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Barrigada na morte de Getúlio

Na trágica madrugada de 24 de agosto de 1954, mais exatamente às 3:35 e 4:00 respectivamente, as rádios Tupi e Globo anunciaram a renúncia do Presidente da República, Getúlio Dornelles Vargas. A noticia era falsa, uma “barrigada” da imprensa radiofônica, baseada numa fonte do Palácio do Catete. Quem? Seguramente um dos participantes da reunião ministerial convocada pelo chefe da nação para decidir sobre os rumos a tomar em função da crise deflagrada desde o atentado contra Carlos Lacerda em 05 de agosto do ano aqui referido. Três semanas de forte pressão em função da proximidade do mandante do crime (Gregório Fortunato), que vitimou o Major Rubens Vaz, com o Gabinete.

A reunião ministerial tinha começado às 3:00 e a decisão do Presidente determinara que os militares mantivessem a ordem pública e nesse caso ele apresentaria um pedido de licença. Caso contrário os revoltosos encontrariam seu cadáver no Palácio. A fonte e as emissoras de rádio apostaram na primeira opção, na ânsia de informar o público sobre o desfecho da crise. Era também a solução desejada pela imprensa oposicionista que há vários dias insistia na deposição do Presidente.  Militância assumida. Na linha de frente comandada pela Tribuna da Imprensa, Radio Globo, TV e rádio Tupi e como coadjuvantes O Correio da Manhã, Folha da Manhã, Diário Carioca e O Estado de São Paulo.

Comoção e foguetório

Algumas horas após a barrigada das duas emissoras de rádio, Heron Domingues anunciava pela rádio Tupi, numa edição extraordinária do O Repórter Esso, o verdadeiro desfecho da crise, ou seja, o suicídio do Presidente. Nas horas seguintes os jornais confirmaram o que o rádio anunciara através de edições, também extraordinárias, provocando uma comoção popular, sem precedentes, desde a morte de João Pessoa, em 1930. Populares atacaram O Globo e a rádio Globo, A TV Tupi (ataque repelido pela polícia) e Tribuna da Imprensa e em Porto Alegre incendiaram o Diário de Notícias e O Estado do Rio Grande do Sul, além de depredar a Radio Farroupilha. O povo voltava-se contra a mídia que julgava culpada pela dimensão que os fatos tomaram.

Murilo Melo Filho na cobertura de “Vinte Dias Dramáticos” publicada na revista Manchete na semana seguinte ao suicídio do Presidente relata um episódio que passou para as entrelinhas da história e em nenhum dos retrospectos da crise é mencionado com a ênfase que deveria ter. Segundo o repórter, por volta das 6:30 “a notícia da renúncia é recebida com foguetes em vários pontos da cidade”.   Ou seja, relata no seu retrospecto manifestações de júbilo, ruidosas, que de alguma forma devem ter chegado aos ouvidos, a estas alturas fragilizados, do Presidente Getúlio Vargas. Manifestações estas que só existiram em função das noticias falsas divulgadas pelas emissoras de rádio e repercutidas pelos próprios protagonistas da crise.

O foguetório da renúncia que, cabe aqui frisar, teve a imprensa como inspiração, deve ter contribuído para abalar ainda mais, se dúvidas havia, o sentimento do Presidente de renunciar à vida para ingressar na história.


Fonte: Nelson Cadena

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