Posts por Março, 2009

Os pecados dos bispos

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O bispo de Olinda Dom José Cardoso Sobrinho foi impiedoso, Deus é testemunha, ao ex-comungar a menina grávida de gêmeos no Recife, nove anos de idade , e mais os seus familiares e a equipe médica que realizou o aborto dentro da lei e seguindo os procedimentos médicos recomendáveis para este caso. Além de impiedoso Dom José cometeu dois dos sete pecados capitais : o da soberba ( ou arrogância) e o da vaidade, pois é claro que as motivações da excomunhão tem mais a ver com a sua exposição na mídia do que com o cumprimento do direito canônico. Afinal, não há registros nos anais de sua paróquia de que o bispo tenha aplicado a pena às 2.442 mulheres que o ano passado, oficialmente, realizaram o aborto nas maternidades do Recife. Dom José pode dormir tranqüilo. Os seus pecados serão perdoados, mediante confissão, após um sincero arrependimento. Quando as câmeras de TV não mais estiveram apontando o foco para Olinda, será mais fácil praticar esse ato de contrição.

Mas, a soberba não é defeito apenas do nobre arcebispo aqui mencionado e de outros bispos midiáticos, neste século da informação. E se hoje o pecado capital faz vítimas entre crianças inocentes, no passado atingia empresários, políticos e até jornalistas. Naquele tempo uma simples divergência pública com o prelado de plantão era o suficiente para que o bispo aplicasse a caneta, interpretando a seu modo (de acordo com seus humores) o direito canônico, incorrendo num outro pecado, o da vingança que é um efeito da ira. Um desses bispos de sangue inflamado foi o Cardeal Primaz do Brasil Dom Augusto Álvaro da Silva, homem muito culto, segundo seus biógrafos, mas pouco expansivo e que não admitia ser contrariado. Durante o exercício do arcebispado excomungou os jornalistas Altamirando Requião (tio avô em segundo grau do governador do Paraná) e José Augusto Berbert de Castro que se ufanava dessa sua condição e até escreveu um livro sobre o assunto: “Memórias de um Ex-excomungado”.

Mandou fazer penitência

A birra de Dom Augusto com Altamirando Requião, então o jornalista baiano de maior prestígio, se deu em função de um artigo assinado pelo diretor do Diário de Noticias, em 1933, onde criticava atitudes do  padre Ricardo. Este, sentindo-se ofendido, foi à justiça, com o endosso do Cardeal e num outro jornal publicou um manifesto de apóio, com a sua versão dos fatos, assinado por 38 padres. Altamirando que tinha sangue quente nas veias não pensou duas vezes e abriu na justiça um processo de difamação contra o Cardeal, o padre Ricardo e mais 38 padres solidários. Vitorioso, após meses de polêmica nos dois jornais de maior circulação, “absolveu” ele próprio os prelados “perdoando seus ofensores” ,ao mesmo tempo recomendando ao Cardeal da Silva;  “Reze, reze, D.Augusto, o salmo de Miserere, três vezes, de joelhos, em penitência do grande e injusto mal que quis acontecido”. A provocação resultou no ato de ex-comunhão, provavelmente revogado, já que ambos eram personagens influentes na Bahia e sabe-se que acabaram reconciliados.

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Muitos anos depois desse episódio Dom Augusto ex-comungou o jornalista José Augusto Berbert de Castro, crítico de cinema do jornal A Tarde durante 40 anos, e que se dizia ateu. Ato, se não estou errado, revogado nos anos 80 pelo Cardeal Dom Avelar Brandão Vilela, irmão do Senador Teotônio Vilela.  Berbert  de Castro, falecido o ano passado, tinha orgulho dessa sua condição de ex-comungado, brincava com isso e chamava a atenção para o paradoxo de ser o parente de uma santa: a Irmã Dulce.

Nos dois casos aqui relatados a soberba falou mais alto do que as Leis de Igreja com o agravante do prelado que  extrapolou as suas funções ser a maior autoridade da igreja brasileira no seu tempo: o Cardeal Primaz. Mas, bispos a parte, padres também usavam dessa “prerrogativa” para punir jornalistas. Cito aqui dois episódios  que tiveram alguma repercussão, apesar do obsequioso e conveniente silêncio da imprensa que não queria bater de frente com o quinto poder.Um deles foi a ex-comunhão do escritor e jornalista Mario Donato, celebrado como autor de “Presença de Anita” , o romance adaptado para a TV por Manoel Carlos exibido pela Globo há alguns anos, no formato de mini-série. O livro, tido pela igreja como indecente, motivou a sua ex-comunhão em 1948.

Já na década de 50 a vitima da ira da igreja  foi o  jornalista gaúcho  João Baptista Marçal, pesquisador da imprensa operária do Rio Grande do Sul, então um jovem de idéias de vanguarda que divulgava pelo rádio , segundo o padre que o puniu, mentor de uma greve no seu município. Foi o bastante para que o padre de Quaraí o ex-comunga-se durante o sermão da missa dominical, na presença dos fiéis para marcar posição. O fato é que padres e bispos por razões políticas, orgulho, soberba, aplicaram a maior das punições previstas no código canônico, nos episódios aqui relatados. Até o cantor Odair José, 1978, foi alvo desse julgamento sumário eclesiástico, ex-comungado por gravar e divulgar o disco “O filho de José e Maria”. Cá entre nós, que ninguém nos ouça, desta vez a igreja agiu certo. O disco era ruinzinho mesmo. 

Imagem de referência: Ex-comunhão de Martin Lutero. Texto de minha autoria publicado originalmente no Portal Imprensa em 09/03/2009

40 anos da TV em tempo real

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Em 28 de fevereiro de 1969, quarenta anos transcorridos no último sábado, o mundo ficava mais perto do Brasil que, então, ingressava na era das telecomunicações via satélite. Um marco referencial na história da televisão com grande repercussão na época apesar do minguado entusiasmo dos telespectadores e mesmo dos proprietários das emissoras de TV que apenas enxergavam a planilha de custos do novo sistema. Custos elevados que a publicidade não podia pagar e isso não era previsão, mas fato consumado: as agências de propaganda não conseguiram vender uma cota sequer para cobrir os 750 mil cruzeiros novos desta transmissão pioneira.

O fato é que na referida data os brasileiros assistiram ao “vivo”, via satélite, as palavras de saudação de Sua Santidade o Papa Paulo VI, gravadas na véspera, num português bem ensaiado. E logo em seguida cenas de um jogo do Juventus, também gravado e editado, estratégia das emissoras para chamar a atenção sobre as possibilidades do satélite, de olho na Copa do Mundo a ser realizada no ano seguinte. Encerrando a transmissão era exibido, direto de Washington, um documentário sobre a História das Comunicações.

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Mas, nem tudo foram cenas gravadas em video-tape.  O repórter que as apresentava, Hilton Gomes, esse sim falava em tempo real, direto de Roma, postado em frente ao Coliseu; então destacava o momento histórico: “Esta é a primeira reportagem internacional via satélite para o Brasil, inaugurando oficialmente, o Intelsat III, numa transmissão em cadeia para todo o país, comandada pela Embratel”. O fato era maior do que o resultado, já que o telespectador não percebia nenhuma diferencia do ponto de vista de qualidade da imagem. E se as circunstâncias acenavam para a idéia de um jornalismo mais ágil com maior incidência do noticiário internacional, logo a realidade dos custos elevados e da geração, operação e distribuição de conteúdos, através de um colegiado, encarregava-se de esfriar os ânimos.

O grande cilindro

A revista Veja, edição de 5 de março de 1969, em matéria de capa intitulada “O mundo em sua casa”, já previa esse desencanto em torno da novidade: “O mundo começou a ficar menor para os brasileiros desde sexta feira passada, quando as imagens de Paulo VI e cenas de Washington e Roma chegaram a nossos aparelhos de TV. Para as emissoras de TV, a alegria tinha, porém, o seu lado de sombra: eles bateram recordes de audiência e ao mesmo tempo se interrogaram se poderiam utilizar sempre esta maravilha, tão cara… As emissoras estão apáticas em relação ao satélite, não tem planos para ele, salvo para as transmissões da Copa do Mundo, no México. E na verdade seus sonhos são mais modestos: deverão falar antes para o resto do país antes de se entender com o mundo… O grande cilindro brilha no céu, mas a experiência ensina que os problemas se resolvem, antes de mais nada, em terra firme”.

O grande cilindro referido pela publicação era um satélite que flutuava a 36 mil km de altura sobre as costas do Ceará, ligando a estação de Itaboraí (RJ) aos 63 países que então integravam o consórcio Intelsat. O Brasil era um dos primos- pobres, signatários do Comsat que administrava o satélite, com 1,5 das ações. 55% do capital era americano, 25% dos países Europeus e 20% de países latino-americanos e asiáticos, todos alinhados com Washington. E se um muro em terra separava o mundo em duas bandas, no céu não era diferente: os russos constituíam o Intersputnik, consórcio com 14 países filiados.

Com 1,5% do capital constituído, nenhuma influência na administração (todos os diretores eram americanos) e praticamente nada para exibir ao mundo (a Veja ponderava “a não ser os festivais de canção e grandes jogos de futebol”), o Intelsat III na prática seria um elefante em casa de porcelana, salvo na histórica transmissão da chegada do homem na lua em 20/07/69 e na cobertura da Copa do Mundo, no ano seguinte, eventos que justificaram a sua existência.

Apenas simbólica

De modo que a primeira transmissão via satélite da TV brasileira (1969) teve uma importância apenas simbólica, assim como a primeira transmissão a cores (1972) e em tempos recentes (2007) a primeira transmissão digital. Marcos referenciais de uma nova tecnologia, mas sem nenhum impacto junto à audiência. Cinco anos se passariam para que o Brasil realmente ficasse integrado ao mundo em tempo real. Somente em 1974 nos livrávamos do SIN (Serviço Ibero americano de Noticias) e das ingerências políticas e administrativas do Comsat para receber, a preço de ouro, imagens via satélite da UPI.Muitas águas tinham corrido desde as imagens pioneiras de Roma e Washington. Nesse ínterim o Brasil instalara o seu sistema de telefonia em DDD e o conceito de rede nacional de TV já era uma realidade.

O avanço das comunicações se dera a passos largos deixando para trás um cenário do atraso que a matéria de Veja aqui citada assim descrevera: “O satélite de comunicações chega para encontrar um país onde um brasileiro de Pelotas, RS, ao ligar para um brasileiro de Florianópolis, SC, terá que chamar a telefonista de sua cidade que chamará a do Rio, que chamará a de São Paulo, que chamará a de Curitiba, que chamará a de Florianópolis, que chamará a pessoa”. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 02/03/2009