Posts por Setembro, 2009

Setembro é o mês da imprensa

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Setembro é a semente da imprensa brasileira. Nesse mês do ano (o nono, número correspondente ao de uma gestação) em épocas diversas e contextos também diferenciados, nasceram os veículos de comunicação do Brasil. Um fato curioso que nada revela, além da simples, ou não tão simples coincidência. Se a cronologia da história da imprensa no Brasil tem algum sentido, não o sabemos. Secretos desígnios que o racional não consegue avaliar. Vamos aos fatos: Foi em setembro de 1.808 que surgiu o primeiro jornal brasileiro, editado em solo pátrio, a “Gazeta do Rio de Janeiro”, data que durante décadas foi referência do Dia da Imprensa, produzido na tipografia da Imprensa Régia.

No século vinte nasce o rádio, exatamente em 07 de setembro de 1922, com transmissões experimentais realizadas no contexto e no recinto da Exposição do Centenário da Independência, então perante a presença de convidados ilustres de outros países, o presidente Epitácio Pessoa como cicerone. Muitos anos depois surge a televisão: em 18 de setembro de 1950, data de inauguração da “TV Tupi”, iniciativa dos Diários e Emissoras Associadas, através de seu Diretor-Proprietário Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo. Já em finais da década de 80 o Brasil se conecta à rede internacional, então denominada de Bitnet, que permitia a troca de mensagens em escala mundial. E assim, em setembro de 1988, o Laboratório Nacional de Computação Científica do Rio de Janeiro dava o passo inicial da internet, através de uma conexão de 9.600 bits/segundo, estabelecida com a Universidade de Maryland.

Atrasos e datas marcadas

Por que setembro? A Gazeta do Rio de Janeiro, o nosso jornal pioneiro, e a TV Tupi, a nossa primeira emissora de TV, foram lançados em setembro porque esse foi o mês em que os veículos ficaram prontos. A Gazeta “atrasou-se” em função das dificuldades para montar os prelos que vieram encaixotados de Lisboa e durante meses ficaram na residência de um funcionário público. Demora na montagem e principalmente na sua operacionalização pela falta de mão de obra habilitada.

A TV Tupi, por sua vez, “atrasou-se” por um motivo similar, ou seja, a demora na montagem dos equipamentos, problemas na alfândega com as guias de importação e mais o tempo necessário para o treinamento de recursos humanos oriundos do rádio. Diferente do jornal e da televisão, o rádio e a internet surgiram em setembro após um planejamento, as datas previamente acertadas. O rádio nasceu nesse mês por conta das comemorações do Centenário da Independência.

O veículo surge, assim, num contexto político-histórico, com a data previamente marcada e providências tomadas para coincidir com a grande festa. A internet, por sua vez, nasce também com data programada, através dos contatos prévios feitos com uma universidade americana para a conexão pioneira aqui referida. Setembro, como se vê, por algum motivo tem o seu charme e cheira a tinta, ondas magnéticas, e bits. A propósito é bom lembrar que o Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência, nasceu em 1 º de setembro de 1969. E um ano antes, 11 de setembro de 1.968 surgira “Veja”, hoje a maior circulação e índice de leitura das revistas semanais. Setembro é mesmo o Mês.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 14/09/2009 

A morte de Getúlio Vargas e o jogo da imprensa

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Na manhã de 24 de agosto de 1954 um foguetório nos céus do Rio de Janeiro comemorava a deposição do Presidente Getúlio Vargas que segundo o noticiário da Rádio Tupi às 3:35 e Rádio Globo às 4:00, renunciara à Presidência da República. Noticiário falso, induzido por uma fonte não identificada, seguramente um dos participantes da reunião do gabinete convocada pelo primeiro mandatário para discutir os rumos a tomar em função da crise deflagrada em 05 de agosto quando do atentado da Rua Toneleros contra o jornalista Carlos Lacerda. A “barrigada” da imprensa radiofônica contribuiu para espalhar o boato da renuncia e estimular o júbilo popular, manifesto com a queima de foguetes às 6:30, segundo narrou o repórter Murilo Melo Filho na sua retrospectiva dos acontecimentos publicada na revista Manchete.

Não sei por que até hoje ninguém fez a ilação entre os fatos: as notícias falsas divulgadas pela imprensa, a repercussão dessas notícias com comemorações de júbilo e o suicídio do presidente ocorrido por volta das 8:00. Nos seus aposentos do Palácio do Catete o chefe da nação deve ter ouvido os foguetes e algum impacto teve nos seus ouvidos fragilizados, um estado de ânimo depressivo em função do desfecho da reunião ministerial que, contrariando sua vontade, insistira na tese da licença provisória. Ou seja, a renúncia por um período indeterminado que se sabia, ou pressentia-se, não teria retorno. Ilações apenas, que, se em nada contribuem para explicar os fatos, também não devem ser descartadas. Afinal, foguetes são a representação festiva e ruidosa de um inconsciente coletivo.

Responsabilidades A questão que cabe aqui analisar é qual a responsabilidade das duas emissoras de rádio nesse processo? Levando em consideração que ambas desejavam dar exatamente a notícia da renúncia, proposta que tinha a inspiração na linha de frente da Tribuna da Imprensa, O Globo e Rádio Globo, TV e Rádio Tupi (unidos em torno dos interesses da CPI contra o jornal Última Hora em 1953) e como coadjuvantes Correio da Manhã, O Estado de São Paulo, Folha da Manhã e Diário Carioca. A fonte que passou a noticia falsa, seguramente por telefone, às emissoras de rádio, agiu de má fé? Segundo os historiadores Getulio deixou a reunião determinando que as forças armadas garantissem a ordem pública e, nesse caso, ele aceitava licenciar-se, ou do contrário os revoltosos encontrariam o seu cadáver no Palácio. A fonte apostou na primeira opção que era exatamente o que a imprensa oposicionista queria e defendia em editoriais. Há de se considerar ainda que as noticias falsas divulgadas pelo rádio ocorreram num contexto de rígida censura.

 Quem liberou? Teria sido o próprio Lourival Fontes, chefe do DIP, o informante, a estas alturas convencido que esse seria o desfecho inevitável? Afinal, foi Fontes quem anunciou oficialmente, às 5:00 a renúncia do presidente. A noticia, naquele momento era verdadeira, mesmo contrariando as determinações de Getúlio. Mas não era verdadeira às 3:35 da manhã quando a rádio Tupi fez o primeiro anúncio, 35 minutos apenas transcorridos do início da reunião de gabinete. E não era verdade quando a rádio Globo a repercutiu, meia hora depois, com trilha sonora de marchas militares para potencializar o impacto do noticiário.

O fato é que as noticias eram falsas, geraram reações populares, tornaram-se verdadeiras a partir das 5:00 para se confirmarem novamente falsas três horas depois quando Heron Domingues anunciou em edição extra do Repórter Esso o trágico desfecho do suicídio. A imprensa jogou nesse tabuleiro da crise e o povo assim o entendeu. Daí as reações do populacho com invasões e depredações de veículos de comunicação principalmente no Rio de janeiro e Porto Alegre. Rescaldo de uma tragédia anunciada pelo seu próprio protagonista.  

Artigo de minha autoria originalmente publicado no jornal Correio em 27/08/2009