Posts por Outubro, 2009

Brasil e Eritrea. Repórteres Sem Fronteiras

28 dAmerica/Chicago Outubro dAmerica/Chicago 2009

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Se você não sabe o que é Eritrea você está tão mal informado quanto eu, deveria saber pois este pequeno país africano, agora você já sabe que é um pais, é um dos destaques do ranking do Reporters Whithout Borders, organização sem fins lucrativos que zela pela liberdade de imprensa, divulgado anualmente, sempre em outubro. Eritrea é banhado ao leste pelo Mar Vermelho, tem cinco milhões de habitantes, Índice de Desenvolvimento Humano compatível com o dos municípios do polígono das secas na Bahia. Famosa por ser o berço do elefante, segundo os paleontologistas e um dos santuários de hominídeos do mundo, Eritrea lidera agora o ranking mundial de atentados contra a liberdade de imprensa, superando Cuba, Birmânia, Iran e Coréia do Norte.

O Brasil não é destaque do ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras, figura no meio da tabela, no 71º lugar, em todo caso onze posições acima, em relação ao ranking do ano passado, mas ainda distante do 54º lugar de referência do ranking de 2002, a sua melhor performance até agora. O que isso significa? Há hoje menos restrições à liberdade de imprensa do que no ano passado e muito mais do que em 2002 ? Não é essa a leitura correta que as aparências sugerem. Se olharmos o ranking com atenção verificamos que há dezesseis países com índice de 15 pontos e alguns decimais, muito próximos uns dos outros. O Brasil é o 71º, mas poderia estar no 55º, segundo essa linha de raciocínio.

Percepção

A organização Repórteres sem Fronteiras atua desde 1985 em favor da liberdade de imprensa. Vive de doações que são descontadas do contribuinte no imposto de renda, venda de camisetas e álbuns, possui escritórios em vários países e representantes, ou olheiros, em mais de 170 nações, incluindo o Brasil. São esses representantes que informam sobre as restrições e atentados sofridos pela imprensa. E aí a gente se pergunta: estamos tão mal na fita, por que? A nossa percepção é de que gozamos de liberdade de imprensa, com raras exceções. Mas não é essa a percepção dos avaliadores que enviam os relatórios para a sede da organização que vale ressaltar tem assento (estatuto) nas Nações Unidas.

A impressão que eu tenho é que nosso problema não é macro. Não é a censura imposta ao O Estado de São Paulo por um desembargador atendendo um pedido da família Sarney, ou a ação de traficantes contra repórteres do jornal O Dia, nem as várias interferências da justiça na imprensa regional que marcam pontos negativos no relatório do Repórteres Sem Fronteiras. O nosso problema está no varejo, na pequena imprensa do interior do país que é alvo recorrente de autoridades policiais e sicários contratados por prefeitos, deputados, vereadores. São episódios “menores” sequer noticiados pela grande imprensa que apenas destaca o fato quando a agressão ao radialista, ou jornalista resulta em morte.

Violência regional

O relatório do RWB sugere isso nas entrelinhas e cita nominalmente o Norte e Nordeste : “Potência regional, o Brasil (71º) se viu finalmente livre, a 1 de maio de 2009, da lei de imprensa herdada da ditadura militar, e beneficia dos esforços desenvolvidos pelo governo Lula em matéria de acesso à informação. Apesar dessas evoluções positivas, o país ainda padece de uma violência persistente contra os meios de comunicação nas grandes aglomerações urbanas e nas regiões do Norte e do Nordeste. A censura preventiva permanece ativa em certos Estados, nos quais as autoridades controlam a mídia local”. Vale a pena ler o relatório disponível em inglés, francés, espanhol, árabe, disponibiliza os rankings completos ano a ano. Leitura para reflexão. E agora que você sabe onde fica Eritrea, que tal incluir o roteiro em sua próxima viagem de férias? 

 Artigo de minha autoria originalmente publicado no jornal Correio em 22/10/2009

As tiragens de ficção na imprensa brasileira

6 dAmerica/Chicago Outubro dAmerica/Chicago 2009

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Em 24 agosto de 1954 o jornal “Ùltima Hora” de Samuel Wainer teria registrado um dos maiores recordes de circulação de jornais brasileiros em toda sua história.: 700.000 exemplares vendidos da edição que noticiou o suicídio do Presidente. Recorde que foi possível, segundo todas as fontes já consolidadas (infelizmente), em função dos demais jornais cariocas terem sido impedidos de circular pelo populacho que identificava a imprensa oposicionista como co-responsável pelo trágico desfecho. Não sei a origem dessa informação, mas tenho a suspeita de que é falsa. Também não me parece viável a circulação estimada para o “Última Hora”, em dias correntes, independente de fatos de impacto, de 330 mil exemplares. Este último número equipara-se com a circulação dos maiores jornais brasileiros, hoje, isto é, meio século depois. Será que os brasileiros da década de 50 liam mais jornais do que os brasileiros do século XXI? Claro que não.

E já que nos reportamos a números de circulação, já consolidados pela história, convido os leitores desta coluna a refletirmos em torno de estatísticas oficiais da época, para confronto com os números de tiragens, então, divulgados. Para começar, o censo de 1950 apurou uma população de 2,37 milhões de habitantes para o Rio de Janeiro. Em 1960 apurou 3,28 milhões. De onde podemos estimar em 2,75 milhões a população em 1954, ano do suicídio do Presidente Getúlio Vargas. População esta residente em torno de 550 mil domicílios, segundo o IBGE.

Analfabetismo de 65%

Naquele tempo a taxa de analfabetismo funcional era de 65%, segundo a “Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos”,já incluído nesse índice os 25% da população na faixa etária entre 0 e 7 anos. Crianças. Ou seja, o Rio de janeiro de 1954 tinha (2,75 milhões de habitantes, menos 65% de analfabetos) 962 mil pessoas aptas para a leitura de jornais e revistas. Então, podemos acreditar que naquele 24 de agosto de comoção popular pela morte do Presidente mais de 70% da população que sabia ler comprou o jornal? Isso significaria admitir que a maioria da população tinha recursos para comprar o “Ultima Hora; que foi adquirido, na média, mais de um jornal por domicílio (700 mil jornais para 550 mil domicílios) e que o índice de leitura foi praticamente individual quando a média corrente é hoje de quatro leitores por exemplar e naquele tempo certamente era bem maior.

Até Ruy Barbosa Citei o caso do Ùltima Hora como exemplo para ilustrar as tiragens de ficção que algumas publicações conseguiram consolidar como informação verdadeira, já assimiladas pela história. É o caso, também das circulações recordes da revista “O Cruzeiro” que Luiz Maklouf de Carvalho teve a oportunidade de desmistificar em seu livro “Cobras Criadas”.  Interessava aos editores difundir números fora da realidade para impressionar o mercado publicitário e atrair anunciantes. E ainda para marcar posição de “liderança”; fazia bem ao ego nas relações de poder. Nem Ruy Barbosa, um baluarte de honestidade e ética, escapou dessa tentação. Em 1901, em editorial de “A Imprensa”, afirmava com todas as letras que seu jornal ostentava uma circulação de 100 mil exemplares.

Se Ruy não mentia, ou exagerava, podemos considerar um milagre. Naquele ano a população do Rio de Janeiro era de 600 mil habitantes e o índice de analfabetismo em torno de 85%. Ou seja, tínhamos 90 mil pessoas aptas para ler “A Imprensa” “O Paíz”, “Jornal do Commercio” e o “Jornal do Brasil”, os jornais diários que circulavam na capital. Pois é: 90 mil leitores para 100 mil exemplares. Tá certo. Não se briga com a história!.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/09/2009