Posts por Setembro, 2007

A Falência do Modelo das Rádios Comunitárias

30 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

A TV Câmara exibiu neste domingo um interessante programa sobre as rádios comunitárias, presentes representantes de vários segmentos, incluindo dois parlamentares: os deputados Lincoln Portela (MG) e Walter Pinheiro (BA). O debate pontuou claramente os objetivos previstos quando sancionada a Lei que criou as rádios comunitárias, há dez anos atrás, e os resultados obtidos na prática. Ou seja, constatou-se a falência do príncipio básico de democratização da comunicação e a incapacidade do Governo de conceder outorgas, fiscalizar e pior ainda, dispor de um banco de dados organizado sobre o assunto com acesso livre à população, em tempos de comunicação digital. O que se sabe é que há hoje no Brasil em torno de 3.000 rádios comunitárias com licença e pelo menos 15.000 clandestinas que ninguém sabe a quem pertencem, o que pretendem, quais as comunidades que supostamente representam, em fim. Mas o pior é que o Governo também não conhece, ou se conhece não disponibiliza informações sobre as rádios com licença concedida. O programa mostrou um estudo realizado por pesquisadores de Brasilia cujas conclusões são preocupantes. A pesquisa demonstrou que mais de 50% das rádios comunitárias legalizadas pertencem a partidos políticos, deputados e vereadores ou igrejas e por isso mesmo foi intitulada de “Novo Coronelismo Eletrônico”. Ou seja, constastamos não mais por evidências, mas por uma metodologia científica, que se desvirtuou totalmente a finalidade das rádios comunitárias; deixam de pertencer à comunidade para atender interesses específicos. Uma das razões para essa distorção ficou evidenciada no debate. A Lei não previu uma forma de sustento das emissoras e criou a figura do “apoio cultural” que vêm a ser um patrocínio disfarçado. A verdade é que o Governo, o Parlamento e alguns setores que lutaram pela “democratização” da mídia no rádio descobrem tardiamente que é impossível reinventar a roda. Só há três fórmulas de mercado para se manter uma rádio, seja comercial, comunitária, ou independente: a publicidade, o subsídio estatal ou através da própria comunidade, pelo sistema de assinaturas ou associados como na TV fechada. Do contrário gera as distorções já constatadas e com elas a falência de um modelo que recria o coronelismo eletrônico, sem rosto e sem identidade, pronto para manipular a seu favor as “demandas” do grupo que diz representar.

Hora do Reclame-O Filme dos 10 Anos da TV Aratu

30 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

A devoção ao Senhor do Bonfim é uma das mais fortes tradições culturais da Bahia; a igreja que leva o seu nome recebe às sextas feiras a visita de centenas de baianos vestidos de branco e em janeiro a procissão consagrada ao santo reune um milhão de pessoas, milhares de turistas incluídos, numa das mais belas manifestações folclóricas e religiosas da terrinha. A devoção é embalada pelos acordes melódicos do hino de Arthur de Salles e do Maestro Wanderley, um épico de 1923 que Caetano Veloso resgatou em 1968 no auge da Topicália. Foi com base nesses elementos: fê, cultura, religiosidade, tradição que Duda Mendonça criou um lindo comercial para homenagear os 10 Anos da TV Aratu, então afiliada Globo, transcorridos em março de 1979. Convidado a assistir o comercial o então Ministro das Comunicações, Haroldo Correia de Matos, externou a sua emoção: “Isso é poesia visual. É o filme mais bonito que ví em toda minha vida”. De fato um filme belíssimo, criado pela DM9, uma das referências de linguagem regional mais marcantes naquele final de década de 70 quando a propaganda brasileira buscava se libertar das influências criativas das agências americanas e do roteiro traçado por David Ogilvy nos seus livros, best sellers de cabeceira. Não sei qual foi a equipe de criação do filme, peço o apoio aos leitores do blog, mas imagino que tenha sido Duda Mendonça, Clício Barroso, Luis Gonzaga Saraiva e Chico Abreia. Assista ao vídeo:

Hora do Reclame-A Categoria Miran no Anuário do CCSP

29 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

miran-raposa.jpg

Em 1978 o júri do 3º Anuário do CCSP, presidido pelo Sergio Graciotti (Washington Olivetto estreando como jurado) tomou uma decisão incomum que nunca mais se repetiria na história da publicação, tida como a biblia dos criativos brasileiros. Instituía uma nova categoria, diferente das estipuladas pelo regulamento, apenas para enquadrar os trabalhos de Oswaldo Miran, um talento emergente, então revelado, decisão assim justificada em editorial: ” O trabalho de Miran destacou-se de tal maneira, em relação aos demais concorrentes, que o júri decidiu dar-lhe uma medalha de ouro, pelo conjunto de suas peças, recomendando ao CCSP que as reproduza num caderno especial, dentro do Anuário”. Destacado com um separador de capítulo lá estava o “Caderno Especial Ouro Miran”, contendo treze trabalhos;porém, outros do artista paranaense podiam ser vistos também nos capítulos Regional e Nacional Editorial. Muitos anos depois Miran já contabilizava 60 medalhas conquistadas no Anuário, uma rara performance individual, então já reconhecido como um dos maiores designers do mundo. Os trabalhos que surpreenderam o júri do Anuário de 1978 eram do “Raposa”, encarte do Diário do Paraná, veículo que deu visibilidade e fama ao artista. Em 1982 Miran lançava a revista “Grafica” que teve reconhecimento internacional e circulou na primeira fase durante 12 anos, mas isso já é outra história, objeto de futuro post, ainda neste exercicio de 2007 em que Miran completa 40 anos de atividade profissional. Para ilustrar a “Hora do Reclame” de hoje escolhemos a capa do magazine de humor aqui mencionado, edição de março/abril de 1982. Não esqueça de visitar o blog de Miran, a partir de hoje aqui disponibilizado, em link específico do blog do Almanaque.

Hora do Reclame- O Negro em Anúncio de 1907

28 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

anuncio-antarctica-1907.jpg

O anúncio que hoje postamos neste espaço da “Hora do Reclame” foi publicado em janeiro de 1907. ou seja há um século, na revista Arara de São Paulo (hebdomanário ilustrado dirigido por Augusto Barjona) de grande influência na época que circulou de 1905 a 1907. Uma das características da revista era o uso de clichés coloridos em anúncios da Papelaria Duprat, Moulin Rouge, Agua Mineral Caxambu e da Cervejaria Antarctica Paulista. Eram anúncios em tricomia, processo de montagem de três cores básicas, incomum para a época, diferencial competitivo da Revista Da Semana e O Malho no Rio de Janeiro e Revista do Brasil na Bahia. Em resumo, a tricomia era um chapadão, mas destacava-se do conjunto de anúncios e mesmo do bloco editorial, todo ele produzido em P&B. O anúncio da Antarctica chama a atenção pela ilustração: três rapazes negros, uma das referências mais antigas de afrodescendentes na propaganda brasileira, o que nos leva a concluir que o produto buscava um “target” de consumidores dessa etnia. Consumidor de baixa renda, no contexto socio-econômico da época. A ilustração é rude, seguramente desenhada em matriz de pedra litográfica, transposta em cliché de zinco. Naquele tempo a Antarctica comercializava três produtos: as cervejas Pilsen, Porter e Tupy. Não dá para identificar o rótulo da garrafa que os rapazes seguram na mão e o anúncio divulga mesmo é a marca da fábrica. Mas vale registrar que a companhia chegou a lançar uma cerveja chamada “Pretinha” cujo rótulo é hoje muito apreciado por colecionadores; mostra um negro montado numa garrafa. Registro também que não encontrei nenhuma referência de “Pretinha” anterior a 1915, de modo que não dá para fazer ilações entre a marca e o anúncio aqui reproduzido.

A Imprensa Desatenta

27 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

Por Alberto Dines.

Comentário para o programa radiofônico do OI, 27/9/2007

Ninguém esperava que o Senado rejeitasse a medida provisória que cria a Secretaria Especial de Planejamento de Longo Prazo. Foi uma decisão surpreendente do PMDB, com gravíssimas implicações políticas. Surpresa geral, mas a votação estava na agenda do Senado, não foi incluída à última hora e, apesar disso, nenhum dos três jornalões sequer mencionou que a MP seria votada ontem. Todos estavam de olho na CPMF e no desgaste do presidente do Senado, Renan Calheiros. Seria impossível adivinhar que o PMDB, certamente incentivado por Renan, armava uma rasteira no governo. Mas se a imprensa cobre o Legislativo e o Legislativo representa a sociedade, é justo esperar que a imprensa antecipe as matérias que vão ser votadas em plenário naquele dia. Este tipo de informação era habitual no passado, saiu de moda porque a imprensa hoje ficou mais sensível ao espetáculo político e menos atenta ao interesse público.

Transcrito do site Observatório da Imprensa

Hora do Reclame-A Coroa do Bebê Johnson’s

27 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

s-ana_helena.JPG s-jpg-novo.JPG

“A Johnson’s & Johnson” do Brasil recebeu dezenas de milhares de cartas procedentes de todo o território nacional para o concurso de escolha do Bebê Johnson’s 66. A promoção encerra-se no Dia da Criança, a 12 do corrente, e o vencedor recebeu uma coroa de ouro no valor de um milhão de cruzeiros”. O registro da revista Propaganda (Ano X, Nº 126) é o único que conheço que estima um valor pecuniário para a coroa-símbolo do concurso da Johnson’s; em valores da época era o correspondente a mil vezes o valor de capa da publicação. Ou seja, poderíamos estimar hoje, atualizando os valores, em R$ 8.500,00 , tal vez um pouco mais. A coroa devia pesar entre 300 e 500 gramas e certamente não era de ouro maciço. Era o tempo de uma geração que se empolgava com os concursos de “misses” patrocinados por Helena Rubinstein, culto à beleza e glamour incorporados no concurso da Johnson’s, as crianças também coroadas com o símbolo de “Sua Majestade”, tratamento dado aos recém nascidos nas cartilhas promocionais da empresa. “O Rei nasceu. Viva o Rei” era um das frases de efeito mais comuns na comunicação. Este blog já publicou com exclusividade as fotos da menina Magda e do menino Kleber em posts anteriores. Hoje repetimos a do Kleber para você reparar na coroa e acrescentamos a foto de Ana Helena, Bebê Johnson’s de 1965, desta vez uma morena.

Hora do Reclame-A Descoberta do Gelo

26 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

anuncio-do-gelo.jpg

Diante do pelotão de fuzilamento o coronel Aureliano Buendia, personagem de Gabriel Garcia Marquez, “havia de recordar aquela tarde remota em que seu paí o levou para conhecer o gelo… Desconcertado José Arcadio atreveou-se a murmurar : É o maior diamante do mundo. Não, corrigiu o cigano. É gelo”. Pela mesma época, não mais na Macondo da ficção do romancista colombiano, mas na Bahia nonacentista, os soteropolitanos conheceriam a água congelada em bloco, seguramente com o mesmo espanto do personagem aqui referido. A chegada do produto foi anunciada com estardalhaço em reclame de 24 linhas, um exagero para a época, destacando supostas qualidades sanitárias: “esperamos que o público se acostume ao uso deste grande tônico que é muito proveitoso para as doenças do estomago, tão intensas nesta provincia, e para outras enfermidades como afirmam os melhores facultativos…”. No terceiro parágrafo o anunciante já não mais se dirige ao consumidor, mas ao atacadista, estimulando os comerciantes da praça a adquirirem o produto, apostando numa queda de preço, em função da concorrência. Ou seja o gelo era caro e o objetivo do reclame, mesmo, era justificar a sua utilidade. Passariam-se 70 anos, após esse anúncio, para a Bahia importar os primeiros refrigeradores. Quanto o seu uso como tõnico estomacal, consideradas as precárias condições de higiene da provìncia, só pode ter contribuido para agravar o problema. Ficam no ar algumas questões: De onde vinha o produto? Onde era guardado? Em que condições de higiene? Como era conservado?, Como o consumidor o levava para casa ? Lombo de Burro, em barris? Por um descuido meu de cadastro não sei a data em que o anúncio foi publicado, mas posso estimar pela tipologia do título e a diagramação, característica dos jornais da década de 30. Arrisco até: deve ter sido publicado no Diário da Bahia, entre 1833 e 35.

Hora do Reclame-Regina Duarte Descoberta Pela Propaganda

25 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

A propaganda descubriu Regina Duarte antes da Televisão. Quando a atriz estrelou na novela “A Deusa Vencida” da TV Excelcior (1965) dirigida por Walter Avancini, seu rosto já era familiar para os telespectadores. Um ano antes,1964, Regina Duarte, 17 anos de idade, protagonizara duas campanhas de grande exposição na mídia, ambas criadas pela McCann-Erickson. A primeira para o cliente Kolynos contava com um comercial de um minuto de duração e anúncios de revistas. A outra criada para as geladeiras Frigidaire da General Motors tinha como carro-chefe um comercial de 30 segundos onde a adolescente, então atriz de teatro, dialoga com o boneco-símbolo do produto e com desenvoltura se declara “apaixonada pelo seu olhar gelado”. Muito boa interpretação, revelando um talento emergente que logo seria explícito na TV. Também em 1964 seu rosto sorridente podia ser visto em outdoors colados no Rio de Janeiro e São Paulo, a modelo recomendando os sorvetes Kibon. A verdade é que Regina Duarte estrelou como garota-propaganda e ganhou a simpatia do público, antes de se revelar “A namoradinha do Brasil”. Assista ao vídeo da Frigidaire:

Hora do Reclame-A Campanha da Shell com “Os Mutantes”

24 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

Em 1969 a Standard Ogilvy & Mather convidou a nova sensação da MPB, “Os Mutantes” , recêm consagrados no 3º e 4º Festivais da Musica Popular Brasileira da TV Record, para estrelar uma campanha dos postos de gasolina Shell. A distribuidora tinha na Esso o seu maior concorrente, com um padrão criativo exepcional, fruto do trabalho dos “subversivos” da Norton (Neil Ferreira, Jarbas José de Souza e José Fontoura da Costa) empenhados em revolucionar a comunicação dos clientes da agência. A campanha da Standard com ” Os Mutantes” (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias) teve como carro-chefe o jingle “Algo Mais” criado especificamente para a Shell, mas incluido no seu álbum musical, apesar dos protestos da gravadora Phillips. Na contracapa do disco o produtor Nelson Motta justificou : “Por que não colocar um jingle num disco, se o jingle dos mutantes, que eu prefiro chamar simplesmente de música, é melhor do que muita música por aí.? ” A campanha constou de cinco filmes, um jingle, material de ponto de venda (onde Rita Lee exibe um cartazete com o logo de uma flor que seria copiado mais tarde pela Parmalat) e anúncios para jornal e revistas, um deles no estilo folhetim ou novelinha. Dos cinco filmes chama a atenção o do Dom Quixote, uma das músicas do referido álbum, com trilha sonora de “Aida”, opera de Verdi, como no disco, efeitos especiais do Rogério Duprat. Filmes produzidos em película pela Blimp, a produtora independente do “Globo Shell Especial”, precursor do Globo Reporter. Campanha criada pela equipe do Carlos Prósperi, atendimento de José Carlos Magaldi; sem dúvida diferenciada para a época, no estilo “non sense”, propaganda comportamental, com valores de rebeldia que o grupo representava. Apenas por curiosidade, Rita Lee seria agraciada em 1996 com um “Algo Mais” na sua carreira, o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra.
Assista aos vídeos:

TV Digital. Multiprogramação É Utopia

23 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2007

Faltam menos de quatro meses para a entrada da TV digital no ar e pelo visto tudo que teremos em 2 de dezembro é meras expectativas e muitas indefinições, ainda pairando no ar, um processo em andamento que será longo e nem sempre corresponderá ao modelo planejado ou idealizado. Nesse caso, melhor entender a data de inauguração oficial do novo sistema de Televisão como apenas um marco cronolôgico. Do ponto de vista do consumidor tudo que ele pode esperar, neste momento inicial, é uma melhor qualidade de imagem, mas do ponto de vista dos conteúdos o caminho para se ocupar os 1893 canais (distribuidos por 478 geradoras que deverão atingir 110 milhões de habitantes), conforme previsto pelo plano básico da Tv Digital, é mais acidentado do que parece. A começar pela disposição das grandes redes de Tv que não tem a menor intenção de disponibilizar aos usuários a opção de 4 canais simultâneos, a chamada multiprogramação, vendida aos brasileiros como o grande charme do novo modelo de televisão. Multiprogramação significa custo e não receita e nada indica que o bolo publicitário venha aumentar por isso. Como não ha perspectiva, a curto prazo, de aumento das verbas dos anunciantes, as grandes redes terão de optar entre produzir um programa de alta qualidade, o que na atual conjuntura já é um desafio, ou quatro de qualidade inferior pelo mesmo custo. Mas se nos primórdios da TV digital a multiprogramação nas redes privadas parece uma utopia, ela poderá ser uma realidade na TV Pública e esse deve ser o seu grande diferencial competitivo.

Quanto ao modelo empresarial adotado com prevalência das emissóras de TV sobre as empresas de telefonia, também podemos esperar “ajustes”, nada parece definitivo e ao que tudo indica caberá ao Congresso, mais cedo ou mais tarde, aprovar uma nova lei que leve em conta a convergência de tecnologias. Enquanto isso as empresas de telefonia comem pelas beiradas, já são acionistas da NET (Telmex) e da TVA (Telefônica) e apostam no tempo e na disposição do consumidor para reiniciar a batalha em torno da geração de conteúdos. Fôlego tem para isso, o setor movimenta 140 bilhões de reais por ano, contra 10 da mídia televisiva. Em qualquer lugar do mundo teriam um maior poder de barganha, mas não podemos esquecer que o Congresso brasileiro tem a sua bancada da mídia, deputados e senadores concessionários de emissoras de rádio e TV. Em 2 de dezembro, no calor da festa, tudo será convergência. A divergência começa no dia seguinte.�