A alma do negócio pelo tradutor do Google

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Imitando Millor Fernandez que fez a tradução da imortal frase de Machado de Assis na entrada da Academia Brasileira de Letras pelo tradutor eletrônico do Google, apenas para “confirmar” a qualidade do robô em relação ao homem, fizemos a tradução de uma frase clássica, ainda que hoje superada pelo contexto da comunicação integrada, da publicidade brasileira: “A Propaganda é a alma do negócio”.

Confira o resultado:

Tradutor do Google

Português: A propaganda é a alma do negócio.

Alemão: Werbung ist die Seele des Geschäfts.

Japonês: 広告は、ビジネスの魂です。

Arabe: الإعلان هو روح الأعمال. 

Espanhol: Declaración es el alma de los negocios.

Russo: Декларация душа бизнеса.

Hebráico: הצהרת הנשמה של העסק 

Italiano: L’anima di una dichiarazione d’affari

Português: A alma de uma declaração de assuntos



No Dia do Jornalista a lembrança da morte de Líbero Badaró

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No dia 07 de abril comemora-se o Dia do Jornalista. A data é referência à abdicação do trono por dom Pedro I, após um grande desgaste político que teve como elemento de combustão o assassinato de Líbero Badaró, redator do “Observador Constitucional” em 20 de novembro de 1.830. Crime de mando atribuído diretamente ao juiz corregedor Cândido Ladislau Japiaussu, mas, segundo alguns órgãos da imprensa liberal oposicionista, por encomenda do Palácio. Para resumir a história: o crime chocou a opinião pública, mobilizou a imprensa de todo o país, as autoridades deram fuga ao corregedor para evitar o linchamento (mais tarde absolvido por falta de provas, num júri suspeito). E o Imperador que já sofria um processo de desgaste junto ao ministério teve de abdicar do trono em 07 de abril de 1.831, em favor de seu filho.

As circunstâncias

Há nuances que me chamam a atenção nesta história. Primeiro a instituição da data, por iniciativa da Associação Brasileira de Imprensa-ABI, no contexto de uma ditadura. O Dia do Jornalista foi instituído em 07 de abril de 1931, ou seja, nos primórdios da revolução quando o Governo Vargas, exercia forte repressão contra a imprensa, delegando autonomia a autoridades policiais para avaliar o conteúdo da mídia. Política de delegacia de esquina que prevaleceu até a consolidação do Departamento de Imprensa e Propaganda-DIP e a montagem de uma rede de censores, nos moldes do fascismo italiano, que o inspirou. Por que Getúlio concordou em instituir uma data que lembra justamente a repressão do Estado contra a imprensa? Libero Badaró foi morto por que seu proselitismo em favor da liberdade de expressão incomodava o regime. Há uma contradição nessa iniciativa da ABI, encampada pela ditadura.

Também chama a atenção as circunstâncias do assassinato de Líbero Badaró. Foi morto a mando da autoridade que representava o braço judiciário. Morte anunciada. Badaró tinha publicado no seu jornal o “recado” de amigos sobre as intenções do corregedor. Mas nada disso intimidou a autoridade que fez valer os seus maus bofes, contratando sicários estrangeiros para executar a tarefa. Apostou na impunidade, na retaguarda palaciana, ao mesmo tempo minimizando o poder de mobilização da opinião pública pela imprensa. A morte do jornalista provocou uma corrente de indignação (o regime tinha ido longe demais) repercutida não apenas pela mídia de oposição (Observador Constitucional em São Paulo, Aurora Fluminense no Rio de Janeiro, Universal em Minas Gerais e O Bahiano de Antônio Rebouças na Bahia), mas por toda a imprensa. Dom Pedro I amargou vaias e protestos nas suas aparições públicas.

Sobre os abusos

Nuances aparte, vale lembrar nesta data as palavras de Badaró sobre a liberdade de imprensa, um recado no túnel do tempo para Dilma Russet e José Serra; ambos os candidatos em declarações recentes atacaram a imprensa, incomodados com a difusão de notícias e opinião de alguns veículos. Falaram em abusos, palavra de ordem para qualificar eventuais exageros, reais ou figurados, sempre no intuito de intimidar. Líbero Badaró, a propósito escreveu: “Incapazes de resistir à evidência dos argumentos positivos sobre que se apóia a necessidade de imprensa, os amigos das trevas se vestem da capa da moral e do sossego público, apontam os abusos desta liberdade, a calúnia, a difamação, as provocações diárias, os achincalhes continuados, que tornam a vida um suplício. E, meu Deus! Os abusos? E do que se não abusa neste mundo? Forte raciocínio! E porque se abusa de uma qualquer coisa, já, já suprima-se?

E aonde iríamos com estas supressões?”“Um mau juiz abusa do seu ministério: suprima-se a magistratura; um mau sacerdote abusa da religião: suprima-se a religião; um mau marido abusa do matrimônio: suprima-se o matrimônio. Forte raciocínio, dizemos outra vez! Suprimam-se os abusos que será melhor. A lei contra os abusos existe; sirvam-se dela; e se não é boa, faça-se outra; e liberdade a todos de esclarecerem os legisladores, pela imprensa livre”.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Correio * em 01/04/2009



Memória do Rádio. Um livro de Perfelino Neto

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Uma das Lacunas na bibliografia baiana de comunicação começa a ser preenchida com o livro “Memória do Rádio” de Perfelino Neto, lançado semana passada. O título da obra nos remete ao programa apresentado pelo radialista na Rádio Educadora (Irdeb), diariamente, às 22 horas, programa de fôlego que já contabiliza mais de 1.300 edições, um valioso acervo a ser disponibilizado um dia para os estudiosos do assunto, não apenas na Bahia, mas no Brasil. Não tenho referências de nenhum outro trabalho do gênero, semelhante em volume, regularidade e conteúdo, em outro Estado.

O livro de Perfelino que já prepara um segundo volume sobre o tema é a pedra fundamental de um trabalho de reconstrução da memória do rádio baiano, do qual não existe até hoje quase nenhuma referência, a não ser artigos e entrevistas publicados em jornais, raros trabalhos acadêmicos e o livro comemorativo dos 25 anos da Rádio Educadora, da autoria do João Leite, editado em 2003. Cabe citar aqui também o trabalho de Othon Jambeiro, Tempos de Vargas: O Rádio e o Controle da Informação, editado pela Ufba em 2004.

Lacunas de pesquisa

Por uma estranha razão a Bahia não cultuou a memória do rádio baiano, perdeu os seus acervos, deixou apodrecer as referências em jornais e também não cuidou de ouvir os principais protagonistas do veículo. Alguns deles já se foram como Gastão do Rego Monteiro, Ubaldo Câncio de Carvalho, Adroaldo Ribeiro Costa, Everton Visco, Pacheco Filho, Antônio Sampaio, Renato Mendonça, Antônio Roberto Pelegrino, Milton Barbosa, dentre outros. Mas se os que já se foram não mais podem falar, ainda há um seleto grupo de radialistas com DNA do legítimo rádio baiano que podem contribuir com os seus depoimentos, a preencher as lacunas de informação existentes.

Nomes como os de Jorge Santos, Manoel Canário, Cid Teixeira, José Jorge Randam, França Teixeira, D’Jalma Costa Lino, José Athaide, Ivan Pedro, D’Jalma Bahia, Milton Santarem, Pedro Ferreira e o próprio Perfelino Neto com a sua vivência de quase meio século de estúdio, enriquecida com o seu olhar de pesquisador, zeloso na preservação da memória do radio na Bahia e no Brasil. Referências vivas, dentre outras que omiti por esquecimento e se isso ocorreu desde já peço desculpas.

O livro “Memória do Rádio” é a contribuição de um pesquisador baiano à memória do rádio no Brasil, tema que já conta com mais de meia centena de obras publicadas, dentre os quais cabe destacar os trabalhos de Assis Barbosa, Eduardo Meditsch, Sérgio Cabral, César Ladeira, Érica Ribeiro, Rafael Casé, Miriam Goldfeder, Doris Fagundes Haussem, Fábio Prado Pimentel, Lilian Maria Perosa, Maranhão Filho, Maria Cristina Marconi, Ricardo Medeiros, Renato Tapajos, Renato Murce, Luiz Carlos Saroldi, Sonia Virginia Moreira, José Ramos Tinhorão, Reynaldo Tavares, Octavio Augusto Vampré, dentre outros. Falei no início deste artigo na pedra fundamental e é isso que o livro de Perfelino Neto representa: os alicerces. O resto é com o próprio autor que planeja publicar quatro livros sobre o assunto  e outros pesquisadores do meio acadêmico e fora dele, admiradores da caixa falante.

Artigo publicado originalmente no Correio da Bahia em 17 de março de 2010



O recall de comerciais antigos no YouTube

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Desde que o YouTube existe (2005), hoje propriedade do Google, comerciais antigos seduzem os internautas: milhões de views podem ser contabilizados no Brasil nesta categoria. Por uma estranha razão são os comerciais de marca de automóveis que tem o maior “recall”, imagino eu que a disponibilidade das imagens seja um dos motivos em função das fitas de vídeo comercializadas pelo Museu Memória da Propaganda que geraram cópias de péssima qualidade e daí as imagens descoloridas, sem nitidez e brilho dessas produções, mas que em todo caso os internautas relevam em função do conteúdo. A oferta determina a audiência. 

Automóveis na mira  O fato é que dos vinte comerciais brasileiros antigos mais vistos no YouTube quinze são de montadoras de automóveis. E o que se vê é que não há nenhum critério de qualidade, refiro-me ao conteúdo, criatividade, idéia, foco, no “recall”. Os comentários dos usuários são um termômetro dessa falta de critérios. Comenta-se a performance do carro, curte-se o saudosismo, critica-se o concorrente, mas quase ninguém entra no mérito da mensagem publicitária. Não há muita informação disponível de quem posta o comercial e o público que assiste e multiplica as exibições não tem as referências necessárias para um comentário, digamos, mais inteligente. 

A série quatro momentos do fusca, um apanhado de quatro comerciais que não são dos melhores produzidos pela Almap na década de 60, lidera o número de views no YouTube com 272 mil exibições. Comerciais de posicionamento, ainda com o slogan “O bom senso em automóvel”, ressaltam as qualidades de “pequeno por fora, grande por dentro” e o seu uso por todos os públicos: o fusquinha particular, de auto-escola, rádio-patrulha e como táxi. Uma outra série, produzida em película, para o lançamento do Ford Corcel 70, é o segundo comercial antigo mais visto no canal com 271 mil exibições. O terceiro na categoria é o comercial da MPM do lançamento do Fiat 147 no Brasil (1976), esse sim um comercial de qualidade, um clássico da categoria, com 258 mil exibições. Mostra a performance do carro subindo os 365 degraus das escadarias da Igreja da Penha (RJ).

Os clássicos 

Por falar em clássicos da propaganda apenas três comerciais figuram na preferência dos usuários do YouTube entre os cinqüenta mais vistos: O “Primeiro Sutiã” da Valisere, criado por Camila Franco, Rose Ferraz e Washington Olivetto (W-GGK) em 1987 com 129 mil views (7º no ranking dos mais exibidos), uma série do garoto Bombril da década de 90 com 86 mil exibições (14º no ranking) e “Bonita camisa Fernandinho”, o comercial criado pela Talent em 1984 com 49 mil exibições (33º no ranking). Nesse contexto podemos pinçar algumas pérolas como os comerciais das Casas Pernambucanas (o do frio), Cobertores Paraíba, o da Frigidaire com Regina Duarte ou ainda os comerciais em desenho animado da Fiat Lux (o dos palitinhos marchando) criado pela Abaeté e o de “Seu Cabral” criado pela pelo departamento de propaganda da Varig em 1967. Este último objeto de centenas de comerciais racistas de parte dos internautas. Vai entender uma coisa dessas.  O “recall” no YouTube não é um atestado de qualidade quanto aos critérios, mas é uma garantia de preservação da memória da propaganda, a oportunidade de democratizar para profissionais e leigos, as criações de seis décadas de produção para a telinha. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado na revista Propaganda, edição de fecereiro de 2010



Cem anos do Biotônico Fontoura: O espinafre do Popeye

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O Biotônico Fontoura está há 100 anos nas prateleiras das farmácias, esta semana fui numa delas apenas para conferir e o Biotônico estava lá com o seu rótulo inconfundível, quase o design original de Monteiro Lobato, uma adaptação moderna do rótulo desenhado pelo escritor com cores diferentes para atender as exigências do marketing do ponto de venda. O Biotônico Fontoura não é o mesmo no rótulo, não é o mesmo na fórmula (alterada desde 2001 por exigência da Anvisa), mas no imaginário brasileiro continua a ser um dos maiores símbolos do país com um valor agregado de saudade e muita emoção. Um produto consumido por pelo menos cinco gerações que o marketing tornou imprescindível durante pelo menos meio século, na carona do Jeca Tatu, o personagem caipira de Lobato e na personificação do caboclo ingênuo e irreverente de Mazzaropi.

O Biotônico é resultado do amor e tal vez por isso, o carinho na mistura das substâncias, tenha sobrevivido um século. Em 1910 o farmacêutico Cândido Fontoura desenvolveu uma fórmula para atenuar as crises sofridas pelo sua esposa, de saúde frágil. Buscava um fortificante com características semelhantes ao Elixir de Nogueira, ou ao Emulsão de Scott que durante muitos anos seriam seus concorrentes. Fontoura acertou na fórmula, mas foi Lobato que tornou o produto popular ao associar o Jeca Tatu, o personagem do Urupés, ao remédio. O Almanaque Biotônico Fontoura lançado em 1920 foi o veículo por excelência. Segundo estimativas do laboratório até a década de 80 tinham sido editados e distribuídos mais de 100 milhões de exemplares do folheto promocional. 

Outros remédios centenários

Fui conferir, já disse, o Biotônico Fontoura na farmácia, apenas para aferir a vitalidade do produto que se vendia como “ferro para o sangue e fósforo para os músculos e os nervos” e encontrei nas prateleiras um outro centenário, também de fabricação brasileira: o Bromil do laboratório de Daudt e Oliveira o “amigo do peito” popularizado por Olavo Bilac em testemunhal publicado em jornais e revistas desde 1906, a pedido do poeta Felipe Oliveira, um de seus proprietários. Mais tarde exaltado por Bastos Tigre (1918/20) nas suas “Bromiliadas”, paródia de “Os Lusíadas” veiculada na revista “Dom Quixote”, na minha opinião, o maior feito de redação publicitária na história da propaganda mundial: mais de cem anúncios em série, um mil e seiscentos versos decassílabos com estrofação sempre na oitava rima.

O Bromil, o Gelol (ainda hoje o melhor canforado para contusões e dores musculares) e o Biotônico Fontoura são hoje ícones da memória da farmácia três produtos genuinamente brasileiros, centenários, com um “recall” no sentido de lembrança, já incorporado no inconsciente coletivo. Três produtos vitoriosos. Mas o Biotônico Fontoura incorporou no imaginário um algo a mais que pode ser resumido numa palavra: brasilidade. Resultado da identificação do remédio com o personagem que representava justamente a média do povo brasileiro, naquele tempo mal nutrido, fruto da desigualdade social. A idéia do caboclo, magro, fraco, triste e preguiçoso que se tornava saudável e ativo com o uso do produto. Cem anos depois o Biotônico Fontoura continua a ser fabricado, mas vende pouco, a sua eficiência é discutida e há quem o considere apenas um placebo. Nessa hipótese não é demérito e sim a constatação do poder do marketing intuitivo de Lobato que enxergou no Biotônico o espinafre do Popeye, se cabe aqui a analogia.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no jornal Correio em 25/02/2010



O rastro do cometa Halley na imprensa

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Quando o cometa Halley passou próximo da orbita da terra em 1758 não existia imprensa no Brasil, nenhum meio de comunicação que repercutisse o assunto. Em 1834 o cometa cumpriu mais um de seus ciclos orbitais e desta vez a imprensa brasileira já existia, porém o assunto passou batido novamente. Justifica-se o silêncio da mídia, de um lado pela falta de uma cultura de jornalismo científico no país, do outro pela precariedade das comunicações com outros países.

O jornalismo científico ainda era incipiente, o “Jornal da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado da Bahia” único órgão especializado do país, fundado em 1833, dedicava muito pouco espaço à astronomia, apenas algumas linhas sobre a influência dos astros nos plantios e colheitas. Quanto à comunicação com o mundo, ainda naquele tempo, as gazetas estrangeiras que chegavam nos navios, eram o único meio e fonte. Porém, na Europa e nos Estados Unidos assuntos científicos também eram muito pouco abordados pela mídia.

Outra era a realidade da imprensa brasileira quando o cometa fez a sua aparição em 1910 e se desta vez a passagem do astro foi um fiasco para a população, diante das expectativas criadas pela mídia, o Halley deixou rastros nos veículos de comunicação. Há exatamente um século, nesta época do ano jornais e revistas preocupavam-se com a campanha presidencial, que nem hoje, e como aperitivo ofereciam especulações em torno do cometa. Uma campanha incomum com mobilização popular, de um lado as oligarquias representadas por Hermes da Fonseca, do outro as oligarquias representadas por Ruy Barbosa; em todo caso uma disputa entre o militarismo e a sociedade civil, o verdadeiro pano de fundo.

A imprensa fazia ilações entre a campanha política e o acontecimento astronômico, através da verve irreverente dos chargistas de “O Malho”, “Careta”, “Revista da Semana” e “Fon Fon” (as revistas semanais) e da ironia dos cronistas do Jornal do Brasil, El Paiz, Jornal do Commercio e Correio da Manhã.

Lambido pela cauda

Fora o contexto político a imprensa se preocupava com os possíveis efeitos da passagem do cometa Halley que “O Malho” já anunciara no seu Almanaque de 1910 em novembro do ano anterior. A imprensa de fato comprou dos cientistas estrangeiros e vendeu para os brasileiros a idéia de um possível fim do mundo, a possibilidade de um choque entre o Halley e a terra: “O mundo ia ser lambido pela cauda venenosa do Halley. Dentro de pouco tempo nada mais existirá da triste humanidade nem sequer o vestígio das cinzas”, comentava “Fon Fon” para na mesma edição desmistificar o acontecimento diante do fiasco de milhares de pessoas que foram as ruas ver apenas um rastro: “Foi uma espiga. Grande decepção, não há duvida”. Uma foto na edição de “Careta” de 21 de maio de 1910 mostrava autoridades embaixo de guarda-sóis, aguardando o cometa passar.

Enquanto isso a imprensa ainda especulava sobre os gases venenosos do Halley, sobre a possibilidade do cometa ter sido o mesmo que anunciou aos Reis Magos o nascimento de Jesus e ainda especularia vinculando as mortes de Joaquim Nabuco no Brasil, Eduardo VII, Rei de Inglaterra e do escritor americano Mark Twain ao acontecimento, como conseqüência da entrada do astro na orbita terrestre. O jornal “O Paíz” por sua vez destacava a emoção do fato: É positivamente turbilhonante a preocupação universal com referência ao famoso “cabeleira” que mais uma vez visita nossos espaços, maravilhando as multidões que de dia e de noite, em todo o orbe, andam de nariz para cima, olhando, entre curiosas e um tanto impressionadas, o espetáculo soberbo de uma longuíssima faixa pálida, opalescente, aprumada por sobre um núcleo brilhante, enorme, mais denso que a faixa”.

O Halley pode ter sido uma decepção, mas deixou rastros na imprensa o verdadeiro mentor da expectativa criada na época. A mídia alimentou factóides em torno da aparição do cometa que já naquele tempo aprendia a lidar com a opinião pública. O Halley vendeu muitos jornais e revistas e foi um tema providencial para esfriar os ânimos após a contagem dos votos da eleição presidencial que analistas da época consideraram foi uma fraude. Rendeu muitas charges, crônicas, poemas, artigos e noticias. O Halley voltava em 1986, sem o mesmo alarde, num contexto de mídia mais amadurecida, desta vez apoiada num jornalismo científico já atuante em nosso país. Não mais se cogitava o fim do mundo, desta vez a imprensa aguardava e desejava o espetáculo, razão de ser da mídia de entretenimento.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 22 de fevereiro de 2010



O “seqüestro” de Pelé

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Em agosto de 1969 a Frente de Libertação Nacional, movimento guerrilheiro atuante na Colômbia e Venezuela, planejou o seqüestro do Rei do futebol, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, um episódio ainda hoje pouco divulgado e praticamente ausente nas biografias e filmes sobre o jogador. Segundo os planos da guerrilha o jogador brasileiro seria tomado como refém para chamar a atenção do mundo, antes do jogo entre a Venezuela e o Brasil, a ser realizado em Caracas.

O “seqüestro” do Rei era apenas um boato, mas mobilizou toda a polícia venezuelana, em função dos incidentes ocorridos anteriormente nesse país quando a FLN sequestrara o campeão mundial de Fórmula 1 Juan Manuel Fangio e o craque argentino do Real Madrid Alfredo Di Stefano. Pelé desembarcou em Caracas sob um forte esquema de segurança que incluía 18 homens da polícia de elite (todos faixa-preta de caratê e campeões de tiro), cuja função era exercer uma forte marcação em torno do Rei, “zagueiros” escalados, segundo brincou a imprensa da época. A comitiva seguiu um roteiro alternativo e adentrou pela porta dos fundos do Hotel Ávila onde Pelé teria a sua disposição a suíte 120, enquanto a 119 e 121 seriam ocupadas por prepostos do exercito.

A revista Manchete (capa com Ted Kennedy) assim descreveu a operação: “Cinco horas ainda faltavam para a aterrissagem do avião em que viajava a seleção brasileira e, no hotel, os policias revistavam minuciosamente os aposentos em que ficaria Pelé. As fechaduras foram testadas, os interruptores, as torneiras, as descargas da privada, os móveis, as janelas e portas, os lustres e o ar condicionado foram examinados. Nenhuma bomba foi encontrada… Um dos inspetores, com sua turma, examinava os botijões de água que seriam utilizados pelo hotel a cada dia”.

Marcação contra a guerrilha

A reportagem de Ney Bianchi descreve o espanto do jogador com o exagero da segurança: “Quando viu os guarda-costas ficou preocupado. Quase não dormiu na primeira noite, ouvindo os homens caminharem em frente a sua porta durante horas e horas… Se Pelé se movia, o esquema completo se movimentava… Se resolvia sair para fazer compras, era acompanhado de perto por três homens, enquanto as viaturas de polícia seguiam-no a alguns metros de distância”. E prossegue: “Depois ele se acostumou e ficou amigo daqueles que zelavam tanto por sua segurança. O inspetor Fornerino tornou-se fã do Rei: Já demos proteção a muita gente importante. Fomos treinados especialmente para isso”.O mistério em torno desse episódio é que as outras revistas semanais sequer mencionam o esquema de segurança e a apreensão do Rei, o que sugere que a reportagem da Manchete tenha sido uma matéria sensacionalista. A revista Veja, por exemplo, entrevistou Tostão nas suas páginas amarelas e em nenhum momento mencionou o boato do suposto “seqüestro”.

Se foi uma reportagem sensacionalista, conforme a hipótese aqui levantada, em todo caso Manchete soube fazer: ilustrou a matéria com fotos que mostram um Pelé circunspecto cercado de meia dúzia de seguranças, e por três policiais com metralhadora na mão, num outro flagrante fotográfico (além dos detalhes na descrição do esquema). Segurança ostensiva produzida por Jader Neves, fotografo da revista, para validar o texto? Ou realidade, mesmo, que o resto da mídia preferiu escamotear?

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 18/01/2010.



A bibliografia antiga de imprensa

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Não é verdadeira a tese de que é escassa a bibliografia sobre comunicação existente no Brasil. Volta e meia me deparo com esse falso conceito em sites da internet e até em dissertações de mestrado, justificativa tal vez para a pesquisa apressada, ou mal orientada, para não dizer outra coisa. Até a primeira metade do século XX mais de meia centena de livros já tinham sido editados sobre o tema. Hoje é impossível avaliar o quantitativo, estimo que mais de cinco mil obras publicadas por editoras e um número seguramente maior de teses de mestrado e trabalhos de conclusão de curso, disponíveis apenas nas bibliotecas das universidades.

No século XIX a preocupação era disseminar as técnicas de produção. Nesse intuito Martim Martz traduziu em 1848 o “Manual do tipógrafo” de Ralph Polk; com o mesmo propósito o gráfico e editor Arthur Arezio publicou na Bahia “Serões tipográficos” e Esboço tipográfico” em 1905 e 1907 respectivamente. Com um outro foco, retratar as origens da imprensa e a sua evolução, Moreira de Azevedo editou em 1.865 o livro “Origem e desenvolvimento da imprensa no Rio de Janeiro”. Já Alfredo de Vale Cabral publica em 1.881 os “Anais da Imprensa Nacional”, enquanto Ernesto Sena, repórter do Jornal do Commercio se reporta aos bastidores da imprensa, no contexto da sociedade, em “Notas de um repórter” publicado em 1.895.

A vez dos catálogos

Antes disso (1.883) Joaquim Maria Serra Sobrinho publicara em São Luis a obra “Sessenta anos de jornalismo” e no Rio de Janeiro Eduardo Salamonte editara um livro sobre o artista gráfico, grande expoente dos jornais ilustrados, Rafael Bordalo Pinheiro. O primeiro centenário da imprensa, comemorado em 1908, ano de fundação da ABI, ensejou a publicação de diversas obras, inclusive catálogos de periódicos. No Recife Alfredo de Carvalho publica os “Anais da imprensa pernambucana” (1908) e três anos depois “Os anais da imprensa da Bahia”. Victor Hugo Aranha, por sua vez, revê “A Imprensa Nacional à luz dos fatos”. enquanto Luiz Alves de Oliveira Belo, com a mesma temática, publica “Imprensa Nacional. 1808-1908.

 Eduardo Frieiro, por sua vez, lança “Gênese e progresso da imprensa periódica no Brasil”. Na década seguinte Afonso Freitas, seguramente inspirado no trabalho de Alfredo de Carvalho, publica “A imprensa periódica de São Paulo desde seus primórdios em 1.823 até 1.914″, ainda hoje a melhor obra de referência sobre o assunto. Pedro Sinzig publicava em 1911 “A caricatura na imprensa brasileira” e Basílio de Magalhães “Os jornalistas da independência” (1917). No ano seguinte Lemos de Brito relata os debates e resoluções do primeiro grande encontro classista no livro “No congresso da imprensa”, evento que pela primeira vez discutiu e formalizou a proposta da criação de um curso para a formação de profissionais de jornalismo. Em 1923 o jornalista italiano Natale Belli lança em São Paulo o livro ” Giornalismo italiane no Brasil”, em sua língua pátria do mesmo jeito que Vitalino Rotellini editara em 1904, em língua inglesa, “The press of state of the S. Paulo”.

 Na década de 20 Barbosa Lima Sobrinho, então um jovem bacharel, pública “O problema da imprensa”, um clássico em torno da ética e das questões relativas à liberdade de imprensa. Assunto que já tinha sido abordado, com um outro foco, por Ruy Barbosa em 1919 em “A imprensa e o dever da verdade”. Com Barbosa Lima Sobrinho se inicia uma nova era da bibliografia brasileira de comunicação. Mas este é assunto que fica para nosso artigo da próxima semana.   Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 23 de novembro de 2009 



Brasil e Eritrea. Repórteres Sem Fronteiras

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Se você não sabe o que é Eritrea você está tão mal informado quanto eu, deveria saber pois este pequeno país africano, agora você já sabe que é um pais, é um dos destaques do ranking do Reporters Whithout Borders, organização sem fins lucrativos que zela pela liberdade de imprensa, divulgado anualmente, sempre em outubro. Eritrea é banhado ao leste pelo Mar Vermelho, tem cinco milhões de habitantes, Índice de Desenvolvimento Humano compatível com o dos municípios do polígono das secas na Bahia. Famosa por ser o berço do elefante, segundo os paleontologistas e um dos santuários de hominídeos do mundo, Eritrea lidera agora o ranking mundial de atentados contra a liberdade de imprensa, superando Cuba, Birmânia, Iran e Coréia do Norte.

O Brasil não é destaque do ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras, figura no meio da tabela, no 71º lugar, em todo caso onze posições acima, em relação ao ranking do ano passado, mas ainda distante do 54º lugar de referência do ranking de 2002, a sua melhor performance até agora. O que isso significa? Há hoje menos restrições à liberdade de imprensa do que no ano passado e muito mais do que em 2002 ? Não é essa a leitura correta que as aparências sugerem. Se olharmos o ranking com atenção verificamos que há dezesseis países com índice de 15 pontos e alguns decimais, muito próximos uns dos outros. O Brasil é o 71º, mas poderia estar no 55º, segundo essa linha de raciocínio.

Percepção

A organização Repórteres sem Fronteiras atua desde 1985 em favor da liberdade de imprensa. Vive de doações que são descontadas do contribuinte no imposto de renda, venda de camisetas e álbuns, possui escritórios em vários países e representantes, ou olheiros, em mais de 170 nações, incluindo o Brasil. São esses representantes que informam sobre as restrições e atentados sofridos pela imprensa. E aí a gente se pergunta: estamos tão mal na fita, por que? A nossa percepção é de que gozamos de liberdade de imprensa, com raras exceções. Mas não é essa a percepção dos avaliadores que enviam os relatórios para a sede da organização que vale ressaltar tem assento (estatuto) nas Nações Unidas.

A impressão que eu tenho é que nosso problema não é macro. Não é a censura imposta ao O Estado de São Paulo por um desembargador atendendo um pedido da família Sarney, ou a ação de traficantes contra repórteres do jornal O Dia, nem as várias interferências da justiça na imprensa regional que marcam pontos negativos no relatório do Repórteres Sem Fronteiras. O nosso problema está no varejo, na pequena imprensa do interior do país que é alvo recorrente de autoridades policiais e sicários contratados por prefeitos, deputados, vereadores. São episódios “menores” sequer noticiados pela grande imprensa que apenas destaca o fato quando a agressão ao radialista, ou jornalista resulta em morte.

Violência regional

O relatório do RWB sugere isso nas entrelinhas e cita nominalmente o Norte e Nordeste : “Potência regional, o Brasil (71º) se viu finalmente livre, a 1 de maio de 2009, da lei de imprensa herdada da ditadura militar, e beneficia dos esforços desenvolvidos pelo governo Lula em matéria de acesso à informação. Apesar dessas evoluções positivas, o país ainda padece de uma violência persistente contra os meios de comunicação nas grandes aglomerações urbanas e nas regiões do Norte e do Nordeste. A censura preventiva permanece ativa em certos Estados, nos quais as autoridades controlam a mídia local”. Vale a pena ler o relatório disponível em inglés, francés, espanhol, árabe, disponibiliza os rankings completos ano a ano. Leitura para reflexão. E agora que você sabe onde fica Eritrea, que tal incluir o roteiro em sua próxima viagem de férias? 

 Artigo de minha autoria originalmente publicado no jornal Correio em 22/10/2009



As tiragens de ficção na imprensa brasileira

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Em 24 agosto de 1954 o jornal “Ùltima Hora” de Samuel Wainer teria registrado um dos maiores recordes de circulação de jornais brasileiros em toda sua história.: 700.000 exemplares vendidos da edição que noticiou o suicídio do Presidente. Recorde que foi possível, segundo todas as fontes já consolidadas (infelizmente), em função dos demais jornais cariocas terem sido impedidos de circular pelo populacho que identificava a imprensa oposicionista como co-responsável pelo trágico desfecho. Não sei a origem dessa informação, mas tenho a suspeita de que é falsa. Também não me parece viável a circulação estimada para o “Última Hora”, em dias correntes, independente de fatos de impacto, de 330 mil exemplares. Este último número equipara-se com a circulação dos maiores jornais brasileiros, hoje, isto é, meio século depois. Será que os brasileiros da década de 50 liam mais jornais do que os brasileiros do século XXI? Claro que não.

E já que nos reportamos a números de circulação, já consolidados pela história, convido os leitores desta coluna a refletirmos em torno de estatísticas oficiais da época, para confronto com os números de tiragens, então, divulgados. Para começar, o censo de 1950 apurou uma população de 2,37 milhões de habitantes para o Rio de Janeiro. Em 1960 apurou 3,28 milhões. De onde podemos estimar em 2,75 milhões a população em 1954, ano do suicídio do Presidente Getúlio Vargas. População esta residente em torno de 550 mil domicílios, segundo o IBGE.

Analfabetismo de 65%

Naquele tempo a taxa de analfabetismo funcional era de 65%, segundo a “Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos”,já incluído nesse índice os 25% da população na faixa etária entre 0 e 7 anos. Crianças. Ou seja, o Rio de janeiro de 1954 tinha (2,75 milhões de habitantes, menos 65% de analfabetos) 962 mil pessoas aptas para a leitura de jornais e revistas. Então, podemos acreditar que naquele 24 de agosto de comoção popular pela morte do Presidente mais de 70% da população que sabia ler comprou o jornal? Isso significaria admitir que a maioria da população tinha recursos para comprar o “Ultima Hora; que foi adquirido, na média, mais de um jornal por domicílio (700 mil jornais para 550 mil domicílios) e que o índice de leitura foi praticamente individual quando a média corrente é hoje de quatro leitores por exemplar e naquele tempo certamente era bem maior.

Até Ruy Barbosa Citei o caso do Ùltima Hora como exemplo para ilustrar as tiragens de ficção que algumas publicações conseguiram consolidar como informação verdadeira, já assimiladas pela história. É o caso, também das circulações recordes da revista “O Cruzeiro” que Luiz Maklouf de Carvalho teve a oportunidade de desmistificar em seu livro “Cobras Criadas”.  Interessava aos editores difundir números fora da realidade para impressionar o mercado publicitário e atrair anunciantes. E ainda para marcar posição de “liderança”; fazia bem ao ego nas relações de poder. Nem Ruy Barbosa, um baluarte de honestidade e ética, escapou dessa tentação. Em 1901, em editorial de “A Imprensa”, afirmava com todas as letras que seu jornal ostentava uma circulação de 100 mil exemplares.

Se Ruy não mentia, ou exagerava, podemos considerar um milagre. Naquele ano a população do Rio de Janeiro era de 600 mil habitantes e o índice de analfabetismo em torno de 85%. Ou seja, tínhamos 90 mil pessoas aptas para ler “A Imprensa” “O Paíz”, “Jornal do Commercio” e o “Jornal do Brasil”, os jornais diários que circulavam na capital. Pois é: 90 mil leitores para 100 mil exemplares. Tá certo. Não se briga com a história!.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/09/2009