Posts por Dezembro, 2008

Papai Noel é bundão

17 dAmerica/Chicago Dezembro dAmerica/Chicago 2008

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Papai Noel é bochechudo, pançudo e bundão e nos não temos culpa disso. Recebemos ele pronto. Design americano que começou como uma representação do bispo Nicolau com traços de caricatura, no século XIX, popularizado em revistas, para mais tarde ganhar feições mais suaves e definidas e, nesse contexto, um biótipo redondo. Um perfil estético que jamais seria brasileiro. Se a representação do Papai Noel fosse arte nossa__ imaginem vocês o bom velhinho no lápis de Agostini, Julião Machado, K-Listo, J. Carlos, ou mesmo Ziraldo__ certamente que teria menos bochechas e com certeza menos barriga e menos glúteos. E o saco? Não vou sugerir uma pouchete na cintura, seria debochar do velho. Quanto ao Ho, Ho, Ho, sou mais Ha, Ha, Ha.

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 Papai Noel é invenção da mídia como tantos outros mitos construídos e alimentados pelos veículos de comunicação. Originalmente era o Bispo de Mira, uma lenda oral, que supostamente teria vivido nessa cidade, hoje pertencente à Turquia e daí as feições turcas, nariz proeminente e senho franzido com sobrancelhas fartas das representações primárias. Usava roupas vermelhas, com aqueles saiotes e anáguas cumpridas, característica do figurino das igrejas cristãs da época. O Bispo de Mira, tornou-se Nicolau e mais tarde Santa Claus e foi nessa condição que a revista semanal Harper’ s encarregou-se de popularizar o personagem no país que mais crescia no mundo e já se insinuava como uma grande potência: Os Estados Unidos.

Papai Noel fumava
Foi Thomas Nast, americano de sangue Batavo, quem vulgarizou a figura através de suas caricaturas no “Harper’s Weekley”, cujo slogan era Journal Of Civilization, a partir de 1.862. O traço de Nast mostra um personagem sisudo, meio gnomo, quase um duende. Sempre olhar circunspeto, antipático, assustador na representação visual com grupos de crianças, hoje sugeriria um pedófilo. O objetivo era mostrar um bruxo, um mago que transformava sonhos em realidades.Foi esse Papai Noel de traços nórdicos que os ilustradores brasileiros imitaram de forma rude em inícios do século XX nas campanhas dos cigarros York, Veado, Casas Pernambucanas, Ao Parc Royal, dentre outros.

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A indústria do cigarro foi o primeiro segmento publicitário a divulgar no Brasil a figura de Papai Noel que aparecia sempre fumando.Tinha sentido a ilação já que Nast na sua representação do Bispo Nicolau, preservara-lhe o cachimbo original, conforme descrito por Washington Irving em 1808 e mais tarde (1822) por Clement Clark Morre no seu poema : “The Nigth Before Christmas” . Mas o Papai Noel que a Souza Cruz nos apresentou na capa de seu house-organ, edição de dezembro de 1916 (olhando de soslaio o seio de Yolanda, insinuado no maço dos cigarros do mesmo nome) era tipicamente americano, de traços suaves, muito semelhante (sem as bochechas) ao desenhado por Haddon Sudblon, a pedido da Coca Cola em 1931.

Justiça seja feita a Sudblon, não foi ele o primeiro a engordar e arredondar o Papai Noel. O ilustrador do “Saturnay Evening Post”, J. C. Leyendecker já exagerava nas proporções. Desde a década de 20 apresentava Santa Claus de fato obeso, barriga proeminente e bunda farta para equilibrar do outro lado. Norman Rockwell manteve o protótipo até inícios da década de 30 quando Sudblon desenvolveu o modelo que a Coca Cola com a sua cobertura e freqüência de mídia popularizaria mundo afora. O resto a indústria cultural americana encarregou-se de distribuir e difundir em todo o planeta.Tornando para sempre, e enquanto o mundo existir, Papai Noel  bochechudo, pançudo e bundão. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 15/12/2008

A banalidade do nome dos jornais

12 dAmerica/Chicago Dezembro dAmerica/Chicago 2008

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Na história moderna da humanidade seguramente que não há nenhum segmento mais conservador do que a imprensa, notadamente o meio jornal que se arvora de quarto poder para não assumir que é uma projeção dos três oficialmente reconhecidos e além de tudo é o menos imaginativo; a criatividade neste segmento passou longe.

Um indício dessa, minha assertiva, está na nomenclatura dos veículos impressos que é ultra-conservadora por natureza, repetitiva, banal. Nomes de jornais, diferente dos nomes de empresas, entidades e instituições, são lugar comum. Jornais, com raras exceções, não tem cultura de marca, no passado abriram mão de sua identidade. Para que personalidade própria se eles se enxergavam como um poder ?Nos primórdios, já na era pós-Gutemberg, os jornais eram Relações e Gazetas, nomenclaturas que se reportavam à economia.

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Gazeta era uma moeda veneziana que comprava todo tipo de mercadorias, inclusive folhas com informações sobre transações comerciais e o movimento portuário. Os nossos antepassados assumiram essa relação noticia X comércio, tanto que  a imprensa lhe incorporou o nome. Os jornais mais famosos do mundo eram gazetas, inclusive o nosso pioneiro: Gazeta do Rio de Janeiro. O que não era Gazeta era Correio, nomenclatura que se reportava ao serviço de distribuição, também de informações comerciais; no Brasil circulou o Correio Braziliense.

Businnes
Esquecemo-nos que o Correio nasceu como negócio, ninguém cogitava o serviço para atender a saudade de parentes, chorar as pitangas, ou declarar amor a um ser querido. O Correio vendia informações e daí a simbologia da nomenclatura então adotada por vários jornais do mundo. E se você acha que esses precursores da imprensa eram cínicos está equivocado.

O pragmatismo deles tinha a ver com o que representava a imprensa naquele tempo: um instrumento de um grupo dominante para um público alvo escolhido, sem essa de mídia de massa, compromissos com o leitor e responsabilidade social, “bobagens” que as escolas pós-guerra da teoria da informação, disseminaram pelo mundo para atender as demandas de uma sociologia, então em construção.Como jornal não era mídia de massa e a sua nomenclatura atendia grupos políticos, religiosos e de outras relações de poder (maçonaria, por exemplo) os nomes se assemelhavam: Gazetas, Correios, Sentinelas, Reberveros, Argos…Ainda no século XIX a imprensa assimila outros conceitos, alguns preservando valores de poder como Tribunas e Estados (A Província/O Estado de São Paulo, o exemplo mais evidente), mas surgem também, num outro contexto, as Folhas, Semanários, Diários, Jornais, Tempos, Vanguardas e Imparciais.

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Criatividade
Nesse ambiente de falta de imaginação, nomenclatura do jornal com cara de sabão em barra, me rendo à criatividade de dois empreendedores: Irineu Marinho que nomeou o seu vespertino de “A Noite” e depois fundou “O Globo” e Samuel Wainer que denominou o seu jornal de “Última Hora”. O primeiro assumiu que jornal vespertino atrasava e viu nisso uma oportunidade. E em relação a “O Globo” enxergou o Brasil, no contexto do mundo.
É claro que tinha referências de O Globo pioneiro, o jornal de Quintino Bocaiúva lançado em 1.874, mas  isso não lhe tira o mérito.Wainer por sua vez, apostou no furo jornalístico, na noticia em tempo real, e trouxe para a mídia, incorporado no título, o valor agregado da informação.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 01 de dezembro/2008 

TV digital no telefone. 70 anos depois

5 dAmerica/Chicago Dezembro dAmerica/Chicago 2008

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A julgar pelos números divulgados pelo Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre- SBTVD, em torno de 150 mil brasileiros estarão assistindo televisão até o final do ano pelo telefone celular, Iphone ou similares. O número pode ser menor já que a estimativa refere-se a plataformas móveis, nesse caso incluídos aparelhos de TV portáteis, em todo caso uma referência numérica.

O fato é que um ano após a implantação do sistema de TV digital no Brasil, realiza-se o sonho de nossos antepassados, os técnicos que idealizaram a telinha e já em 1935 com o avanço dos receptores de alta definição de imagem para a época, 120 e 240 linhas, perguntavam-se: qual a plataforma ideal para se assistir a TV? O rádio ou o telefone?

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O articulista A. Castellani em matéria publicada na revista “Sapere” de Milão indagava:” Poderemos ver ao próprio aparelho telefônico a imagem viva de quem está falando e ao mesmo tempo sermos vistos pelo interlocutor? Poder-se-á assistir na própria casa a qualquer acontecimento que tenha lugar na própria cidade ou algures? “.

Mais adiante define o que considera a melhor opção: “O escopo da televisão é difundir pelo rádio, imagens vivas próprias de uma cena teatral… O fim principal é, portanto bem diferente do da aplicação da televisão ao telefone. O que se verificou com o telefone (isto é, teve-se primeiro o telefone e depois a radiotelefonia) não se pode verificar com a televisão por motivos que logo veremos”. Catellani conclui que a plataforma da TV será o rádio acoplado a um aparelho com a válvula catódica e assim descreve o equipamento para uma eventual recepção à domicílio:  “um radio-receptor especial de onda ultra-curta para captar as ondas que transmitem as imagens e um rádio-receptor normal para captar as ondas que transmitem os sons e, portanto, poder acionar o respectivo altofalante”. 

Do outro lado do oceano, o editorialista do “Popular Mechanics” de Chicago imaginava uma tela minúscula de no máximo 5 x 7 polegadas, ou seja, um pouco maior do que a tela do Iphone, tamanho então considerado ideal para se ter uma imagem de razoável definição.

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No ano seguinte (1936) o técnico Augusto Hogony na revista “Sapere” comparava a tela de TV com a do cinema e observava: “O que importa é o ângulo sob o qual é visto o quadro. Nem todos os construtores compreendem a importância psicológica, com quadros tão pequenos, de eliminar do campo visual tudo que possa distrair a atenção e lembrar as verdadeiras dimensões da imagem”. Hogony calculava em três anos o tempo para se implantar a TV na Alemanha, a depender do alto custo dos transmissores e cabos, investimento muito elevado para uma cobertura em torno de 70 kilometros, mas lamentava a falta de um padrão definido de monitor. Não diz no seu artigo, mas referia-se as experiências realizadas simultaneamente e sem interação entre sim, nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.

O fato é que a iminência e realidade da II Guerra Mundial adiaram os planos desses paises. A Alemanha fez cobertura fechada das Olimpíadas de Berlim, Os engenheiros da Baird na Inglaterra promoveram experiências em eventos públicos, enquanto os americanos realizavam transmissões experimentais no seu território e também em Cuba e no México. Com o fim do conflito e a ruína dos paises Europeus, os Estados Unidos definiram o padrão de TV, o tipo de monitor, a plataforma e até a infra-estrutura com a RCA fabricando e vendendo transmissores e antenas pelo mundo afora. Definiram também os conteúdos, a partir da indústria do cinema adequada a um modelo de seriados, os famosos enlatados, o nome uma referência à embalagem em que vinham acondicionados os rolos.

Os nossos antepassados imaginaram a TV como um complemento do rádio e do telefone. Bobinhos eles, mas estavam certos.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 25/11/2008

O dia mundial da propaganda não existe

4 dAmerica/Chicago Dezembro dAmerica/Chicago 2008

O Dia Mundial da Propaganda não existe. A data é comemorada hoje apenas no Brasil, com muita ênfase, e na Argentina com menos entusiasmo, enquanto o resto do planeta a ignora. Tudo começou no I Congresso Sul-americano de Propaganda realizado em Buenos Aires, em 1936; no calor dos acontecimentos se propôs a data de encerramento do conclave, quatro de dezembro, como referência para um Dia Pan-americano da Propaganda que doravante seria comemorado.

O Pan-americanismo como ideologia estava em alta, era o contraponto das Américas à influencia Alemã em rádios e jornais e na economia do continente. Logo teríamos uma guerra (1939-45) e no auge dela a idéia do Pan-americanismo reforçada na propaganda e na mídia. Nos anos 70 apenas o Brasil e a Argentina continuavam a celebrar a data, foi então que alguém (até hoje não consegui descobrir nem como, nem quando) transformou o Dia Pan-americano em Dia Mundial, a mídia especializada passou a usar uma e outra referência e já na década seguinte apenas o Dia Mundial prevaleceu.

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O fato é que comemoramos há 70 anos a data, com premiações, almoços, coquéteis, eventos em todo o Brasil e também a publicação de anúncios voltados para o “trade”. O anúncio hoje postado neste espaço foi veiculado pela GFM-Propeg, então presidida por Rodrigo De Sá Menezes, Bahia, em 1982. Criação de Haroldo Cardoso, Marco Gavazza e João Carlos Mosteiro. Anúncio de oportunidade que resgata um corajoso depoimento do poeta Drummond de Andrade, crônica publicada em jornal, sobre a propaganda. O texto faz bem a auto-estima da classe, testemunhal espontâneo de um dos ícones da moderna literatura brasileira.

Este post foi publicado aqui mesmo no Blog do Almanaque, ano passado, nesta data.