Posts por Julho, 2009

O impacto do Zeppelin na mídia brasileira

30 dAmerica/Chicago Julho dAmerica/Chicago 2009

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O sonho de voar feito realidade esteve longe de nós, com exceção da histórica viagem ao mundo do Graf Zeppelin em maio de 1930 que milhares de brasileiros testemunharam de perto. É que acompanhamos as façanhas dos primeiros balonistas no final do século XIX e dos inventores do avião (Santos Dumont e os irmãos Wright) na primeira década do século XX através das revistas, num tempo cronológico distante dos acontecimentos; fatos estes que repercutiram apenas numa camada social privilegiada.

 Muitos anos depois acompanhamos, também através da mídia, a chegada do homem na lua, um acontecimento muito distante de nós, porém de maior impacto graças às imagens em tempo real geradas pela TV. Os protagonistas deste momento histórico estavam no espaço e a equipe que viabilizara a façanha sediada em Houston. A nossa relação com o balão, o avião e o foguete foi apenas midiática.

Diferente foi a nossa relação com o Graf Zeppelin, o gigante voador de 128 metros de cumprimento, que aportou no Brasil em maio de 1930 enlouquecendo multidões que foram às ruas nas principais cidades brasileiras; milhares de pessoas, também, acompanharam a passagem da aeronave das janelas e sacadas de prédios e residências na rota do dirigível. O jornal O Estado de São Paulo empolgado com a repercussão enxergou no acontecimento um bom remédio contra o estresse: “A impressão causada pela travessia produz um bem-estar tão grande que deve ser empregada como cura da neurastenia”. 

Exageros a parte a mídia registrou a passagem do Zepellin através de textos grandiloqüentes e muitas fotos; algumas delas hoje podem ser apreciadas nas bibliotecas e arquivos públicos. A propaganda não deixou por menos e as agências programaram anúncios de oportunidade do Guaraná Antarctica (com o sugestivo título “Um gigante entre os gigantes”, Depurativo Luedy, Cinzano, Ovomaltine, tecidos Indanthren, baterias Barta, Agfa, dentre outros.

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Encarte e cobertura

Nesse contexto duas revistas se destacaram: “Careta” que programou um encarte de 38 páginas encomendada pelo Sindicato Condor que administrava destinos postais e de transportes de passageiros de companhias aéreas e a “Revista da Semana” que estampou magníficas fotos do Graf Zeppelin sobrevoando cidades européias e uma ilustração de página dupla do artista plástico Umberto Della Latta que se permitiu imaginar o dirigível sobrevoando o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. Através de “Careta” ficamos sabendo que a conta do espetáculo saiu de nosso bolso, através de uma verba de 100 contos de reis que o erário disponibilizou com autorização do Presidente da República Dr. Washington Luiz.

A publicação nos informa também da infra-estrutura montada no Recife para abastecer o Zeppelin.Já a “Revista da Semana” destacou os antecedentes de viagens intercontinentais do dirigível, relevando a visita ao Brasil:” É este o dirigível que pela primeira vez vêm ao continente sul americano. O Brasil sabe estimar os esforços hercúleos do velho inventor e seus dedicados sucessores; sabe avaliar as dificuldades a vencer na viagem transatlântica, onde cada vento contrário prolonga o caminho por centenas ou milhares de quilômetros; sabe admirar a tenacidade de um país que, depois de uma guerra terrível em que sucumbiu, surgiu do túmulo e criou maravilhas científicas e técnicas quando tudo parecia perdido.

O Brasil sabe que o Graf Zeppelin é o símbolo dos pacifistas… Salve Graf Zeppelin! Que a rainha de maio te guie seguro até o pais que em recordação do seu filho adotou o nome de Terra de Santa Cruz”.Tempo depois do vôo histórico do Graf Zeppelin pelo Brasil a Companhia Condor viabilizou uma rota regular de transportes de passageiros e até construiu um hangar gigante cuja estrutura ainda existe. Resistiu ao tempo, às intempéries e ao salitre, nas proximidades da Baia de Sepetiba, tombado pelo Iphan. Memória viva da ancoragem da grande nave que segundo a mídia da época requeria 200 homens em pista com cordas para orientar a atracação. A passagem original do Graf Zeppelin nos céus do Brasil foi mesmo a nossa única relação próxima com o sonho de voar. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/07/2009

A imprensa no mundo da lua

24 dAmerica/Chicago Julho dAmerica/Chicago 2009

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Hoje, exatos 40 anos, a imprensa brasileira estava no mundo da lua, literalmente falando, nenhuma alusão às gafes cometidas pelos apresentadores da rede de TV com dificuldades de entender e traduzir o inglês do áudio original na histórica transmissão da chegada do homem no satélite em 20 de julho de 1969. Gafes que, diga-se de passagem, tinham a ver, também, com as alterações no roteiro original da NASA. Os engenheiros de Houston previram um determinado horário para o desembarque de Neil Armstrong, mas foi próximo da meia-noite, após uma longa espera, que o astronauta efetivamente pisou o solo lunar.Como ia dizendo a imprensa brasileira estava no mundo da lua. Não se falava outro assunto desde a semana anterior.

Toda a mídia ligada no grande acontecimento. Millor Fernandez definiu com muito bom humor e propriedade a edição especial de Veja de 23 de julho de 1969 como “Uma edição especialmente lunática” e então recomendava: “Armstrong: seja o primeiro suicida lunar. A idéia não é ficar na história?”. A propósito, as revistas comeram poeira, a julgar pelas manchetes nada criativas: “Chegaram!” (Veja), “O Homem na lua” (O Cruzeiro), “Especial. Mapa da Lua” (Manchete) e “Eis sua viagem à lua” (Realidade). Pecaram nos títulos, mas acertaram no texto, no caso específico de Veja, destacando uma magnífica entrevista com o Dr Von Braum. O criador dos foguetes V2 durante a II Guerra Mundial.

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Os números da cobertura

O Brasil tinha em torno de 70 milhões de habitantes e o mundo estimava a população do planeta em 3,5 bilhões de pessoas. A histórica transmissão televisiva da chegada do homem na lua teria impactado, segundo estimativas da época, 530 milhões de telespectadores. Ou seja, 15% apenas da população. Mas a percepção foi outra já que na Europa, Estados Unidos e Japão, o mundo desenvolvido, a cobertura foi bem abrangente. No Brasil tínhamos 4,5 milhões de aparelhos de TV e uma cobertura estimada em 50% dos domicílios, algo em torno de 35 milhões de habitantes. Assistimos a chegada do homem na lua, em preto e branco, (o sistema de cores seria implantado somente em 1972), com imagens geradas pela NASA, via Embratel que para evitar um colapso nas comunicações e priorizar a transmissão televisiva, desligou o sistema de telex e telefonia DDD e DDI sem avisar à população. Três mil jornalistas credenciados pela NASA assistiram a decolagem do Apollo 11, testemunhado também por um milhão de pessoas presentes.

As grandes redes de TV americanas investiram na informação. A CBS convidou o ex-presidente dos Estados Unidos Lindon Johnson para comentar os aspectos políticos da missão lunar e Arthur Miller e Bob Hope para comentar cenas do cinema com o tema do espaço, exibidas nos intervalos da programação. A rede ABC entrevistou Marshall Macluhan, o teórico da aldeia global; então em evidência a máxima de que “o meio é a mensagem”.

Quanto à televisão brasileira esta deixou a desejar e a tecnologia teve muito a ver com essa cobertura, digamos, modesta. Dependíamos do Intelsat III e de um precário sistema de links terrestres, a partir da estação de Itaboraí recém inaugurada. Falávamos em cobertura via satélite, mas na prática, com exceção de alguns flashes pontuais e da histórica transmissão de 20 de julho, fizemos, mesmo. uma cobertura via telex. Com o estimável apoio da tesoura-press.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 20 de julho de 2009

Michael Jackson: As exéquias-show

10 dAmerica/Chicago Julho dAmerica/Chicago 2009

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Terça feira, após quinze dias de reality- show, na maior cobertura midiática de um funeral de que se tem noticia na história da humanidade, o corpo de Michael Jackson que não foi exibido, provavelmente pela dificuldade de se reconstruir um rosto já deformado em vida, foi sumido. Mais tarde milhares de fãs assistiram uma solenidade-show-fúnebre no ginásio da cidade; populares foram agraciados com ingressos sorteados, alguns dos boletos vendidos na internet por até dez mil dólares. Esse é definitivamente um fato novo para os estudiosos dos ritos da morte. No século XXI, paga-se, e caro, para assistir as exéquias de um grande astro.

O fato é  que os funerais do Papa João Paulo II (2005) e de Michael Jackson (2009) são marcos referenciais da convergência tecnológica: os primeiros grandes funerais da história da imprensa com cobertura multimídia. Um privilégio que a princesa Diana não teve, falecida em 1997. Então a  internet ainda engatinhava e os chamados portais de noticias começavam a ser estruturados, na época com uma proposta de serviços, entretenimento e e-commerce.  Funerais de grandes personalidades sempre foram pautados pela mídia que de alguma maneira alimentou a comoção popular, mas nos casos recentes aqui referidos a convergência tecnológica enriqueceu o show. E no caso específico do Rei do Pop fez também a diferença na divulgação da morte. Um site de fofocas deu o furo que a grande mídia repercutiu, mas por zelo demorou a referendar.

Os grandes funerais

Fico a imaginar como teriam sido os funerais de João Pessoa, Getulio Vargas e Carmem Miranda, para citar alguns dos maiores eventos fúnebres da história do Brasil, em tempos de convergência midiática?  Ou então os funerais de Jonh Kennedy que as circunstâncias da morte transformaram também num show? Ou, por que não, os funerais de Tancredo Neves e Ayrton Senna, estes com cobertura em tempo real, através da televisão, então presente em mais de 80% dos lares brasileiros? O assassinato de João pessoa (1930) foi repercutido pelos jornais, através de telegramas, mas foram as revistas semanais ( Revista da Semana, Fon-Fon e O Cruzeiro) que deram a verdadeira dimensão do fato com a divulgação das fotos do cortejo fúnebre.

A morte de Getúlio Vargas (1954) foi um furo do rádio, mas as circunstâncias do suicídio e os desdobramentos políticos valorizaram a mídia impressa, os jornais diários que extrapolaram nas tiragens. A televisão passou batida, então, com menos de cem mil aparelhos em uso e cobertura restrita ao Rio e São Paulo.Já o assassinato de Kennedy foi um fato radiofônico no Brasil, as televisões apenas exibiriam o vídeo do desfile em carro aberto e o tiro fatal, 48 horas após os acontecimentos, através de fitas de vídeo-tape distribuídas pelas agências de noticias via área. Com Tancredo e Ayrton Senna o show foi televisivo, cobertura em tempo real, a televisão pautando os jornais e as revistas.

Tudo isso é passado diante da convergência de tecnologias que abre novas expectativas em torno da divulgação da morte de um grande ídolo. A noticia do falecimento de Michael Jackson, por exemplo, diferente dos outros personagens aqui referidos, não teve uma fonte oficial; esse é também um fato novo. Relevante, mas não tão assustador quanto a perspectiva (hoje real) de no futuro se cobrar ingresso para assistirmos o show da morte.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Correio da Bahia em 09/07/2009

Michael Jackson: A máscara era de gesso

3 dAmerica/Chicago Julho dAmerica/Chicago 2009

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Michael Jackson deixou de respirar em 25 de junho, mas já era morto para o show-businness, desde meados da década de 90. Passara mais de quinze anos fora dos palcos e pelo menos oito longe de um estúdio de gravação. Michael Jackson não mais existia como artista. Administrava o seu próprio personagem, a representação da “commedia dell’ arte” veneziana: um molde que deveria lhe dar a feição de uma máscara de porcelana, mas que para sua desventura acabou sendo de gesso. Porcelana é barro cozido e misturado e se desfaz em pedaços inteiros quando quebra; o gesso vai sendo roído e vira pó. O menino da “Terra do Nunca”, tarde demais, descobrira que toda escolha implica em perdas.

Michael Jackson queria e precisava ser artista de novo e nesse desejo imaginou congelar o tempo, como na câmara de oxigênio que um dia o fez sonhar com a eterna juventude. Imaginava viver 150 anos. Preparava-se para retornar aos palcos, mas não mais tinha fôlego para tanto.

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Mike Tyson, outra máscara, ainda respira, fala e anda, mas, como Michael Jackson, já é morto. Já era morto em 1997 quando enfrentou Evander Holyfield e lhe arrancou alguns milímetros de orelha a dentadas, desclassificado por isso e punido, mais uma vez. Retornara aos ringues depois de três anos de prisão, cumprindo pena por estupro, acusado pela modelo Desiree Washington. Tyson voltara aos ringues para ganhar algum dinheiro e pagar os credores. A mesma necessidade de Michel Jackson que, segundo informa a mídia, administrava uma dívida de 500 milhões de dólares; parte dela seria saldada com a turnê londrina de 50 shows agendada para este mês.

Tyson e Jackson foram meninos prodígios revelados para o esporte e o show-businnes  precocemente. O primeiro oriundo do Brooklin, o segundo do Harlem, os dois bairros negros de Nova Iorque. Ambos lidaram com a rejeição, o racismo e a pobreza e já adultos transformaram-se em ídolos populares, remunerados com milhões e milhões de dólares. A imprensa exaltou os seus talentos. Mas também os seus conflitos que valeram ao pugilista alguns anos atrás das grades; ao artista vários processos por pedofilia, um deles resolvido mediante acordo financeiro com desembolso de mais de 20 milhões de dólares; o outro julgado a seu favor após longa exposição negativa na mídia.

Mike Tyson admitiu nos tribunais que usou um pouco de força. Michel Jackson declarou que não via mal nenhum em dormir na cama com garotos, seus convidados no rancho Neverland.  

Thriller

Dizem que quando criança Mike Tyson amava os pombos e teria surrado um garoto com chutes e socos até sangrar por ter arrancado a cabeça da ave. Jackson também amava os pássaros e segundo o “Daily Mirror” papagaios e outras aves voariam no palco na turnê “This is it”, prevista para Londres a partir de 13 de julho próximo. O cantor planejava ainda entrar em cena montado num elefante africano, dentre outras excentricidades, e ainda prometia efeitos especiais de clonagem para simular vários Jacksons pelo palco e de certo modo enriquecer a coreografia que já imaginava seria o ponto fraco a ser explorado pelos críticos. No seu retorno em 1997 Tyson poderia se dar ao luxo de cair no segundo, ou terceiro round que o seu cachê estaria garantido e a sua promessa de volta aos ringues seria cumprida. Mas, Michael Jackson, que estava com dificuldades para entrar em forma física e memorizar as coreografias, diferente de Tyson, não poderia cair no segundo ato. Tinha de levar o show até o fim. No mesmo pique, com a mesma energia. Um compromisso assustador. Como o “Thriller”. Então evocou o trecho da música em que escuta a criatura, por que a hora chegou: “ Você fecha os olhos e espera que seja tudo imaginação”.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Correio da Bahia em 02 de julho de 2009