Posts por categoria ‘200 Anos de Imprensa’

O impacto do Zeppelin na mídia brasileira

30 dAmerica/Chicago Julho dAmerica/Chicago 2009

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O sonho de voar feito realidade esteve longe de nós, com exceção da histórica viagem ao mundo do Graf Zeppelin em maio de 1930 que milhares de brasileiros testemunharam de perto. É que acompanhamos as façanhas dos primeiros balonistas no final do século XIX e dos inventores do avião (Santos Dumont e os irmãos Wright) na primeira década do século XX através das revistas, num tempo cronológico distante dos acontecimentos; fatos estes que repercutiram apenas numa camada social privilegiada.

 Muitos anos depois acompanhamos, também através da mídia, a chegada do homem na lua, um acontecimento muito distante de nós, porém de maior impacto graças às imagens em tempo real geradas pela TV. Os protagonistas deste momento histórico estavam no espaço e a equipe que viabilizara a façanha sediada em Houston. A nossa relação com o balão, o avião e o foguete foi apenas midiática.

Diferente foi a nossa relação com o Graf Zeppelin, o gigante voador de 128 metros de cumprimento, que aportou no Brasil em maio de 1930 enlouquecendo multidões que foram às ruas nas principais cidades brasileiras; milhares de pessoas, também, acompanharam a passagem da aeronave das janelas e sacadas de prédios e residências na rota do dirigível. O jornal O Estado de São Paulo empolgado com a repercussão enxergou no acontecimento um bom remédio contra o estresse: “A impressão causada pela travessia produz um bem-estar tão grande que deve ser empregada como cura da neurastenia”. 

Exageros a parte a mídia registrou a passagem do Zepellin através de textos grandiloqüentes e muitas fotos; algumas delas hoje podem ser apreciadas nas bibliotecas e arquivos públicos. A propaganda não deixou por menos e as agências programaram anúncios de oportunidade do Guaraná Antarctica (com o sugestivo título “Um gigante entre os gigantes”, Depurativo Luedy, Cinzano, Ovomaltine, tecidos Indanthren, baterias Barta, Agfa, dentre outros.

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Encarte e cobertura

Nesse contexto duas revistas se destacaram: “Careta” que programou um encarte de 38 páginas encomendada pelo Sindicato Condor que administrava destinos postais e de transportes de passageiros de companhias aéreas e a “Revista da Semana” que estampou magníficas fotos do Graf Zeppelin sobrevoando cidades européias e uma ilustração de página dupla do artista plástico Umberto Della Latta que se permitiu imaginar o dirigível sobrevoando o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. Através de “Careta” ficamos sabendo que a conta do espetáculo saiu de nosso bolso, através de uma verba de 100 contos de reis que o erário disponibilizou com autorização do Presidente da República Dr. Washington Luiz.

A publicação nos informa também da infra-estrutura montada no Recife para abastecer o Zeppelin.Já a “Revista da Semana” destacou os antecedentes de viagens intercontinentais do dirigível, relevando a visita ao Brasil:” É este o dirigível que pela primeira vez vêm ao continente sul americano. O Brasil sabe estimar os esforços hercúleos do velho inventor e seus dedicados sucessores; sabe avaliar as dificuldades a vencer na viagem transatlântica, onde cada vento contrário prolonga o caminho por centenas ou milhares de quilômetros; sabe admirar a tenacidade de um país que, depois de uma guerra terrível em que sucumbiu, surgiu do túmulo e criou maravilhas científicas e técnicas quando tudo parecia perdido.

O Brasil sabe que o Graf Zeppelin é o símbolo dos pacifistas… Salve Graf Zeppelin! Que a rainha de maio te guie seguro até o pais que em recordação do seu filho adotou o nome de Terra de Santa Cruz”.Tempo depois do vôo histórico do Graf Zeppelin pelo Brasil a Companhia Condor viabilizou uma rota regular de transportes de passageiros e até construiu um hangar gigante cuja estrutura ainda existe. Resistiu ao tempo, às intempéries e ao salitre, nas proximidades da Baia de Sepetiba, tombado pelo Iphan. Memória viva da ancoragem da grande nave que segundo a mídia da época requeria 200 homens em pista com cordas para orientar a atracação. A passagem original do Graf Zeppelin nos céus do Brasil foi mesmo a nossa única relação próxima com o sonho de voar. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/07/2009

Jornais carnavalescos: A mídia do deboche

17 dAmerica/Chicago Fevereiro dAmerica/Chicago 2009

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O Carnaval sempre foi um bom negócio para o comércio, mas também para a mídia que cedo descobriu o seu potencial mercadológico, ainda no século XIX , desde o lançamento do “Facho da Civilização” (1871) na capital do país, a primeira de centenas de publicações impressas e veiculadas no período das festas consagradas ao Rei Momo. Não apenas no Rio de Janeiro, mas também na Bahia, no Recife, Fortaleza , Belem e Santa Catarina… O carnaval era nas suas origens manifestação espontânea  com o lundú como gênero musical preponderante.

Mas logo achamos de adotar um modelo similar ao de Veneza com seus foliões mascarados e o desfile pelas ruas da cidade em carros alegóricos. Em nosso caso, adaptados em pranchas de bonde que era esse o único veículo de grande porte existente na época. Nesse contexto o comércio desenvolveu uma gama de produtos específica para o Carnaval: confetes e serpentinas, máscaras e adereços, fantasias, sapatos e sapatilhas, sombrinhas, chicotinhos e abanos…

Mais tarde veio a indústria com seus lança-perfumes de cheiro  semelhante ao “L’ air du temps” de Nina Ricci, a matéria prima era o cloreto de etila e uma base de violeta sintética. Produtos estes fabricados pela Rhodia e pela Bayer. A mídia popularizou marcas como Alice, Rodo, Flirt, Rigoletto, dentre outras. O lança perfume cumpria o papel de preliminar da paquera, o flerte embalado numa fragrância que narinas mais sensíveis um dia acharam de cheirar e deu no que deu. Nos anos vinte a indústria de bebidas alcoólicas descobre o filão e com ela a indústria do fumo e o Carnaval que era uma brincadeira torna-se “bussines” e daí por diante um commodite midiático, a partir da década de 80 exportado para o mundo.

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Fenômeno brasileiro

O fato é que o nosso país foi o único no mundo a desenvolver uma mídia específica para as festas de momo. Os jornais carnavalescos, segundo José Ramos Tinhorão que catalogou 176 títulos no seu livro ” A imprensa carnavalesca no Brasil”,  é um fenômeno exclusivamente brasileiro; o pesquisador  faz a ressalva em relação a Portugal onde encontrou  entremeses editados em linguagem e folhas de cordel durante o século XVIII, com o entrudo como tema. Muito distantes, contudo,  quanto à forma, conteúdo e intenção da imprensa periódica tupininquim, caracterizada justamente pela variedade temática. Na Bahia, onde resido, tive a oportunidade de pesquisar em torno de vinte periódicos do gênero, chama a atenção o seu apelo mercadológico muito forte, alguns assumidamente comerciais, ostentando o título da casa comercial patrocinadora. Tiragens, reais ou superdimensionadas, de até 100 mil exemplares, segundo informa o expediente.Essa imprensa carnavalesca em formato de jornal ou revista, ou mesmo folha avulsa semelhante ao panfleto, tinha periodicidade condicionada à festa.

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 Circulavam uma ou meia dúzia de edições, sempre no período momesco. Antes (a maioria)durante, e até depois. Mas, enquanto a mídia periódica específica (em sua maioria de distribuição gratuita) reinava soberana e tinha um foco comercial ou de entretenimento bem definido,  a grande mídia aos poucos descobria que a festa poderia lhe render bons lucros. E esse lucro veio com a publicidade (anúncios de bazares, lojas de moda, cigarros, cerveja, vinhos, remédios para dor de cabeça, instrumentos musicais, rádios e radiolas e sua versão toca-discos …) E a partir dos anos 70 com a formatação do próprio produto em formato de espetáculo para venda interna e externa.No século XIX e inícios do século XX os títulos carnavalescos reportavam-se a blocos ou símbolos da festa que já era assumidamente pecado.

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Nomes como Farpas Fenianas, Deus Momo, Esmeralda, Diabo da Meia Noite, Azucrim, O Diabinho, Bocaccio, Chichisbeo, Echo da Tagarelas, Troça, Risada, Espirro, O Dedo, A Matraca, Casa da Sogra, O Liso, A Rosca, Mephisto, O Urubu, O Aranha, O Corta-Jaca, É Da Pontinha, O Amor Tem Fogo, Rabo Escondido… Hoje o gênero não mais existe. O seu conteúdo foi incorporado por jornais, revistas e sites, num outro contexto, onde prevalece o culto à personalidade e o marketing de relacionamento como pilares da informação-entretenimento. E como no passado continuamos a ser um fenômeno midiático em relação ao tema: nenhum outro carnaval do mundo tem o generoso espaço na mídia que o Brasil disponibiliza a leitores, ouvintes  e telespectadores. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 16/02/2009

Evo Morales e o liberal Karl Marx

4 dAmerica/Chicago Fevereiro dAmerica/Chicago 2009

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Evo Morales anuncia para breve o lançamento de um jornal estatal na Bolívia, um veículo de comunicação impresso “para divulgar a verdade”, enfatiza o mandatário, a se contrapor ao discurso oposicionista da mídia tradicional que não morre de amores pelo presidente de origem indígena. O que Evo Morales não diz é que “a verdade” é a palavra oficial do governo, ou seja: propaganda.Também não diz, ou talvez não tenha noção, o que um projeto dessa índole representa. Ou seja, que as chances de um jornal com esse intuito editorial dar certo são praticamente nulas. A não ser que siga a fórmula tradicional consagrada pela história, a Rússia e o Pravda o melhor modelo, de se cercear num primeiro momento e suprimir a médio prazo a imprensa da iniciativa privada: impor o noticiário único e eliminar a diversidade. E no caso específico da Bolívia, necessário será alocar recursos do erário para distribuir ou subsidiar o veículo, de modo a atingir índices de leitura razoáveis.

A iniciativa do ex-lider cocaleiro que se insere numa proposta maior de socialização da mídia me trouxe a lembrança do pensamento de Karl Marx (quer se contrapõe a isso tudo, embora o seu nome seja evocado como referência) nos primórdios de sua atividade intelectual, então com 23 anos de idade, expresso em memoráveis artigos originalmente publicados no Rheinische Zeitung.  Mais tarde reproduzidos em jornais americanos e ingleses e reunidos em livro, editado no Brasil pela L&PM Editores, em 1999.

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Marx debate os conceitos de censura e liberdade de imprensa e então traça um perfil da mídia oficial, a mesma que Morales celebra como uma grande conquista social: “O governo ouve somente sua própria voz; sabe que ouve somente a sua voz; entretanto tenta convencer-se de que ouve a voz do povo, e exige a mesma coisa do povo. O povo, portanto, cai parcialmente numa superstição política, ou isola-se totalmente da vida política, tornando-se uma multidão privada”.

Homem castrado

Num outro artigo Marx qualifica os efeitos da censura: “Uma imprensa censurada é ruim mesmo se produzir bons frutos…um homem castrado sempre será um mau macho, mesmo se tiver uma boa voz… Uma imprensa livre é boa mesmo quando produz frutos ruins… A natureza continua sendo boa, mesmo se produzir abortos”. Mais adiante avalia a sua inconsistência: “A censura é a crítica como monopólio do governo. Mas a crítica não perde seu caráter racional quando não julga partidos, mas transforma-se em partido? Quando quer criticar, mas não quer aceitar críticas? Quando, finalmente, é tão pouco crítica que confunde
ditames do poder com ditames da razão”.

Então revela a sua própria natureza: “A censura não é uma lei, mas uma medida policial, uma má medida policial, porque não consegue o que quer, nem quer o que consegue”.Nessa mesma linha de raciocínio Karl Marx faz um desafio: “Porque nenhum Estado tem a coragem de formular através de princípios legais e universais aquilo que os censores fazem na prática? “.  Justifica: “é por isso que a administração da censura é confiada, não aos tribunais, mas a polícia”. E acrescenta: “a censura é uma medida precatória da policia contra a liberdade… A lei de imprensa pune o abuso da liberdade. A lei da censura pune a liberdade como se fosse um abuso”. Então, questiona o conceito de liberdade vigiada: “A lei da censura é uma lei suspeita contra a liberdade…Mas, em todas as esferas não é considerado uma ofensa à honra estar sob vigilância domiciliar? “.

Imprensa é o cão de guarda

O notável pensador alemão não deixou passar o debate em torno dos abusos da imprensa e a idéia em torno disso de que a mesma deve sofrer algum tipo de intervenção do Estado, como um organismo doente que deve ser assistido:  “A censura sequer é um bom médico… E apenas um cirurgião que só conhece um remédio…as tesouras. E nem sequer é um médico que tem como objetivo a saúde. É um cirurgião esteta que considera supérfluo no corpo tudo que ele não gosta”. E conclui: “Todos os dias a censura corta a carne de indivíduos intelectuais e deixa passar somente corpos sem coração, corpos sem reações, apresentado-os como saudáveis”. Marx aponta os seus efeitos nocivos: “A censura transforma todos os escritos proibidos, bons ou ruins, em artigos extraordinários”.

O pensamento de Karl Marx à respeito da imprensa, pelo menos nesta fase embrionária de sua produção intelectual, deve causar arrepios aos profetas de uma mídia, sob supervisão do Estado, ou algum tipo de controle. É o pensamento de um liberal, os mesmos princípios que nortearam os reformadores da primeira emenda na Constituição americana. Alguns anos depois, em 1849, Marx defendia-se nos tribunais da acusação de ter cometido o delito de injúria contra as autoridades, ele então editor do Neue Rheinische Zeitung e perante o juiz não mediu palavras de sua convicção quanto ao papel da mídia: “A função da imprensa é ser o cão de guarda público, o denunciador incansável dos dirigentes, o olho onipresente, a boca onipresente do espírito do povo que guarda com ciúme sua liberdade”. Ou seja, Tudo que um jornal do Estado não pode, realizar. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 24/01/2009

O preconceito dos historiadores com a Gazeta do Rio de Janeiro

15 dAmerica/Chicago Janeiro dAmerica/Chicago 2009

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É injusta e preconceituosa a imagem construída pelos historiadores em torno da Gazeta do Rio de Janeiro. Imagem esta que prevalece no ensino de história do jornalismo nas universidades brasileiras e se dissemina pela internet em trabalhos de conclusão de curso, monografias e teses de mestrado que multiplicam a informação, no mínimo, mal fundamentada pelos autores chamados clássicos, dentre eles Nelson Werneck Sodré, autor de “A História da Imprensa no Brasil”, seguramente o mais citado e o maior responsável pela má reputação de nosso jornal pioneiro.

Sodré que não leu as coleções do jornal e foi influenciado por outros autores (em particular J. Armitage/História do Brasil) na sua avaliação biliar em torno do referido periódico, impugnou à Gazeta rótulos que não correspondem à realidade e que pelo seu peso vernacular acabaram se tornando clichês de mau agouro. Rótulos como o de “jornal áulico” ou “diário oficial”; pior as apreciações de: “pobre papel impresso”, “arremedo de jornal”, “embrião de jornal”, “insípida”, dentre outras considerações.

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Nelson Werneck Sodré

O fato é que os historiadores estabeleceram uma leitura peculiar da Gazeta que em parte contribuiu para fortalecer as avaliações preconceituosas aqui referidas. Autores que não leram as coleções disponíveis em nossos arquivos e bibliotecas públicas, já que esse não era o objetivo primário de sua pesquisa e assim estipularam uma linha de corte, em torno de um período específico do jornal (1821/22) marcado pelos acontecimentos políticos. O embate de idéias em torno da Independência do Brasil é a linha de corte preponderante e nesse viés julga-se o todo pela parte, assim mesmo num contexto partidário (onde os vencedores fazem a história) que não se justifica. Nesse contexto, condena-se ou deprecia-se a Gazeta, enquanto se enaltece o Correio Braziliense, um contraponto que a rigor não teria parâmetros já que o primeiro é órgão informativo e o segundo de opinião.

Percepção distorcida


As alcunhas de “áulico” e “diário oficial” com toda a carga pejorativa que Sodré impugnou à Gazeta do Rio de Janeiro não correspondem à realidade.  A percepção que ficou dessa qualificação é a de que o jornal apenas bajulava a corte e publicava os atos oficiais do governo. Uma percepção agregada dessa avaliação induz, ainda, os pesquisadores e estudantes a acreditar que era uma publicação de menor categoria quanto à técnica e conteúdo.
Se a Gazeta era, na avaliação de Sodré, um “pobre papel impresso”, também eram os seus concorrentes e isso o autor não diz, considerando o padrão gráfico, atualidade da noticia, formato e número de páginas, acesso às fontes… A Gazeta do Rio de Janeiro não era melhor, nem pior do que a Idade D’ouro do Brasil, Semanário Cívico, O Constitucional, Revérbero Constitucional Fluminense, Aurora Pernambucana, O Espelho ou A Malagueta. 

Em todo caso diário oficial e jornal áulico, no sentido estrito das palavras, a Gazeta do Rio de Janeiro com certeza não era. É só ler as edições e conferir. Do ponto de vista quantitativo estes dois temas (a dita bajulação da corte e atos oficiais do governo) correspondem juntos a menos de 10% do conteúdo editorial do jornal, pelo menos no período 1808-1811, edições que conheço e posso afiançar o que digo. São temas estranhos ao dia-a-dia da publicação e quando abordados, com raríssimas exceções, sempre nas páginas internas, sem maior destaque. A prioridade naquela fase inicial era a cobertura da guerra na Europa.

E isso não é nenhum defeito, conforme arrolado pelos historiadores que definem essa opção da gazeta pelo noticiário internacional como “intermináveis relatos”, “cansativos feitos”, e há quem a chame por isso de “periódico sensaborão”.

A verdade é que todos os jornais do mundo, naqueles idos, cobriam a guerra européia e todos contavam com as mesmas fontes, as malas de correspondência que as embaixadas dos países envolvidos no conflito faziam circular nos portos amigos. E no caso específico da Gazeta do Rio de Janeiro a opção pelo noticiário internacional é corretíssima. O seu público alvo era o funcionalismo público e os comerciantes, em sua maioria cidadãos portugueses que residiam no Rio de Janeiro, não por gosto, mas pelas circunstâncias da diáspora provocada pela invasão das tropas napoleônicas em Portugal. Ou seja, gente que vivia no Brasil provisoriamente, tinha família e bens na Europa e sonhava com retornar a seu país de origem, logo que re-estabelecida a paz.

Reduzir o papel da Gazeta do Rio de Janeiro ao de um “diário oficial” é grave injustiça que precisa ser corrigida. Impugnar-lhe o rótulo de “áulica” porque era situação é bobagem. Nessa mesma linha de raciocínio, coerente com seu preconceito, Sodré deveria ter chamado o “Revérbero” e o “Constitucional” de “subversivos”.  

artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 06/01/2009

Papai Noel é bundão

17 dAmerica/Chicago Dezembro dAmerica/Chicago 2008

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Papai Noel é bochechudo, pançudo e bundão e nos não temos culpa disso. Recebemos ele pronto. Design americano que começou como uma representação do bispo Nicolau com traços de caricatura, no século XIX, popularizado em revistas, para mais tarde ganhar feições mais suaves e definidas e, nesse contexto, um biótipo redondo. Um perfil estético que jamais seria brasileiro. Se a representação do Papai Noel fosse arte nossa__ imaginem vocês o bom velhinho no lápis de Agostini, Julião Machado, K-Listo, J. Carlos, ou mesmo Ziraldo__ certamente que teria menos bochechas e com certeza menos barriga e menos glúteos. E o saco? Não vou sugerir uma pouchete na cintura, seria debochar do velho. Quanto ao Ho, Ho, Ho, sou mais Ha, Ha, Ha.

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 Papai Noel é invenção da mídia como tantos outros mitos construídos e alimentados pelos veículos de comunicação. Originalmente era o Bispo de Mira, uma lenda oral, que supostamente teria vivido nessa cidade, hoje pertencente à Turquia e daí as feições turcas, nariz proeminente e senho franzido com sobrancelhas fartas das representações primárias. Usava roupas vermelhas, com aqueles saiotes e anáguas cumpridas, característica do figurino das igrejas cristãs da época. O Bispo de Mira, tornou-se Nicolau e mais tarde Santa Claus e foi nessa condição que a revista semanal Harper’ s encarregou-se de popularizar o personagem no país que mais crescia no mundo e já se insinuava como uma grande potência: Os Estados Unidos.

Papai Noel fumava
Foi Thomas Nast, americano de sangue Batavo, quem vulgarizou a figura através de suas caricaturas no “Harper’s Weekley”, cujo slogan era Journal Of Civilization, a partir de 1.862. O traço de Nast mostra um personagem sisudo, meio gnomo, quase um duende. Sempre olhar circunspeto, antipático, assustador na representação visual com grupos de crianças, hoje sugeriria um pedófilo. O objetivo era mostrar um bruxo, um mago que transformava sonhos em realidades.Foi esse Papai Noel de traços nórdicos que os ilustradores brasileiros imitaram de forma rude em inícios do século XX nas campanhas dos cigarros York, Veado, Casas Pernambucanas, Ao Parc Royal, dentre outros.

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A indústria do cigarro foi o primeiro segmento publicitário a divulgar no Brasil a figura de Papai Noel que aparecia sempre fumando.Tinha sentido a ilação já que Nast na sua representação do Bispo Nicolau, preservara-lhe o cachimbo original, conforme descrito por Washington Irving em 1808 e mais tarde (1822) por Clement Clark Morre no seu poema : “The Nigth Before Christmas” . Mas o Papai Noel que a Souza Cruz nos apresentou na capa de seu house-organ, edição de dezembro de 1916 (olhando de soslaio o seio de Yolanda, insinuado no maço dos cigarros do mesmo nome) era tipicamente americano, de traços suaves, muito semelhante (sem as bochechas) ao desenhado por Haddon Sudblon, a pedido da Coca Cola em 1931.

Justiça seja feita a Sudblon, não foi ele o primeiro a engordar e arredondar o Papai Noel. O ilustrador do “Saturnay Evening Post”, J. C. Leyendecker já exagerava nas proporções. Desde a década de 20 apresentava Santa Claus de fato obeso, barriga proeminente e bunda farta para equilibrar do outro lado. Norman Rockwell manteve o protótipo até inícios da década de 30 quando Sudblon desenvolveu o modelo que a Coca Cola com a sua cobertura e freqüência de mídia popularizaria mundo afora. O resto a indústria cultural americana encarregou-se de distribuir e difundir em todo o planeta.Tornando para sempre, e enquanto o mundo existir, Papai Noel  bochechudo, pançudo e bundão. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 15/12/2008

A banalidade do nome dos jornais

12 dAmerica/Chicago Dezembro dAmerica/Chicago 2008

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Na história moderna da humanidade seguramente que não há nenhum segmento mais conservador do que a imprensa, notadamente o meio jornal que se arvora de quarto poder para não assumir que é uma projeção dos três oficialmente reconhecidos e além de tudo é o menos imaginativo; a criatividade neste segmento passou longe.

Um indício dessa, minha assertiva, está na nomenclatura dos veículos impressos que é ultra-conservadora por natureza, repetitiva, banal. Nomes de jornais, diferente dos nomes de empresas, entidades e instituições, são lugar comum. Jornais, com raras exceções, não tem cultura de marca, no passado abriram mão de sua identidade. Para que personalidade própria se eles se enxergavam como um poder ?Nos primórdios, já na era pós-Gutemberg, os jornais eram Relações e Gazetas, nomenclaturas que se reportavam à economia.

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Gazeta era uma moeda veneziana que comprava todo tipo de mercadorias, inclusive folhas com informações sobre transações comerciais e o movimento portuário. Os nossos antepassados assumiram essa relação noticia X comércio, tanto que  a imprensa lhe incorporou o nome. Os jornais mais famosos do mundo eram gazetas, inclusive o nosso pioneiro: Gazeta do Rio de Janeiro. O que não era Gazeta era Correio, nomenclatura que se reportava ao serviço de distribuição, também de informações comerciais; no Brasil circulou o Correio Braziliense.

Businnes
Esquecemo-nos que o Correio nasceu como negócio, ninguém cogitava o serviço para atender a saudade de parentes, chorar as pitangas, ou declarar amor a um ser querido. O Correio vendia informações e daí a simbologia da nomenclatura então adotada por vários jornais do mundo. E se você acha que esses precursores da imprensa eram cínicos está equivocado.

O pragmatismo deles tinha a ver com o que representava a imprensa naquele tempo: um instrumento de um grupo dominante para um público alvo escolhido, sem essa de mídia de massa, compromissos com o leitor e responsabilidade social, “bobagens” que as escolas pós-guerra da teoria da informação, disseminaram pelo mundo para atender as demandas de uma sociologia, então em construção.Como jornal não era mídia de massa e a sua nomenclatura atendia grupos políticos, religiosos e de outras relações de poder (maçonaria, por exemplo) os nomes se assemelhavam: Gazetas, Correios, Sentinelas, Reberveros, Argos…Ainda no século XIX a imprensa assimila outros conceitos, alguns preservando valores de poder como Tribunas e Estados (A Província/O Estado de São Paulo, o exemplo mais evidente), mas surgem também, num outro contexto, as Folhas, Semanários, Diários, Jornais, Tempos, Vanguardas e Imparciais.

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Criatividade
Nesse ambiente de falta de imaginação, nomenclatura do jornal com cara de sabão em barra, me rendo à criatividade de dois empreendedores: Irineu Marinho que nomeou o seu vespertino de “A Noite” e depois fundou “O Globo” e Samuel Wainer que denominou o seu jornal de “Última Hora”. O primeiro assumiu que jornal vespertino atrasava e viu nisso uma oportunidade. E em relação a “O Globo” enxergou o Brasil, no contexto do mundo.
É claro que tinha referências de O Globo pioneiro, o jornal de Quintino Bocaiúva lançado em 1.874, mas  isso não lhe tira o mérito.Wainer por sua vez, apostou no furo jornalístico, na noticia em tempo real, e trouxe para a mídia, incorporado no título, o valor agregado da informação.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 01 de dezembro/2008 

200 Anos de Imprensa no Brasil:O impacto da máquina de escrever nas redações

11 dAmerica/Chicago Novembro dAmerica/Chicago 2008

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Em fevereiro de 1912 o Jornal do Brasil adquiriu três máquinas de escrever, o primeiro passo para substituir as canetas bico de pena, processo este concluído muitos anos depois diante das reações de veteranos jornalistas que não abriam mão do hábito de escrever a mão. Alguns daqueles senhores conheciam o equipamento, disponível na Casa Pratt e outras lojas especializadas, há mais de uma década, naquele tempo usado apenas nas repartições públicas, escritórios de advocacia e, a julgar pelos apelos de venda dos anúncios publicados em jornais e revistas, também em alguns lares. Os reclames insistiam na praticidade de se escrever cartas numa máquina das marcas Royal ou Remington.

Mas, o uso de esses “incômodos” aparelhos de ferro nas redações não era cogitado. É desconcertante imaginar que a tecnologia da máquina de escrever tenha demorado tanto a ser assimilada pelas redações, considerando que o seu uso efetivamente foi popularizado no final da década de 20. Afinal, o invento estava disponível no país, desde a última década do século XIX e o teclado “infernal” que assustava os jornalistas com a sua incompreensível combinação de letras já era realidade nas oficinas desde a introdução do linotipo. Ou seja, durante muitos anos não houve a correlação de tecnologias que seria recomendável para agilizar os processos de pré-impressão. O jornalista escrevia a mão e o linotipista que muitas vezes era obrigado a interpretar garranchos, fazia a digitação mecânica. Redatores mais experientes sentavam-se ao lado do linotipista e ditavam o seu texto de cabeça; as correções feitas, ali mesmo, na hora.

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Teclado duplo
Mas o que apavorava aquela geração era efetivamente o teclado, o tal sistema QWERTY (repare a seqüência no teclado de seu computador), inventado por um sujeito com esse nome (funcionário da Remington) e a outra série embaixo, ASDFG, supostamente as letras, então, mais usadas no idioma inglês. O fato é que enfiaram o QWERTY na gente de tal jeito que o teclado do computador (criado um século após o original) não teve como fugir da regra e ainda hoje utiliza o sistema. Para aquela geração abandonar o hábito da caneta de bico de pena significava aprender técnicas de datilografia. Para piorar as coisas é possível que as três máquinas de escrever adquiridas pelo JB tenham sido ainda do modelo de dois teclados, um para as maiúsculas, outro para as minúsculas, equipamentos muito mais complexo do que a máquina de escrever que prevaleceu até a década de 80.

O uso de máquinas de escrever na redação do JB fazia parte das reformas implementadas pelo jornal desde o aporte de capital do Conde Pereira Carneiro que já era sócio (minoritário) quando da inauguração da nova sede em 1910. Na década seguinte tornava-se proprietário (comprava as hipotecas não resgatadas). Foi também num contexto semelhante, de uma reforma estrutural, que a Folha de São Paulo adquiriu em 1983 os primeiros computadores para substituir as antes rejeitadas e naquele momento imprescindíveis máquinas de escrever. O objetivo era o mesmo, compatibilizar os processos de pré-impressão, tanto que uma vez consolidada a mudança, alguns anos depois, a Folha calculava em 40 minutos o ganho de tempo. E tempo já era moeda calculada pelo departamento industrial e a expedição.

Transição rápida
Mas, para os jornalistas o computador por algum tempo continuou a ser uma máquina de escrever, só que mais evoluída e com o mágico recurso da correção de texto. As redações tornaram-se mais silenciosas e ficaram mais limpas, sem o característico amontoado de papel amassado no chão e nas lixeiras. Desta vez a transição que foi tão ruidosa quanto a provocada pelos teclados de ferro, em idos remotos, se deu em tempo recorde. E as máquinas de escrever deixaram as redações para se perpetuarem nas vitrines dos museus, ou nos álbuns de fotografias, lado a lado com outras tecnologias aposentadas: o disquete, por exemplo que já saiu de cena. Você ainda lembra dele?

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/10/2008

200 Anos de Imprensa: As revistas estrangeiras que os brasileiros liam

28 dAmerica/Chicago Outubro dAmerica/Chicago 2008

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Que publicações estrangeiras (revistas e jornais) os brasileiros liam na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX? Se conseguimos responder a esta pergunta estaremos sinalizando com as influências externas em nossa imprensa. Não foi apenas neste lado dos trópicos que colhemos subsídios para desenvolver um estilo, inicialmente opinativo engajado, mais tarde o opinativo rebuscado, quase barroco, e finalmente informativo com abrangência para a reportagem. Nessa transição passamos também por influências de imagem e identidade visual dos veículos: a caminhada entre as vinhetas confeccionadas em xilogravura, passando pelo desenho gorduroso na pedra, até o domínio das técnicas fotográficas e a sua impressão com nitidez, através do popular clichê. Aprendemos com os outros a diagramar, e no caso específico das revistas, ontem e sempre, inspiramo-nos em magazines europeus ou americanos.

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Catálogos e sebos
O fato é que ninguém se deu ao trabalho ainda de mapear essas influências, um bom tema para pesquisa, fica aqui a minha sugestão. A começar, identificando essas leituras privilegiadas, publicações que circulavam entre nós, acessíveis aos profissionais da área, mas também ao leitor bem instruído. Publicações disponíveis nas livrarias e que numa sala de visitas faziam a diferencia. Famílias que tinham recursos adquiriam revistas importadas, de informação geral, mas também segmentadas. E naquele tempo revista não era um item descartável, guardavam-se os exemplares do mesmo jeito que se colecionavam cartões-postais.

Desenvolvi uma metodologia para identificar as publicações estrangeiras que circulavam entre nós, a mídia que os nossos visavôs e os que os antecederam consumiam. É simples. Basta consultar os catálogos das bibliotecas públicas das grandes cidades para se ter uma noção de qualidade e diversidade, mas para se aferir a quantidade e penetração desses veículos só há um caminho: os sebos. É nessas livrarias especializadas em livros e revistas antigos que de fato podemos rastrear os títulos estrangeiros mais em evidência. E nesse quesito nenhum título supera a revista francesa “L’ Ilustration” que se encontra com facilidade, em particular as coleções entre 1890 e 1920. Foi no “L’ Ilustration que o Barão de Tefé foi buscar referências gráficas e de conteúdo em 1901 para fundar a Revista da Semana.

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As revistas francesas
Os brasileiros cultos liam francês e daí o sucesso das revistas parisienses entre nós. Em especial ” L’ Ilustration” e “Le Petit Journal” no início do século e a partir dos anos 20 “Lectures por Tous”, “Revue des Modes” e  a de maior penetração, a “Je Sais Tout”. As três últimas inspiraram revistas brasileiras do mesmo nome: “Leituras para Todos” “Revista da Moda” e “Eu Sei Tudo”, mediante um sistema de franquia semelhante ao de “Seleções”.
Os paulistanos liam “Il Sécolo XX” e “La Lettura” revistas italianas que ainda hoje se encontram com facilidade em alguns sebos da cidade. Os baianos preferiam a revista espanhola “A Vida Galante”. Nas grandes cidades circulava a inglesa “The Spere”, a revista cuja capa era toda anúncios e  “The Ilustration”, do gênero da revista francesa do mesmo nome aqui referida. No Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia a “Revista Ilustrada” de Lisboa, inspiradora de “A Ilustração Brasileira”, também tinha o seu nicho.

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Em inglês
A partir da década de 20/30 as revistas em idioma inglês ganham mercado Primeiro o Time que inspirou Chateaubriand a fundar “O Cruzeiro”. Imitava-lhe as capas, mas não o conteúdo. Mais tarde o “National Geographic” e o “Reader’s Digest” que a partir de 1942 passou a ser editada em idioma português. Nos anos 50 os brasileiros liam a revista “Life” que inspirou “Manchete”; as mulheres recortavam os moldes da revista alemã “Burda”, publicação obrigatória nas salas ou cantos de costura das residências tradicionais e outras nem tanto. Nos anos 60 líamos “Vogue” a revista de moda e estilo mais influente do mundo, o título licenciado para a Carta Editorial no Brasil, muitos anos depois.
Mais tarde descobrimos as revistas eróticas. “Play Boy”  “Elle” e ”Lui” fizeram escola, eram adquiridas em pontos de venda sofisticados e custavam os olhos da cara.. Mas, os dois primeiros títulos foram licenciados por editoras brasileiras. O primeiro deles popularizado, ainda hoje um dos de maior circulação da Editora Abril.

No lixo
Mas, retornando no tempo, me intriga a quase inexistência nos sebos paulistanos de três publicações que sabemos circulavam bem nas colônias estrangeiras: o “Fanfulha”, “Nippack Shimbum” e o “Magiar Yjag”. O que aconteceu? Publicações em papel jornal, pelo visto, não eram guardadas e o seu destino, provavelmente, tenha sido o lixo.

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Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 20/10/2006

200 Anos de Imprensa no Brasil: Uma entrevista com Luis Carlos Prestes

21 dAmerica/Chicago Outubro dAmerica/Chicago 2008

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Na madrugada de 19 de setembro de 1968 Paulo Patarra, diretor da revista Realidade, encontrou-se, ainda no escuro, com um homem que aparentava 35 anos de idade, emissário do líder comunista Luis Carlos Prestes, então vivendo na clandestinidade, obvio, em lugar desconhecido e, segundo o jornalista revelaria a seus leitores, com rosto também desconhecido. A edição de capa de dezembro desse ano, que circulava às vésperas da edição do AI5, trazia um desenho do Cavaleiro da Esperança, com o chamativo título: “Este rosto não existe mais”. No interior, 14 páginas com uma entrevista exclusiva e reveladora do homem, que naquele tempo de regime militar e forte repressão encarnava o inimigo número um do governo. Seria a última entrevista do jornalista em Realidade; logo assumiria o cargo de diretor de novas publicações da Abril. 

Olhos vendados

Patarra encontrou-se com seu interlocutor na madrugada fria paulista. O homem vendou-lhe os olhos com um pano preto e conferiu se tinha cumprido o trato estabelecido de não levar relógio. Em seguida o conduziu até uma perua sem janelas no interior. O jornalista deitou-se num colchão. Uma cortina preta separava a cabine do interior da camionete. Então, descreve Patarra, seguiram viagem durante algumas horas por estradas com muitas curvas, até o carro adentrar numa garagem escura. Com a luz de uma lanterna nos olhos, para que não pudesse identificar a residência, o jornalista foi conduzido até uma sala espaçosa, a meia luz, “um cobertor grosso na janela deixava passar um resto de sol”, onde o entrevistado o aguardava. O diretor de Realidade teve de ficar a uma razoável distância de Prestes, mas mesmo assim pode observar que o seu rosto não conferia com o dos retratos oficiais e oficiosos. O líder comunista fizera uma plástica e esse seria o gancho da reportagem bombástica que a revista ofereceria a seus leitores.

Reportagem sem fotos

O jornalista não identificou o carro que o conduziu até o esconderijo de Prestes, mas supõe que tenha sido uma Aero-Willys. Também não soube precisar o roteiro, mas “não sei por que me pareceu que a estrada era a de São Paulo-Belo Horizonte”. Sentiu grande desconforto pelo longo período de escuridão forçada: “Ficar de olhos fechados durante tanto tempo é de um desconforto doloroso. Tão diferente se torna a relação entre a gente e o mundo”. Mas foi na hora de fotografar que sentiu as limitações impostas pelas circunstâncias. Foi-lhe permitido fazer fotos em P&B (”nos não temos possibilidade de revelar filme colorido”) e de perfil. O filme deveria ficar com eles para ser revelado e as fotos, mais tarde, encaminhadas pelo PCB à redação. Patarra bateu 35 fotos, mas a escuridão do ambiente comprometeu o resultado. Em 29 de setembro recebeu um envelope anônimo com as fotos liberadas. Não aproveitou nenhuma na reportagem que seria ilustrada com fotos de arquivo e a capa com uma ilustração encomendada a um designer.

A repercussão O resultado desse esforço de reportagem que Realidade definiu “não apenas como um furo jornalístico, mas um documento importante” da historia do Brasil, de fato valeu pela exposição do pensamento de uma das mais importantes personalidades da política brasileira no século XX. A reportagem resultou num Prêmio Esso de Jornalismo para Patarra que teve acesso a Prestes por conta de sua militância no partido na década de 50. Mas, a repercussão não esteve à altura do personagem. É que quando a revista chegou às bancas a mídia discutia um outro assunto: a crise entre o Congresso e o regime militar (episódio Moreira Alves). No dia 13/12 a mídia silenciava de vez perante a exibição de força de tanques e soldados armados e a prisão de jornalistas, respaldada pelo recém sancionado ato institucional número 5. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 13/10/2008 

200 Anos de Imprensa no Brasil: Cartas falsas na campanha eleitoral

17 dAmerica/Chicago Outubro dAmerica/Chicago 2008

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Pelo menos um pecado o “Correio da Manhã”, o jornal que combateu todas as ditaduras, ícone da resistência da imprensa aos regimes de arbítrio, cometeu em tempos de eleições. Em 09 de outubro de 1921 publicava o fac-símile de uma carta assinada pelo candidato à Presidência da República Arthur Bernardes, com graves ofensas ao Marechal Hermes da Fonseca, a quem chamava de “sargentão sem compostura”, qualificando o jantar organizado pela oficialidade, na sua homenagem, de “uma orgia”; então sugeria aos militares: “esse canalha precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina”.

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A carta que intrigava Bernardes com os militares era falsa. No dia seguinte o jornal publicava uma outra missiva, também atribuída ao candidato mineiro, desta vez insultando Nilo Peçanha, “o moleque capaz de tudo”, também candidato à Presidência da República. As cartas supostamente escritas por Bernardes deflagraram uma grave crise, repercutidas por outros jornais e pelo traço ferino dos chargistas das revistas semanais e mensais. Arthur Bernardes apressou-se em negar a sua autoria. O Clube Militar atestou a falsificação, mas a imprensa não estava muito preocupada com isso, a estas alturas engajada na disputa eleitoral. E assim as cartas falsas alimentaram o debate, até o sufrágio dos eleitores em março de 1922, a abertura das urnas e a recontagem dos votos, exigência da oposição, até a confirmação da vitória de Bernardes.

Trama anunciada
Naquele tempo os jornais eram cabos eleitorais influentes, atingiam a parcela da população autorizada a votar: a elite brasileira. Além disso, não tinham compromisso com a informação, alguns deles publicavam somente a relação de deputados eleitos pelos partidos amigos, omitindo do leitor outros nomes sufragados.

Foi nesse contexto que o Correio da Manhã se dispôs a publicar as cartas que o Jornal do Commercio recusara em 20/09/21. Na data o jornal denunciava: “Ensaiam-se, porém, agora na sombra, outras armas… É o caso, espalhado à surdina, de umas cartas manuscritas que o seu possuidor assoalha serem do próprio punho do Sr. Arthur Bernardes… Essas cartas… oferecidas à venda nesse caráter, puderam ser escritas em papel timbrado do gabinete do Presidente de Minas e, consta, imitam muito bem a letra do mesmo”. Nem mesmo a advertência do JC, uma denuncia pública, foi considerada por Mário Rodrigues (redator político) e Raimundo Silva (diretor do jornal) que na ausência de Edmundo Bittencourt, proprietário do Correio da Manhã, tomaram a decisão de reproduzir as cartas três semanas após a publicação da nota referida. Mais do que isso , firmaram posição com o artigo intitulado ” Injurioso e Ultrajante”.

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Na seqüência dos acontecimentos o jornal acusaria Bernardes de corrupção e suborno. Meses depois quando os falsários Jacinto Guimarães e Oldemar Lacerda confessaram o crime, muitas perguntas ainda pairavam no ar, algumas delas não respondidas até hoje: Quem pagou pelas cartas e quanto já que Lacerda se seu ao luxo de passar uma longa temporada na Europa ? O Presidente da República, que governou sob Estado de Sitio, vingou-se do jornal. Primeiro prendeu Edmundo e Paulo Bittencourt, seus proprietários. E em 31 de agosto de 1924 fechou o “Correio da Manhã”, acusado de imprimir nas suas oficinas um folheto clandestino com propostas dos tenentes rebeldes do levante dos 18 do Forte, ocorrido em cinco de julho/22. Deixava de circular durante oito meses e vinte dias, retomando suas atividades em maio de 1925, sob a direção provisória de Moniz Sodré. Pagara o preço do estopim que ele mesmo ascendera.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 06/10/2008