O “seqüestro” de Pelé

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Em agosto de 1969 a Frente de Libertação Nacional, movimento guerrilheiro atuante na Colômbia e Venezuela, planejou o seqüestro do Rei do futebol, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, um episódio ainda hoje pouco divulgado e praticamente ausente nas biografias e filmes sobre o jogador. Segundo os planos da guerrilha o jogador brasileiro seria tomado como refém para chamar a atenção do mundo, antes do jogo entre a Venezuela e o Brasil, a ser realizado em Caracas.

O “seqüestro” do Rei era apenas um boato, mas mobilizou toda a polícia venezuelana, em função dos incidentes ocorridos anteriormente nesse país quando a FLN sequestrara o campeão mundial de Fórmula 1 Juan Manuel Fangio e o craque argentino do Real Madrid Alfredo Di Stefano. Pelé desembarcou em Caracas sob um forte esquema de segurança que incluía 18 homens da polícia de elite (todos faixa-preta de caratê e campeões de tiro), cuja função era exercer uma forte marcação em torno do Rei, “zagueiros” escalados, segundo brincou a imprensa da época. A comitiva seguiu um roteiro alternativo e adentrou pela porta dos fundos do Hotel Ávila onde Pelé teria a sua disposição a suíte 120, enquanto a 119 e 121 seriam ocupadas por prepostos do exercito.

A revista Manchete (capa com Ted Kennedy) assim descreveu a operação: “Cinco horas ainda faltavam para a aterrissagem do avião em que viajava a seleção brasileira e, no hotel, os policias revistavam minuciosamente os aposentos em que ficaria Pelé. As fechaduras foram testadas, os interruptores, as torneiras, as descargas da privada, os móveis, as janelas e portas, os lustres e o ar condicionado foram examinados. Nenhuma bomba foi encontrada… Um dos inspetores, com sua turma, examinava os botijões de água que seriam utilizados pelo hotel a cada dia”.

Marcação contra a guerrilha

A reportagem de Ney Bianchi descreve o espanto do jogador com o exagero da segurança: “Quando viu os guarda-costas ficou preocupado. Quase não dormiu na primeira noite, ouvindo os homens caminharem em frente a sua porta durante horas e horas… Se Pelé se movia, o esquema completo se movimentava… Se resolvia sair para fazer compras, era acompanhado de perto por três homens, enquanto as viaturas de polícia seguiam-no a alguns metros de distância”. E prossegue: “Depois ele se acostumou e ficou amigo daqueles que zelavam tanto por sua segurança. O inspetor Fornerino tornou-se fã do Rei: Já demos proteção a muita gente importante. Fomos treinados especialmente para isso”.O mistério em torno desse episódio é que as outras revistas semanais sequer mencionam o esquema de segurança e a apreensão do Rei, o que sugere que a reportagem da Manchete tenha sido uma matéria sensacionalista. A revista Veja, por exemplo, entrevistou Tostão nas suas páginas amarelas e em nenhum momento mencionou o boato do suposto “seqüestro”.

Se foi uma reportagem sensacionalista, conforme a hipótese aqui levantada, em todo caso Manchete soube fazer: ilustrou a matéria com fotos que mostram um Pelé circunspecto cercado de meia dúzia de seguranças, e por três policiais com metralhadora na mão, num outro flagrante fotográfico (além dos detalhes na descrição do esquema). Segurança ostensiva produzida por Jader Neves, fotografo da revista, para validar o texto? Ou realidade, mesmo, que o resto da mídia preferiu escamotear?

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 18/01/2010.



A bibliografia antiga de imprensa

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Não é verdadeira a tese de que é escassa a bibliografia sobre comunicação existente no Brasil. Volta e meia me deparo com esse falso conceito em sites da internet e até em dissertações de mestrado, justificativa tal vez para a pesquisa apressada, ou mal orientada, para não dizer outra coisa. Até a primeira metade do século XX mais de meia centena de livros já tinham sido editados sobre o tema. Hoje é impossível avaliar o quantitativo, estimo que mais de cinco mil obras publicadas por editoras e um número seguramente maior de teses de mestrado e trabalhos de conclusão de curso, disponíveis apenas nas bibliotecas das universidades.

No século XIX a preocupação era disseminar as técnicas de produção. Nesse intuito Martim Martz traduziu em 1848 o “Manual do tipógrafo” de Ralph Polk; com o mesmo propósito o gráfico e editor Arthur Arezio publicou na Bahia “Serões tipográficos” e Esboço tipográfico” em 1905 e 1907 respectivamente. Com um outro foco, retratar as origens da imprensa e a sua evolução, Moreira de Azevedo editou em 1.865 o livro “Origem e desenvolvimento da imprensa no Rio de Janeiro”. Já Alfredo de Vale Cabral publica em 1.881 os “Anais da Imprensa Nacional”, enquanto Ernesto Sena, repórter do Jornal do Commercio se reporta aos bastidores da imprensa, no contexto da sociedade, em “Notas de um repórter” publicado em 1.895.

A vez dos catálogos

Antes disso (1.883) Joaquim Maria Serra Sobrinho publicara em São Luis a obra “Sessenta anos de jornalismo” e no Rio de Janeiro Eduardo Salamonte editara um livro sobre o artista gráfico, grande expoente dos jornais ilustrados, Rafael Bordalo Pinheiro. O primeiro centenário da imprensa, comemorado em 1908, ano de fundação da ABI, ensejou a publicação de diversas obras, inclusive catálogos de periódicos. No Recife Alfredo de Carvalho publica os “Anais da imprensa pernambucana” (1908) e três anos depois “Os anais da imprensa da Bahia”. Victor Hugo Aranha, por sua vez, revê “A Imprensa Nacional à luz dos fatos”. enquanto Luiz Alves de Oliveira Belo, com a mesma temática, publica “Imprensa Nacional. 1808-1908.

 Eduardo Frieiro, por sua vez, lança “Gênese e progresso da imprensa periódica no Brasil”. Na década seguinte Afonso Freitas, seguramente inspirado no trabalho de Alfredo de Carvalho, publica “A imprensa periódica de São Paulo desde seus primórdios em 1.823 até 1.914″, ainda hoje a melhor obra de referência sobre o assunto. Pedro Sinzig publicava em 1911 “A caricatura na imprensa brasileira” e Basílio de Magalhães “Os jornalistas da independência” (1917). No ano seguinte Lemos de Brito relata os debates e resoluções do primeiro grande encontro classista no livro “No congresso da imprensa”, evento que pela primeira vez discutiu e formalizou a proposta da criação de um curso para a formação de profissionais de jornalismo. Em 1923 o jornalista italiano Natale Belli lança em São Paulo o livro ” Giornalismo italiane no Brasil”, em sua língua pátria do mesmo jeito que Vitalino Rotellini editara em 1904, em língua inglesa, “The press of state of the S. Paulo”.

 Na década de 20 Barbosa Lima Sobrinho, então um jovem bacharel, pública “O problema da imprensa”, um clássico em torno da ética e das questões relativas à liberdade de imprensa. Assunto que já tinha sido abordado, com um outro foco, por Ruy Barbosa em 1919 em “A imprensa e o dever da verdade”. Com Barbosa Lima Sobrinho se inicia uma nova era da bibliografia brasileira de comunicação. Mas este é assunto que fica para nosso artigo da próxima semana.   Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 23 de novembro de 2009 



Brasil e Eritrea. Repórteres Sem Fronteiras

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Se você não sabe o que é Eritrea você está tão mal informado quanto eu, deveria saber pois este pequeno país africano, agora você já sabe que é um pais, é um dos destaques do ranking do Reporters Whithout Borders, organização sem fins lucrativos que zela pela liberdade de imprensa, divulgado anualmente, sempre em outubro. Eritrea é banhado ao leste pelo Mar Vermelho, tem cinco milhões de habitantes, Índice de Desenvolvimento Humano compatível com o dos municípios do polígono das secas na Bahia. Famosa por ser o berço do elefante, segundo os paleontologistas e um dos santuários de hominídeos do mundo, Eritrea lidera agora o ranking mundial de atentados contra a liberdade de imprensa, superando Cuba, Birmânia, Iran e Coréia do Norte.

O Brasil não é destaque do ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras, figura no meio da tabela, no 71º lugar, em todo caso onze posições acima, em relação ao ranking do ano passado, mas ainda distante do 54º lugar de referência do ranking de 2002, a sua melhor performance até agora. O que isso significa? Há hoje menos restrições à liberdade de imprensa do que no ano passado e muito mais do que em 2002 ? Não é essa a leitura correta que as aparências sugerem. Se olharmos o ranking com atenção verificamos que há dezesseis países com índice de 15 pontos e alguns decimais, muito próximos uns dos outros. O Brasil é o 71º, mas poderia estar no 55º, segundo essa linha de raciocínio.

Percepção

A organização Repórteres sem Fronteiras atua desde 1985 em favor da liberdade de imprensa. Vive de doações que são descontadas do contribuinte no imposto de renda, venda de camisetas e álbuns, possui escritórios em vários países e representantes, ou olheiros, em mais de 170 nações, incluindo o Brasil. São esses representantes que informam sobre as restrições e atentados sofridos pela imprensa. E aí a gente se pergunta: estamos tão mal na fita, por que? A nossa percepção é de que gozamos de liberdade de imprensa, com raras exceções. Mas não é essa a percepção dos avaliadores que enviam os relatórios para a sede da organização que vale ressaltar tem assento (estatuto) nas Nações Unidas.

A impressão que eu tenho é que nosso problema não é macro. Não é a censura imposta ao O Estado de São Paulo por um desembargador atendendo um pedido da família Sarney, ou a ação de traficantes contra repórteres do jornal O Dia, nem as várias interferências da justiça na imprensa regional que marcam pontos negativos no relatório do Repórteres Sem Fronteiras. O nosso problema está no varejo, na pequena imprensa do interior do país que é alvo recorrente de autoridades policiais e sicários contratados por prefeitos, deputados, vereadores. São episódios “menores” sequer noticiados pela grande imprensa que apenas destaca o fato quando a agressão ao radialista, ou jornalista resulta em morte.

Violência regional

O relatório do RWB sugere isso nas entrelinhas e cita nominalmente o Norte e Nordeste : “Potência regional, o Brasil (71º) se viu finalmente livre, a 1 de maio de 2009, da lei de imprensa herdada da ditadura militar, e beneficia dos esforços desenvolvidos pelo governo Lula em matéria de acesso à informação. Apesar dessas evoluções positivas, o país ainda padece de uma violência persistente contra os meios de comunicação nas grandes aglomerações urbanas e nas regiões do Norte e do Nordeste. A censura preventiva permanece ativa em certos Estados, nos quais as autoridades controlam a mídia local”. Vale a pena ler o relatório disponível em inglés, francés, espanhol, árabe, disponibiliza os rankings completos ano a ano. Leitura para reflexão. E agora que você sabe onde fica Eritrea, que tal incluir o roteiro em sua próxima viagem de férias? 

 Artigo de minha autoria originalmente publicado no jornal Correio em 22/10/2009



As tiragens de ficção na imprensa brasileira

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Em 24 agosto de 1954 o jornal “Ùltima Hora” de Samuel Wainer teria registrado um dos maiores recordes de circulação de jornais brasileiros em toda sua história.: 700.000 exemplares vendidos da edição que noticiou o suicídio do Presidente. Recorde que foi possível, segundo todas as fontes já consolidadas (infelizmente), em função dos demais jornais cariocas terem sido impedidos de circular pelo populacho que identificava a imprensa oposicionista como co-responsável pelo trágico desfecho. Não sei a origem dessa informação, mas tenho a suspeita de que é falsa. Também não me parece viável a circulação estimada para o “Última Hora”, em dias correntes, independente de fatos de impacto, de 330 mil exemplares. Este último número equipara-se com a circulação dos maiores jornais brasileiros, hoje, isto é, meio século depois. Será que os brasileiros da década de 50 liam mais jornais do que os brasileiros do século XXI? Claro que não.

E já que nos reportamos a números de circulação, já consolidados pela história, convido os leitores desta coluna a refletirmos em torno de estatísticas oficiais da época, para confronto com os números de tiragens, então, divulgados. Para começar, o censo de 1950 apurou uma população de 2,37 milhões de habitantes para o Rio de Janeiro. Em 1960 apurou 3,28 milhões. De onde podemos estimar em 2,75 milhões a população em 1954, ano do suicídio do Presidente Getúlio Vargas. População esta residente em torno de 550 mil domicílios, segundo o IBGE.

Analfabetismo de 65%

Naquele tempo a taxa de analfabetismo funcional era de 65%, segundo a “Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos”,já incluído nesse índice os 25% da população na faixa etária entre 0 e 7 anos. Crianças. Ou seja, o Rio de janeiro de 1954 tinha (2,75 milhões de habitantes, menos 65% de analfabetos) 962 mil pessoas aptas para a leitura de jornais e revistas. Então, podemos acreditar que naquele 24 de agosto de comoção popular pela morte do Presidente mais de 70% da população que sabia ler comprou o jornal? Isso significaria admitir que a maioria da população tinha recursos para comprar o “Ultima Hora; que foi adquirido, na média, mais de um jornal por domicílio (700 mil jornais para 550 mil domicílios) e que o índice de leitura foi praticamente individual quando a média corrente é hoje de quatro leitores por exemplar e naquele tempo certamente era bem maior.

Até Ruy Barbosa Citei o caso do Ùltima Hora como exemplo para ilustrar as tiragens de ficção que algumas publicações conseguiram consolidar como informação verdadeira, já assimiladas pela história. É o caso, também das circulações recordes da revista “O Cruzeiro” que Luiz Maklouf de Carvalho teve a oportunidade de desmistificar em seu livro “Cobras Criadas”.  Interessava aos editores difundir números fora da realidade para impressionar o mercado publicitário e atrair anunciantes. E ainda para marcar posição de “liderança”; fazia bem ao ego nas relações de poder. Nem Ruy Barbosa, um baluarte de honestidade e ética, escapou dessa tentação. Em 1901, em editorial de “A Imprensa”, afirmava com todas as letras que seu jornal ostentava uma circulação de 100 mil exemplares.

Se Ruy não mentia, ou exagerava, podemos considerar um milagre. Naquele ano a população do Rio de Janeiro era de 600 mil habitantes e o índice de analfabetismo em torno de 85%. Ou seja, tínhamos 90 mil pessoas aptas para ler “A Imprensa” “O Paíz”, “Jornal do Commercio” e o “Jornal do Brasil”, os jornais diários que circulavam na capital. Pois é: 90 mil leitores para 100 mil exemplares. Tá certo. Não se briga com a história!.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/09/2009



Setembro é o mês da imprensa

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Setembro é a semente da imprensa brasileira. Nesse mês do ano (o nono, número correspondente ao de uma gestação) em épocas diversas e contextos também diferenciados, nasceram os veículos de comunicação do Brasil. Um fato curioso que nada revela, além da simples, ou não tão simples coincidência. Se a cronologia da história da imprensa no Brasil tem algum sentido, não o sabemos. Secretos desígnios que o racional não consegue avaliar. Vamos aos fatos: Foi em setembro de 1.808 que surgiu o primeiro jornal brasileiro, editado em solo pátrio, a “Gazeta do Rio de Janeiro”, data que durante décadas foi referência do Dia da Imprensa, produzido na tipografia da Imprensa Régia.

No século vinte nasce o rádio, exatamente em 07 de setembro de 1922, com transmissões experimentais realizadas no contexto e no recinto da Exposição do Centenário da Independência, então perante a presença de convidados ilustres de outros países, o presidente Epitácio Pessoa como cicerone. Muitos anos depois surge a televisão: em 18 de setembro de 1950, data de inauguração da “TV Tupi”, iniciativa dos Diários e Emissoras Associadas, através de seu Diretor-Proprietário Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo. Já em finais da década de 80 o Brasil se conecta à rede internacional, então denominada de Bitnet, que permitia a troca de mensagens em escala mundial. E assim, em setembro de 1988, o Laboratório Nacional de Computação Científica do Rio de Janeiro dava o passo inicial da internet, através de uma conexão de 9.600 bits/segundo, estabelecida com a Universidade de Maryland.

Atrasos e datas marcadas

Por que setembro? A Gazeta do Rio de Janeiro, o nosso jornal pioneiro, e a TV Tupi, a nossa primeira emissora de TV, foram lançados em setembro porque esse foi o mês em que os veículos ficaram prontos. A Gazeta “atrasou-se” em função das dificuldades para montar os prelos que vieram encaixotados de Lisboa e durante meses ficaram na residência de um funcionário público. Demora na montagem e principalmente na sua operacionalização pela falta de mão de obra habilitada.

A TV Tupi, por sua vez, “atrasou-se” por um motivo similar, ou seja, a demora na montagem dos equipamentos, problemas na alfândega com as guias de importação e mais o tempo necessário para o treinamento de recursos humanos oriundos do rádio. Diferente do jornal e da televisão, o rádio e a internet surgiram em setembro após um planejamento, as datas previamente acertadas. O rádio nasceu nesse mês por conta das comemorações do Centenário da Independência.

O veículo surge, assim, num contexto político-histórico, com a data previamente marcada e providências tomadas para coincidir com a grande festa. A internet, por sua vez, nasce também com data programada, através dos contatos prévios feitos com uma universidade americana para a conexão pioneira aqui referida. Setembro, como se vê, por algum motivo tem o seu charme e cheira a tinta, ondas magnéticas, e bits. A propósito é bom lembrar que o Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência, nasceu em 1 º de setembro de 1969. E um ano antes, 11 de setembro de 1.968 surgira “Veja”, hoje a maior circulação e índice de leitura das revistas semanais. Setembro é mesmo o Mês.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 14/09/2009 



A morte de Getúlio Vargas e o jogo da imprensa

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Na manhã de 24 de agosto de 1954 um foguetório nos céus do Rio de Janeiro comemorava a deposição do Presidente Getúlio Vargas que segundo o noticiário da Rádio Tupi às 3:35 e Rádio Globo às 4:00, renunciara à Presidência da República. Noticiário falso, induzido por uma fonte não identificada, seguramente um dos participantes da reunião do gabinete convocada pelo primeiro mandatário para discutir os rumos a tomar em função da crise deflagrada em 05 de agosto quando do atentado da Rua Toneleros contra o jornalista Carlos Lacerda. A “barrigada” da imprensa radiofônica contribuiu para espalhar o boato da renuncia e estimular o júbilo popular, manifesto com a queima de foguetes às 6:30, segundo narrou o repórter Murilo Melo Filho na sua retrospectiva dos acontecimentos publicada na revista Manchete.

Não sei por que até hoje ninguém fez a ilação entre os fatos: as notícias falsas divulgadas pela imprensa, a repercussão dessas notícias com comemorações de júbilo e o suicídio do presidente ocorrido por volta das 8:00. Nos seus aposentos do Palácio do Catete o chefe da nação deve ter ouvido os foguetes e algum impacto teve nos seus ouvidos fragilizados, um estado de ânimo depressivo em função do desfecho da reunião ministerial que, contrariando sua vontade, insistira na tese da licença provisória. Ou seja, a renúncia por um período indeterminado que se sabia, ou pressentia-se, não teria retorno. Ilações apenas, que, se em nada contribuem para explicar os fatos, também não devem ser descartadas. Afinal, foguetes são a representação festiva e ruidosa de um inconsciente coletivo.

Responsabilidades A questão que cabe aqui analisar é qual a responsabilidade das duas emissoras de rádio nesse processo? Levando em consideração que ambas desejavam dar exatamente a notícia da renúncia, proposta que tinha a inspiração na linha de frente da Tribuna da Imprensa, O Globo e Rádio Globo, TV e Rádio Tupi (unidos em torno dos interesses da CPI contra o jornal Última Hora em 1953) e como coadjuvantes Correio da Manhã, O Estado de São Paulo, Folha da Manhã e Diário Carioca. A fonte que passou a noticia falsa, seguramente por telefone, às emissoras de rádio, agiu de má fé? Segundo os historiadores Getulio deixou a reunião determinando que as forças armadas garantissem a ordem pública e, nesse caso, ele aceitava licenciar-se, ou do contrário os revoltosos encontrariam o seu cadáver no Palácio. A fonte apostou na primeira opção que era exatamente o que a imprensa oposicionista queria e defendia em editoriais. Há de se considerar ainda que as noticias falsas divulgadas pelo rádio ocorreram num contexto de rígida censura.

 Quem liberou? Teria sido o próprio Lourival Fontes, chefe do DIP, o informante, a estas alturas convencido que esse seria o desfecho inevitável? Afinal, foi Fontes quem anunciou oficialmente, às 5:00 a renúncia do presidente. A noticia, naquele momento era verdadeira, mesmo contrariando as determinações de Getúlio. Mas não era verdadeira às 3:35 da manhã quando a rádio Tupi fez o primeiro anúncio, 35 minutos apenas transcorridos do início da reunião de gabinete. E não era verdade quando a rádio Globo a repercutiu, meia hora depois, com trilha sonora de marchas militares para potencializar o impacto do noticiário.

O fato é que as noticias eram falsas, geraram reações populares, tornaram-se verdadeiras a partir das 5:00 para se confirmarem novamente falsas três horas depois quando Heron Domingues anunciou em edição extra do Repórter Esso o trágico desfecho do suicídio. A imprensa jogou nesse tabuleiro da crise e o povo assim o entendeu. Daí as reações do populacho com invasões e depredações de veículos de comunicação principalmente no Rio de janeiro e Porto Alegre. Rescaldo de uma tragédia anunciada pelo seu próprio protagonista.  

Artigo de minha autoria originalmente publicado no jornal Correio em 27/08/2009



O engodo da Televisão a cores

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Há 40 anos telespectadores de Brasília foram surpreendidos com a exibição, sem aviso prévio, de imagens de maços de cigarros e garrafas de cerveja, a cores, no break comercial do programa de Jean Pouchard. Minutos depois ficavam sabendo que a exibição de comerciais em inglês nas cores azul, vermelho e verde tinha sido possível graças a uma engenhoca chamada Color Tel, invenção do americano mes Butterfield, paliativo muito fajuto para a televisão colorida que os brasileiros tanto almejavam. Um sistema muito simples, nada excepcional, um pouco melhor do que as telas transparentes importadas do Japão desde 1961 que ganhavam tons bicolores e tricolores ao gosto do usuário.As experiências no programa de Pouchard, ex-colunista Social do Diário Carioca cujo verdadeiro nome era Mauro Valverde, nada mais era do que uma tentativa de se antecipar à tecnologia a cores que o país já negociava desde 1967 quando decidira adotar o sistema PAL-M, infeliz adaptação do PAL Europeu.

A Revista Veja assim registrou a novidade: “Noventa por cento das pessoas que ligaram os televisores no dia 7 de agosto em Brasília tiveram uma surpresa: viram surgir no vídeo, em azul, vermelho e verde, desconhecidas marcas de cigarros e rótulos de cervejas anunciados em inglês. Era a TV Alvorada, canal 8, fazendo a primeira experiência no Brasil do sistema Color Tel, invenção americana que permite aos aparelhos comuns de TV receberem imagens coloridas sem sofrer qualquer adaptação”.

Precariamente colorida


A Publicação alertava para algumas das limitações da referida engenhoca: “O Color Tel só funciona nos aparelhos que estejam em salas iluminadas por lâmpadas incandescentes. Essa TV precariamente colorida serviu para quebrar a monotonia em que Brasília mergulhou desde a decretação do recesso do Congresso”. E descrevia a sua configuração: “O Processo Color Tel… baseia-se em estímulos luminosos que só o olho humano percebe. É a variação da intensidade desses estímulos que dá a variação da cor: uma Câmara fotográfica diante do vídeo não consegue captar as cores… Os cariocas e paulistas só verão anúncios coloridos daqui a alguns meses. A Alton quer fazer um grande lançamento já com anúncios de produtos brasileiros”. A descrição do produto, mesmo com o disfarçado entusiasmo da mídia, permite imaginar a sua precariedade e o tamanho da encrenca daqueles que apostaram as suas fichas no Color Tel, no país representado por uma empresa denominada Alton Promoções.

A revista semanal falava em exibições em outras praças, mas deixava claro que apenas no break comercial. Ou seja, exibição para tapear, ou iludir. Nada consistente. Uma degustação muito desabrida para atender a ansiedade em torno da definitiva implantação do sistema de TV a cores que então já era realidade nos Estados unidos, Cuba, França, Canadá e Hungria. O Color Tel não foi adiante e os brasileiros tiveram mesmo de aguardar mais dois anos e meio para assistir a TV a cores. Não todos. Alguns privilegiados já tinham acesso ao sistema cromático desde meados da década de 60. Experiências em circuito fechada tinham sido realizadas em 1963 pela TVTupi com a exibição do documentário “Volta ao Mundo” e do seriado “Bonanza” e também pela TV Excelsior com um show ao vivo no estande da Maxwell, produzido por Manoel Carlos e mais tarde com o programa “Moacyr Franco Show”. Em 1964 a agência de propaganda Panam, por sua vez  exibira a cores o famoso comercial em desenho animado dos esquimós da Brastemp. E em 1968 convidados da TV Globo assistiram o Prêmio Brasil de Turfe. Dois anos depois  convidados vip da Embratel assistiram a Copa do Mundo em exibições fechadas em três cidades.

A Copa antecipava a tecnologia a cores para os amigos do Rei. A começar pelo Presidente da República, Emilio Garrastazu Médici que teve um aparelho especial instalado no Palácio e claro o todo-poderoso Walter Clark que instalou uma aparelhagem para receber sinal em NTSC, convertido a PAL-M na sua sala da TV Globo.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 17/08/2009



O impacto do Zeppelin na mídia brasileira

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O sonho de voar feito realidade esteve longe de nós, com exceção da histórica viagem ao mundo do Graf Zeppelin em maio de 1930 que milhares de brasileiros testemunharam de perto. É que acompanhamos as façanhas dos primeiros balonistas no final do século XIX e dos inventores do avião (Santos Dumont e os irmãos Wright) na primeira década do século XX através das revistas, num tempo cronológico distante dos acontecimentos; fatos estes que repercutiram apenas numa camada social privilegiada.

 Muitos anos depois acompanhamos, também através da mídia, a chegada do homem na lua, um acontecimento muito distante de nós, porém de maior impacto graças às imagens em tempo real geradas pela TV. Os protagonistas deste momento histórico estavam no espaço e a equipe que viabilizara a façanha sediada em Houston. A nossa relação com o balão, o avião e o foguete foi apenas midiática.

Diferente foi a nossa relação com o Graf Zeppelin, o gigante voador de 128 metros de cumprimento, que aportou no Brasil em maio de 1930 enlouquecendo multidões que foram às ruas nas principais cidades brasileiras; milhares de pessoas, também, acompanharam a passagem da aeronave das janelas e sacadas de prédios e residências na rota do dirigível. O jornal O Estado de São Paulo empolgado com a repercussão enxergou no acontecimento um bom remédio contra o estresse: “A impressão causada pela travessia produz um bem-estar tão grande que deve ser empregada como cura da neurastenia”. 

Exageros a parte a mídia registrou a passagem do Zepellin através de textos grandiloqüentes e muitas fotos; algumas delas hoje podem ser apreciadas nas bibliotecas e arquivos públicos. A propaganda não deixou por menos e as agências programaram anúncios de oportunidade do Guaraná Antarctica (com o sugestivo título “Um gigante entre os gigantes”, Depurativo Luedy, Cinzano, Ovomaltine, tecidos Indanthren, baterias Barta, Agfa, dentre outros.

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Encarte e cobertura

Nesse contexto duas revistas se destacaram: “Careta” que programou um encarte de 38 páginas encomendada pelo Sindicato Condor que administrava destinos postais e de transportes de passageiros de companhias aéreas e a “Revista da Semana” que estampou magníficas fotos do Graf Zeppelin sobrevoando cidades européias e uma ilustração de página dupla do artista plástico Umberto Della Latta que se permitiu imaginar o dirigível sobrevoando o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. Através de “Careta” ficamos sabendo que a conta do espetáculo saiu de nosso bolso, através de uma verba de 100 contos de reis que o erário disponibilizou com autorização do Presidente da República Dr. Washington Luiz.

A publicação nos informa também da infra-estrutura montada no Recife para abastecer o Zeppelin.Já a “Revista da Semana” destacou os antecedentes de viagens intercontinentais do dirigível, relevando a visita ao Brasil:” É este o dirigível que pela primeira vez vêm ao continente sul americano. O Brasil sabe estimar os esforços hercúleos do velho inventor e seus dedicados sucessores; sabe avaliar as dificuldades a vencer na viagem transatlântica, onde cada vento contrário prolonga o caminho por centenas ou milhares de quilômetros; sabe admirar a tenacidade de um país que, depois de uma guerra terrível em que sucumbiu, surgiu do túmulo e criou maravilhas científicas e técnicas quando tudo parecia perdido.

O Brasil sabe que o Graf Zeppelin é o símbolo dos pacifistas… Salve Graf Zeppelin! Que a rainha de maio te guie seguro até o pais que em recordação do seu filho adotou o nome de Terra de Santa Cruz”.Tempo depois do vôo histórico do Graf Zeppelin pelo Brasil a Companhia Condor viabilizou uma rota regular de transportes de passageiros e até construiu um hangar gigante cuja estrutura ainda existe. Resistiu ao tempo, às intempéries e ao salitre, nas proximidades da Baia de Sepetiba, tombado pelo Iphan. Memória viva da ancoragem da grande nave que segundo a mídia da época requeria 200 homens em pista com cordas para orientar a atracação. A passagem original do Graf Zeppelin nos céus do Brasil foi mesmo a nossa única relação próxima com o sonho de voar. 

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 28/07/2009



A imprensa no mundo da lua

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Hoje, exatos 40 anos, a imprensa brasileira estava no mundo da lua, literalmente falando, nenhuma alusão às gafes cometidas pelos apresentadores da rede de TV com dificuldades de entender e traduzir o inglês do áudio original na histórica transmissão da chegada do homem no satélite em 20 de julho de 1969. Gafes que, diga-se de passagem, tinham a ver, também, com as alterações no roteiro original da NASA. Os engenheiros de Houston previram um determinado horário para o desembarque de Neil Armstrong, mas foi próximo da meia-noite, após uma longa espera, que o astronauta efetivamente pisou o solo lunar.Como ia dizendo a imprensa brasileira estava no mundo da lua. Não se falava outro assunto desde a semana anterior.

Toda a mídia ligada no grande acontecimento. Millor Fernandez definiu com muito bom humor e propriedade a edição especial de Veja de 23 de julho de 1969 como “Uma edição especialmente lunática” e então recomendava: “Armstrong: seja o primeiro suicida lunar. A idéia não é ficar na história?”. A propósito, as revistas comeram poeira, a julgar pelas manchetes nada criativas: “Chegaram!” (Veja), “O Homem na lua” (O Cruzeiro), “Especial. Mapa da Lua” (Manchete) e “Eis sua viagem à lua” (Realidade). Pecaram nos títulos, mas acertaram no texto, no caso específico de Veja, destacando uma magnífica entrevista com o Dr Von Braum. O criador dos foguetes V2 durante a II Guerra Mundial.

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Os números da cobertura

O Brasil tinha em torno de 70 milhões de habitantes e o mundo estimava a população do planeta em 3,5 bilhões de pessoas. A histórica transmissão televisiva da chegada do homem na lua teria impactado, segundo estimativas da época, 530 milhões de telespectadores. Ou seja, 15% apenas da população. Mas a percepção foi outra já que na Europa, Estados Unidos e Japão, o mundo desenvolvido, a cobertura foi bem abrangente. No Brasil tínhamos 4,5 milhões de aparelhos de TV e uma cobertura estimada em 50% dos domicílios, algo em torno de 35 milhões de habitantes. Assistimos a chegada do homem na lua, em preto e branco, (o sistema de cores seria implantado somente em 1972), com imagens geradas pela NASA, via Embratel que para evitar um colapso nas comunicações e priorizar a transmissão televisiva, desligou o sistema de telex e telefonia DDD e DDI sem avisar à população. Três mil jornalistas credenciados pela NASA assistiram a decolagem do Apollo 11, testemunhado também por um milhão de pessoas presentes.

As grandes redes de TV americanas investiram na informação. A CBS convidou o ex-presidente dos Estados Unidos Lindon Johnson para comentar os aspectos políticos da missão lunar e Arthur Miller e Bob Hope para comentar cenas do cinema com o tema do espaço, exibidas nos intervalos da programação. A rede ABC entrevistou Marshall Macluhan, o teórico da aldeia global; então em evidência a máxima de que “o meio é a mensagem”.

Quanto à televisão brasileira esta deixou a desejar e a tecnologia teve muito a ver com essa cobertura, digamos, modesta. Dependíamos do Intelsat III e de um precário sistema de links terrestres, a partir da estação de Itaboraí recém inaugurada. Falávamos em cobertura via satélite, mas na prática, com exceção de alguns flashes pontuais e da histórica transmissão de 20 de julho, fizemos, mesmo. uma cobertura via telex. Com o estimável apoio da tesoura-press.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Portal Imprensa em 20 de julho de 2009



Michael Jackson: As exéquias-show

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Terça feira, após quinze dias de reality- show, na maior cobertura midiática de um funeral de que se tem noticia na história da humanidade, o corpo de Michael Jackson que não foi exibido, provavelmente pela dificuldade de se reconstruir um rosto já deformado em vida, foi sumido. Mais tarde milhares de fãs assistiram uma solenidade-show-fúnebre no ginásio da cidade; populares foram agraciados com ingressos sorteados, alguns dos boletos vendidos na internet por até dez mil dólares. Esse é definitivamente um fato novo para os estudiosos dos ritos da morte. No século XXI, paga-se, e caro, para assistir as exéquias de um grande astro.

O fato é  que os funerais do Papa João Paulo II (2005) e de Michael Jackson (2009) são marcos referenciais da convergência tecnológica: os primeiros grandes funerais da história da imprensa com cobertura multimídia. Um privilégio que a princesa Diana não teve, falecida em 1997. Então a  internet ainda engatinhava e os chamados portais de noticias começavam a ser estruturados, na época com uma proposta de serviços, entretenimento e e-commerce.  Funerais de grandes personalidades sempre foram pautados pela mídia que de alguma maneira alimentou a comoção popular, mas nos casos recentes aqui referidos a convergência tecnológica enriqueceu o show. E no caso específico do Rei do Pop fez também a diferença na divulgação da morte. Um site de fofocas deu o furo que a grande mídia repercutiu, mas por zelo demorou a referendar.

Os grandes funerais

Fico a imaginar como teriam sido os funerais de João Pessoa, Getulio Vargas e Carmem Miranda, para citar alguns dos maiores eventos fúnebres da história do Brasil, em tempos de convergência midiática?  Ou então os funerais de Jonh Kennedy que as circunstâncias da morte transformaram também num show? Ou, por que não, os funerais de Tancredo Neves e Ayrton Senna, estes com cobertura em tempo real, através da televisão, então presente em mais de 80% dos lares brasileiros? O assassinato de João pessoa (1930) foi repercutido pelos jornais, através de telegramas, mas foram as revistas semanais ( Revista da Semana, Fon-Fon e O Cruzeiro) que deram a verdadeira dimensão do fato com a divulgação das fotos do cortejo fúnebre.

A morte de Getúlio Vargas (1954) foi um furo do rádio, mas as circunstâncias do suicídio e os desdobramentos políticos valorizaram a mídia impressa, os jornais diários que extrapolaram nas tiragens. A televisão passou batida, então, com menos de cem mil aparelhos em uso e cobertura restrita ao Rio e São Paulo.Já o assassinato de Kennedy foi um fato radiofônico no Brasil, as televisões apenas exibiriam o vídeo do desfile em carro aberto e o tiro fatal, 48 horas após os acontecimentos, através de fitas de vídeo-tape distribuídas pelas agências de noticias via área. Com Tancredo e Ayrton Senna o show foi televisivo, cobertura em tempo real, a televisão pautando os jornais e as revistas.

Tudo isso é passado diante da convergência de tecnologias que abre novas expectativas em torno da divulgação da morte de um grande ídolo. A noticia do falecimento de Michael Jackson, por exemplo, diferente dos outros personagens aqui referidos, não teve uma fonte oficial; esse é também um fato novo. Relevante, mas não tão assustador quanto a perspectiva (hoje real) de no futuro se cobrar ingresso para assistirmos o show da morte.

Artigo de minha autoria originalmente publicado no Correio da Bahia em 09/07/2009