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Números/referências históricas da TV Digital

26 dAmerica/Chicago Novembro dAmerica/Chicago 2008

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A TV digital conta com apenas 635 mil usuários, num universo potencial de 40 milhões de telespectadores, segundo informou o Fórum do Sistema Brasileiro da TV Digital Terrestre-SBTVD, a noticia repercutida pelo Portal Imprensa semana passada. É claro que os números são estimativas baseadas nas vendas de 150 mil receptores fixos e mais 150 mil móveis e o registro final obtido calculando-se 3,3 telespectadores por receptor fixo e um pelo móvel, faz sentido. Ou seja, transcorrido um ano da implantação da TV digital no Brasil, constatamos que de 190 milhões de habitantes apenas 0,3 % da população usufrui do sinal em HD e não mais do que sete estados implantaram o sistema.

Os números são razoáveis se comparados com o registro histórico da implantação, primeiro da TV propriamente dita no Brasil, mais tarde da TV a cores. Em 1951, um ano após Assis Chateaubriand inaugurar a TV Tupi, a indústria informava a venda de 3.500 monitores em São Paulo e Rio de Janeiro. O Brasil tinha 52 milhões de habitantes e não é preciso ser matemático para se aferir o percentual de brasileiros sem acesso à TV, mesmo com os cálculos feitos naquele tempo de 8 telespectadores por aparelho. Em bairros de periferia e nas regiões metropolitanas o hábito de “televizinhos” favorecia essas estimativas generosas.

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Transição lenta


O fato é que somente em 1954 se chegou a uma equação próxima do 0,3% atual da TV digital. Nesse ano o Brasil tinha 58 milhões de habitantes e a Associação Brasileira da Indústria Eletro-Eletrônica calculava a existência de 34 mil aparelhos em uso no país. As agências de propaganda estimavam 6 telespectadores por monitor, ou seja, em torno de 200 mil usuários. Muitos anos depois, 1972, o Brasil conhecia a tecnologia da televisão cores que na época também demandou grandes investimentos em infra-estrutura, do Governo, das emissoras de TV e dos telespectadores. O monitor colorido era caro, mas diferente dos primórdios da TV era um desejo de consumo da classe média. Tanto que 68 mil aparelhos foram vendidos no primeiro ano, num contexto de 1.1 milhão de monitores comercializados e 6,2 milhões de equipamentos em uso no país.

Ou seja, no primeiro ano da TV policromática já tínhamos 68 mil aparelhos coloridos, cobertura estimada em 300 mil usuários para a população de 99 milhões de habitantes. Se fizermos as contas constatamos que é um número bem próximo da equação 0,3% de usuários Vs população, recém divulgada para a TV digital. Mas, a transição da TV em preto e branco para a TV a cores não foi tão célere assim.

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È claro que não tinha prazo, diferente da TV digital que tem data marcada para substituir o sinal analógico. Em 1989, por exemplo, 17 anos após a estréia da TV a cores, com a transmissão do desfile da Festa da Uva de Caxias do Sul (RS), a Lintas nos informava que o Brasil já possuía 30,1 milhões de receptores de TV. Nesse contexto, 18,3 milhões de monitores coloridos, o que vem a ser apenas 60%. Em fim, para encerrar esta conversa chata de números não custa lembrar que no ano 2000, ou seja, quase três décadas transcorridas da implantação da tecnologia de TV a cores no Brasil, ainda se fabricavam os últimos monitores em preto e branco no Brasil. Não corremos mais esse risco. A TV a tubo tem os seus dias contados, os conversores acoplados estão aí e a Copa do Mundo de 2014, com certeza, se encarregará de acelerar e encurtar os prazos. ARTIGO DE MINHA AUTORIA ORIGINALMENTE PUBLICADO NO PORTAL IMPRENSA EM 17/11/2008

Da TV no Rádio à TV Digital

21 dAmerica/Chicago Novembro dAmerica/Chicago 2008

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Os inventores da televisão não tinham a menor idéia da utilidade prática de seu invento. Cientistas desenvolveram em lugares diferentes do mundo protótipos da câmera de captar imagens, componentes para a transmissão, alguns deles aproveitados e adaptados da infra-estrutura já existente do Sistema de Telefonia sem Fio - STF e então alguém lembrou que seria bom ter um monitor.  

Nessa evolução do invento imaginaram a televisão como uma extensão do rádio, daí os aparelhos fabricados em madeira (1928), formato horizontal, 20 cm de altura, de um lado o amplificador, do outro uma tela de 4 polegadas. Ou seja, um aparelho de rádio com imagem em miniatura. Qualidade de reprodução compatível à do cinema de início do século, guardadas as proporções da tela; imagem com 120 linhas de composição, o que vem a ser 8 % da nitidez garantida hoje pelos melhores aparelhos de LCD disponíveis no mercado. 

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Números modestos

Hoje, transcorridos 80 anos do lançamento dos monitores aqui descritos, os baianos logo poderão assistir a televisão em alta definição (HD), o sinal de TV digital disponibilizado para o usuário, a partir de 1º de dezembro, na TV Bahia, pioneira no Norte e Nordeste, na implantação do sistema. É o marco simbólico de uma nova tecnologia que numa década, segundo estimativas do Governo, deverá substituir o sistema analógico. Temos duas Copas do Mundo pela frente como incentivo para a sua definitiva popularização no país, uma mãozinha para cumprir os prazos.  Enquanto isso os números são modestos: O Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital divulgou semana passada que apenas 0,3 dos brasileiros têm acesso hoje à TV digital. Mas, a mais surpreendente revelação do SBDTV, a mídia não repercutiu, é que metade dos monitores aptos a receber o sistema hoje são plataformas móveis, ou seja, aparelhos de celular, iphones e similares. 

O fio da história

Retomo o fio das origens da TV para transcrever um trecho da revista “Sapere” de Milão, edição de 1935:” De fato, o escopo da televisão é difundir circularmente por médio do rádio, imagens vivas próprias de uma cena teatral, um filme, uma festa esportiva, da mesma forma como hoje se difunde radiofonicamente uma comédia”. Prossegue o articulista: “Para o rádio receber em domicilio a televisão e ao mesmo tempo ouvir os sons da cena transmitida serão necessários o televisor constituído pela válvula catódica, um rádio-receptor especial de onda ultra-curta para captar as ondas que transmitem as imagens e um rádio-receptor normal para poder acionar o respectivo alto-falante. Sons e imagens serão sincrônicos, graças às estações transmissoras”.  Um outro artigo, da revista “Popular Mechanics” de Chicago (1936), lembra as experiências primitivas com monitores de 120 linhas de definição de imagem, mas o ponto alto da matéria está na descrição das vantagens do sinal na TV:” Um rosto em televisão não aparece chato. O telespectador vê realmente o contorno esférico. Os operadores pintam as imagens com uma camada de um branco nebuloso e usam tintas pretas para assinalar as rugas”. Mais adiante antecipando a tecnologia de 240 linhas de definição de imagem o articulista considera dispensável essa produção: “Para a transmissão na base de 240 linhas pouca caracterização será necessária. Dessa forma as imagens serão transmitidas e recebidas quase em estado natural”. 

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Ciência e mercado

O fato é que ontem como hoje tecnologia é apenas um projeto. Naquele tempo as coisas ocorreram de forma bem diversa ao planejado. É claro que a II Guerra Mundial encarregou-se de adiar a implantação da TV, estabeleceram-se prioridades e, findo o conflito, uma nova ordem do mundo que se refletiu na legislação para o setor (concessão do Estado com operação do Estado, na Europa, e da iniciativa privada na América) e no monopólio dos fabricantes de infra-estrutura.  Desta vez a tecnologia é ao mesmo tempo ciência e mercado e não tem mais o desafio de construir audiências que já existem. O cerne da questão é apenas a migração que pode não ocorrer como planejado.

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Nossos bisavôs imaginaram a televisão como um rádio com imagem e estavam certos: sonoplastia para imitar a realidade era a melhor referência que tinham. Nossa geração raciocina a TV digital como uma extensão da TV analógica e nisso também está certa: entretenimento para um telespectador passivo, antes sentado na sala, hoje deitado na cama, é a nossa referência mais factual.  Trabalha-se hoje com um cenário real de alta definição e um hipotético de interatividade, multiplicidade de programação e diversidade de plataformas. Parece simples, mas melhor seria “combinar com os Russos”, parodiando a genial frase de Garrincha na Copa de 58. O telespectador, se é que continua no papel de mero espectador, é quem vai determinar o usufruto dessa nova tecnologia que implicará na re-invenção da produção de conteúdo, práticas comerciais e sistemas de distribuição.  Artigo de minha autoria originalmente publicado no Correio da Bahia em 20/11/2008

O valor das marcas em tempos de baixa da Bolsa de Valores.

14 dAmerica/Chicago Novembro dAmerica/Chicago 2008

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Quanto vale a marca da Coca Cola, GM, Gilette, Ford, Sony, Mc Donald’s Google, ou Nokia… depois da crise da bolha imobiliária que explodiu na Bolsa de Valores e cujos estilhaços atingiram a economia real? Quem souber a resposta faça o favor de contar para os institutos e consultorias especializados em avaliação de marcas, organizações do tipo da Interbrand ou da Brandfinance, empresas que anualmente publicam em parceria com gigantes da mídia um ranking com o valor das marcas mais em evidência no planeta. Ocorre que estas estimativas são recentes, duas décadas se muito, metodologia desenvolvida em tempos de calmaria dos mercados com estabilidade a toda prova.

Por tanto sistemas de avaliação blindados contra o inusitado e por isso mesmo falhos. Nenhuma dessas organizações desenvolveu a sua metodologia prevendo grandes cataclismos como a queda do valor das ações (o principal parâmetro) de algumas empresas em percentuais acima de 50%, fato corriqueiro nas últimas semanas.  Mas, não vamos subestimar os meninos, eles vivem disso e logo esses institutos e consultorias arranjarão um jeitinho de estabelecer novos mecanismos de avaliação. Até porque na eventualidade de fusões ou aquisições de empresas esses indicadores também são bússolas que pautam o negócio. 

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Lógica de somar e substrair

A propósito de metodologias vou tentar explicar aos leitores a lógica (que desconfio seja a mesma de avaliação de cavalos de raça e obras de arte) que norteia esses rankings de valor de marca. Antes esclareço que Deus não meu deu talentos para compreender esses babados, já li até James Gregory e Daryl Travis e aprendi a soletrar as letras miudinhas dos relatórios de branding e continuo sem entender muita coisa.

Mas sei que cada instituto tem a sua metodologia e que há um elo em comum: o valor da marca é a diferencia entre o tangível (patrimônio imobiliário, matérias primas, máquinas, estoque, fluxo de caixa, recursos humanos…) e o market cap, ou seja, a cotação que essas empresas têm na Bolsa de Valores. Essa diferença intangível é o que é creditado como valor de marca. 

Aparentemente é um mecanismo simples do confronte entre um balanço e um relatório da Bolsa que determina o valor das marcas. Eu disse aparentemente que se fosse tão fácil assim era serviço para um contador e não para institutos que vendem expertise e faturam milhões de dólares, não vou insinuar que há outros interesses. A propósito, qual será o valor da marca desses institutos?

Em fim, é gente que após intrincada engenharia marketeira-financeira pode afirmar que a marca da Coca Cola vale 65 bilhões de dólares, a da Microsoft 58, IBM 57, GE 51, Nokia 33, Toyota 32, Intel 30, Mc Donald’s 29, dentre outras. 

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Marcas devedoras

É nessas horas que agradeço a Deus não entender do babado, senão pirava. É que faço as contas entre o valor atual na Bolsa de algumas empresas em crise e o seu patrimônio físico, digamos, e descubro que por essa metodologia padrão tem marca cujo valor agora é devedor. Como fica o ranking? Se a marca X é negativa, então não tem valor? E essa conversa de valor pecuniário atribuído às marcas? Não vou queimar meus neurônios. Melhor ficar com o discurso antigo de que marca é sentimento, é valor simbólico construído na cabeça e no coração do consumidor.  

Artigo de minha autoria originalmentre publicado no Correio da Bahia, edição de 13/11/2008

200 Anos de Imprensa no Brasil:O impacto da máquina de escrever nas redações

11 dAmerica/Chicago Novembro dAmerica/Chicago 2008

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Em fevereiro de 1912 o Jornal do Brasil adquiriu três máquinas de escrever, o primeiro passo para substituir as canetas bico de pena, processo este concluído muitos anos depois diante das reações de veteranos jornalistas que não abriam mão do hábito de escrever a mão. Alguns daqueles senhores conheciam o equipamento, disponível na Casa Pratt e outras lojas especializadas, há mais de uma década, naquele tempo usado apenas nas repartições públicas, escritórios de advocacia e, a julgar pelos apelos de venda dos anúncios publicados em jornais e revistas, também em alguns lares. Os reclames insistiam na praticidade de se escrever cartas numa máquina das marcas Royal ou Remington.

Mas, o uso de esses “incômodos” aparelhos de ferro nas redações não era cogitado. É desconcertante imaginar que a tecnologia da máquina de escrever tenha demorado tanto a ser assimilada pelas redações, considerando que o seu uso efetivamente foi popularizado no final da década de 20. Afinal, o invento estava disponível no país, desde a última década do século XIX e o teclado “infernal” que assustava os jornalistas com a sua incompreensível combinação de letras já era realidade nas oficinas desde a introdução do linotipo. Ou seja, durante muitos anos não houve a correlação de tecnologias que seria recomendável para agilizar os processos de pré-impressão. O jornalista escrevia a mão e o linotipista que muitas vezes era obrigado a interpretar garranchos, fazia a digitação mecânica. Redatores mais experientes sentavam-se ao lado do linotipista e ditavam o seu texto de cabeça; as correções feitas, ali mesmo, na hora.

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Teclado duplo
Mas o que apavorava aquela geração era efetivamente o teclado, o tal sistema QWERTY (repare a seqüência no teclado de seu computador), inventado por um sujeito com esse nome (funcionário da Remington) e a outra série embaixo, ASDFG, supostamente as letras, então, mais usadas no idioma inglês. O fato é que enfiaram o QWERTY na gente de tal jeito que o teclado do computador (criado um século após o original) não teve como fugir da regra e ainda hoje utiliza o sistema. Para aquela geração abandonar o hábito da caneta de bico de pena significava aprender técnicas de datilografia. Para piorar as coisas é possível que as três máquinas de escrever adquiridas pelo JB tenham sido ainda do modelo de dois teclados, um para as maiúsculas, outro para as minúsculas, equipamentos muito mais complexo do que a máquina de escrever que prevaleceu até a década de 80.

O uso de máquinas de escrever na redação do JB fazia parte das reformas implementadas pelo jornal desde o aporte de capital do Conde Pereira Carneiro que já era sócio (minoritário) quando da inauguração da nova sede em 1910. Na década seguinte tornava-se proprietário (comprava as hipotecas não resgatadas). Foi também num contexto semelhante, de uma reforma estrutural, que a Folha de São Paulo adquiriu em 1983 os primeiros computadores para substituir as antes rejeitadas e naquele momento imprescindíveis máquinas de escrever. O objetivo era o mesmo, compatibilizar os processos de pré-impressão, tanto que uma vez consolidada a mudança, alguns anos depois, a Folha calculava em 40 minutos o ganho de tempo. E tempo já era moeda calculada pelo departamento industrial e a expedição.

Transição rápida
Mas, para os jornalistas o computador por algum tempo continuou a ser uma máquina de escrever, só que mais evoluída e com o mágico recurso da correção de texto. As redações tornaram-se mais silenciosas e ficaram mais limpas, sem o característico amontoado de papel amassado no chão e nas lixeiras. Desta vez a transição que foi tão ruidosa quanto a provocada pelos teclados de ferro, em idos remotos, se deu em tempo recorde. E as máquinas de escrever deixaram as redações para se perpetuarem nas vitrines dos museus, ou nos álbuns de fotografias, lado a lado com outras tecnologias aposentadas: o disquete, por exemplo que já saiu de cena. Você ainda lembra dele?

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/10/2008