Posts por Maio, 2008

200 Anos De Imprensa No Brasil: Os dois Hipólitos

30 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

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Há dois Hipólitos, apesar do nome incomum (originário do grego e que significa o que solta os cavalos) na história da imprensa do Mercosul, ambos protagonistas do processo de independência de seus paises de origem e coincidência, ambos terminam os seus dias exilados, conseqüência da atividade jornalístico-panfletária e política desenvolvida. São eles: Hipólito da Costa, pioneiro da imprensa brasileira, fundador do Correio Braziliense em 1º de junho de 1.808 e Hipólito Vieytes, primeiro jornalista argentino, fundador do Semanário da Agricultura, Indústria e Comércio em 1º de setembro de 1.802.

Fora a coincidência do nome e do pioneirismo na imprensa de seus paises, ambos tinham uma sólida cultura, vastos conhecimentos de economia, pertenciam à maçonaria da qual foram figuras relevantes; no processo de independência foram perseguidos pelas suas idéias liberais e morreram jovens e no exílio. Hipólito da Costa faleceu em Londres aos 49 anos de idade, Hipólito Vieytes Em São Fernando, após o exílio no Chile, aos 53 anos. Outro ponto em comum entre os dois jornalistas é a sua vivência americana, ambos tiveram contato, em períodos diferentes, com as idéias de vanguarda da maçonaria da Filadélfia.

Hipólito da Costa editou o Correio Braziliense durante 13 anos, Já Vieytes editou o seu Semanário da Agricultura… de 1802 a 1.807, então com circulação interrompida após a invasão dos ingleses. Com os seus escritos Hipólito da Costa influenciou governo e oposição e foi um ativo protagonista no debate ideológico. Já Vieytes conspirou sem sucesso com Carlota Joaquina (esposa de Dom João VI) para empossá-la Rainha do Prata, apoiou a Revolução de Maio e foi secretário da primeira junta. Fora essa ação política foi também ativista em defesa dos direitos dos homosexuais, um ato de coragem num tempo em que a opção sexual poderia representar risco de morte.

200 Anos de Imprensa no Brasil: O fracasso das revistas semanais

28 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

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No Século XX o Brasil leu quatro grandes revistas semanais: Revista da Semana, O Cruzeiro, Manchete e Veja. Todas elas viveram décadas a fio para contar a sua história e se consolidarem como os mais importantes títulos editoriais no seu gênero. O sucesso do conjunto da obra, contudo, disfarça o fracasso inicial das referidas publicações; os quatro semanários repelidos pelo público leitor, num primeiro momento. Os brasileiros custaram a aceitar propostas inovadoras, modelos calcados nas revistas estrangeiras de maior sucesso, no tempo cronológico de seu lançamento. E nem os esforços de promoção de vendas extraordinários com muita publicidade na estréia e ações de rua diferenciadas, conseguiram driblar a desconfiança em torno do novo ou do que parecia novo, mas não era. Vejamos as circunstâncias:

Público alvo indefinido
A Revista da Semana nasceu em 1900 inspirada no semanário francês L’ Ilustration . A sua proposta era implementar o conceito de foto-reportagem e para isso adquiriu os mais modernos equipamentos de pré-impressão e impressão disponíveis no mercado. O seu proprietário, o Barão de Tefé, não mediu esforços nos investimentos com maquinário e na seleção de colaboradores. A primeira edição se esgotou em poucas horas, alias característica comum às demais publicações aqui referidas. Mas, na seqüência a revista definhou e o Barão, a pretexto da política, passou o título adiante para o Jornal do Brasil onde mais tarde se consolidou como um encarte dominical. Na minha opinião o fracasso inicial ocorreu por dois motivos: a qualidade da fotografia estava muito aquém da proposta e com isso não atingiu a elite que também lia as revistas estrangeiras e por outro lado o conteúdo, com Olavo Bilac como maior expoente, não correspondia à idéia de um semanário popular que o Barão um dia, disse, era esse o seu objetivo.

Com O Cruzeiro não foi diferente: primeira edição esgotada com 50 mil exemplares vendidos após ruidoso lançamento com chuva de papel picado na Av. Rio Branco. Inspirada em Time , destacava-se pelas magníficas capas ilustradas com mulheres imaginárias, mas o seu conteúdo deixava a desejar. Em 1931, estava falida e com a circulação comprometida e assim andou entre altos e baixos até 1943 quando assumiu o modelo da francesa Vu e da americana Life destacando as grandes reportagens com pitadas de sensacionalismo, muitas delas fabricadas pela dupla David Nasser/Jean Manzon. Em todo caso, conteúdo que alavancou a circulação de 50 mil exemplares para 400 mil em média, 700 mil em pelo menos uma ocasião. Nos primórdios O Cruzeiro vendia tecnologia, o seu diferencial era a rotogravura, fazia muito barulho em torno disso, mas o público queria algo mais do que as fofocas internacionais que preenchiam mais da metade do espaço, noticiário comum a todas as revistas.

Expediente vistoso
Manchete, por sua vez, veio para ser a Life brasileira, esgotando a sua primeira edição em poucas horas. Mas, já no número inicial, apresentava uma relação de colaboradores de primeiríssimo “time”, um cartão de visitas que não correspondia ao conteúdo. Dos mais de 15 nomes elencados no expediente apenas um assinava matéria. Fora isso faltou uma grande reportagem na estréia e uma capa mais atraente. É claro que não deu certo. Nem mesmo a contratação de Jean Manzon, uma das estrelas da concorrência, foi suficiente para motivar o leitor. È no final da década que a revista cativa o público, com uma proposta mais próxima da idealizada e não realizada na estréia, num momento
em que O Cruzeiro diversificava com a seu edição internacional enquanto a edição local perdia fôlego, no contexto de uma crise econômica, administrativa e mesmo política.

Veja repetiu o mesmo script das semanais que a antecederam: lançamento com muita publicidade, parque gráfico com tecnologia de ponta; fora isso o modelo Time noticioso, um corpo de colaboradores treinado, distribuição ajustada para entrega em 48 horas em qualquer rincão do país e um inédito centro de documentação (o Dedoc). Vendeu 700 mil exemplares na estréia e já no ano seguinte, falida, circulava com menos de 40 mil, chegou a 19 mil exemplares semanais. Consultores aconselhavam o fechamento, anunciando um déficit de 1 milhão de dólares/ano. A proposta de Veja não agradava o público brasileiro, sem referências do jornalismo informativo e ainda acostumado com o modelo de grandes fotografias. O reposicionamento veio em doses homeopáticas. A Editora Abril acrescentou-lhe fascículos, mas também ajustou o seu visual, sem fazer grandes concessões.

O momento
A moral desta história é que o preço do sucesso foi o fracasso. As quatro grandes revistas semanais do século foram planejadas com esmero e idealizadas como referências brasileiras do melhor jornalismo do gênero, então, praticado no mundo. Erraram, provavelmente, na avaliação do público alvo. Por outro lado as campanhas publicitárias superestimaram o produto e em alguns casos o desfiguraram. Mas, apesar dos desacertos os empreendedores insistiram nas fórmulas originais, fizeram ajustes e principalmente adequaram o seu conteúdo à realidade brasileira. Perseveraram e por isso foram vitoriosos. Quanto à sua importância na história do jornalismo brasileiro qualquer opinião é clichê. O “momento” de uma publicação não diz tudo à respeito de toda sua trajetória.
Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 19/05/2008

200 Anos De Imprensa No Brasil: As segundas intenções da Lei

27 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

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O Brasil teve cinco leis de imprensa, desde quando Dom Pedro I proclamou a Independência, o chamado “Fico”, solução para preservar os dedos, já que os anéis tinham ido embora com o seu pai Dom João VI, instado a retornar a Lisboa para retomar o absolutismo. Muito pouco tem se falado destas cartas reguladoras, apenas o seu contexto político, com raríssimas exceções. Mas é o texto de cada uma delas que nos revela a verdadeira intenção dos legisladores, também as segundas intenções, estas de fato explícitas nos primeiros parágrafos, o enunciado básico que denuncia os propósitos. As cinco cartas reguladoras deixam entrever, logo nos seus primeiros artigos, os seus verdadeiros objetivos.

A carta prima sancionada por Dom Pedro I em 22/11/1823, descontando os “considerandos” que releva os abusos como justificativa, no seu artigo primeiro, estabelece que “nenhuns escritos… são sujeitos à censura, nem antes, nem depois de impressos”. Neste caso o recém instalado regime imperial demarca a fronteira entre os abusos e a liberdade, sem o fantasma da censura que prevalecera como marca registrada da imprensa durante, praticamente, os quatorze anos do período colonial. Digamos treze, considerando a liberdade “concedida” de 1821 em diante. Já a carta de 20/09/1830 inverte as prioridades, acrescentando um título que antecede o artigo 1 e cujo contexto é revelador das segundas intenções: “Dos abusos da liberdade de imprimir os pensamentos por impressos, por palavras e manuscritos e das penas”. Ou seja, deixa entrever que o propósito da carta não é mais condenar a censura, prioridade da anterior, mas “resguardar” o governo contra os “abusos”. Dom Pedro apenas oficializava a ação prática, já em andamento, de amordaçar a imprensa oposicionista que o incomodava. Mas, sem o recurso da censura, a aplicação da Lei tornava o processo burocrático e vagaroso. Era mais fácil tirar de cena o autor dos escritos do que o escrito e foi com base nesse raciocínio que sicários tocaiaram e mataram Libero Badaró, dois meses após sancionada a referida Lei.

Intenções claras

A carta de 31 de outubro de 1923 é toda ela segundas intenções. O seu primeiro artigo é contundente: “Os crimes previstos nos artigos… serão punidos com as seguintes penas:”. Diferente das anteriores, a Lei em nenhum momento admite ao menos o conceito de liberdade de imprensa. Seu objetivo era somente aumentar as penas previstas e estender as responsabilidades até o distribuidor, o coitado do jornaleiro que também poderia ser processado. A lei de 14/07/1934 re-estabelece o conceito de liberdade declarando “livre a manifestação de pensamento pela imprensa” já no seu artigo inicial, mas ressalva: ” A censura, entretanto, será permitida, na vigência do Estado de Sitio…”. As segundas intenções logo se tornaram realidade, o Estado de Sitio decretado no ano seguinte, a pretexto da Intentona Comunista. Mas a carta getulista também introduzira no seu capítulo II normas mais rígidas para a matrícula dos jornais, incluindo uma tal de “folha corrida” dos repórteres.

A ditadura militar preservou na abertura, carta de 09/02/1967, a declaração de ser “livre a manifestação do pensamento”, mas logo no parágrafo único revela as segundas intenções: “Não será tolerada a propaganda de guerra, de processos de subversão da ordem política e social…”. A teoria da subversão seria uma luva para os propósitos do regime até dezembro de 1968 quando a carta passou a ser um acessório. O AI5, sancionado em 13/12 revogava todas as disposições, a favor ou em contrário, e então prevalecia a força sobre a Lei. O Ai5 não tinha segundas intenções e sim intenções muito claras.

Ilustração do post extraída do Portal Imprensa

Hora do Reclame: O comercial do frio das Casas Pernambucanas

25 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

Um dos comerciais mais apreciados pelos internautas brasileiros é o desenho animado das Casas Pernambucanas, milhares de views no YouTube, veiculado em inícios dos anos 60, produzido pela Linxfilm. O filme de 30″ , um misto de animação com película, destaca um personagem, “o frio”, que bate na porta de uma residência, “mas não adianta bater”, que não deixam ele entrar. No interior, uma família se aquece em volta da chaminé, todos agasalhados com os tecidos e cobertores das Pernambucanas, então uma das maiores redes varejistas do país com forte presença no interior dos principais estados. Me admira o sucesso que esse comercial faz considerando a época de veiculação quando a propaganda na Tv já deixara de lado, praticamente, a técnica de animação quadro a quadro, desenvolvida ao longo da década de 50 para contornar os altos custos do merchandising ou dos comerciais ao vivo; desenho animado era barato e prático. Mas no ano de veiculação do referido comercial, 1962, prevalecia uma outra linguagem na propaganda brasileira.

Em todo caso o varejo tem razões que os próprios publicitários desconhecem e se incomodava os melhores criadores do mercado, a trilha agradava os telespectadores e seguramente que o produto vendia. A freqüência de mídia contribuiu para popularizar o filme. Não era criativo, mas a brincadeira do frio batendo na porta dizia alguma coisa ao público alvo, o “target” da rede varejista. Roberto Duailibi o D da DPZ, certa feita, analisando a propaganda da década anterior, em entrevista à revista Propaganda (78) lembrou-se do comercial: ” … Os padrões não eram sempre altos. Mas não eram tão burros ao ponto de você rejeitar e ficar irritado como com as Casas Pernambucanas, com aquele imbecil do “não adianta bater eu não deixo você entrar”. Isso é muito pior”. É claro que não era o nível de trabalho da DPZ, surgida em 1968, ou da Alcântara Machado com as excelentes criações para o Volkswagen. Mas, era varejo e nesse caso não tinha grito, apenas uma melodia piegas como o brasileiro médio daquele tempo. Então, vamos dar um desconto. Assista ao vídeo:

Hora do Reclame: Xuxa e Pelé em comercial de natal

21 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

Em meados dos anos 80 Pelé apresentava ao Brasil a sua namorada, a gaucha Maria da Graça Meneghel-Xuxa, apresentadora do Clube da Criança da TV Manchete; fotos do jogador e da modelo, então a segunda mais bem paga do país, foram estampadas em capas da revista semanal Manchete, editora Bloch em duas edições diferentes. A notoriedade do casal chamou a atenção de um anunciante do Rio de Janeiro, a imobiliária Francisco Xavier Imóveis, ainda hoje existente que contratou a dupla para gravar um comercial natalino. O filme do ponto de vista criativo não tem nenhum valor, além de ser mal dirigido. E o roteiro incomoda as mulheres pelo machismo implícito na idéia da mulher-objeto que o jogador encontra embalada numa caixa de presente. Chama à atenção, por outro lado, a concordância da modelo em se vestir de noiva, ela que na época fazia questão de dizer que casamento era algo que não estava nos seus planos.

O valor do comercial hoje aqui postado está apenas nos personagens. Uma raridade que o pesquisador José Marques Neto do Rio de Janeiro achou entre as milhares de horas de gravação de programas de TV que possui na sua residência e disponibilizou no YouTube há três meses. Na época o comercial foi exibido apenas no Rio de Janeiro. Assista ao vídeo:

200 Anos De Imprensa No Brasil.Em 1968 o recado dos estilhaços

20 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

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Em 20 de abril de 1968 os gorilas da ditadura mostraram as suas garras para a imprensa que até então gozava de uma liberdade relativa. Nos quatro anos de governo militar a repressão ocorrera apenas no pé de ouvido, recadinhos que as autoridades transmitiam aos donos dos jornais, de quando vez recomendações para afastar um repórter “inconveniente”. Mas naquela madrugada “uma bomba de alto teor explosivo, colocada no canteiro existente à porta lateral do edifício do Jornal O Estado de S. Paulo, explodiu, abalando o centro da cidade”; assim noticiou o Correio da Manha na sua edição de 21/04/1968. Primeiro creditou-se a autoria do atentado ao hoje economista Diógenes de Oliveira, na época militante da Vanguarda Popular Revolucionária-VPR. Versão que interessava ao Estado Major do II Exército, o verdadeiro responsável, conforme ficou provado anos depois.

Apenas um aviso
O fato é que a partir de abril de 1968 os recadinhos de pé de ouvido foram deixados de lado e a ditadura, que Elio Gaspari chamou de envergonhada, assumiu outro perfil. Em 22 de julho uma outra bomba explodia no 7º andar do prédio da Associação Brasileira de Imprensa-ABI. Em 07 de novembro o ataque atingiu o deposito de papel do Jornal do Brasil e em 07 de dezembro o Comando de Caça aos Comunistas-CCC, órgão a quem foram atribuídas as bombas referidas, explodia a agência de classificados do Correio da Manhã. Estima-se em três toneladas de vidro o lixo provocado pelo artefato na calçada da Av. Rio Branco.
Era apenas um aviso: na semana seguinte policiais de metralhadora invadiam a redação, episódio este assim relatado por Niomar Muniz Sodré, proprietária do jornal, reproduzido por Paolo Marconi no seu livro ” A Censura Política Na Imprensa Brasileira”: ” Uma bomba de alto teor explosivo foi atirada contra nossa agência da Av Rio Branco, recém reformada. A 13 do mesmo mês tivemos a redação invadida por policiais, de metralhadoras e revólveres, para prenderem, não a mim, mas ao nosso diretor-superintendente e redator-chefe Osvaldo Peralva e que só foi posto em liberdade no dia 28. Em 7 de janeiro de 1969, toda a edição do Correio da Manhã foi apreendida, antes mesmo de ser integralmente impressa, e todos nós fomos arrastados ao cárcere, ficando ainda a Casa submetida ao terror”.

Responsabilidade do Presidente
Em editorial publicado no dia seguinte à explosão da bomba (transcrito no livro Um Jornal Assassinado de Jéferson de Andrade com colaboração de Joel Silveira), o jornal duvidou do interesse do Governo em apurar os fatos e com todas as letras e muita coragem responsabilizou o Presidente da República:”Já se sabe o que o governo vai dizer. Dirá que nada tem a ver com o duplo atentado de ontem… Não investigou os atos de terrorismo praticados contra O Estado de S. Paulo, o Jornal do Brasil e O Globo. Considerou a todos atos de rotina, a rotina da anarquia, implantada no país….O governo não é inocente. É cúmplice… Associa-se ao crime… Mas do que indiferença, há, no comportamento do governo, estímulo à violência. Há conivência…O Correio da Manha com a sua longa história de luta contra a prepotência, onde quer que ela se manifeste e como se manifeste, não se preocupa em denunciar ao país os agentes secundários do terror. Aponta à consciência nacional o responsável direto pelo terrorismo: o Presidente da República, marechal Artur da Costa e Silva”.

Novos métodos

Os ataques a bombas apenas sinalizaram uma mudança de atitude. A partir de 13 de dezembro quando sancionado o Ato Institucional nº 5, o regime passava a contar com instrumentos “legais” (previstos no documento) para amordaçar a imprensa. A aplicação desses métodos não demorou a aparecer. Além da invasão ao Correio da Manha, militares aprendiam as edições do O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Veja, no contexto a prisão de jornalistas. O Brasil revivia os tempos das ditaduras Arthur Bernardes e Getúlio Vargas e encerrava o conturbado ano de 1968 sem um horizonte alvissareiro. Os métodos mudavam. Doravante teríamos menos bombas. Em compensação, teríamos censores nos jornais, bilhetinhos no lugar dos recados do pé de ouvido, instruções oficiais e torturas. Os estilhaços das bombas de 1968 eram apenas um recado.

Artigo de minha autoria publicado originalmente no Portal Imprensa em 12/05/2008

Hora do Reclame-A estréia de Regina Duarte na telinha comercial

19 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

Regina Duarte foi descoberta pela propaganda e foi através de sua interpretação em comerciais gravados para diversos produtos, entre os 14 e 17 anos de idade, que chamou a atenção de um afamado diretor de novelas. Era uma menina crescida, mas tinha um ar de adolescente-adulta e um sorriso encantador; a sua expressão corporal já era notória. Ela mesma conta essa sua estréia na TV em depoimento para o livro “50 Anos de TV no Brasil”, coordenado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho-Boni:”Tenho 12 anos e sou matriculada, por meus pais, no curso de declamação da professora Maria Silvia Ferraz Silva, em Campinas… Tenho agora 14 anos. Corro para atender a um telefonema urgente no armazém da esquina. Estão me chamando para realizar a minha primeira campanha publicitária em São Paulo: o lançamento em outdoor do Lingote da Kibon”.

Continua narrando :” Vou receber 85 mil cruzeiros por um dia de trabalho e fico à beira de um desmaio quando reparo que o salário mensal de meu pai é de 35 mil!. Em seguida sou chamada para uma série de filmes publicitários para televisão: Xampu Halo, sabonete Lux, Kolynos e Frigidaire, este último premiado e responsável pelo convite que o diretor Walter Avancini me faria para participar de A deusa vencida, novela de Ivani Ribeiro para a TV Excelcior.” Nas lembranças da “Namoradinha do Brasil”, denominação que a acompanhou desde 1975 por conta de título da Veja em entrevista nas páginas amarelas, passou batido um comercial de 30″, hoje exibido neste espaço, gravado por Regina para a Vokswagem, provavelmente em 1962. Sua interpretação no papel de aprendiz de motorista é ótima. Mas quem descobriu efetivamente o seu talento? A McCann-Erickson, agência que a contratou para gravar os comerciais aqui citados. O de Kolynos, por exemplo, embalado pela trilha que falava em gente jovem, dinâmica e traduzia o conceito de frescor num “Ah!”. Expressão ainda hoje, mais de 40 anos transcorridos, utilizada nas campanhas do creme dental Sorriso. Assista aos vídeos:

200 Anos de Imprensa no Brasil: Leis de Imprensa: Motivações Torpes

12 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

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Em 200 anos de imprensa tivemos cinco leis reguladoras, todas surgidas em tempos de conturbação política e com motivações inconfessáveis. Em comum, fora as filigranas jurídicas, o objetivo de restringir liberdades, ampliar punições e intimidar. As leis sancionadas atenderam interesses, mas também caprichos e até patologias que os legisladores com maior ou menor sutileza incorporaram ao texto. Antecedentes estes que dão razão ao deputado Miro Teixeira e outros que defendem a idéia de se suprimir a lei em vigor. Melhor não ter lei nenhuma do que construir um novo arcabouço jurídico, a pretexto de se assegurar a liberdade de imprensa, ou de prevenir os seus abusos. O problema são as motivações e o contexto.

A herança

No Brasil herdamos a censura prévia e com ela o principio da lei romana de “injuria e libellus famosus” , alias, ainda presente na lei em vigor de 1967 (artigo 20 que não admite o ônus da prova no caso de “difamação” contra o Presidente e outras autoridades, mesmo sendo verdade). Quando Dom Pedro I sancionou a nossa 1º Lei de Imprensa em 1823 nenhum jornal brasileiro circulava com mais de 500 exemplares e os índices de analfabetismo no país eram de mais de 90% da população, segundo os historiadores. Ou seja, a lei preservava os interesses dos próprios legisladores, eles mesmos atores nesse processo, num contexto onde os jornais eram declaradamente partidários, faziam proselitismo e o leitor se informava apenas por indícios, as chamadas entrelinhas.


Naquele tempo a imprensa não afetava a vida dos cidadãos como hoje, E a motivação de nossa lei primária de 22/11/1823 foi torpe. Esta escrito: “Considerando que a lei de imprensa é um dos mais firmes sustentáculos dos governos constitucionais, também o abuso dela os leva ao abismo da guerra civil e da anarquia, como acaba agora mesmo de mostrar uma tão funesta como dolorosa experiência…sendo de absoluta necessidade empregar um pronto e eficaz remédio que tire aos inimigos… deste Império toda a esperança de verem renovadas as cenas que quase o levaram à beira do precipício…”. Eficaz remédio ? Ou seja, a Lei tinha o propósito de combater um inimigo invisível, identificado por uma avaliação subjetiva, pessoal. Falar mal da igreja ou negar os seus dogmas, por exemplo, sujeitava o infrator a seis meses de prisão. Escrever sobre o Governo, se interpretado como incitação à rebelião, representava o risco de dez anos de degredo para uma província distante.

Lei infame
A nossa 2º Lei (20/09/1830), também sancionada por Dom Pedro I, tinha motivações semelhantes. Ele mesmo na sua fala do trono, quando da abertura dos trabalhos legislativos, lembrara “a necessidade de reprimir, por meios legais, o abuso que continua a fazer-se da liberdade de imprensa”. A Lei apenas tipificava os abusos e sequer manteve os artigos iniciais da carta anterior que explicitavam o conceito de liberdade de imprensa. O Imperador estava no meio de uma grave crise política que resultou, no ano seguinte, na sua abdicação do trono e foi nesse contexto e com o objetivo de “limitar” a influência da imprensa que a lei foi construída.
93 anos se passaram antes de termos a nossa 3º Lei de Imprensa, a chamada “Lei Infame” sancionada por Arthur Bernardes em 31/10/1923, num contexto de Estado de Sitio e violenta repressão aos jornais. O documento é um primor da falta de sutileza: contundente na linguagem, afirmativo no seu propósito de aumentar as penas já previstas pelo Código Penal. A carta tinha o único propósito, acreditem, de elevar as penas e introduzir o conceito de relatividade das “ofensas”, a critério do julgador.

Cadastro com endereço
Mais tarde (14/07/1934) Getúlio Vargas sancionava a nossa 4º Lei de Imprensa. O contexto agora era uma ditadura: uma semana antes do Presidente ser confirmado no Governo, através de uma eleição indireta. A carta prioriza a matrícula das oficinas e jornais e o cadastro de todos os profissionais, incluindo o seu endereço residencial. Para que o endereço? Certamente que não era para enviar flores aos jornalistas no seu aniversário. A 5º e última Lei de Imprensa (09/02/1967), sancionada por Castelo Branco, atualizou os conceitos da ditadura de 34 para o contexto da ditadura militar. Incluiu a televisão que não existia no governo Vargas e abrangeu nas restrições, a liberdade de pensamento, conceito que foi resgatar nas leis anteriores à Revolução Francesa.

Antecedentes, como se vê, não muito recomendáveis. Melhor não ter lei nenhuma como nos Estados Unidos onde a primeira emenda da Constituição descarta essa possibilidade, do que construirmos uma outra Lei de Imprensa para atender sabe-se lá que motivações dos governantes de plantão. Quanto ao argumento, dos defensores de uma lei reguladora, de que a imprensa afeta a vida dos cidadãos, não se sustenta. Nesse caso teríamos uma Lei de Culto, já que a religião também mexe e afeta a vida das pessoas. Dom Pedro I, conforme relatado, chamava a Lei de Imprensa de “eficaz remédio”. A história nos mostrou que tinha gosto de purgante com efeito de veneno.

Artigo de minha autoria publicado originalmente no Portal Imprensa em 05/05/2008

Hora do Reclame-Carlos Moreno : De Bombril virado para a lua

8 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

Em 1978 a DPZ contratava o seu segundo garoto propaganda Bombril, o ator Carlos Moreno, testado por Andres Bukowinsky, diretor da Aba filmes, a produtora escolhida para rodar o primeiro de uma série de comerciais, em torno de 350 em três décadas ininterruptas.Ficou fora do ar durante alguns anos. Ninguém poderia prever a longevidade de um personagem que superaria o lendário Franks Perdeu da propaganda americana, destaque brasileiro no Guines Book. Mas, se você estranhou eu ter falado em segundo garoto Bombril fique sabendo que no ano anterior (77) a mesma agência contratara o ator Nuno Leal Maia para encenar um roteiro semelhante ao de Moreno, gravado pela Espiral. O comercial, também gravado em estúdio, transcorreu no cenário de uma cozinha, o ator ostentando um avental. Não repercutiu.

Já, Moreno, cativou desde o início com o seu jeito timido, o seu físico franzino e o bom humor com pitadas de ironia, um novo estilo de vender produtos de limpeza, original. Quebrava-se o paradigma para o produto da propaganda comparativa com testemunhal de dona de casa, modelo herdado da propaganda inglesa e americana. O comercial que hoje exibimos neste espaço foi o primeiro da série. Reparem que o cenário é neutro. Mais tarde é que Washington Olivetto e Francesc Petit, criadores da campanha, introduziram a marca aplicada na parede, elemento que nos remete ao formato de merchandising característico dos anos 60, segunda década da Tv no Brasil.

Neste primeiro comercial Carlos Moreno apresentava o produto Bril, um lava louças. Mas logo em seguida assumiria o papel de toda a linha de produtos da Bom Bril, na sequência encampando dezenas de personagens em memoráveis campanhas, ainda hoje com elevado “recall” entre privilegiados telespectadores de final da década de 70 e toda a década de 8o. Comerciais, todos, gravados pela ABA filmes e dirigidos por Andres. Junto à crítica especializada o garoto Bom Bril também fez bonito, desde os primórdios. O primeiro comercial de Moreno obteve medalha de ouro no Anuário do Clube de Criação de São Paulo e o Grand Prix do Prêmio Colunistas. Inaugurou, ainda, a galeria de Grand-Prix da categoria Mercado do recem lançado Prêmio Profissionais do Ano da Rede Globo. É, Carlos Moreno nasceu, mesmo, de BomBril virado para a lua. Assista ao vídeo:

200 Anos De Imprensa No Brasil: O Jornalismo Intruso

6 dAmerica/Chicago Maio dAmerica/Chicago 2008

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Quem diz que o jornalismo é a vocação e razão de ser dos veículos de comunicação ? O jornalismo é um intruso. Não foi cogitado como objetivo de nenhum dos veículos que a humanidade conheceu até hoje. Inventor algum imaginou que através de uma prensa, uma caixa sonora, uma caixa com imagem, ou uma tela com teclado, poderia se divulgar noticias. E se o jornalismo acabou sendo o produto principal do jornal e da revista e subproduto dos demais meios de comunicação é porque na história do mundo alguém se lembrou de ocupar um espaço que não era o seu, invadindo a seara dos outros, não por inveja, mas por preguiça. Esses precursores do periódico desenvolveram a escrita fascicular (um tema hoje, outro amanhã), escreviam menos e nesse culto ao ócio inventaram o conceito de jornal.

Quando Johannes Gutemberg fundiu os tipos móveis imaginou apenas imprimir livros, propósito também dos vários mestres que dominaram a técnica e multiplicaram as oficinas tipográficas por toda Europa. Mais de um século, eu disse um século, transcorrido da invenção de Gutemberg ninguém cogitara essa coisa de contar para os outros os acontecimentos da vila ou a intimidade dos palácios ou das casas feudais. Muito menos com regularidade. Então surgem os chamados precursores (Einkommende Zeitungen e outros do gênero) que nada informavam, eram apenas veículos de propaganda. Tinham a mesma finalidade que o edital público ou o cartaz de sacristia colado nos palácios ou igrejas, num outro formato. O jornal era o veículo, mas jornalismo não era o seu produto.

Caixa de música
Com o rádio não foi diferente. Tudo que Giugliemo Marconi queria na vida era ganhar dinheiro com os telegramas sonoros e por isso o invento era denominado de TSF (telegrafia sem fio). Os seus concorrentes imaginaram o veículo como uma extensão do telefone, os militares cogitaram um instrumento para substituir o megafone e o grito no campo de batalha e acabou sendo a “caixa de música” de David Sarnoff. Após a primeira guerra deveria ter sido um veículo educativo, mas a lógica do mercado que impulsionou o seu crescimento torno-o um canal de entretenimento. O jornalismo intrometeu-se também nesta seara. Invadiu o espaço dos outros através da tecnologia de ondas curtas e então Hitler, Mussolini, Stalin e a BBC… transformaram a informação em release. Como nos primórdios do jornal a “noticia” era propaganda.

A televisão já nasceu carimbada pelo entretenimento. Os telejornais sempre estrearam no dia ou na semana seguinte à abertura oficial, em intervalos bem curtos; o sujeito sequer olhava para a câmara direito. Quem estava do lado de cá não via um jornalista na pantalha. O homem da telinha com a sua voz “impostada” e gestos “teatrais” estava mais para um “ator” interpretando um script. É claro que um dia o homem chegou na lua, mas até os pulinhos de Neil Armstrong no satélite tinham um “ar” de ficção, Enterteiment puro, jornalismo coisa nenhuma. E se eu disse que a TV era entretenimento extrapolei, era e é o cachorro de poltrona, ainda hoje o melhor amigo e companhia do homem, com a vantagem de que não late e não faz xixi na sala.

Caixa de ferramentas
A internet, por sua vez, nasceu para garantir bancos de dados independentes entre bases militares, ninguém cogitou noticias. O meio acadêmico apropriou-se do invento até os fornecedores de infra-estrutura de telecomunicações desenvolveram o conceito de “caixa de ferramentas”. Logo transformava-se (com apoio dos provedores de conteúdo) numa “caixa de ferramentas e meios” e o jornalismo, novamente intruso, ocupava um espaço que não era o seu. Invadia a seara da pornografia, da jogatina, dos sites de relacionamento e dos Msns da vida, estes sim a verdadeira vocação da internet. A culpa disso tudo é do Gutemberg que ao inventar os tipos móveis, criou a possibilidade da renovação. O mesmo tipo usado hoje, poderia ser usado amanhã. E a reciclagem na transcrição da escrita só poderia dar nisso aí: jornalismo.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/04/08