Posts por Janeiro, 2009

O preconceito dos historiadores com a Gazeta do Rio de Janeiro

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É injusta e preconceituosa a imagem construída pelos historiadores em torno da Gazeta do Rio de Janeiro. Imagem esta que prevalece no ensino de história do jornalismo nas universidades brasileiras e se dissemina pela internet em trabalhos de conclusão de curso, monografias e teses de mestrado que multiplicam a informação, no mínimo, mal fundamentada pelos autores chamados clássicos, dentre eles Nelson Werneck Sodré, autor de “A História da Imprensa no Brasil”, seguramente o mais citado e o maior responsável pela má reputação de nosso jornal pioneiro.

Sodré que não leu as coleções do jornal e foi influenciado por outros autores (em particular J. Armitage/História do Brasil) na sua avaliação biliar em torno do referido periódico, impugnou à Gazeta rótulos que não correspondem à realidade e que pelo seu peso vernacular acabaram se tornando clichês de mau agouro. Rótulos como o de “jornal áulico” ou “diário oficial”; pior as apreciações de: “pobre papel impresso”, “arremedo de jornal”, “embrião de jornal”, “insípida”, dentre outras considerações.

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Nelson Werneck Sodré

O fato é que os historiadores estabeleceram uma leitura peculiar da Gazeta que em parte contribuiu para fortalecer as avaliações preconceituosas aqui referidas. Autores que não leram as coleções disponíveis em nossos arquivos e bibliotecas públicas, já que esse não era o objetivo primário de sua pesquisa e assim estipularam uma linha de corte, em torno de um período específico do jornal (1821/22) marcado pelos acontecimentos políticos. O embate de idéias em torno da Independência do Brasil é a linha de corte preponderante e nesse viés julga-se o todo pela parte, assim mesmo num contexto partidário (onde os vencedores fazem a história) que não se justifica. Nesse contexto, condena-se ou deprecia-se a Gazeta, enquanto se enaltece o Correio Braziliense, um contraponto que a rigor não teria parâmetros já que o primeiro é órgão informativo e o segundo de opinião.

Percepção distorcida


As alcunhas de “áulico” e “diário oficial” com toda a carga pejorativa que Sodré impugnou à Gazeta do Rio de Janeiro não correspondem à realidade.  A percepção que ficou dessa qualificação é a de que o jornal apenas bajulava a corte e publicava os atos oficiais do governo. Uma percepção agregada dessa avaliação induz, ainda, os pesquisadores e estudantes a acreditar que era uma publicação de menor categoria quanto à técnica e conteúdo.
Se a Gazeta era, na avaliação de Sodré, um “pobre papel impresso”, também eram os seus concorrentes e isso o autor não diz, considerando o padrão gráfico, atualidade da noticia, formato e número de páginas, acesso às fontes… A Gazeta do Rio de Janeiro não era melhor, nem pior do que a Idade D’ouro do Brasil, Semanário Cívico, O Constitucional, Revérbero Constitucional Fluminense, Aurora Pernambucana, O Espelho ou A Malagueta. 

Em todo caso diário oficial e jornal áulico, no sentido estrito das palavras, a Gazeta do Rio de Janeiro com certeza não era. É só ler as edições e conferir. Do ponto de vista quantitativo estes dois temas (a dita bajulação da corte e atos oficiais do governo) correspondem juntos a menos de 10% do conteúdo editorial do jornal, pelo menos no período 1808-1811, edições que conheço e posso afiançar o que digo. São temas estranhos ao dia-a-dia da publicação e quando abordados, com raríssimas exceções, sempre nas páginas internas, sem maior destaque. A prioridade naquela fase inicial era a cobertura da guerra na Europa.

E isso não é nenhum defeito, conforme arrolado pelos historiadores que definem essa opção da gazeta pelo noticiário internacional como “intermináveis relatos”, “cansativos feitos”, e há quem a chame por isso de “periódico sensaborão”.

A verdade é que todos os jornais do mundo, naqueles idos, cobriam a guerra européia e todos contavam com as mesmas fontes, as malas de correspondência que as embaixadas dos países envolvidos no conflito faziam circular nos portos amigos. E no caso específico da Gazeta do Rio de Janeiro a opção pelo noticiário internacional é corretíssima. O seu público alvo era o funcionalismo público e os comerciantes, em sua maioria cidadãos portugueses que residiam no Rio de Janeiro, não por gosto, mas pelas circunstâncias da diáspora provocada pela invasão das tropas napoleônicas em Portugal. Ou seja, gente que vivia no Brasil provisoriamente, tinha família e bens na Europa e sonhava com retornar a seu país de origem, logo que re-estabelecida a paz.

Reduzir o papel da Gazeta do Rio de Janeiro ao de um “diário oficial” é grave injustiça que precisa ser corrigida. Impugnar-lhe o rótulo de “áulica” porque era situação é bobagem. Nessa mesma linha de raciocínio, coerente com seu preconceito, Sodré deveria ter chamado o “Revérbero” e o “Constitucional” de “subversivos”.  

artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 06/01/2009

Jornal do Ano-novo é como caruru sem sal

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Eu estava tentando encontrar alguma imagem que traduzisse a sensação,ou será sentimento? Seja lá o que for, da obrigação de ler o jornal no dia 1º de janeiro (jornal é sempre obrigação, afinal jornal é hábito). E se você imaginou por algum segundo que errei a data, confira o cabeçalho: os jornais circulam, sim, no Ano Novo como se chamavaantigamente, mas também no Natal e até na terça feira de Carnaval, se é que ainda não reparou. A culpa é do Roberto Marinho que aceitou a sugestão de Evandro Carlos de Andrade no não tão distante ano de 1988, vinte anos já se foram, de quebrar paradigmas da imprensa brasileira e seguirmos o exemplo dos americanos e então inventou essa história de O Globo circular também nos dias santos, era assim que se referiam os nossos antepassados aos dias pagãos em que extravasamos alegria, bebemos, abraçamos, brindamos ao presente e ao futuro. Saravá! 

Mas como ia dizendo, procurava por uma imagem para definir essa sensação de ler o jornal no primeiro dia do ano, eu disse primeiro,e não me dei conta que a resposta não era nem um pouco racional. Para que imagem? Se o assunto tinha a ver mesmo era com o paladar. E então compreendi que ler o jornal do ano novo é como comer caruru sem sal. Aquele gostinho do quiabo desfiado na boca que se recusa a descer a garganta. Você mastiga, faz uma pausa para estimular as glândulas salivares, mastiga de novo, tempera com mucina ou ptialina, com a ajuda da língua desce!. E se parece que estou exagerando é por que você não reparou no noticiário de Ano Novo, fico apenas com o exemplo da cobertura da Corrida de São Silvestre e do Réveillon para não estourar as laudas. 

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Sou um leitor frustrado que há mais de trinta anos aguardo por uma cobertura de São Silvestre que me diga ao menos quais foram os vinte primeiros atletas, os jornais do Ano Novo trazem cinco apenas; que me digam qual foi a participação dos atletas do meu Estado, a sua classificação e tempo; que me situem no contexto e me tragampormenores, se lhe incomodou a palavra é porque você foi mesmo aos detalhes e é isso que eu queria dizer.

Era tudo que eu desejava, mas os jornais trazem todo ano os mesmos três blocos de informação, já decorei. No primeiro me diz quem ganhou a corrida e qual brasileiro subiu no pódio, no segundo destaca a boa ou má performance dos quenianos e no terceiro me informa números, dezoito ou vinte mil participantes. Mas deixemos São Silvestre para o asfalto e vamos para a praia, os fogos de artifício da virada do ano são a grande atração. Essa cobertura os jornais do Ano Novo são insuperáveis, mesmo no tempo em que circulavam no dia seguinte, dois de janeiro; dá no mesmo. Se você tem boa memória já decorou quantos milhões de pessoas saudaram o Ano Novo em Copacabana, quantas toneladas de fogos foram queimadas e quantos minutos durou a cascata de fogos de artifícios na fachada do antigo hotel Meridien.

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É a cobertura do quanto, do pres-releasedistribuído de véspera, ampliado com as observações, ou será alguns pileques, do repórter de plantão? Ninguém merece trabalhar numa hora dessas!  Ia me esquecendo das comemorações, mundo afora, no La Fontana di Trevi, Champs- Elysées, Time Square, Portal de Brandemburgo, Trafalgar Square e a Opera House em Sidney. E claro! Ia me passando, também o primeiro brasileiro, nascido pontualmente às doze horas e um milésimo de segundo. 

O problema esta na bendita pauta ancestral que ninguém se atreve a atualizar e se os jornais circulam até nos dias santos, a pauta tem de ser sagrada, mesmo. Antigamente, nos primórdios de nossa imprensa, não era assim. Então, os jornais circulavam apenas duas vezes por semana, e não tinham a obrigação de veicular noticias. A propósito leio a Gazeta do Rio de Janeiro, primeira edição do ano de 1.812 e me deparo com a seguinte pérola: “Chegou esta manhã uma mala de Anholt, a qual não trouxe noticias de muita importância”. Ou esta outra de 02/01/1813: “Não temos noticias modernas de Cádiz”. Sorte que os leitores, naquele tempo, eram bem educados, senão mandavam o jornal enfiar a mala na bagagem.

Artigo de minha autroria originalmente publicado no Correio da Bahia em 01/01/2009