fonte para as gazetas locais e circulavam em âmbito restrito aos círculos do poder, sem nenhuma penetração no lar. Diferente ocorreu com as revistas ilustradas estrangeiras que se popularizam entre nós, a partir do último quarto do século XIX e circulavam, até pelo seu conteúdo prioritariamente voltado para a mulher, no seio familiar. E por isso mesmo foram preservadas até hoje.
Os Brasileiros liam as revistas espanholas “A Vida Galante”, e “La Esfera”; as italianas “Il Secolo XX” e “La Lettura”, as inglesas “The Spere” e “The Ilustration” e as francesas “Le Petit Journal”, “Lectures Pour Tous” e “Revue des Modes” dentre outras. Três outras publicações, contudo, tinham grande penetração e demanda, a julgar pela quantidade de oferta disponível nos sebos: a portuguesa “Revista Ilustrada” e as francesas “L’Ilustration” e “Je Sais Tout”. As duas primeiras inspiraram o lançamento no Brasil da “Ilustração Brasileira” e a última o da revista “Eu sei Tudo”, incluindo o seu Almanaque, editado pontualmente no início de cada ano; inspirou, ainda, mais de uma dezena de publicações nos estados, com o mesmo padrão.
Esse perfil de leitura com preferência para as revistas francesas se modifica dos anos 30 em diante com novos títulos, doravante em língua inglesa : “National Geographic”, “Vogue”, “Reader’s Digest” e a edição latino-americana do “Time”. Nos anos 50 um novo perfil: as mulheres preferem a revista “Burda” e a família como um todo assina a revista “Life” . Assis Chateubriand admirava-a, tanto que ousou “concorrer” com ela através da versão em espanhol do O Cruzeiro, uma aventura que não deu certo, mas enquanto durou revelou o Brasil e sua gente a nossos irmãos da América Latina.



