O conto de Veríssimo na revista “O Cruzeiro”

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Em 31 de agosto de 1929 a revista O Cruzeiro publicava um conto de um certo Erico Veríssimo, autor emergente gaúcho que estreava na literatura, então, com vinte e cinco anos de idade. Recebeu cem mil reis da editora, o equivalente hoje a mil reais, conforme previa o regulamento do concurso permanente de contos instituído por Malheiro Diaz, diretor da publicação, para atrair o público que apreciava os folhetins dos jornais e buscava o mesmo gênero nas revistas. O conto de Veríssimo foi ilustrado pelo artista Oswaldo Teixeira, membro da Academia de Belas Artes e autor, dentre outras obras, dos retratos em tamanho natural do Presidente Getúlio Vargas e do Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, hoje expostos no Ministério da Fazenda e Igreja da Candelária (RJ) respectivamente.

Os biógrafos de Erico Veríssimo citam o conto do autor, de título “Ladrão de Gado”, publicado no “O Cruzeiro, como a sua primeira incursão na literatura e até se debruçam sobre o estilo por alguns classificado de regionalista”. Ocorre que esses biógrafos mencionam a publicação do conto na “Revista do Globo” de Porto Alegre, entre 1928 e 1929, há divergências, e nenhum deles cita a publicação em “O Cruzeiro” que a rigor exigia obras originais. Se Veríssimo publicou o mesmo conto, antes, na sua cidade natal, foi no O Cruzeiro que tinha uma circulação mais expressiva e de maior representatividade que de fato o seu nome se projetou.

Entre 400 candidatos


O concurso do O Cruzeiro, enquanto durou, atraiu mais de 400 candidatos, escritores emergentes da capital e dos estados, mas considerando que eram publicados apenas dois contos por edição, pelo menos 300 foram jogados no lixo, ou pelo menos esquecidos. Os interessados deveriam remeter os originais à redação da revista “que funcionará como júri, sendo os autores dignos de publicação, atribuído o prêmio de Rs 100$000 e oferecido um desenho original que o próprio autor escolherá dentre as ilustrações do respectivo conto”.  Os editores da publicação deixavam claro que o critério de julgamento era mais jornalístico do que literário “isto é, contos de acordo com os moldes e índole de O Cruzeiro”.Mas que ilustrações eram essas que os autores recebiam como prêmio adicional? Na verdade, ilustrações de grande qualidade da autoria de quatro professores eméritos da Escola de Belas Artes: Augusto José Marques Junior (que em Paris freqüentou a Académie de la Grande Chaumière.), Carlos Chambelland (decorador do Pavilhão de Festas da Exposição do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, em 1922), Henrique Cavalleiro (cujo trabalho foi comparado ao de Kees Van Dongen por críticos franceses) e Oswaldo Teixeira (Diretor do Museu de Belas Artes durante 25 anos) todos com prêmios conquistados em exposições nacionais e mesmo na Europa.
Mas, retomando a história que ensejou este artigo tenho duas dúvidas que repasso aos pesquisadores do Rio Grande do Sul, ou mesmo estudiosos da obra de Veríssimo: Primeira: O conto publicado no O Cruzeiro foi o mesmo publicado da Revista do Globo, ou foi reescrito? Segunda: Há a possibilidade, diante das divergências de data, do conto publicado na revista gaúcha ter sido posterior à da revista dirigida por Malheiro Diaz? Qualquer que seja a resposta não lhe tira o mérito da estréia, apenas esclarece as circunstâncias.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 22/06/2009 



O Dia do Mídia e a midia da Mãe Joana

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Dia 21 próximo, domingo, os publicitários brasileiros comemoram o Dia do Mídia, data instituída pela Central de Outdoor em 1978, então protagonistas dessa decisão Aroldo Araújo e Carlos Alberto Nanô, o primeiro um profissional de RP, o segundo proprietário da Nanograf. È uma data consagrada ao profissional que planeja e veicula as campanhas criadas pelas agencias de propaganda para seus clientes.

No passado convencionava-se dizer que o profissional da área precisava apenas “fazer a mídia da mãe” que no Brasil significava programar a revista Veja e a Rede Globo e apenas isso. Era exagero, mas refletia facilidades que hoje mais não existem. Se há uma área que requer atualização de conhecimentos todos os dias é justamente a de mídia, diante das opções existentes que, por sua vez, demandam pesquisas e controle para aferição de resultados. 

A mídia da mãe já foi mídia da avó que, então, programava a Radio Nacional, Revista Cruzeiro e a TV Tupi. Hoje a mídia não é mais da avó, nem da mãe, muito menos do compadre. O profissional da área é um técnico que lida com um volume de informação extraordinário. O seu papel é, dentre outras funções que incluem o planejamento de comunicação, avaliar, por exemplo, qual dos veículos mencionados neste artigo é mais adequado para atingir o público alvo do produto, ou serviço do cliente.

Você leitor convive com esses veículos no dia-a-dia, mas tal vez não tenha reparado na abrangência das alternativas de mídia que o mercado oferece. Repare: anuncio, classificado, sobre-capa, cinta e encarte de jornal; anuncio, sobrecapa, encarte e funzines de revista; comercial, vinheta, patrocínio, insigth e merchandising de TV; comercial, patrocínio, e merchandising de rádio; banner, pop-ups, pod-cast, viral, links patrocinados e videonet na internet; cinema; lista telefônica; guias; outdoor; back-ligth; front-ligth; totem; abrigo de árvores; envelopamento, painel dinâmico e entrevias de metrô; trens; táxidoor; bike-door; motomídia… 

 Esteiras de bagagens, adesivos de chão, painéis de embarque, estacionamentos, carrinho de bagagem, aerovídeo e mega-paineis de aeroporto; estação rodoviária, outbus; backbus; videobus; abrigos de ônibus; sanitários eletrônicos; relógios digitais; telefone celular; Iphone; faixa de rua; carro de som; vídeo-van; lixeiras; móbile-truck; sinalização de rua; empenas; barreiras de pedestre; indoor em banheiros; balões; zepellin; faixa de avião; poltrona de avião; sky mídia; vela de jangada; trio elétrico; display; bandeirolas; cartaz de PDV; folhinha; calendário de mesa; triface; pedágio; placas de poste; pipas; bancos de praça; gôndola, adesivos de chão, display, carrinho de compras e vídeo-checking em super-mercados; painéis de estrada; camiseta; boné; canetas; display de restaurante; porta de elevador; interior de elevador (elomídia); fachada de shopping; carrinho de bebê em shopping; pedágio; palanque; caixa de fósforos; caixa de pizza… 

Estandes; advergame; outernet; audiotrans; banca de jornal; cabine telefônica; coletor de papel;cartão telefônico;cartaz rebocado por barcos; placas de estádio; raio laser; guarita salvavidas; mochila; videotronicks; rampa para deficientes físicos… e mais uma centena de opções de mídia impossíveis de ser relacionadas no espaço desta coluna.  

Inclusive papel higiênico que por incrível que pareça já é mídia. Fiquei sabendo disso, por acaso, lendo o Advertising Age, newsletter especializado em propaganda e marketing. Uma empresa americana explora esse filão que atrai empresas interessadas em estampar mensagem e a marca no produto. Tem gosto e motivação para tudo. Neste caso não é mais a mídia da mãe, mas a mídia da mãe Joana.

Texto de minha autoria publicado originalmente no Correio da Bahia, edição de 17/06. Ilustrado por anuncio da Rede Globo do ano passado



Dia dos Namorados: Antonio’s Day

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O Brasil comemora hoje o Dia dos Namorados, único país do mundo a festejar a data na véspera da efeméride da morte do santo casamenteiro que nasceu Fernando em Lisboa e morreu Antônio em Pádua com a áurea de santo concedida pelo Papa Gregório IX, apenas, um ano após o seu falecimento.

Tornou-se uma referência de namoro por ter interferido e driblado a lei portuguesa que impedia o casamento entre pobres e ricos. Atitude semelhante a do bispo católico Valentim que na Roma antiga desobedecera a ordem imperial que proibia os homens de contraírem núpcias (para que se alistassem como voluntários no exercito) promovendo casamentos clandestinos na calada da noite. Foi preso e executado por isso em 14 de fevereiro, data em que se comemora o Dia dos Namorados no resto do mundo. Nos Estados Unidos a data é denominada de “Valentine’s Day”.

No Brasil o Dia dos Namorados começou a ser celebrado em junho de 1949 por iniciativa do baiano João Dória e do piauiense Ribamar Castelo Branco que para estimularem as vendas das lojas Exposição - Clipper de São Paulo, magazine de moda e eletrodomésticos, pioneiro do sistema de crediário no país, promoveram uma grande ação promocional de impacto. A campanha publicitária, então criada pela Standard Propaganda, falava em “não é só de beijos que se prova o amor” e incluía os relacionamentos estáveis: “casados, eternos namorados”.

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Castelo Branco tinha colhido elementos da celebração comercial da data nos Estados Unidos, numa viagem de duas semanas, onde se fez acompanhar do ilustrador Fritz Lesser que tudo registrou em leiautes que destacavam a decoração dos pontos de venda e suas vitrines.

Mas, por que os publicitários aqui mencionados não adotaram 14 de fevereiro como data para celebração do Dia dos Namorados, como nos Estados Unidos? Tenho um palpite: a coincidência com as festas de Momo já que 14/02/49 foi a segunda feira de carnaval e nesse caso uma promoção do varejo, com o comércio de portas fechadas, não teria nenhum efeito. Isto com certeza absoluta contribuiu para a escolha inusitada.

Mas é outra a versão de um dos protagonistas desta história, Ribamar Castelo Branco, em depoimento à Associação Paulista de Propaganda-APP em 1973. Registrando a sua vida profissional comenta: “Cometi depois um grande equívoco. Foi a escolha do Dia dos Namorados que nos Estados Unidos é clamado de Valentine Day e que se comemora em fevereiro. Aqui nos cometemos o equívoco e de certa forma sou responsável por ele. Quis fazer folclore e achei que como 12 de junho era véspera do dia de Santo Antônio, santo casamenteiro, institui esse dia como Dia dos Namorados.”

Prossegue lamentando a escolha: “Acho que foi um erro porque fixei a data e ela deveria ser, também, num domingo, como Mães e Pais, dia mais fácil para que os namorados se encontrem e não só os namorados, mas casais casados que poderão passar a data

em família. Inclusive o Dória criara um slogan muito do meu agrado”. Motivações aparte, o fato é que Castelo Branco e Dória eram nordestinos, conheciam as tradições juninas, tinham no sangue a fogueira e o casamento na roça. Apostaram no cravo e na pimenteira e a simpatia deu certo: a data, comercialmente, vingou!



Receita de sedução por Marilyn Monroe

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Não sei se a receita ainda tem prazo de validade, mas suponho que sim tendo em vista a sua autoria: nada menos do que a jovem Marilyn Monroe, atriz emergente (mas já badalada) que recém tingira o cabelo de loiro e já despontava como um mito sexual hollywoodiano, naqueles idos, com dois casamentos e dois divórcios no seu currículo. A atriz concedeu na época uma entrevista sobre a arte de seduzir, a sua receita particular, cujo teor teve repercussão no mundo inteiro, entre as mulheres. No Brasil publicada com exclusividade pela revista “Querida” da Rio Gráfica Editora que tinha como diretor o jornalista Roberto Marinho e como secretária (e editora assistente) Maria Stela Bruce.

Publicação voltada exclusivamente para o público feminino, 68 páginas, e conteúdo, na sua maioria, fornecido pelas agências de noticias, com escasso noticiário local.Na edição de junho de 1954 a revista “Querida” destacou a entrevista da “loira” que fazia a cabeça da mídia americana, concedida a Lydia Lane, ex-miss, autoridade em assuntos de beleza feminina nos Estados Unidos. Marilyn não deixou nenhuma pergunta sem resposta e com o seu jeito meigo e ao mesmo tempo provocador traçou o caminho das pedras para a conquista de um homem. E não mediu as palavras: “A mulher que deseja ser atraente deve procurar ser bela, mas sem descuidar-se do espírito. É preciso sentir-se desejável e atraente para poder atrair. Não pode seduzir a mulher que, embora inconscientemente, estiver travando no seu íntimo a batalha dos sexos”.

O que os olhos prometem


Prossegue: “Toda moça pode e deve preocupar-se com o que vai vestir. Mas sempre que estiver em companhia de um homem, esqueça-se do tempo que gastou para vestir-se, e não fique nervosa, preocupada com a impressão que está causando”. Mais adiante defende uma postura natural: “Sempre que uma moça finge ser alguém que de fato não é, está demonstrando que é vítima de um complexo de inferioridade. Seja natural e os homens hão de achá-la atraente”.  Então fala de maquilagem: “O homem não gosta de olhar para uma mulher e ver a maquilagem. Se esta for discreta ele notara apenas o efeito e ficará encantado com ele”.Então detalha as suas preferências: “Acho que a maquilagem mais importante é a dos olhos. O que importa não é o que a boca diz, mas o que olhos prometem. As mulheres européias sabem disso e dão grande importância à maquilagem dos olhos. Basta um leve toque de óleo nas pálpebras para que os olhos brilhem mais e as pálpebras cintilem convidativamente”. Na mesma entrevista Marilyn Monroe discorreu sobre perfumes: “Tenho meu perfume predileto, mas gosto de variar também. Raramente uso perfume na roupa. Quando me visto aplico-o com o pulverizador nos tornozelos, atrás dos joelhos e em todo o corpo, até as sobrancelhas, de modo que a fragrância faça parte de minha pessoa”.

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Vestia gotas de Chanel

A propósito de perfumes, alguns anos depois dessa entrevista a atriz, provocada pela imprensa que insistia em saber com que roupa ela deitava, afirmava com todas as letras que para dormir “vestia” apenas algumas gotas de Chanel nº 5. Gotas que, então, fizeram a imaginação da mídia e contribuíram para alimentar o mito, então em construção, da mulher mais sedutora do mundo. Marilyn Monroe voltaria a ser o assunto principal da revista “Querida” em mais de uma ocasião, em reportagens adquiridas com exclusividade para o Brasil pela publicação. Numa delas, ilustrada com foto da loira vestindo espartilho com o título “O sex-appeal à volta do mundo” deitou o rolou e ainda discorreu sobre o amor: “Amor? Jamais pensei nisso!” respondeu, surpreendendo os seus interlocutores. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 25/05/2009



A CPI da Petrobrás. Meio século após a CPI das petrolíferas

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As voltas que o mundo dá! Há meio século o Congresso Nacional investigava duas multinacionais do petróleo: Standard Oil (Esso) e Shell, a relação poder econômico x mídia, contra a Petrobrás. Hoje, transcorridos 52 anos da histórica CPI, é a Petrobrás que vai ser esmiuçada nas suas ações institucionais. Nas próximas semanas o Senado irá se debruçar sobre convênios, patrocínios, verbas de publicidade, ou seja, as mesmas relações poder econômico x mídia que no passado, num outro contexto, deflagraram a referida investigação. Prato cheio para a imprensa lamber os beiços se entrar nos detalhes da aplicação das verbas de publicidade, o maior orçamento do governo federal, 250 milhões de reais ano, e mais outros valores de convênios, patrocínios, apoio cultural, investimentos no marketing social e ambiental. Estamos falando da instituição com maior volume de recursos alocados nessa área. Que deve se retrair, enquanto o noticiário exibir as suas entranhas, abrindo espaço para os gestores de crise e profissionais de relações públicas das empresas de comunicação empresarial que trabalham com a estatal.

Noticiário amigo

A CPI de 1957 investigou e provou a relação das multinacionais do petróleo americana contra os interesses da Petrobrás. Esso e Shell, então, bonificavam a imprensa “amiga” com generosas verbas de publicidade em troca de um noticiário contrário à campanha “O Petróleo É Nosso” que em 1953 resultou na criação da estatal com o monopólio da extração do produto, tudo que os “yankees”,expressão cunhada pela esquerda latino-americana, queriam evitar. Por outro lado boicotavam os veículos favoráveis à campanha nacionalista. Manobra orquestrada pelas agências de propaganda McCan-Erickson e J.W. Thompson que detinham as maiores contas de publicidade do país e condicionavam os seus planos de mídia aos interesses de Estado. Deles, os americanos.

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A Esso tentou provar que foi imparcial no processo, já que nunca tratou do assunto no seu noticiário radiofônico. O Congresso entendeu diferente: se nunca noticiou é porque escondeu os fatos, afinal era um assunto relevante. O Repórter Esso não falava da campanha “O Petróleo é Nosso”, mas em compensação tratava de outras injunções de multinacionais petrolíferas em outros paises, a Venezuela, por exemplo, desqualificando todas as iniciativas nacionalistas. A estratégia da Esso abrangia uma eficiente ação de RP junto à mídia brasileira; uma das conseqüências e benefícios dessa política foi a criação em 1955 do Prêmio Esso de Reportagem, que vêm a ser o nosso Pulitzer.

No fio do bigode

O fato é que a referida CPI chegou a resultados surpreendentes (ainda que sem conseqüências já que tratava de fatos passados) por conta de uma atitude dos homens daquele tempo que fiavam a sua palavra no fio do bigode. Gente de caráter, incapaz de mentir para o Congresso Nacional, com escrúpulos junto a sua família e relação de amizades. Gente que assumiam os seus erros e as suas conseqüências. O Parlamento assistiu Armando de Moraes Sarmento, um dos maiores publicitários brasileiros de todos os tempos, nome de projeção internacional, confessar as manobras da McCann-Erickson a serviço de seu cliente a Standard Oil (Esso) que por “coincidência” também estava sendo investigado pelo mesmo motivo nos Estados Unidos. Sarmento, constrangido, exibiu as vísceras da empresa que representava e, justiça seja feito à McCann, não perdeu o emprego por isso.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Correio da Bahia de 21/05/2009



Brasil/França: Jean Manzon

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Entre as influências da França para a imprensa brasileira há de se destacar o papel de Jean Manzon, o fotógrafo francês que chegou ao Brasil em 1940. Por um acaso da sorte, usando o Rio de Janeiro como rota de fuga. Ele estava isolado em Londres, onde cobria a guerra para o Paris-Soir, sem outra alternativa de locomoção, diante da ocupação de seu país pelos nazistas. Manzon tinha apenas 25 anos de idade, mas alguma experiência e um pendor excepcional para a foto-reportagem.

Iniciara a sua trajetória, ainda adolescente, como repórter e mais tarde fotógrafo do vespertino L’Intransigeant, segundo as pesquisas da professora Heloiuse Costa. Trabalhara também nas revistas Vu, Match, mas foi no Paris-Soir que consolidou a sua carreira, primeiro na cobertura da guerra civil espanhola, logo em seguida: a Segunda Guerra Mundial.No Rio de Janeiro, Manzon foi absorvido pelo serviço público. As suas credenciais e uma carta de recomendação lhe valeram a função de responsável pelo setor de áudio-visual do Departamento de Imprensa e Propaganda-DIP, então presidido por Lourival Fontes.

Mas foi na revista “Sombra” que revelou o seu diferencial em relação aos fotógrafos brasileiros, com “closes” surpreendentes, senso de oportunidade e um enquadramento de câmera semelhante ao dos fotógrafos da revista Life que fazia grande sucesso entre nós. Com esses talentos fazia questão de assinar as suas fotos, coisa nova no Brasil, segundo revela Luiz Maklouf Carvalho no seu livro “Cobras Criadas-David Nasser e o Cruzeiro”. Não abria mão do crédito com o seu nome, ao lado, ou no rodapé da imagem.

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A dupla famosa

A revista O Cruzeiro não tardou a contratá-lo e lá concordou em fazer dupla com David Nasser. “Antes já havia recusado diversos outros parceiros por achá-los todos incompetentes”, conta Accioly Neto no seu livro “O Império do Papel. Os bastidores de O Cruzeiro“. A parceria com Nasser lhe granjeou a fama, a dupla em evidência, responsável por grandes tiragens da revista e por reportagens que transcenderam a mídia nativa, reproduzidas no Time e outras publicações estrangeiras. Exemplo disso: a reportagem com o Deputado Federal Barreto Pinto, que posou de cuecas, imagem que lhe valeu a perda do mandato por quebra de decoro. Também a descoberta dos índios Xavantes, pela primeira vez fotografados, numa operação de risco, ou, ainda, as imagens do médium Chico Xavier que se deixou fotografar numa banheira, dentre outros destaques. “A dupla parecia ter um estranho poder sobre os personagens das histórias que contavam, como se os hipnotizassem” registra Accioly.

A observação do ex-Diretor do O Cruzeiro infere a capacidade de argumentação dos jornalistas e a sua determinação para atingir resultados, mesmo que isso implicasse em forjar situações para registrar fotos. É o caso da série amazônica (com jacarés do zoológico da Quinta da Boa vista), ou dos monges (vestiu dois amigos seus a caráter, sem lhes identificar o rosto). Truques da mídia que a opinião pública não farejava e a concorrência muito menos.

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A morte forjada

Esse lado do sensacionalismo como matéria-prima a qualquer custo, levou a alguns exageros. Desatino, mesmo. Um dia Manzon foi “atropelado e morto”, segundo nota publicada no O Cruzeiro. Era mentira, tudo forjado para o difunto aparecer risonho, rodeado de coroas fúnebres enviadas por amigos e autoridades, na mão um copo de uísque para brindar a sua resureição. Patético! Tudo valia para chamar a atenção.O fato é que Manzon, que profissionalmente, no fim de sua carreira, acabou se voltando para o segmento de documentários, como produtor independente (criava o produto e o vendia ao Governo) foi sem dúvida a grande referência de foto-reportagem no Brasil nas décadas de 40 e 50 (teve vários seguidores), uma das grandes contribuições da França à imprensa brasileira que cabe ressaltar, neste ano de comunhão entre os dois países.

Mas não foi o único profissional francês a deixar a sua marca na mídia. Pela mesma época em que Manzon revolucionava o jornalismo do O Cruzeiro, Pierre Verger, etnólogo e fotógrafo francês aportava no Rio de Janeiro (1946), mais tarde fixando residência na Bahia. As suas fotos, misto de arte com documentário, logo ilustrariam algumas das reportagens de maior impacto nas revistas semanais. Mas isso é uma outra história que fica para outra oportunidade.

Fotos de capa de Livro de Manzon, índios Xavantes e Deputado Barreto Pinto



O fim da Lei de Imprensa

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A mídia ainda não se deu conta que pela primeira vez na história deste país estamos “órfãos” (ou livres) de uma Lei de Imprensa, graças a Deus, ou seja, uma lei reguladora, arcabouço jurídico construído a pretexto de se assegurar a liberdade de expressão, ou de prevenir os seus abusos. Mas, de fato para restringir a sua prática e atender interesses inconfessáveis. Na última quinta feira o STF decidiu por sete votos a quatro pelo fim da Lei em vigor desde 1967, uma das cinco leis reguladoras, como as anteriores, sancionadas em tempos de conturbação política por motivações torpes. Atendendo caprichos e, quem se der ao trabalho de ler os decretos, poderá inferir neles, também, patologias que os legisladores com maior, ou menor sutileza, incorporaram ao texto.  

No Brasil herdamos o princípio da Lei romana de “Injuria e Libellus”, por absurdo que possa parecer, ainda presente no texto da Lei revogada semana passada (artigo 20 que não admitia o ônus da prova em caso de “difamação” contra o Presidente e outras autoridades, mesmo sendo verdade). A nossa primeira Lei de Imprensa, sancionada por Dom Pedro I em 1823, preservava os interesses dos próprios legisladores, representantes dos partidos que editavam meia dúzia de jornais com circulação estimada, todos juntos, em não mais de 2 mil exemplares. O texto , um primor de arbítrio, falava em “remédio eficaz” contra um ente invisível definido como “inimigos do Império”. Em 1.830 o mesmo Dom Pedro sancionava nova Lei (a segunda), desta vez com o objetivo de combater a subversão: “ a necessidade de reprimir por meios legais o abuso…”.  

Lei Infame  Convivemos com ela 93 anos, até Arthur Bernardes assinar a nossa terceira Lei de Imprensa (denomina de Lei Infame), sancionada (1923) no contexto do Estado de Sitio com o único objetivo de elevar as penas e introduzir o conceito de relatividade das ofensas, a critério do juiz. O seu texto introdutório é assunto para ser esmiuçado por um psiquiatra, contundente demais na linguagem, afirmativo com exagero na repressão. Em 1934 Getúlio Vargas, novamente o contexto de uma ditadura, sancionava a nossa quarta Lei de Imprensa. Aquela que previa o cadastro minucioso de todos os jornalistas, incluindo seu endereço residencial e não era para lhes enviar flores no seu aniversário. A quinta e última Lei de Imprensa, sancionada pelo Marechal Castelo Branco, atualizou os “princípios” da Lei de 34, adéquo-os ao novo contexto da ditadura militar e abrangeu nas restrições a liberdade de pensamento, conceito que foi resgatar nas leis anteriores à Revolução Francesa.  

Cinco leis na história do Brasil, todas com o pretexto de regular, mas com o objetivo real de cercear liberdades. Um bom motivo para deixar como está. Melhor não ter lei nenhuma como nos Estados Unidos onde a primeira emenda da Constituição descarta essa possibilidade, do que construirmos uma outra Lei de Imprensa para atender, sabe-se lá que motivações dos governantes de plantão. Já surgem os defensores de uma nova lei reguladora, supostamente liberal, sob o argumento de que a imprensa afeta a vida dos cidadãos. Argumento que não se sustenta.

Nesse caso, deveríamos ter uma Lei de Culto? Já que a religião também mexe e afeta a vida das pessoas.

Artigo de minha autoria publicado originalmente no Correio da Bahia, edição de 06/05/2009.



Ano Brasil/França: La Presse Française Aux Brésil

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Os fogos de artifício que iluminaram os céus do Rio de Janeiro, no feriado de Tiradentes, anunciaram o início das celebrações do Ano da França no Brasil. A oportunidade de lembrar, dentre tantas influências da cultura francesa, a serem passadas em revista em 2009, a importância da imprensa desse pais como referência para editores, chargistas e jornalistas, em particular no século XIX, até os anos vinte do século passado, quando o sotaque francês de fato atraia o público leitor. Em especial no Rio de Janeiro, capital do país, onde as revistas parisienses podiam ser adquiridas com facilidade. Leitura obrigatória das famílias de melhor condição econômica.

O Brasil já lia as publicações francesas desde a chegada da família real (1808), em especial Le Moniteur (órgão napoleônico) e Gazette de France, ambos fontes recorrentes da Gazeta do Rio de Janeiro, os periódicos recebidos através dos malotes diplomáticos e repassados ao redator da Imprensa Regia. A partir dos anos 30 do mesmo século referido assimilamos da imprensa francesa, especificamente do “Journal de Paris”, a seção que em Portugal se chamou “Comunicados” e no Brasil “A Pedidos” que nada mais era do que um publi-editorial onde cidadãos escudados no anonimato denegriam pessoas, instituições, insultando e caluniando autoridades, ou personalidades em destaque. Com o consentimento dos editores, alguns deles usando o espaço, sob pseudônimo, para não assumir responsabilidades.

Influência no traço


Na segunda metade do século XIX a imprensa francesa influencia o traço de nossos artistas gráficos. Gavarni é a nossa referência, alias de todos os caricaturistas do mundo, então, seduzidos com seus Les Enfants Terribles, Les Actrices e Les Étudiants, as séries reproduzidas pelo jornal humorístico Le Charivari. Mas também Daumier e Grandville, admirados por Ângelo Agostini, que lhes conheceu o traço quando morou em Paris bem antes de aportar no Brasil onde se tornaria o maior artista gráfico, ícone da melhor imprensa ilustrada daquele século: Diabo Coxo, O Cabrião, O Mosquito, A Vida Fluminense e sua melhor obra A Revista Ilustrada. A sátira brasileira foi fortemente influenciada pela sátira francesa e essa irreverência mais tarde seria uma característica, também, de nossa publicidade. 
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 No final do século XIX as revistas parisienses podiam ser adquiridas em vários estabelecimentos comerciais do Rio de Janeiro e também em Salvador e no Recife, em especial “L’ Ilustration” e “Le Petit Journal”; ambas as publicações destacaram as experiências de Santos Dumont, primeiro com balões, mais tarde com o 14 BIS. Foi no “L’ Ilustration” que o Barão de Tefé foi buscar referências gráficas e de conteúdo em 1901 para fundar a Revista da Semana. Que nasceu com a qualidade das melhores revistas do mundo e foi a semanal de maior longevidade na história da imprensa brasileira. A verdade é que até a década de 30 os magazines parisienses influenciaram e muito as revistas brasileiras. No traço dos caricaturistas, no conteúdo, no leiaute, no padrão editorial.

O Malho, Fon Fon, Semana Ilustrada e A Ilustração Brasileira, são referências editoriais da França. Indiretas, mas marcantes. Não tão explícitas quanto à da Leitura para Todos, Revista da Moda e Eu Sei Tudo que praticamente eram franquias da Lectures Por Tous, Revue Dês Modes e Je Sais Tout. Publicações que faziam a cabeça das famílias brasileiras. Até o surgimento de O Cruzeiro (1928), o modelo Time, este de influência anglo-saxônica, um estilo editorial preponderante durante todo o século XX.



Jornal Nacional: 40 Anos

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O “Jornal Nacional” comemora em setembro próximo 40 anos no ar e a Rede Globo já prepara uma programação especial homenageando todas as capitais brasileiras, uma a uma. Referenda as origens do telejornal cujo título nasceu espontaneamente sem a necessidade de uma reunião de pauta com esse objetivo. Conta-se que Alice Maria, então editora do Jornal da Globo que o precedeu, teria desgostado do nome, mas nada ponderou diante do obvio.

A idéia que vinha sendo amadurecida há meses dentro da emissora era, mesmo, fazer um jornal nacional nos moldes dos telejornais americanos. Novidade entre nós que ainda vivíamos a era das “faixas” (transmissão de parte da programação via Embratel, no horário matutino) que já era uma evolução em relação à era do “tráfego” (programas gravados em fitas de vídeo-tape que viajavam pelo Brasil para serem distribuídos).

Com o Jornal Nacional nascia o conceito de rede e uma nova era na televisão e na publicidade. A primeira ganhou a exibição de um telejornal em tempo real, através de um precário sistema de links terrestres, via Embratel. Que funcionava razoavelmente embora alguns desses links, eventualmente, desarmassem no meio do caminho, trazendo complicações aos editores. Assunto resolvido a partir de 1983 quando a operação deixou de ser terrestre para ser espacial, através do satélite. Acabava a era do link de microondas e ingressávamos na era do Intelsat. Mas em setembro de 1969 a publicidade também era impactada. Doravante as agências lidariam com a idéia de custo-benefício a partir do conceito audiência-cobertura. E o mercado se rendia às vantagens de atingir dezenas de milhões de telespectadores.

40 anos da trilha sonora


Do Jornal Nacional original nada ficou, nestas quatro décadas transcorridas, a não ser a trilha sonora baseada no The Fuzz, faixa composta por Frank De Vol para o filme The Happening com o Anthony Quinn. Trilha, ainda hoje usada, após sofrer várias adaptações, pelo menos uma vez exibida no seu contexto original (clássico), quando da cobertura dos funerais do Papa João Paulo II. A vinheta com a grafia JN (primeira vez que um telejornal assumia uma sigla) e o símbolo do globo, em preto e branco, evoluía através da pena de Borjalo, já a cores, em 1972 até se modernizar e ganhar recursos de animação pelas mãos de Hans Donner em 1983.

Em relação aos conteúdos o JN inovou eliminando da pauta a cobertura dos acontecimentos sociais, do interesse dos diretores dos veículos e dos anunciantes, padrão seguido por outros telejornais, incluindo o Jornal da Globo. Mas foi tímido, tinha interesses e muito a perder, em relação aos acontecimentos políticos. Daí não ter exibido na sua estréia as imagens da posse dos ministros militares, após a vacância da Presidência da República, (afastamento por doença de Costa e Silva), que era a noticia do dia. Exibiu no lugar o todo-poderoso ministro da Fazenda Delfim Neto tranqüilizando os brasileiros em relação ao feriado bancário por conta da transição. Segundo Armando Nogueira, em vários depoimentos, em torno deste episódio, a Globo correu atrás das imagens, mas não conseguiu acesso ao Palácio.

Mas se a política era divergente na informação e a audiência um patamar a ser conquistado (a preferência do público era o Repórter Esso da TV Tupi, então apresentado por Gontijo Teodoro) o futebol, paixão nacional, unia os brasileiros em torno do mesmo sentimento. Na estréia do JN o país festejou a exibição do gol 979 do Rei Pelé, feito no dia anterior, contra a seleção do Paraguai pelas eliminatórias para a Copa do Mundo do México. A bola foi na rede e a Globo, abençoada pela coincidência, foi no Ibope.

Texto de minha autoria publicado originalmente no Portal Imprensa em 20/04/2009



A mídia e a intimidade do mosquito

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Há duas semanas, o Rio de Janeiro autorizou a invasão de residências por membros da defesa civil e funcionários públicos, com ou sem autorização dos proprietários, para combater focos do mosquito Aedes Egypty, transmissor da dengue em áreas urbanas e da febre amarela em áreas rurais.  Um detalhe me chamou a atenção no decreto assinado pelo Governador Sérgio Cabral, o trecho em que autoriza a invasão dos imóveis “a qualquer hora do dia, ou da noite”. Como no passado, há mais de um século, então vigorando a política sanitarista de Oswaldo Cruz, aprovada pelo Congresso em 31 de outubro de 1.904.

A Lei que passou para a história como da “vacina obrigatória”, na época mereceu o repúdio da imprensa que de alguma forma refletiu, mas também estimulou a revolta popular que resultou em meia centena de mortos e muitos feridos. Um dos argumentos da mídia, naquele tempo, contra a vacina obrigatória, era o de que os agentes sanitários invadiam a privacidade dos lares e desonravam as mulheres expondo-as ao constrangimento de mostrarem para estranhos braços e em particular coxas, partes do corpo sempre encobertas, de público. Senhoras e senhoritas quando passeavam pelas ruas da capital usavam blusas de manga cumprida, mesmo no verão, e longas saias encobrindo os tornozelos.

Daí o desconforto de imaginar que teriam de mostrar as coxas e nádegas para um funcionário público, munido de uma seringa; assunto este explorado pela imprensa com um misto de maledicência e humor, no caso específico das revistas semanais.

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Marido traído

Enquanto os jornais bradavam (”O atentado planejado alveja o que de mais sagrado contém o patrimônio de cada cidadão: pretende se esmagar a liberdade individual sob a força bruta…” Correio da Manha de 07/10/04) as revistas relaxavam, publicando caricaturas e notas de rodapé bem-humoradas. Mas foi Fon Fon, magazine que recém estreara no mercado editorial brasileiro, quem publicou a melhor crônica sobre o assunto em sua edição de capa de 6 de abril de 1909.

Escrita no estilo roteiro, a cena se passa numa residência, à noite; o script retrata uma dona de casa traindo o seu marido. O amante já ajeitava o colarinho e a gravata para ir embora quando o esposo bate na porta. “Meu Deus, estou perdida! Deve ser o Anastácio” diz a mulher. O amante retruca: “Poderias ter dito nos estamos perdidos! Vês o egoísmo das mulheres!”.

A essas alturas o cronista narra o nervosismo do casal e a iniciativa do amante que pede à mulher para tirar o peignoir (espécie de camisola) e ficar de saia de baixo e corpete, em trajes íntimos. Ela idealiza que é para morrerem juntos e concorda com a idéia. Ele, por sua vez, tira uma seringa do bolso. Então, segue-se o seguinte diálogo:

-O marido (brandindo a bengala): Vou matá-los
-O amante: Meu caro senhor previno-o, desde já, que o processarei por desacato a um funcionário público no cumprimento de suas atribuições.
-O marido: Quem é o senhor?
-O amante: O médico encarregado da vacina obrigatória.
-O marido: A estas horas?
-O amante: Perfeitamente. É tanta a gravidade que de dia só podemos atender ao povinho
-O marido: E por que não abriram logo a porta?
-O amante: Pois o Senhor queria que se perdesse o precioso remédio? Reflita um pouco. Era possível?
-O marido: Como sou besta! Desculpe, doutor. Não se incomode, pode continuar.
-Ela: (muito baixinho) Adoro-te!

Um século transcorrido desta bem-humorada crônica de costumes de Fon Fon que expõe os conflitos da época em torno da invasão da privacidade, os jornais não mais se incomodam com os excessos da autoridade, por mais nobres que sejam os propósitos. O Decreto do Governador Sérgio Cabral visa proteger a população, mas precisava “a qualquer hora do dia, ou da noite”.? O redator excedeu-se, já que a Prefeitura não vai agir de madrugada, e a imprensa comeu mosquito. 

Artigo de minha autoria publicado originalmente no Portal Imprensa em 13/04/2009