Posts por categoria ‘Imprensa’

No Dia do Jornalista a lembrança da morte de Líbero Badaró

6 dAmerica/Chicago Abril dAmerica/Chicago 2010

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No dia 07 de abril comemora-se o Dia do Jornalista. A data é referência à abdicação do trono por dom Pedro I, após um grande desgaste político que teve como elemento de combustão o assassinato de Líbero Badaró, redator do “Observador Constitucional” em 20 de novembro de 1.830. Crime de mando atribuído diretamente ao juiz corregedor Cândido Ladislau Japiaussu, mas, segundo alguns órgãos da imprensa liberal oposicionista, por encomenda do Palácio. Para resumir a história: o crime chocou a opinião pública, mobilizou a imprensa de todo o país, as autoridades deram fuga ao corregedor para evitar o linchamento (mais tarde absolvido por falta de provas, num júri suspeito). E o Imperador que já sofria um processo de desgaste junto ao ministério teve de abdicar do trono em 07 de abril de 1.831, em favor de seu filho.

As circunstâncias

Há nuances que me chamam a atenção nesta história. Primeiro a instituição da data, por iniciativa da Associação Brasileira de Imprensa-ABI, no contexto de uma ditadura. O Dia do Jornalista foi instituído em 07 de abril de 1931, ou seja, nos primórdios da revolução quando o Governo Vargas, exercia forte repressão contra a imprensa, delegando autonomia a autoridades policiais para avaliar o conteúdo da mídia. Política de delegacia de esquina que prevaleceu até a consolidação do Departamento de Imprensa e Propaganda-DIP e a montagem de uma rede de censores, nos moldes do fascismo italiano, que o inspirou. Por que Getúlio concordou em instituir uma data que lembra justamente a repressão do Estado contra a imprensa? Libero Badaró foi morto por que seu proselitismo em favor da liberdade de expressão incomodava o regime. Há uma contradição nessa iniciativa da ABI, encampada pela ditadura.

Também chama a atenção as circunstâncias do assassinato de Líbero Badaró. Foi morto a mando da autoridade que representava o braço judiciário. Morte anunciada. Badaró tinha publicado no seu jornal o “recado” de amigos sobre as intenções do corregedor. Mas nada disso intimidou a autoridade que fez valer os seus maus bofes, contratando sicários estrangeiros para executar a tarefa. Apostou na impunidade, na retaguarda palaciana, ao mesmo tempo minimizando o poder de mobilização da opinião pública pela imprensa. A morte do jornalista provocou uma corrente de indignação (o regime tinha ido longe demais) repercutida não apenas pela mídia de oposição (Observador Constitucional em São Paulo, Aurora Fluminense no Rio de Janeiro, Universal em Minas Gerais e O Bahiano de Antônio Rebouças na Bahia), mas por toda a imprensa. Dom Pedro I amargou vaias e protestos nas suas aparições públicas.

Sobre os abusos

Nuances aparte, vale lembrar nesta data as palavras de Badaró sobre a liberdade de imprensa, um recado no túnel do tempo para Dilma Russet e José Serra; ambos os candidatos em declarações recentes atacaram a imprensa, incomodados com a difusão de notícias e opinião de alguns veículos. Falaram em abusos, palavra de ordem para qualificar eventuais exageros, reais ou figurados, sempre no intuito de intimidar. Líbero Badaró, a propósito escreveu: “Incapazes de resistir à evidência dos argumentos positivos sobre que se apóia a necessidade de imprensa, os amigos das trevas se vestem da capa da moral e do sossego público, apontam os abusos desta liberdade, a calúnia, a difamação, as provocações diárias, os achincalhes continuados, que tornam a vida um suplício. E, meu Deus! Os abusos? E do que se não abusa neste mundo? Forte raciocínio! E porque se abusa de uma qualquer coisa, já, já suprima-se?

E aonde iríamos com estas supressões?”“Um mau juiz abusa do seu ministério: suprima-se a magistratura; um mau sacerdote abusa da religião: suprima-se a religião; um mau marido abusa do matrimônio: suprima-se o matrimônio. Forte raciocínio, dizemos outra vez! Suprimam-se os abusos que será melhor. A lei contra os abusos existe; sirvam-se dela; e se não é boa, faça-se outra; e liberdade a todos de esclarecerem os legisladores, pela imprensa livre”.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Correio * em 01/04/2009

Memória do Rádio. Um livro de Perfelino Neto

24 dAmerica/Chicago Março dAmerica/Chicago 2010

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Uma das Lacunas na bibliografia baiana de comunicação começa a ser preenchida com o livro “Memória do Rádio” de Perfelino Neto, lançado semana passada. O título da obra nos remete ao programa apresentado pelo radialista na Rádio Educadora (Irdeb), diariamente, às 22 horas, programa de fôlego que já contabiliza mais de 1.300 edições, um valioso acervo a ser disponibilizado um dia para os estudiosos do assunto, não apenas na Bahia, mas no Brasil. Não tenho referências de nenhum outro trabalho do gênero, semelhante em volume, regularidade e conteúdo, em outro Estado.

O livro de Perfelino que já prepara um segundo volume sobre o tema é a pedra fundamental de um trabalho de reconstrução da memória do rádio baiano, do qual não existe até hoje quase nenhuma referência, a não ser artigos e entrevistas publicados em jornais, raros trabalhos acadêmicos e o livro comemorativo dos 25 anos da Rádio Educadora, da autoria do João Leite, editado em 2003. Cabe citar aqui também o trabalho de Othon Jambeiro, Tempos de Vargas: O Rádio e o Controle da Informação, editado pela Ufba em 2004.

Lacunas de pesquisa

Por uma estranha razão a Bahia não cultuou a memória do rádio baiano, perdeu os seus acervos, deixou apodrecer as referências em jornais e também não cuidou de ouvir os principais protagonistas do veículo. Alguns deles já se foram como Gastão do Rego Monteiro, Ubaldo Câncio de Carvalho, Adroaldo Ribeiro Costa, Everton Visco, Pacheco Filho, Antônio Sampaio, Renato Mendonça, Antônio Roberto Pelegrino, Milton Barbosa, dentre outros. Mas se os que já se foram não mais podem falar, ainda há um seleto grupo de radialistas com DNA do legítimo rádio baiano que podem contribuir com os seus depoimentos, a preencher as lacunas de informação existentes.

Nomes como os de Jorge Santos, Manoel Canário, Cid Teixeira, José Jorge Randam, França Teixeira, D’Jalma Costa Lino, José Athaide, Ivan Pedro, D’Jalma Bahia, Milton Santarem, Pedro Ferreira e o próprio Perfelino Neto com a sua vivência de quase meio século de estúdio, enriquecida com o seu olhar de pesquisador, zeloso na preservação da memória do radio na Bahia e no Brasil. Referências vivas, dentre outras que omiti por esquecimento e se isso ocorreu desde já peço desculpas.

O livro “Memória do Rádio” é a contribuição de um pesquisador baiano à memória do rádio no Brasil, tema que já conta com mais de meia centena de obras publicadas, dentre os quais cabe destacar os trabalhos de Assis Barbosa, Eduardo Meditsch, Sérgio Cabral, César Ladeira, Érica Ribeiro, Rafael Casé, Miriam Goldfeder, Doris Fagundes Haussem, Fábio Prado Pimentel, Lilian Maria Perosa, Maranhão Filho, Maria Cristina Marconi, Ricardo Medeiros, Renato Tapajos, Renato Murce, Luiz Carlos Saroldi, Sonia Virginia Moreira, José Ramos Tinhorão, Reynaldo Tavares, Octavio Augusto Vampré, dentre outros. Falei no início deste artigo na pedra fundamental e é isso que o livro de Perfelino Neto representa: os alicerces. O resto é com o próprio autor que planeja publicar quatro livros sobre o assunto  e outros pesquisadores do meio acadêmico e fora dele, admiradores da caixa falante.

Artigo publicado originalmente no Correio da Bahia em 17 de março de 2010

O rastro do cometa Halley na imprensa

25 dAmerica/Chicago Fevereiro dAmerica/Chicago 2010

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Quando o cometa Halley passou próximo da orbita da terra em 1758 não existia imprensa no Brasil, nenhum meio de comunicação que repercutisse o assunto. Em 1834 o cometa cumpriu mais um de seus ciclos orbitais e desta vez a imprensa brasileira já existia, porém o assunto passou batido novamente. Justifica-se o silêncio da mídia, de um lado pela falta de uma cultura de jornalismo científico no país, do outro pela precariedade das comunicações com outros países.

O jornalismo científico ainda era incipiente, o “Jornal da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado da Bahia” único órgão especializado do país, fundado em 1833, dedicava muito pouco espaço à astronomia, apenas algumas linhas sobre a influência dos astros nos plantios e colheitas. Quanto à comunicação com o mundo, ainda naquele tempo, as gazetas estrangeiras que chegavam nos navios, eram o único meio e fonte. Porém, na Europa e nos Estados Unidos assuntos científicos também eram muito pouco abordados pela mídia.

Outra era a realidade da imprensa brasileira quando o cometa fez a sua aparição em 1910 e se desta vez a passagem do astro foi um fiasco para a população, diante das expectativas criadas pela mídia, o Halley deixou rastros nos veículos de comunicação. Há exatamente um século, nesta época do ano jornais e revistas preocupavam-se com a campanha presidencial, que nem hoje, e como aperitivo ofereciam especulações em torno do cometa. Uma campanha incomum com mobilização popular, de um lado as oligarquias representadas por Hermes da Fonseca, do outro as oligarquias representadas por Ruy Barbosa; em todo caso uma disputa entre o militarismo e a sociedade civil, o verdadeiro pano de fundo.

A imprensa fazia ilações entre a campanha política e o acontecimento astronômico, através da verve irreverente dos chargistas de “O Malho”, “Careta”, “Revista da Semana” e “Fon Fon” (as revistas semanais) e da ironia dos cronistas do Jornal do Brasil, El Paiz, Jornal do Commercio e Correio da Manhã.

Lambido pela cauda

Fora o contexto político a imprensa se preocupava com os possíveis efeitos da passagem do cometa Halley que “O Malho” já anunciara no seu Almanaque de 1910 em novembro do ano anterior. A imprensa de fato comprou dos cientistas estrangeiros e vendeu para os brasileiros a idéia de um possível fim do mundo, a possibilidade de um choque entre o Halley e a terra: “O mundo ia ser lambido pela cauda venenosa do Halley. Dentro de pouco tempo nada mais existirá da triste humanidade nem sequer o vestígio das cinzas”, comentava “Fon Fon” para na mesma edição desmistificar o acontecimento diante do fiasco de milhares de pessoas que foram as ruas ver apenas um rastro: “Foi uma espiga. Grande decepção, não há duvida”. Uma foto na edição de “Careta” de 21 de maio de 1910 mostrava autoridades embaixo de guarda-sóis, aguardando o cometa passar.

Enquanto isso a imprensa ainda especulava sobre os gases venenosos do Halley, sobre a possibilidade do cometa ter sido o mesmo que anunciou aos Reis Magos o nascimento de Jesus e ainda especularia vinculando as mortes de Joaquim Nabuco no Brasil, Eduardo VII, Rei de Inglaterra e do escritor americano Mark Twain ao acontecimento, como conseqüência da entrada do astro na orbita terrestre. O jornal “O Paíz” por sua vez destacava a emoção do fato: É positivamente turbilhonante a preocupação universal com referência ao famoso “cabeleira” que mais uma vez visita nossos espaços, maravilhando as multidões que de dia e de noite, em todo o orbe, andam de nariz para cima, olhando, entre curiosas e um tanto impressionadas, o espetáculo soberbo de uma longuíssima faixa pálida, opalescente, aprumada por sobre um núcleo brilhante, enorme, mais denso que a faixa”.

O Halley pode ter sido uma decepção, mas deixou rastros na imprensa o verdadeiro mentor da expectativa criada na época. A mídia alimentou factóides em torno da aparição do cometa que já naquele tempo aprendia a lidar com a opinião pública. O Halley vendeu muitos jornais e revistas e foi um tema providencial para esfriar os ânimos após a contagem dos votos da eleição presidencial que analistas da época consideraram foi uma fraude. Rendeu muitas charges, crônicas, poemas, artigos e noticias. O Halley voltava em 1986, sem o mesmo alarde, num contexto de mídia mais amadurecida, desta vez apoiada num jornalismo científico já atuante em nosso país. Não mais se cogitava o fim do mundo, desta vez a imprensa aguardava e desejava o espetáculo, razão de ser da mídia de entretenimento.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 22 de fevereiro de 2010

A bibliografia antiga de imprensa

8 dAmerica/Chicago Dezembro dAmerica/Chicago 2009

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Não é verdadeira a tese de que é escassa a bibliografia sobre comunicação existente no Brasil. Volta e meia me deparo com esse falso conceito em sites da internet e até em dissertações de mestrado, justificativa tal vez para a pesquisa apressada, ou mal orientada, para não dizer outra coisa. Até a primeira metade do século XX mais de meia centena de livros já tinham sido editados sobre o tema. Hoje é impossível avaliar o quantitativo, estimo que mais de cinco mil obras publicadas por editoras e um número seguramente maior de teses de mestrado e trabalhos de conclusão de curso, disponíveis apenas nas bibliotecas das universidades.

No século XIX a preocupação era disseminar as técnicas de produção. Nesse intuito Martim Martz traduziu em 1848 o “Manual do tipógrafo” de Ralph Polk; com o mesmo propósito o gráfico e editor Arthur Arezio publicou na Bahia “Serões tipográficos” e Esboço tipográfico” em 1905 e 1907 respectivamente. Com um outro foco, retratar as origens da imprensa e a sua evolução, Moreira de Azevedo editou em 1.865 o livro “Origem e desenvolvimento da imprensa no Rio de Janeiro”. Já Alfredo de Vale Cabral publica em 1.881 os “Anais da Imprensa Nacional”, enquanto Ernesto Sena, repórter do Jornal do Commercio se reporta aos bastidores da imprensa, no contexto da sociedade, em “Notas de um repórter” publicado em 1.895.

A vez dos catálogos

Antes disso (1.883) Joaquim Maria Serra Sobrinho publicara em São Luis a obra “Sessenta anos de jornalismo” e no Rio de Janeiro Eduardo Salamonte editara um livro sobre o artista gráfico, grande expoente dos jornais ilustrados, Rafael Bordalo Pinheiro. O primeiro centenário da imprensa, comemorado em 1908, ano de fundação da ABI, ensejou a publicação de diversas obras, inclusive catálogos de periódicos. No Recife Alfredo de Carvalho publica os “Anais da imprensa pernambucana” (1908) e três anos depois “Os anais da imprensa da Bahia”. Victor Hugo Aranha, por sua vez, revê “A Imprensa Nacional à luz dos fatos”. enquanto Luiz Alves de Oliveira Belo, com a mesma temática, publica “Imprensa Nacional. 1808-1908.

 Eduardo Frieiro, por sua vez, lança “Gênese e progresso da imprensa periódica no Brasil”. Na década seguinte Afonso Freitas, seguramente inspirado no trabalho de Alfredo de Carvalho, publica “A imprensa periódica de São Paulo desde seus primórdios em 1.823 até 1.914″, ainda hoje a melhor obra de referência sobre o assunto. Pedro Sinzig publicava em 1911 “A caricatura na imprensa brasileira” e Basílio de Magalhães “Os jornalistas da independência” (1917). No ano seguinte Lemos de Brito relata os debates e resoluções do primeiro grande encontro classista no livro “No congresso da imprensa”, evento que pela primeira vez discutiu e formalizou a proposta da criação de um curso para a formação de profissionais de jornalismo. Em 1923 o jornalista italiano Natale Belli lança em São Paulo o livro ” Giornalismo italiane no Brasil”, em sua língua pátria do mesmo jeito que Vitalino Rotellini editara em 1904, em língua inglesa, “The press of state of the S. Paulo”.

 Na década de 20 Barbosa Lima Sobrinho, então um jovem bacharel, pública “O problema da imprensa”, um clássico em torno da ética e das questões relativas à liberdade de imprensa. Assunto que já tinha sido abordado, com um outro foco, por Ruy Barbosa em 1919 em “A imprensa e o dever da verdade”. Com Barbosa Lima Sobrinho se inicia uma nova era da bibliografia brasileira de comunicação. Mas este é assunto que fica para nosso artigo da próxima semana.   Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 23 de novembro de 2009 

As tiragens de ficção na imprensa brasileira

6 dAmerica/Chicago Outubro dAmerica/Chicago 2009

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Em 24 agosto de 1954 o jornal “Ùltima Hora” de Samuel Wainer teria registrado um dos maiores recordes de circulação de jornais brasileiros em toda sua história.: 700.000 exemplares vendidos da edição que noticiou o suicídio do Presidente. Recorde que foi possível, segundo todas as fontes já consolidadas (infelizmente), em função dos demais jornais cariocas terem sido impedidos de circular pelo populacho que identificava a imprensa oposicionista como co-responsável pelo trágico desfecho. Não sei a origem dessa informação, mas tenho a suspeita de que é falsa. Também não me parece viável a circulação estimada para o “Última Hora”, em dias correntes, independente de fatos de impacto, de 330 mil exemplares. Este último número equipara-se com a circulação dos maiores jornais brasileiros, hoje, isto é, meio século depois. Será que os brasileiros da década de 50 liam mais jornais do que os brasileiros do século XXI? Claro que não.

E já que nos reportamos a números de circulação, já consolidados pela história, convido os leitores desta coluna a refletirmos em torno de estatísticas oficiais da época, para confronto com os números de tiragens, então, divulgados. Para começar, o censo de 1950 apurou uma população de 2,37 milhões de habitantes para o Rio de Janeiro. Em 1960 apurou 3,28 milhões. De onde podemos estimar em 2,75 milhões a população em 1954, ano do suicídio do Presidente Getúlio Vargas. População esta residente em torno de 550 mil domicílios, segundo o IBGE.

Analfabetismo de 65%

Naquele tempo a taxa de analfabetismo funcional era de 65%, segundo a “Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos”,já incluído nesse índice os 25% da população na faixa etária entre 0 e 7 anos. Crianças. Ou seja, o Rio de janeiro de 1954 tinha (2,75 milhões de habitantes, menos 65% de analfabetos) 962 mil pessoas aptas para a leitura de jornais e revistas. Então, podemos acreditar que naquele 24 de agosto de comoção popular pela morte do Presidente mais de 70% da população que sabia ler comprou o jornal? Isso significaria admitir que a maioria da população tinha recursos para comprar o “Ultima Hora; que foi adquirido, na média, mais de um jornal por domicílio (700 mil jornais para 550 mil domicílios) e que o índice de leitura foi praticamente individual quando a média corrente é hoje de quatro leitores por exemplar e naquele tempo certamente era bem maior.

Até Ruy Barbosa Citei o caso do Ùltima Hora como exemplo para ilustrar as tiragens de ficção que algumas publicações conseguiram consolidar como informação verdadeira, já assimiladas pela história. É o caso, também das circulações recordes da revista “O Cruzeiro” que Luiz Maklouf de Carvalho teve a oportunidade de desmistificar em seu livro “Cobras Criadas”.  Interessava aos editores difundir números fora da realidade para impressionar o mercado publicitário e atrair anunciantes. E ainda para marcar posição de “liderança”; fazia bem ao ego nas relações de poder. Nem Ruy Barbosa, um baluarte de honestidade e ética, escapou dessa tentação. Em 1901, em editorial de “A Imprensa”, afirmava com todas as letras que seu jornal ostentava uma circulação de 100 mil exemplares.

Se Ruy não mentia, ou exagerava, podemos considerar um milagre. Naquele ano a população do Rio de Janeiro era de 600 mil habitantes e o índice de analfabetismo em torno de 85%. Ou seja, tínhamos 90 mil pessoas aptas para ler “A Imprensa” “O Paíz”, “Jornal do Commercio” e o “Jornal do Brasil”, os jornais diários que circulavam na capital. Pois é: 90 mil leitores para 100 mil exemplares. Tá certo. Não se briga com a história!.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/09/2009

Setembro é o mês da imprensa

16 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2009

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Setembro é a semente da imprensa brasileira. Nesse mês do ano (o nono, número correspondente ao de uma gestação) em épocas diversas e contextos também diferenciados, nasceram os veículos de comunicação do Brasil. Um fato curioso que nada revela, além da simples, ou não tão simples coincidência. Se a cronologia da história da imprensa no Brasil tem algum sentido, não o sabemos. Secretos desígnios que o racional não consegue avaliar. Vamos aos fatos: Foi em setembro de 1.808 que surgiu o primeiro jornal brasileiro, editado em solo pátrio, a “Gazeta do Rio de Janeiro”, data que durante décadas foi referência do Dia da Imprensa, produzido na tipografia da Imprensa Régia.

No século vinte nasce o rádio, exatamente em 07 de setembro de 1922, com transmissões experimentais realizadas no contexto e no recinto da Exposição do Centenário da Independência, então perante a presença de convidados ilustres de outros países, o presidente Epitácio Pessoa como cicerone. Muitos anos depois surge a televisão: em 18 de setembro de 1950, data de inauguração da “TV Tupi”, iniciativa dos Diários e Emissoras Associadas, através de seu Diretor-Proprietário Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo. Já em finais da década de 80 o Brasil se conecta à rede internacional, então denominada de Bitnet, que permitia a troca de mensagens em escala mundial. E assim, em setembro de 1988, o Laboratório Nacional de Computação Científica do Rio de Janeiro dava o passo inicial da internet, através de uma conexão de 9.600 bits/segundo, estabelecida com a Universidade de Maryland.

Atrasos e datas marcadas

Por que setembro? A Gazeta do Rio de Janeiro, o nosso jornal pioneiro, e a TV Tupi, a nossa primeira emissora de TV, foram lançados em setembro porque esse foi o mês em que os veículos ficaram prontos. A Gazeta “atrasou-se” em função das dificuldades para montar os prelos que vieram encaixotados de Lisboa e durante meses ficaram na residência de um funcionário público. Demora na montagem e principalmente na sua operacionalização pela falta de mão de obra habilitada.

A TV Tupi, por sua vez, “atrasou-se” por um motivo similar, ou seja, a demora na montagem dos equipamentos, problemas na alfândega com as guias de importação e mais o tempo necessário para o treinamento de recursos humanos oriundos do rádio. Diferente do jornal e da televisão, o rádio e a internet surgiram em setembro após um planejamento, as datas previamente acertadas. O rádio nasceu nesse mês por conta das comemorações do Centenário da Independência.

O veículo surge, assim, num contexto político-histórico, com a data previamente marcada e providências tomadas para coincidir com a grande festa. A internet, por sua vez, nasce também com data programada, através dos contatos prévios feitos com uma universidade americana para a conexão pioneira aqui referida. Setembro, como se vê, por algum motivo tem o seu charme e cheira a tinta, ondas magnéticas, e bits. A propósito é bom lembrar que o Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência, nasceu em 1 º de setembro de 1969. E um ano antes, 11 de setembro de 1.968 surgira “Veja”, hoje a maior circulação e índice de leitura das revistas semanais. Setembro é mesmo o Mês.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 14/09/2009 

A morte de Getúlio Vargas e o jogo da imprensa

2 dAmerica/Chicago Setembro dAmerica/Chicago 2009

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Na manhã de 24 de agosto de 1954 um foguetório nos céus do Rio de Janeiro comemorava a deposição do Presidente Getúlio Vargas que segundo o noticiário da Rádio Tupi às 3:35 e Rádio Globo às 4:00, renunciara à Presidência da República. Noticiário falso, induzido por uma fonte não identificada, seguramente um dos participantes da reunião do gabinete convocada pelo primeiro mandatário para discutir os rumos a tomar em função da crise deflagrada em 05 de agosto quando do atentado da Rua Toneleros contra o jornalista Carlos Lacerda. A “barrigada” da imprensa radiofônica contribuiu para espalhar o boato da renuncia e estimular o júbilo popular, manifesto com a queima de foguetes às 6:30, segundo narrou o repórter Murilo Melo Filho na sua retrospectiva dos acontecimentos publicada na revista Manchete.

Não sei por que até hoje ninguém fez a ilação entre os fatos: as notícias falsas divulgadas pela imprensa, a repercussão dessas notícias com comemorações de júbilo e o suicídio do presidente ocorrido por volta das 8:00. Nos seus aposentos do Palácio do Catete o chefe da nação deve ter ouvido os foguetes e algum impacto teve nos seus ouvidos fragilizados, um estado de ânimo depressivo em função do desfecho da reunião ministerial que, contrariando sua vontade, insistira na tese da licença provisória. Ou seja, a renúncia por um período indeterminado que se sabia, ou pressentia-se, não teria retorno. Ilações apenas, que, se em nada contribuem para explicar os fatos, também não devem ser descartadas. Afinal, foguetes são a representação festiva e ruidosa de um inconsciente coletivo.

Responsabilidades A questão que cabe aqui analisar é qual a responsabilidade das duas emissoras de rádio nesse processo? Levando em consideração que ambas desejavam dar exatamente a notícia da renúncia, proposta que tinha a inspiração na linha de frente da Tribuna da Imprensa, O Globo e Rádio Globo, TV e Rádio Tupi (unidos em torno dos interesses da CPI contra o jornal Última Hora em 1953) e como coadjuvantes Correio da Manhã, O Estado de São Paulo, Folha da Manhã e Diário Carioca. A fonte que passou a noticia falsa, seguramente por telefone, às emissoras de rádio, agiu de má fé? Segundo os historiadores Getulio deixou a reunião determinando que as forças armadas garantissem a ordem pública e, nesse caso, ele aceitava licenciar-se, ou do contrário os revoltosos encontrariam o seu cadáver no Palácio. A fonte apostou na primeira opção que era exatamente o que a imprensa oposicionista queria e defendia em editoriais. Há de se considerar ainda que as noticias falsas divulgadas pelo rádio ocorreram num contexto de rígida censura.

 Quem liberou? Teria sido o próprio Lourival Fontes, chefe do DIP, o informante, a estas alturas convencido que esse seria o desfecho inevitável? Afinal, foi Fontes quem anunciou oficialmente, às 5:00 a renúncia do presidente. A noticia, naquele momento era verdadeira, mesmo contrariando as determinações de Getúlio. Mas não era verdadeira às 3:35 da manhã quando a rádio Tupi fez o primeiro anúncio, 35 minutos apenas transcorridos do início da reunião de gabinete. E não era verdade quando a rádio Globo a repercutiu, meia hora depois, com trilha sonora de marchas militares para potencializar o impacto do noticiário.

O fato é que as noticias eram falsas, geraram reações populares, tornaram-se verdadeiras a partir das 5:00 para se confirmarem novamente falsas três horas depois quando Heron Domingues anunciou em edição extra do Repórter Esso o trágico desfecho do suicídio. A imprensa jogou nesse tabuleiro da crise e o povo assim o entendeu. Daí as reações do populacho com invasões e depredações de veículos de comunicação principalmente no Rio de janeiro e Porto Alegre. Rescaldo de uma tragédia anunciada pelo seu próprio protagonista.  

Artigo de minha autoria originalmente publicado no jornal Correio em 27/08/2009

O engodo da Televisão a cores

20 dAmerica/Chicago Agosto dAmerica/Chicago 2009

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Há 40 anos telespectadores de Brasília foram surpreendidos com a exibição, sem aviso prévio, de imagens de maços de cigarros e garrafas de cerveja, a cores, no break comercial do programa de Jean Pouchard. Minutos depois ficavam sabendo que a exibição de comerciais em inglês nas cores azul, vermelho e verde tinha sido possível graças a uma engenhoca chamada Color Tel, invenção do americano mes Butterfield, paliativo muito fajuto para a televisão colorida que os brasileiros tanto almejavam. Um sistema muito simples, nada excepcional, um pouco melhor do que as telas transparentes importadas do Japão desde 1961 que ganhavam tons bicolores e tricolores ao gosto do usuário.As experiências no programa de Pouchard, ex-colunista Social do Diário Carioca cujo verdadeiro nome era Mauro Valverde, nada mais era do que uma tentativa de se antecipar à tecnologia a cores que o país já negociava desde 1967 quando decidira adotar o sistema PAL-M, infeliz adaptação do PAL Europeu.

A Revista Veja assim registrou a novidade: “Noventa por cento das pessoas que ligaram os televisores no dia 7 de agosto em Brasília tiveram uma surpresa: viram surgir no vídeo, em azul, vermelho e verde, desconhecidas marcas de cigarros e rótulos de cervejas anunciados em inglês. Era a TV Alvorada, canal 8, fazendo a primeira experiência no Brasil do sistema Color Tel, invenção americana que permite aos aparelhos comuns de TV receberem imagens coloridas sem sofrer qualquer adaptação”.

Precariamente colorida


A Publicação alertava para algumas das limitações da referida engenhoca: “O Color Tel só funciona nos aparelhos que estejam em salas iluminadas por lâmpadas incandescentes. Essa TV precariamente colorida serviu para quebrar a monotonia em que Brasília mergulhou desde a decretação do recesso do Congresso”. E descrevia a sua configuração: “O Processo Color Tel… baseia-se em estímulos luminosos que só o olho humano percebe. É a variação da intensidade desses estímulos que dá a variação da cor: uma Câmara fotográfica diante do vídeo não consegue captar as cores… Os cariocas e paulistas só verão anúncios coloridos daqui a alguns meses. A Alton quer fazer um grande lançamento já com anúncios de produtos brasileiros”. A descrição do produto, mesmo com o disfarçado entusiasmo da mídia, permite imaginar a sua precariedade e o tamanho da encrenca daqueles que apostaram as suas fichas no Color Tel, no país representado por uma empresa denominada Alton Promoções.

A revista semanal falava em exibições em outras praças, mas deixava claro que apenas no break comercial. Ou seja, exibição para tapear, ou iludir. Nada consistente. Uma degustação muito desabrida para atender a ansiedade em torno da definitiva implantação do sistema de TV a cores que então já era realidade nos Estados unidos, Cuba, França, Canadá e Hungria. O Color Tel não foi adiante e os brasileiros tiveram mesmo de aguardar mais dois anos e meio para assistir a TV a cores. Não todos. Alguns privilegiados já tinham acesso ao sistema cromático desde meados da década de 60. Experiências em circuito fechada tinham sido realizadas em 1963 pela TVTupi com a exibição do documentário “Volta ao Mundo” e do seriado “Bonanza” e também pela TV Excelsior com um show ao vivo no estande da Maxwell, produzido por Manoel Carlos e mais tarde com o programa “Moacyr Franco Show”. Em 1964 a agência de propaganda Panam, por sua vez  exibira a cores o famoso comercial em desenho animado dos esquimós da Brastemp. E em 1968 convidados da TV Globo assistiram o Prêmio Brasil de Turfe. Dois anos depois  convidados vip da Embratel assistiram a Copa do Mundo em exibições fechadas em três cidades.

A Copa antecipava a tecnologia a cores para os amigos do Rei. A começar pelo Presidente da República, Emilio Garrastazu Médici que teve um aparelho especial instalado no Palácio e claro o todo-poderoso Walter Clark que instalou uma aparelhagem para receber sinal em NTSC, convertido a PAL-M na sua sala da TV Globo.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 17/08/2009

O impacto do Zeppelin na mídia brasileira

30 dAmerica/Chicago Julho dAmerica/Chicago 2009

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O sonho de voar feito realidade esteve longe de nós, com exceção da histórica viagem ao mundo do Graf Zeppelin em maio de 1930 que milhares de brasileiros testemunharam de perto. É que acompanhamos as façanhas dos primeiros balonistas no final do século XIX e dos inventores do avião (Santos Dumont e os irmãos Wright) na primeira década do século XX através das revistas, num tempo cronológico distante dos acontecimentos; fatos estes que repercutiram apenas numa camada social privilegiada.

 Muitos anos depois acompanhamos, também através da mídia, a chegada do homem na lua, um acontecimento muito distante de nós, porém de maior impacto graças às imagens em tempo real geradas pela TV. Os protagonistas deste momento histórico estavam no espaço e a equipe que viabilizara a façanha sediada em Houston. A nossa relação com o balão, o avião e o foguete foi apenas midiática.

Diferente foi a nossa relação com o Graf Zeppelin, o gigante voador de 128 metros de cumprimento, que aportou no Brasil em maio de 1930 enlouquecendo multidões que foram às ruas nas principais cidades brasileiras; milhares de pessoas, também, acompanharam a passagem da aeronave das janelas e sacadas de prédios e residências na rota do dirigível. O jornal O Estado de São Paulo empolgado com a repercussão enxergou no acontecimento um bom remédio contra o estresse: “A impressão causada pela travessia produz um bem-estar tão grande que deve ser empregada como cura da neurastenia”. 

Exageros a parte a mídia registrou a passagem do Zepellin através de textos grandiloqüentes e muitas fotos; algumas delas hoje podem ser apreciadas nas bibliotecas e arquivos públicos. A propaganda não deixou por menos e as agências programaram anúncios de oportunidade do Guaraná Antarctica (com o sugestivo título “Um gigante entre os gigantes”, Depurativo Luedy, Cinzano, Ovomaltine, tecidos Indanthren, baterias Barta, Agfa, dentre outros.

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Encarte e cobertura

Nesse contexto duas revistas se destacaram: “Careta” que programou um encarte de 38 páginas encomendada pelo Sindicato Condor que administrava destinos postais e de transportes de passageiros de companhias aéreas e a “Revista da Semana” que estampou magníficas fotos do Graf Zeppelin sobrevoando cidades européias e uma ilustração de página dupla do artista plástico Umberto Della Latta que se permitiu imaginar o dirigível sobrevoando o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. Através de “Careta” ficamos sabendo que a conta do espetáculo saiu de nosso bolso, através de uma verba de 100 contos de reis que o erário disponibilizou com autorização do Presidente da República Dr. Washington Luiz.

A publicação nos informa também da infra-estrutura montada no Recife para abastecer o Zeppelin.Já a “Revista da Semana” destacou os antecedentes de viagens intercontinentais do dirigível, relevando a visita ao Brasil:” É este o dirigível que pela primeira vez vêm ao continente sul americano. O Brasil sabe estimar os esforços hercúleos do velho inventor e seus dedicados sucessores; sabe avaliar as dificuldades a vencer na viagem transatlântica, onde cada vento contrário prolonga o caminho por centenas ou milhares de quilômetros; sabe admirar a tenacidade de um país que, depois de uma guerra terrível em que sucumbiu, surgiu do túmulo e criou maravilhas científicas e técnicas quando tudo parecia perdido.

O Brasil sabe que o Graf Zeppelin é o símbolo dos pacifistas… Salve Graf Zeppelin! Que a rainha de maio te guie seguro até o pais que em recordação do seu filho adotou o nome de Terra de Santa Cruz”.Tempo depois do vôo histórico do Graf Zeppelin pelo Brasil a Companhia Condor viabilizou uma rota regular de transportes de passageiros e até construiu um hangar gigante cuja estrutura ainda existe. Resistiu ao tempo, às intempéries e ao salitre, nas proximidades da Baia de Sepetiba, tombado pelo Iphan. Memória viva da ancoragem da grande nave que segundo a mídia da época requeria 200 homens em pista com cordas para orientar a atracação. A passagem original do Graf Zeppelin nos céus do Brasil foi mesmo a nossa única relação próxima com o sonho de voar. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/07/2009

A imprensa no mundo da lua

24 dAmerica/Chicago Julho dAmerica/Chicago 2009

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Hoje, exatos 40 anos, a imprensa brasileira estava no mundo da lua, literalmente falando, nenhuma alusão às gafes cometidas pelos apresentadores da rede de TV com dificuldades de entender e traduzir o inglês do áudio original na histórica transmissão da chegada do homem no satélite em 20 de julho de 1969. Gafes que, diga-se de passagem, tinham a ver, também, com as alterações no roteiro original da NASA. Os engenheiros de Houston previram um determinado horário para o desembarque de Neil Armstrong, mas foi próximo da meia-noite, após uma longa espera, que o astronauta efetivamente pisou o solo lunar.Como ia dizendo a imprensa brasileira estava no mundo da lua. Não se falava outro assunto desde a semana anterior.

Toda a mídia ligada no grande acontecimento. Millor Fernandez definiu com muito bom humor e propriedade a edição especial de Veja de 23 de julho de 1969 como “Uma edição especialmente lunática” e então recomendava: “Armstrong: seja o primeiro suicida lunar. A idéia não é ficar na história?”. A propósito, as revistas comeram poeira, a julgar pelas manchetes nada criativas: “Chegaram!” (Veja), “O Homem na lua” (O Cruzeiro), “Especial. Mapa da Lua” (Manchete) e “Eis sua viagem à lua” (Realidade). Pecaram nos títulos, mas acertaram no texto, no caso específico de Veja, destacando uma magnífica entrevista com o Dr Von Braum. O criador dos foguetes V2 durante a II Guerra Mundial.

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Os números da cobertura

O Brasil tinha em torno de 70 milhões de habitantes e o mundo estimava a população do planeta em 3,5 bilhões de pessoas. A histórica transmissão televisiva da chegada do homem na lua teria impactado, segundo estimativas da época, 530 milhões de telespectadores. Ou seja, 15% apenas da população. Mas a percepção foi outra já que na Europa, Estados Unidos e Japão, o mundo desenvolvido, a cobertura foi bem abrangente. No Brasil tínhamos 4,5 milhões de aparelhos de TV e uma cobertura estimada em 50% dos domicílios, algo em torno de 35 milhões de habitantes. Assistimos a chegada do homem na lua, em preto e branco, (o sistema de cores seria implantado somente em 1972), com imagens geradas pela NASA, via Embratel que para evitar um colapso nas comunicações e priorizar a transmissão televisiva, desligou o sistema de telex e telefonia DDD e DDI sem avisar à população. Três mil jornalistas credenciados pela NASA assistiram a decolagem do Apollo 11, testemunhado também por um milhão de pessoas presentes.

As grandes redes de TV americanas investiram na informação. A CBS convidou o ex-presidente dos Estados Unidos Lindon Johnson para comentar os aspectos políticos da missão lunar e Arthur Miller e Bob Hope para comentar cenas do cinema com o tema do espaço, exibidas nos intervalos da programação. A rede ABC entrevistou Marshall Macluhan, o teórico da aldeia global; então em evidência a máxima de que “o meio é a mensagem”.

Quanto à televisão brasileira esta deixou a desejar e a tecnologia teve muito a ver com essa cobertura, digamos, modesta. Dependíamos do Intelsat III e de um precário sistema de links terrestres, a partir da estação de Itaboraí recém inaugurada. Falávamos em cobertura via satélite, mas na prática, com exceção de alguns flashes pontuais e da histórica transmissão de 20 de julho, fizemos, mesmo. uma cobertura via telex. Com o estimável apoio da tesoura-press.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 20 de julho de 2009