Posts por Agosto, 2008

Hora do Reclame: O filme de Duda que ganhou todos os prêmios

28 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

Se você leitor conhece a trajetória criativa de Duda Mendonça deve estar a imaginar que o título acima refere-se ao comercial “Pai e Filho” para o produto Gelol, o mais badalado e de maior repercussão na mídia e no meio acadêmico. O filme que hoje postamos neste espaço é outro, muito pouco conhecido dos brasileiros e que pode ser considerado um dos mais premiados na história da propaganda brasileira em todos os tempos. O título dele é “Ladrão”, produzido pela Blow-Up em 1984 e leva a assinatura do laboratório Dorsay que então fabricava o produto Anapyon. A força do roteiro está no clima de suspense embalado pela trilha da Pantera Cor de Rosa e o final inusitado com elementos de humor e ao mesmo tempo de crítica de costumes para exaltar as qualidades do remédio que curava as dores de garganta e mantinha o hálito fresco.

Naquele tempo a DM9 baiana prospectava clientes nacionais e nessa perspectiva conquistara as contas da Monark e num segundo momento do laboratório Dorsay que ressurgia como um grande anunciante. Foi então que teve a oportunidade de criar filmes exibidos em rede nacional, sempre em parceria com a Blow-UP, para divulgar produtos como Gelol, Monange, Estomazil, desodorante Play Boy… alguns deles premiados, mas nenhum com o destaque que “ladrão” teve nos festivais e premiações nacionais e internacionais.

O comercial de 30″, criação exclusiva do Duda que também ajudou a dirigir, obteve Grand-Prix do Prêmio Colunistas Norte e Nordeste, medalha de ouro do Prêmio Colunistas Nacional, Grand-Prix do Prêmio Profissionais do Ano Norte e Nordeste, medalha de prata no Festival de Buzios, lâmpada de prata no Festival da ABP e galo de ouro no Festival de Gramado. Lá fora foi medalha de ouro no Festival de Nova Iorque e leão de prata no festival de Cannes. Assista ao vídeo:

200 Anos De Imprensa No Brasil. Um repórter ferido na guerra do Vietnam

26 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

 jose-hamilton-ribeiro-ferido.jpg

A matéria de capa da edição de maio de 1968 da revista Realidade, publicação da editora Abril, subvertia a lógica do jornalismo. A foto ocupando dois terços do espaço gráfico, embaixo a manchete de rodapé, revelava algo inusitado na imprensa brasileira: o repórter era a noticia. A imagem mostrava o correspondente de guerra da publicação, José Hamilton Ribeiro, vestindo uniforme militar, as mãos ensangüentadas, o rosto com estilhaços de bomba, sendo amparado por um soldado com feições vietnamitas, provavelmente um guia. O expediente da terceira página nos informa que a foto é de Keisaburo Shimamoto, fotógrafo experimentado na guerra e que hoje o Google nos esclarece era um freelancer da Newsweek, falecido em 1971 no Laos, seus restos mortais descobertos em 1998.
 
José Hamilton Ribeiro, hoje repórter especial no Globo Rural, na época tinha 36 anos de idade. Realidade encomendara-lhe uma reportagem que refletisse o estilo investigativo da revista e nesse intuito embrenhou-se pelas matas do Vietnam, bem na linha de frente do conflito bélico. No dia 21 de março do ano referido, Ribeiro, acidentalmente, pisou numa mina.

A perna em tiras
O relato que se segue é seu: “Ouço uma explosão fantástica… uma cortina espessa de fumaça bloqueou-me toda a visão… foi aí que senti a perna esquerda. Um segundo após me senti sentado… os músculos repuxavam para a coxa com tal intensidade que eu não me equilibrava sentado… levei as minhas mãos para “acalmar” a minha perna… e foi então que a vi em pedaços. Depois do joelho, a perna se abria em tiras, e um pedaço largo de pele retorcido estava no chão… não sei o que aconteceu, pois a consciência me fugiu. A agonia, que deve ser atroz, de se sentir no meio do mato, esvaindo-se em sangue, enquanto o socorro não chega, essa agonia eu não passei”.
 
Ribeiro prossegue o dramático relato, em reportagem de 12 páginas publicada pela revista: “A recordação seguinte é já na cama, com a perna esquerda encaixotada, a direita coberta de bandagens, o braço esquerdo encanado. Um médico estava me dizendo que eu só ia ficar quatro dias no hospital, seguiria depois para os Estados Unidos e em vinte dias estaria bom… Não suspeitava que aquele era o primeiro dos quinze dias mais dolorosos, tristes e infelizes que eu jamais tinha imaginado passar em minha vida. O médico tinha usado a velha política de enganar o paciente”. Descreve ainda, o dia-a-dia de dores insuportáveis, as doses diárias de morfina e sensação de náusea, as quatro operações realizadas, o impacto da cadeira de rodas e a horrível sensação de ser um número: o ferido 31.843, segundo etiqueta colada no seu braço para controle.

jose-hamilton-ribeiro-no-hospital.jpg

Fotógrafo explodiu no ar 
Quando a matéria foi lida pelos brasileiros Ribeiro já estava num centro de reabilitação de Chicago, em companhia da esposa, sendo assistido por médicos do hospital militar. Mas, na edição seguinte Realidade divulgava a reportagem que o jornalista escrevera, antes de ser gravemente ferido no front de guerra. È um registro minucioso com personagens civis e fardados. Jornalismo Investigativo ilustrado com fotos de sua autoria, um longo relato, descritivo, mas com as oportunas observações do correspondente. Reportagem esta que deveria ter sido a chamada de capa da revista de maio de 68, se não fosse o acidente que transformou ele próprio em manchete.
Matéria de capa, esta, documentada internamente com fotos de Shimamoto, fotógrafo japonês que teve um triste fim, segundo relatou Ribeiro, certa feita, em entrevista à ABI On-line (30/09/2005):  “ficou ao meu lado nos dias dolorosos que passei nos hospitais de guerra. Ele vinha trabalhar no Brasil assim que terminasse a cobertura que fazia no Vietnam…Não deu tempo.O helicóptero em que viajava foi alvejado…e explodiu no ar.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 18/08/2008

Hora do Reclame: O reacionário do hit parede

22 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

O filme que hoje postamos neste espaço é, infelizmente, muito pouco conhecido. Comercial criado pela DPZ em 1981 atendendo um briefing da Associação Brasileira dos Produtores de Discos-ABDP que então promovia o lançamento de um disco cujo título era “Hit Parede”, selo CBS e conforme o nome descreve, era uma coletânea dos maiores sucessos da música pop internacional do momento. Sucessos de Elton John, Santana, Air Supply, Kim Carners, Ray Parker e George Harrison, dentre outros.

A solução criativa veio da dupla Francesc Petit/Washington Olivetto que foi buscar no casting da ABA filmes um ator que representase um sujeito careta, com o objetivo de estabelecer um contraponto entre a modernidade do produto (cujo público alvo era o jovem) e o seu divulgador. Gravado em estudio, plano fechado, com direção de Andrés Bukowinsky, o comercial intitulado “reacionário” foi um sucesso pelo roteiro inusitado. A montagem foi do Silvio Renoldi, trilha sonora de Emílio Carrera. Obteve um leão de prata no Festival de Sawa, medalha de ouro no Prêmio Colunistas e um Prêmio Anuário no Anuário do CCSP. Assista ao vídeo:

Hora do Reclame:A Lei Falcão e o marketing político

19 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

 charge-de-ziraldo-lei-falcao.jpg

Não faz muito tempo, apenas 32 anos, que o então nascente marketing político foi amordaçado por um instrumento denominado pela imprensa de Lei Falcão, em “homenagem” a seu idealizador (ou teria sido executor? ), Armando Falcão, ministro da justiça do governo Ernesto Geisel. Vale a pena lembrar e refletir sobre este momento inusitado da comunicação, no dia de hoje em que os brasileiros assistirão a estréia das campanhas eleitorais para prefeitos no rádio e na TV. Quem não vivenciou o referido momento, uma época de arbítrio assumido, certamente custará a acreditar nas nuances da legislação sancionada na época, cujo verdadeiro objetivo era calar os candidatos e para isso cogitou-se um padrão de exposição na TV onde o político era exibido apenas numa fotografia 3×4, enquanto uma locução em off descrevia o seu breve curriculo, legenda e número do registro. Também era permitido divulgar local e hora do comício. Ou seja, nos anos 80 retornavamos aos anos 50 quando a então nascente TV brasileira exibia slides no lugar de filmes por limitações técnicas e também por uma questão de custos.

É claro que nesse modelo padronizado, limitado, não tinha grande espaço para o marketing político de fato, cujo campo de ação era restrito às aparições públicas do candidato. Sobre a vigência da Lei Falcão foram realizadas as eleições de 1978 e 1982; em ambas o MDB, partido que fazia oposição ao da situação Arena, conquistou maior número de votos, mas não necessariamente maior número de cadeiras no Parlamento. O Governo, prevendo a derrota, criara a figura do Senador Biônico. Em 1984, no contexto da abertura, a Lei Falcão deixa de existir e o marketing político encontra de fato um espaço para se expandir. As eleições de 1986, nesse particular, seriam o grande teste para o exercício desta atividade que seduziu grandes criativos, Duda Mendonça um deles; relegaram a propaganda comercial em segundo plano para ganhar muito dinhero assessorando candidatos.

Doravante o marketing político ganha elementos lúdicos e de humor através de clipes, teatro de bonecos, computação gráfica e outros formatos e recursos que geraram audiência e despertaram emoções de toda índole nos eleitores. Um contraponto dos “santinhos” estatícos da Lei Falcão, “propaganda” eleitoral enfadonha e sem Ibope.

A charge de Ziraldo que ilustra este post, publicada na época, retrata bem o espírito da lei que regulamentava a “comunicação” política em períodos eleitorais.

Hora do Reclame: Um clássico da propaganda de serviço público : Vandalismo da Telesp

18 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

Ele já foi já chamado de “Morte do Orelhão, mas foi com o título de “Vandalismo” que o comercial da DPZ criado para a Telesp em 1980 conquistou alguns dos mais importantes prêmios nacionais e internacionais e consagrou-se como um clássico da propaganda brasileiro, um dos mais criativos filmes já realizados para a comunicação de serviços públicos. “Vandalismo” obteve um leão de bronze no Festival de Cannes, Grand-Prix do Prêmio Profissionais do Ano da Rede Globo na categoria Serviço Público, uma estrela de ouro no Anuário do Clube de Criação de São Paulo e ainda Destaque do Ano no Prêmio Colunistas.

O filme de 60″ é uma criação de José Zaragoza, Francesc Petit, Neil Ferreira e Nelo Pimentel com direção de Julinho Xavier da Silveira da produtora Espiral; fotografia de Pablo Lazarani, cenografia de Domingos Utimura e montagem de Alberto Duran. “Vandalismo” nasceu de um briefing da operadora de telefonia de São Paulo que, então, estava alarmada com a quantidade de orelhãos depredados, números estes que a locução enfatiza ao longo do comercial. A solução criativa encontrada foi humanizar o orelhão e dramatizar a sua destruição. O impacto da mensagem chamou a atenção da mídia especializada, repercutiu na comunidade e de fato contribuiu para diminuir as estatísticas da depredação.

Aqui vale destacar os efeitos especiais de Domingos Utimura, um dos pontos altos deste filme. Assista ao vídeo

200 Anos de Imprensa no Brasil: A revista dos esportes olímpicos

17 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

 revista-olympia.jpg

Em meados de 1932 o Itaquece, navio de cabotagem da marinha mercante brasileira, zarpou do Porto de Santos rumo a Los Angeles. Levava 55 mil sacas de café sem comprador certo e 67 atletas brasileiros que deveriam representar o país nas olimpíadas. Antes assumiram o compromisso com o Comitê Olímpico Brasileiro de vender a mercadoria nos porões, porto a porto; esse era o preço do patrocínio estatal a ser pago por cada um dos esportistas, nessa condição transformados em promotores de vendas. Faziam parte da comitiva dirigentes e  jornalistas, entre os quais Fernando de Castro Rebello e Victorio Emmanuel Pareto. Já em solo americano, assistindo as performances da nadadora  Maria Lenk e do saltador de vara Lucio de Almeida Castro, os dois cogitaram criar uma revista especializada em esportes olímpicos.

No final do referido ano “Olympia”, que esse era o nome da publicação, revista semanal com 32 páginas, Capa em policromia, chegava às bancas, logo esgotando a sua primeira edição, resultado da chuva de papel picado (mini-panfletos) promovendo o seu lançamento pelas principais ruas do Rio de Janeiro. Expediente este antes utilizado por Assis Chateaubriand para o lançamento de O Cruzeiro e por isso mesmo uma ação promocional já testada e de impacto garantido. O logotipo da publicação incorporara a imagem do lançador de disco, o “discóbolo” de Miron, escultor que viveu no século V antes de Cristo. O editorialista definia o seu estilo: “Não abusaremos de louvores intermináveis, recheados de adjetivos bombásticos para com os medalhões”. 

Tarzan era o destaque

Olympia preencheu uma lacuna no mercado editorial que se ressentia da falta de um veículo segmentado na temática esportiva, desde o desaparecimento de Sport Ilustrado (1921), Sports (1923) e Mundo Desportivo (1926). E mesmo sendo editada quatro meses após o fim dos jogos olímpicos, este seria o tema predominante nas primeiras edições com muitas fotos dos atletas, provavelmente recortadas de publicações estrangeiras; o corte na mão grande da tesoura evidencia-se em quase todas as páginas. Mas este era um recurso válido na época e no caso específico a única maneira de retratar o evento, já que a cobertura sequer fora prevista, pois no tempo de realização das olimpíadas não existia.A imagem de Johnny Weissmuller o nadador olímpico que o cinema transformaria em Tarzan era o destaque recorrente nas primeiras edições da publicação que também mostrava o projeto de um estádio para o Palestra Itália e as performances de nossos melhores atletas olímpicos, os resultados do turfe semanal e rankings de melhores tenistas elaborados pelo “corpo redactorial” da revista, assim denominado no expediente, composto por dez jornalistas.

A sede era no Rio de Janeiro (Rua 13 de Maio), mas tinha sucursais em São Paulo (Edf Martinelli) e Porto Alegre (Rua Lima e Silva).Se o nome e objetivo da publicação remetia ao amadorismo, a campanha pela profissionalização do futebol, um paradoxo, seria a sua maior bandeira. Olympia mobilizou a opinião pública e participou na linha de frente na luta para que os jogadores de futebol recebessem uma remuneração. Considerava o amadorismo coma sua áurea de espírito olímpico uma hipocrisia e uma forma de exploração dos atletas, enquanto os clubes enriqueciam. Campanha vitoriosa que lhe rendeu desafetos, mas também grande prestígio. Não tenho a menor idéia de quanto tempo a revista circulou. Não há qualquer registro de sua existência nos catálogos de revistas publicados, livros sobre história da imprensa ou das revistas, ou na Internet, o que é lamentável, considerando a sua qualidade. Sei de sua existência por que possuo a coleção de 1932-1933.

Artigo de minha autoria inicialmente publicado no Portal Imprensa em 11/08/2008

200 Anos De Imprensa No Brasil: Um livro de Barbosa Lima Sobrinho

11 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

barbosa-lima-sobrinho.jpg livro-de-barbosa-lima-sobrinho.jpg

Barbosa Lima Sobrinho era Alexandre José, mas o Brasil nunca ficou sabendo disso. Foi com o seu sobrenome que escreveu em torno de 25 livros, assumiu uma cadeira de deputado federal, presidiu a Associação Brasileira de Imprensa por 16 anos (1925-29 e 1978-92) e tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras por mais de seis décadas. Faleceu no ano 2000, ainda lúcido, aos 103 anos de idade, reverenciado pela mídia. Mereceu. O fato é que Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho escreveu apenas dois livros sobre imprensa: o primeiro, objeto deste artigo, publicado em 1923 com o título “O Problema da Imprensa”, hoje (primeira edição) uma raridade bibliográfica de colecionador; o segundo, mais conhecido, publicado em 1979, a “Antologia do Correio Braziliense”.
 
Aos 26 anos de idade, então residindo no Rio de Janeiro, na época redator político do Jornal do Brasil, ex-colaborador do Diário de Pernambuco, Jornal Pequeno(PE), Correio do Povo (RS), Jornal do Commercio (RJ) e Gazeta (SP), Barbosa Lima Sobrinho lançou a obra aqui referida. “O Problema da Imprensa” editado por Álvaro Pinto, impresso na Tipografia do Almanak Laemmert, 286 páginas.

O tema não poderia ser mais atual (na época). Oportunidade que o jovem bacharel farejou, num momento em que o Brasil discutia as conseqüências da nova lei de imprensa, denominada de “lei infame” que o Governo autoritário de Arthur Bernardes acabaria por sancionar e que na prática representava um retrocesso. A referida legislação aumentava as penas já previstas no Código Penal, proibia o anonimato e relativizava as supostas ofensas, doravante um critério subjetivo do juiz. 

A contradição estado de sitio X lei de imprensa
A polêmica em torno do projeto de lei apresentado pelo deputado Adolfo Gordo envolvia, naquele momento, políticos, juristas, proprietários e funcionários de jornais, desta vez unidos em torno da mesma causa. O debate em torno da  “lei infame” de fato influenciou Barbosa Lima Sobrinho. No prefácio da obra revela essa sua motivação: “Num momento em que tanto se avolumou a campanha contra o jornalismo, alvo de uma lei opressora, pareceu-me oportuno expor os verdadeiros aspectos da imprensa, na coragem com que venceu obstáculos e na constância com que prepara o mundo para o porvir”.

Tinha plena consciência do verdadeiro objetivo da lei em curso, opinião que revela, já no escopo da obra: “Não custa a reconhecer que a campanha atual por uma lei de imprensa, surge, como todas as outras que se tem travado, de motivos de ordem política”.No capítulo A Campanha Atual e Seus Projetos expõe com todas as letras o seu ponto de vista: “Muita gente pensa, e não faz sigilo dessa convicção, que só se deve suspender o estado de sitio, depois de sancionada a lei de imprensa. Semelhante correlação entre matérias tão diversas e até opostas (o estado de sitio sendo realmente a suspensão de direitos individuais e a lei de imprensa uma demonstração da existência deles), levou os legisladores à adoção de medidas opressoras no seu projeto de lei”. E conclui: “Seria mais liberal que se discutisse e votasse uma lei dessa natureza em época de completa liberdade de imprensa”. Expõe, ainda, a sua convicção sobre o conceito de abuso: “Não há crimes propriamente ditos de imprensa: há abusos que são apenas da alçada da opinião pública”.

Paixões violentas
Nos 26 capítulos do livro o autor faz um registro das restrições à imprensa no mundo e no Brasil e as tentativas de se encontrar “O meio termo ideal entre a licença e a tirania” e finalmente as conquistas obtidas a muito custo, naquele momento ameaçadas pelo projeto de lei

em trâmite. Mas, o que torna a obra diferenciada em relação a outras do gênero é que Barbosa Lima Sobrinho não ficou apenas no registro histórico, faz uma profunda reflexão sobre o assunto, expõe abertamente as suas idéias; pretendia de alguma forma influenciar o debate parlamentar. Pena que não tenha conseguido, dadas as circunstâncias da época. No ano seguinte (1924) o jornalista era promovido a redator principal do JB. Um degrau superior na sua carreira como um mirante para melhor observar na prática as conseqüências da lei que no seu livro, com sabedoria, antecipou, seria extremamente nociva; expunha os motivos de sua convicção:  “está impregnada de paixões violentas e generalizadas”.  

Artigo de minha autoria inicialmente publicado no Portal Imprensa em 04/08/2008

Hora do Reclame: Olimpíadas. Do amadorismo ao traço de Zaragoza

8 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

anuncio-cia-de-gaz-de-1932.jpg 

Quando o Brasil estreava nos jogos Olímpicos de Antuérpia (1920) com a excelente performance da equipe de tiro (três medalhas conquistadas, uma delas o ouro de Guilherme Paraense ), o mito do amadorismo puro disseminado pelo barão Pierre de Coubertain ainda era bastante arraigado para inibir qualquer iniciativa da publicidade. Nenhum anunciante poderia usar a imagem de um atleta dito amador e, no caso específico do tiro (um esporte praticado nos quartéis, sem platéia e sem mídia), o bom senso recomendava ignorar o assunto.

Em Paris (1924), nenhuma performance digna de nota; em Amsterdã (1928), cancelávamos a nossa participação, em cima da hora, por falta de recursos;em Los Angeles (1932), embarcávamos a delegação no navio de cabotagem Itaquicê, com os atletas obrigados a carregar e vender sacas de café para pagar a passagem. Com tamanho incentivo, o oitavo lugar de Carlos Joel Nelli no salto com vara seria celebrado como um grande feito, repercutido pelas revistas especializadas e os telegramas internacionais no canto de página dos jornais diários.

 

anuncio-ob-zaragoza.jpg 

 

 

Salto com vara, a referência
A performance de Nelli, que, anos depois, seria diretor da Gazeta Esportiva e o responsável, em 1945, pela internacionalização da corrida de São Silvestre, certamente inspirou o criador do anúncio da Companhia de Gaz do Rio de Janeiro, ilustrado com um praticante da modalidade - anúncio veiculado em revistas da época. Então, vieram as Olimpíadas de Berlim (1936), o vácuo da Segunda Guerra, as Olimpíadas de Londres (1948), onde colhemos resultados modestos, até que, em Helsinque (1952) e Melbourne (1956), o Brasil revelava o maior de seus atletas olímpicos em todos os tempos: Ademar Ferreira da Silva, duas medalhas de ouro nos jogos.

 

Doravante, o nosso país seria uma referência no salto triplo (com Ademar, Nelson Prudencio e João do Pulo) e as façanhas de Ferreira da Silva inspiravam anúncios da Goodyear, que já fazia pneus, mas ainda tinha o “recall” no mercado como fabricante de solas de borracha. Desenho animado era a técnica; a imagem mostrava um sujeito pulando com sapatos de sola da marca, anúncio sem maior qualidade.

 

As Olimpíadas do México (1968) inspiravam campanha do fortificante Calcigenol e dos relógios Omega, então, o cronômetro oficial do evento. Mas Montreal (1976) é que seria o divisor de águas dessa apatia do Brasil em relação à temática olímpica na publicidade. A TV transmitia ao vivo a abertura, o encerramento e algumas provas onde o Brasil poderia obter um bom resultado. O evento, impulsionado pela telinha, dessa vez mexia com o país. O varejo apoiava-se na idéia de performances; o Brasil torcia e se frustrava com João Carlos Oliveira e as Olimpíadas finalmente revelavam um grande anúncio, autoria de José Zaragoza (DPZ), para o absorvente o.b da Johnson&Johnson, um clássico da propaganda brasileira.

 

O mesmo Zaragoza, anos depois, criava a magnífica campanha “Seleção Rhodia Estilo”, destaque nos anuários de todo o mundo. Já em Los Angeles (1984) o destaque foi a peça promocional da Topper com a imagem de Ricardo Prado, medalha de prata nos 400 metros medley. Em Seul (1988), o publicitário criava a campanha “Com Açúcar União você chega lá”. O fato é que, a partir das Olimpíadas de Montreal, a propaganda brasileira incorporou referências da grande festa do esporte mundial.

 

Artigo de minha autoria originalmente publicado na revista Propaganda em junho de 2004.

Hora do Reclame: A representação das cores no design olímpico

7 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

poster-jogos-de-londres.jpg poster-dos-jogos-de-seul.jpg

Em 1914 o Barão Pierre de Coubertin, idealizador dos jogos Olímpicos e então Presidente do Comité Olímpico Internacional, apresentou ao mundo a bandeira da entidade. Nela um elemento visual que representava os cinco continentes: cinco aros entrelaçados, cada um com uma cor diferente, sob um fundo branco. A idéia era simbolizar a únião dos cinco continentes, onde o fundo branco (a sexta cor) representava a paz entre os povos.

Hoje transcorridos 94 anos verificamos que na escolha das cores houve uma analogia com as raças predominantes em cada continente. O aro negro representa a África, o vermelho a América, o amarelo a Asia; a Oceania, então um continente virgem, era representada pelo verde e a Europa ariana pelo azul. uma cor nobre na simbologia das cores, não por acaso cunhou-se a expressão “sangue azul” para destacar os nascidos no âmbito da realeza. Houve preconceito nessa escolha? Ou, o artista seguiu um padrão cultural institucionalizado. Não sei. Deixou aos leitores a conclusão

Predominância

O certo é que o símbolo-mor das olímpiadas por algum motivo só passou a ser utilizado na comunicação visual do evento, a partir de 1928.  Surge no cartaz dos jogos de Amsterdã, impresso numa bandeira de sinalização; nos jogos de Los Angeles (32) aparece no rodapé e nos de Berlim (36) em primeríssimo plano, sobre a cabeça do atleta coroado. Alguns artistas gráficos incorporaram o elemento ao logo, outros o esconderam (jogos de Sidney) ou trabalharam uma cor padrão para todos os aros (jogos de Tokio e de Moscou) e pelo menos dois artistas, os desginer dos jogos de Montreal (1976) e Seul (88) fizeram do símbolo o elemento principal; este último trabalhou a simbologia dos aros espalhando ondas, conforme podemos apreciar na ilustração acima.

E os chineses? Mantiveram as cores originais e o incorporaram no rodapé com algum destaque. Em todo caso, constatamos, os aros olímpicos, no percurso da história, acabaram se sobrepondo no design olímpico ao símbolo primário do ramo de oliva cuja representação era a própria premiação (símbolica e real) dos jogos.

Para ver todos os cartazes das olímpiadas, desde 1896 clique aqui

Hora Do Reclame: O Design Olímpico

4 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2008

poster-de-berlim.jpg poster-de-moscou.jpg

Em 1936 Adolf Hitler queria provar a supremacia da raça ariana nos jogos olímpicos de Berlim. Acompanhou as competições da Tribuna de Honra e algumas no Palácio Presidencial, através de circuito fechado de TV, apenas disponível para ele e um grupo de afinidade. É claro que esse estado de espírito do Furher estaria presente na comunicação do evento, em particular no cartaz ou póster, naquele tempo um meio de comunicação muito popular na Europa. Mídia de rua, mas também de locais públicos fechados como estações de trem e de bonde, bares, bilhares e cafés. O artista anônimo que desenhou o póster oficial conseguiu traduzir a intenção do lider alemão desenhando a figura de um ariano, com feições de um semideus grego; no detalhe uma das versões da cruz gamada que originou a suástica.

Muitos anos depois (1980) um outro regime fechado e também empenhado em destacar a sua superioridade, não racial, mas política, produziu um cartáz também afinado com esse propósito. O designer que criou a comunicação visual dos jogos de Moscou destacou a estrela vermelha do regime comunista no alto de linhas que insinuavam um pódium. Comunicação voltada para dentro, exaltando o país sede quando o objetivo seria uma comunicação globalizada, já que o póster era teoricamente destinado a divulgar os jogos em mais de uma centena de países.

Em ambos os casos o design serviu um objetivo político bem explícito. No caso de Berlim o cartáz era a mídia por excelência, porém limitada na sua cobertura; no caso de Moscou era a televisão que cumpria esse papel e as linhas simétricas vermelhas do artista multiplicavam-se nos receptores de milhões de lares mundo afora.

Para conhecer todos os posters dos Jogos Olímpicos. Clique aqui