Posts por Abril, 2009

Jornal Nacional: 40 Anos

24 dAmerica/Chicago Abril dAmerica/Chicago 2009

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O “Jornal Nacional” comemora em setembro próximo 40 anos no ar e a Rede Globo já prepara uma programação especial homenageando todas as capitais brasileiras, uma a uma. Referenda as origens do telejornal cujo título nasceu espontaneamente sem a necessidade de uma reunião de pauta com esse objetivo. Conta-se que Alice Maria, então editora do Jornal da Globo que o precedeu, teria desgostado do nome, mas nada ponderou diante do obvio.

A idéia que vinha sendo amadurecida há meses dentro da emissora era, mesmo, fazer um jornal nacional nos moldes dos telejornais americanos. Novidade entre nós que ainda vivíamos a era das “faixas” (transmissão de parte da programação via Embratel, no horário matutino) que já era uma evolução em relação à era do “tráfego” (programas gravados em fitas de vídeo-tape que viajavam pelo Brasil para serem distribuídos).

Com o Jornal Nacional nascia o conceito de rede e uma nova era na televisão e na publicidade. A primeira ganhou a exibição de um telejornal em tempo real, através de um precário sistema de links terrestres, via Embratel. Que funcionava razoavelmente embora alguns desses links, eventualmente, desarmassem no meio do caminho, trazendo complicações aos editores. Assunto resolvido a partir de 1983 quando a operação deixou de ser terrestre para ser espacial, através do satélite. Acabava a era do link de microondas e ingressávamos na era do Intelsat. Mas em setembro de 1969 a publicidade também era impactada. Doravante as agências lidariam com a idéia de custo-benefício a partir do conceito audiência-cobertura. E o mercado se rendia às vantagens de atingir dezenas de milhões de telespectadores.

40 anos da trilha sonora


Do Jornal Nacional original nada ficou, nestas quatro décadas transcorridas, a não ser a trilha sonora baseada no The Fuzz, faixa composta por Frank De Vol para o filme The Happening com o Anthony Quinn. Trilha, ainda hoje usada, após sofrer várias adaptações, pelo menos uma vez exibida no seu contexto original (clássico), quando da cobertura dos funerais do Papa João Paulo II. A vinheta com a grafia JN (primeira vez que um telejornal assumia uma sigla) e o símbolo do globo, em preto e branco, evoluía através da pena de Borjalo, já a cores, em 1972 até se modernizar e ganhar recursos de animação pelas mãos de Hans Donner em 1983.

Em relação aos conteúdos o JN inovou eliminando da pauta a cobertura dos acontecimentos sociais, do interesse dos diretores dos veículos e dos anunciantes, padrão seguido por outros telejornais, incluindo o Jornal da Globo. Mas foi tímido, tinha interesses e muito a perder, em relação aos acontecimentos políticos. Daí não ter exibido na sua estréia as imagens da posse dos ministros militares, após a vacância da Presidência da República, (afastamento por doença de Costa e Silva), que era a noticia do dia. Exibiu no lugar o todo-poderoso ministro da Fazenda Delfim Neto tranqüilizando os brasileiros em relação ao feriado bancário por conta da transição. Segundo Armando Nogueira, em vários depoimentos, em torno deste episódio, a Globo correu atrás das imagens, mas não conseguiu acesso ao Palácio.

Mas se a política era divergente na informação e a audiência um patamar a ser conquistado (a preferência do público era o Repórter Esso da TV Tupi, então apresentado por Gontijo Teodoro) o futebol, paixão nacional, unia os brasileiros em torno do mesmo sentimento. Na estréia do JN o país festejou a exibição do gol 979 do Rei Pelé, feito no dia anterior, contra a seleção do Paraguai pelas eliminatórias para a Copa do Mundo do México. A bola foi na rede e a Globo, abençoada pela coincidência, foi no Ibope.

Texto de minha autoria publicado originalmente no Portal Imprensa em 20/04/2009

A mídia e a intimidade do mosquito

19 dAmerica/Chicago Abril dAmerica/Chicago 2009

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Há duas semanas, o Rio de Janeiro autorizou a invasão de residências por membros da defesa civil e funcionários públicos, com ou sem autorização dos proprietários, para combater focos do mosquito Aedes Egypty, transmissor da dengue em áreas urbanas e da febre amarela em áreas rurais.  Um detalhe me chamou a atenção no decreto assinado pelo Governador Sérgio Cabral, o trecho em que autoriza a invasão dos imóveis “a qualquer hora do dia, ou da noite”. Como no passado, há mais de um século, então vigorando a política sanitarista de Oswaldo Cruz, aprovada pelo Congresso em 31 de outubro de 1.904.

A Lei que passou para a história como da “vacina obrigatória”, na época mereceu o repúdio da imprensa que de alguma forma refletiu, mas também estimulou a revolta popular que resultou em meia centena de mortos e muitos feridos. Um dos argumentos da mídia, naquele tempo, contra a vacina obrigatória, era o de que os agentes sanitários invadiam a privacidade dos lares e desonravam as mulheres expondo-as ao constrangimento de mostrarem para estranhos braços e em particular coxas, partes do corpo sempre encobertas, de público. Senhoras e senhoritas quando passeavam pelas ruas da capital usavam blusas de manga cumprida, mesmo no verão, e longas saias encobrindo os tornozelos.

Daí o desconforto de imaginar que teriam de mostrar as coxas e nádegas para um funcionário público, munido de uma seringa; assunto este explorado pela imprensa com um misto de maledicência e humor, no caso específico das revistas semanais.

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Marido traído

Enquanto os jornais bradavam (”O atentado planejado alveja o que de mais sagrado contém o patrimônio de cada cidadão: pretende se esmagar a liberdade individual sob a força bruta…” Correio da Manha de 07/10/04) as revistas relaxavam, publicando caricaturas e notas de rodapé bem-humoradas. Mas foi Fon Fon, magazine que recém estreara no mercado editorial brasileiro, quem publicou a melhor crônica sobre o assunto em sua edição de capa de 6 de abril de 1909.

Escrita no estilo roteiro, a cena se passa numa residência, à noite; o script retrata uma dona de casa traindo o seu marido. O amante já ajeitava o colarinho e a gravata para ir embora quando o esposo bate na porta. “Meu Deus, estou perdida! Deve ser o Anastácio” diz a mulher. O amante retruca: “Poderias ter dito nos estamos perdidos! Vês o egoísmo das mulheres!”.

A essas alturas o cronista narra o nervosismo do casal e a iniciativa do amante que pede à mulher para tirar o peignoir (espécie de camisola) e ficar de saia de baixo e corpete, em trajes íntimos. Ela idealiza que é para morrerem juntos e concorda com a idéia. Ele, por sua vez, tira uma seringa do bolso. Então, segue-se o seguinte diálogo:

-O marido (brandindo a bengala): Vou matá-los
-O amante: Meu caro senhor previno-o, desde já, que o processarei por desacato a um funcionário público no cumprimento de suas atribuições.
-O marido: Quem é o senhor?
-O amante: O médico encarregado da vacina obrigatória.
-O marido: A estas horas?
-O amante: Perfeitamente. É tanta a gravidade que de dia só podemos atender ao povinho
-O marido: E por que não abriram logo a porta?
-O amante: Pois o Senhor queria que se perdesse o precioso remédio? Reflita um pouco. Era possível?
-O marido: Como sou besta! Desculpe, doutor. Não se incomode, pode continuar.
-Ela: (muito baixinho) Adoro-te!

Um século transcorrido desta bem-humorada crônica de costumes de Fon Fon que expõe os conflitos da época em torno da invasão da privacidade, os jornais não mais se incomodam com os excessos da autoridade, por mais nobres que sejam os propósitos. O Decreto do Governador Sérgio Cabral visa proteger a população, mas precisava “a qualquer hora do dia, ou da noite”.? O redator excedeu-se, já que a Prefeitura não vai agir de madrugada, e a imprensa comeu mosquito. 

Artigo de minha autoria publicado originalmente no Portal Imprensa em 13/04/2009

Moreira Alves: Cabeça a premio

9 dAmerica/Chicago Abril dAmerica/Chicago 2009

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Em 1º de novembro de 1968, o jornalista e deputado Marcio Moreira Alves, falecido na última sexta feira, não dormiu na sua residência, às pressas transferido para a casa de um outro companheiro do Parlamento. Medida de precaução diante do boato de que ele e mais o seu colega de profissão, e também da casa legislativa, Hermano Alves, seriam seqüestrados nessa noite por forças clandestinas de segurança.

A informação partiu de uma fonte militar não identificada, o parente de um deputado, segundo informavam os jornais do dia seguinte que também destacavam a escolha da data para o ato planejado, de maneira a coincidir com a chegada da Rainha Elizabeth da Inglaterra ao Brasil. É claro que as providências tomadas pelos jornalistas e pelo Presidente da Câmara José Bonifácio, acionado pelo MDB, abortaram o suposto seqüestro, se é que o boato não era pânico e tinha algum fundamento.

O discurso e a crise


Pânico na verdade era o sentimento que, então, prevalecia em alguns setores políticos diante das ameaças de fechamento do Congresso que o regime reiteradamente anunciava através de fontes militares, em seguida desmentidas pela Presidência da República que garantia à opinião pública, através da imprensa, que não cogitava essa medida extrema. A boataria, em todo caso, era o resultado de um clima de tensão reinante desde 09 de outubro do referido ano quando o Ministro da Justiça anunciara que pediria à Câmara dos Deputados licença para processar os jornalistas- parlamentares Hermano Alves (que incomodava o regime com artigos no Correio da Manhã) e Márcio Moreira Alves pelo discurso considerado ofensivo às forças armadas, proferido em setembro.

Mas, por algum motivo o Governo deixou de lado Hermano para centrar a sua ofensiva em torno de Moreira Alves, desde então o pivô de uma crise institucional cujo epílogo seria a decretação do AI5 em 13 de dezembro.

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Não namorar fardados


O polêmico discurso de Moreira Alves ( que tanto incomodou o regime) passou para a história como uma recomendação para que os brasileiros boicotassem o tradicional desfile de Sete de Setembro e esse era o seu contexto geral, mas, na minha opinião, é nos detalhes que estava o veneno como neste trecho, por exemplo: “Esse boicote pode passar também, sempre falando de mulheres, às moças. Aquelas que dançam com cadetes e namoram jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje, no Brasil, que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas. Recusassem aceitar aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam”.

Ou seja, Moreira Alves recomendava com todas as letras que os pais de família não permitissem a paquera de suas filhas com militares como se militar fosse uma casta maldita. O discurso estigmatizava a farda e segregava a classe.

Licença na marra


O fato é que o Governo, pressionado pela caserna, pediu a cabeça do jornalista-deputado através dos meios regimentais (licença para cassação do mandato) confiando na tradição do Congresso nessa matéria, em situações semelhantes. Ainda estava viva na memória de veteranos políticos o episódio de 1936 quando Getulio Vargas usara da mesma prerrogativa e o Parlamento entregara de bandeja as cabeças dos jornalistas-deputados João Mangabeira, Hermes Lima, Domingos Velasco e mais a do jornalista-Senador Abel Chermont, então, processados, condenados e presos. O Ministro da Justiça, confiante nessa docilidade do Congresso, negociava o pescoço de Moreira Alves e teria sido bem sucedido se o Governo não tivesse esticado a corda demais trocando os membros da comissão que avaliava o caso para garantir uma votação favorável. Garantiu na comissão, na marra, mas perdeu no plenário.

O fato é que durante dois meses a crise institucional foi o assunto relevante da imprensa, alimentada por forças políticas de situação e oposição, radicalismo de ambas as partes para atender interesses e cujo desfecho final seria o fechamento do Congresso e a decretação do AI5. O discurso de Moreira Alves tinha sido o pivô, mas era apenas um pretexto do regime que muito antes disso já articulava, na surdina, a emissão de um ato institucional definitivo, sem firulas democráticas, no melhor estilo do “Estado de Sitio” permanente. Nesse sentido, o jornalista foi o divisor de águas: a sua cabeça à prêmio determinou a nova cara da ditadura, doravante se assumindo de fato.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 06/04/2009. Foto ilustrativa do site Márcio Moreira Alves (O jornalista com o Chê Guevara e Rubens Braga em Cuba)

A reportagem veneno de Joel Silveira

6 dAmerica/Chicago Abril dAmerica/Chicago 2009

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Grã-Fino” era sinônimo de arrivista, expressão cunhada pela imprensa nos anos 40 para se referir aos nouveaux-riches, fortunas construídas com pouco trabalho e muito glamour, gente espalhafatosa, exagerada, capaz de pendurar uma melancia no pescoço para aparecer nas colunas sociais. O neologismo afrancesado era pura chacota e refletia o pensamento de famílias tradicionais, incomodadas com o barulho dessa turma e ao mesmo tempo enciumadas com a facilidade de se projetar na mídia. Muitos anos depois a mesma imprensa os chamaria de “emergentes”, expressão igualmente pejorativa.

O fato é que o surgimento do Grã-Finismo como fenômeno social teria passado batido na imprensa brasileira não fosse a verve irreverente do repórter Joel Silveira , em 1943, escalado pela revista Diretrizes para retratar a finesse dos salões paulistanos.  O resultado foi uma reportagem contundente e uma reação à altura dos personagens que se sentiram injuriados.

Durante uma semana o repórter visitou bares, restaurantes, salões de chã de São Paulo, entrevistou grã-finos, leu com atenção as colunas sociais e compareceu a algumas festas; extraindo dessa sua experiência observações que transcreveu no papel com muita ironia, num estilo cáustico, devastador.  Silveira começa a sua matéria traçando um panorama dos ricos paulistanos: “Os milionários são muitos… Uma noite no Jequiti-bar conheci alguns deles: o milionário Lafer, o milionário Pignatari, o milionário Matarazzo, o milionário Crespi… Era um grupo terrível, avassalador. Com um gesto de mão qualquer um deles poderia me aniquilar. Mas os milionários apenas sorriam e bailavam com as mulheres, todas muito belas. É noite e São Paulo rico está reunido ali na pista”.

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Industrias Matarazzo

Coisas inúteis
Então descreve os seus hábitos: “Durante o dia as mulheres fizeram coisas inúteis: acordaram tarde, almoçaram em bloco, jogaram pif-paf, compraram a revista Sombra, tomaram chã na livraria do Jaraguá, jantaram no Popote e falaram das amigas. Os homens ganharam dinheiro. Alguns não fizeram muito esforço para isto: apenas assinaram papéis. À tarde foram ao Automóvel Clube, um lugar triste como um cemitério. Perderam algum dinheiro em jogos inocentes. Mas o que perderam não representa uma humilde fração dos lucros que conquistaram durante o dia… O Jequiti é o mar noturno onde todos se encontram… um ponto de reunião do grã-finismo, um ponto onde Fifi marca encontro com Lelé para falar mal de Zuzu”.

O repórter arrisca definir as castas da grã-finagem paulistana que, no seu faro observador, seriam quatro: “O primeiro grupo é formado pelos grãs-finos de pedigree, os tais paulistas de quatrocentos anos. São criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores sem muitos escrúpulos… Circulantes de jóias as senhoras do segundo grupo, o grupo reserva, tem olhos derramados sobre a gente de pedigree. É o grupo das filhas dos italianos ricos… Mas há um terceiro grupo lamentável e melancólico… gente que nasceu de família recente, de médicos de Barreto ou comerciantes de Bauru… As mulheres sacrificam os maridos, fazem milagres no orçamento contanto que se tornem dignas do Roof, ou do Jequiti. É o grupo do estribo e do penacho, as mulheres usam terríveis penachos…”. Ao quarto grupo, o dos poetas e literatos Silveira despensa comentários mais amenos, mas não deixa de apontar o seu estilo “recitativo” e petulante.

A víbora
A crônica-reportagem de Joel Silveira teve enorme repercussão com reação de alguns dos mais de 30 nomes citados de empresários, madames e intelectuais e artistas inseridos na grã-finagem (poupa apenas Di Cavalcanti e releva as circunstâncias de Oswald de Andrade), uma reação que chamou a atenção de Assis Chateaubriand que nele enxergou um instrumento para seus propósitos: “Quero a víbora trabalhando aqui comigo”.

Silveira relutou inicialmente, porém, desempregado (a revista Diretrizes tinha fechado as portas e o DIP andava no encalço de alguns jornalistas) aceitou a oferta, “mas com uma condição contratual: não pode me chamar de filho de puta”. Dois anos depois da matéria sobre o grã-finismo o repórter volta ao mesmo cenário, escalado para uma reportagem com o mesmo teor e muito mais veneno: a cobertura do casamento da filha do Conde Matarazzo com João Lage que descreve a partir da narrativa de uma fonte privilegiada, um dos convidados à chamada “festa do século”. Silveira era usado por Assis Chateaubriand para se vingar do Conde que lhe negara uma grana, um desses empréstimos que o dono dos Associados costumava solicitar de grandes empresários brasileiros para pagar a perder de vista, ou perder para sempre.

E assim o Diário da Noite publicava reportagem de página dupla: à direita o casamento da filha do Conde, à esquerda com o mesmo destaque, ordem do patrão para pirraçar o industrial (então, a maior fortuna do Brasil) o casamento de um operário da fábrica Matarazzo, realizado no subúrbio, entre gente humilde. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 23/03/2009