Posts por Fevereiro, 2009

Jornais carnavalescos: A mídia do deboche

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O Carnaval sempre foi um bom negócio para o comércio, mas também para a mídia que cedo descobriu o seu potencial mercadológico, ainda no século XIX , desde o lançamento do “Facho da Civilização” (1871) na capital do país, a primeira de centenas de publicações impressas e veiculadas no período das festas consagradas ao Rei Momo. Não apenas no Rio de Janeiro, mas também na Bahia, no Recife, Fortaleza , Belem e Santa Catarina… O carnaval era nas suas origens manifestação espontânea  com o lundú como gênero musical preponderante.

Mas logo achamos de adotar um modelo similar ao de Veneza com seus foliões mascarados e o desfile pelas ruas da cidade em carros alegóricos. Em nosso caso, adaptados em pranchas de bonde que era esse o único veículo de grande porte existente na época. Nesse contexto o comércio desenvolveu uma gama de produtos específica para o Carnaval: confetes e serpentinas, máscaras e adereços, fantasias, sapatos e sapatilhas, sombrinhas, chicotinhos e abanos…

Mais tarde veio a indústria com seus lança-perfumes de cheiro  semelhante ao “L’ air du temps” de Nina Ricci, a matéria prima era o cloreto de etila e uma base de violeta sintética. Produtos estes fabricados pela Rhodia e pela Bayer. A mídia popularizou marcas como Alice, Rodo, Flirt, Rigoletto, dentre outras. O lança perfume cumpria o papel de preliminar da paquera, o flerte embalado numa fragrância que narinas mais sensíveis um dia acharam de cheirar e deu no que deu. Nos anos vinte a indústria de bebidas alcoólicas descobre o filão e com ela a indústria do fumo e o Carnaval que era uma brincadeira torna-se “bussines” e daí por diante um commodite midiático, a partir da década de 80 exportado para o mundo.

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Fenômeno brasileiro

O fato é que o nosso país foi o único no mundo a desenvolver uma mídia específica para as festas de momo. Os jornais carnavalescos, segundo José Ramos Tinhorão que catalogou 176 títulos no seu livro ” A imprensa carnavalesca no Brasil”,  é um fenômeno exclusivamente brasileiro; o pesquisador  faz a ressalva em relação a Portugal onde encontrou  entremeses editados em linguagem e folhas de cordel durante o século XVIII, com o entrudo como tema. Muito distantes, contudo,  quanto à forma, conteúdo e intenção da imprensa periódica tupininquim, caracterizada justamente pela variedade temática. Na Bahia, onde resido, tive a oportunidade de pesquisar em torno de vinte periódicos do gênero, chama a atenção o seu apelo mercadológico muito forte, alguns assumidamente comerciais, ostentando o título da casa comercial patrocinadora. Tiragens, reais ou superdimensionadas, de até 100 mil exemplares, segundo informa o expediente.Essa imprensa carnavalesca em formato de jornal ou revista, ou mesmo folha avulsa semelhante ao panfleto, tinha periodicidade condicionada à festa.

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 Circulavam uma ou meia dúzia de edições, sempre no período momesco. Antes (a maioria)durante, e até depois. Mas, enquanto a mídia periódica específica (em sua maioria de distribuição gratuita) reinava soberana e tinha um foco comercial ou de entretenimento bem definido,  a grande mídia aos poucos descobria que a festa poderia lhe render bons lucros. E esse lucro veio com a publicidade (anúncios de bazares, lojas de moda, cigarros, cerveja, vinhos, remédios para dor de cabeça, instrumentos musicais, rádios e radiolas e sua versão toca-discos …) E a partir dos anos 70 com a formatação do próprio produto em formato de espetáculo para venda interna e externa.No século XIX e inícios do século XX os títulos carnavalescos reportavam-se a blocos ou símbolos da festa que já era assumidamente pecado.

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Nomes como Farpas Fenianas, Deus Momo, Esmeralda, Diabo da Meia Noite, Azucrim, O Diabinho, Bocaccio, Chichisbeo, Echo da Tagarelas, Troça, Risada, Espirro, O Dedo, A Matraca, Casa da Sogra, O Liso, A Rosca, Mephisto, O Urubu, O Aranha, O Corta-Jaca, É Da Pontinha, O Amor Tem Fogo, Rabo Escondido… Hoje o gênero não mais existe. O seu conteúdo foi incorporado por jornais, revistas e sites, num outro contexto, onde prevalece o culto à personalidade e o marketing de relacionamento como pilares da informação-entretenimento. E como no passado continuamos a ser um fenômeno midiático em relação ao tema: nenhum outro carnaval do mundo tem o generoso espaço na mídia que o Brasil disponibiliza a leitores, ouvintes  e telespectadores. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 16/02/2009

Evo Morales e o liberal Karl Marx

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Evo Morales anuncia para breve o lançamento de um jornal estatal na Bolívia, um veículo de comunicação impresso “para divulgar a verdade”, enfatiza o mandatário, a se contrapor ao discurso oposicionista da mídia tradicional que não morre de amores pelo presidente de origem indígena. O que Evo Morales não diz é que “a verdade” é a palavra oficial do governo, ou seja: propaganda.Também não diz, ou talvez não tenha noção, o que um projeto dessa índole representa. Ou seja, que as chances de um jornal com esse intuito editorial dar certo são praticamente nulas. A não ser que siga a fórmula tradicional consagrada pela história, a Rússia e o Pravda o melhor modelo, de se cercear num primeiro momento e suprimir a médio prazo a imprensa da iniciativa privada: impor o noticiário único e eliminar a diversidade. E no caso específico da Bolívia, necessário será alocar recursos do erário para distribuir ou subsidiar o veículo, de modo a atingir índices de leitura razoáveis.

A iniciativa do ex-lider cocaleiro que se insere numa proposta maior de socialização da mídia me trouxe a lembrança do pensamento de Karl Marx (quer se contrapõe a isso tudo, embora o seu nome seja evocado como referência) nos primórdios de sua atividade intelectual, então com 23 anos de idade, expresso em memoráveis artigos originalmente publicados no Rheinische Zeitung.  Mais tarde reproduzidos em jornais americanos e ingleses e reunidos em livro, editado no Brasil pela L&PM Editores, em 1999.

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Marx debate os conceitos de censura e liberdade de imprensa e então traça um perfil da mídia oficial, a mesma que Morales celebra como uma grande conquista social: “O governo ouve somente sua própria voz; sabe que ouve somente a sua voz; entretanto tenta convencer-se de que ouve a voz do povo, e exige a mesma coisa do povo. O povo, portanto, cai parcialmente numa superstição política, ou isola-se totalmente da vida política, tornando-se uma multidão privada”.

Homem castrado

Num outro artigo Marx qualifica os efeitos da censura: “Uma imprensa censurada é ruim mesmo se produzir bons frutos…um homem castrado sempre será um mau macho, mesmo se tiver uma boa voz… Uma imprensa livre é boa mesmo quando produz frutos ruins… A natureza continua sendo boa, mesmo se produzir abortos”. Mais adiante avalia a sua inconsistência: “A censura é a crítica como monopólio do governo. Mas a crítica não perde seu caráter racional quando não julga partidos, mas transforma-se em partido? Quando quer criticar, mas não quer aceitar críticas? Quando, finalmente, é tão pouco crítica que confunde
ditames do poder com ditames da razão”.

Então revela a sua própria natureza: “A censura não é uma lei, mas uma medida policial, uma má medida policial, porque não consegue o que quer, nem quer o que consegue”.Nessa mesma linha de raciocínio Karl Marx faz um desafio: “Porque nenhum Estado tem a coragem de formular através de princípios legais e universais aquilo que os censores fazem na prática? “.  Justifica: “é por isso que a administração da censura é confiada, não aos tribunais, mas a polícia”. E acrescenta: “a censura é uma medida precatória da policia contra a liberdade… A lei de imprensa pune o abuso da liberdade. A lei da censura pune a liberdade como se fosse um abuso”. Então, questiona o conceito de liberdade vigiada: “A lei da censura é uma lei suspeita contra a liberdade…Mas, em todas as esferas não é considerado uma ofensa à honra estar sob vigilância domiciliar? “.

Imprensa é o cão de guarda

O notável pensador alemão não deixou passar o debate em torno dos abusos da imprensa e a idéia em torno disso de que a mesma deve sofrer algum tipo de intervenção do Estado, como um organismo doente que deve ser assistido:  “A censura sequer é um bom médico… E apenas um cirurgião que só conhece um remédio…as tesouras. E nem sequer é um médico que tem como objetivo a saúde. É um cirurgião esteta que considera supérfluo no corpo tudo que ele não gosta”. E conclui: “Todos os dias a censura corta a carne de indivíduos intelectuais e deixa passar somente corpos sem coração, corpos sem reações, apresentado-os como saudáveis”. Marx aponta os seus efeitos nocivos: “A censura transforma todos os escritos proibidos, bons ou ruins, em artigos extraordinários”.

O pensamento de Karl Marx à respeito da imprensa, pelo menos nesta fase embrionária de sua produção intelectual, deve causar arrepios aos profetas de uma mídia, sob supervisão do Estado, ou algum tipo de controle. É o pensamento de um liberal, os mesmos princípios que nortearam os reformadores da primeira emenda na Constituição americana. Alguns anos depois, em 1849, Marx defendia-se nos tribunais da acusação de ter cometido o delito de injúria contra as autoridades, ele então editor do Neue Rheinische Zeitung e perante o juiz não mediu palavras de sua convicção quanto ao papel da mídia: “A função da imprensa é ser o cão de guarda público, o denunciador incansável dos dirigentes, o olho onipresente, a boca onipresente do espírito do povo que guarda com ciúme sua liberdade”. Ou seja, Tudo que um jornal do Estado não pode, realizar. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 24/01/2009