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Atchim!!!

A gripe suína é um espirro se comparada à gripe que passou para a história como gripe espanhola e matou seis milhões de pessoas no último trimestre de 1918, a maior pandemia vivida pela humanidade. Poucos meses após o alerta da imprensa ibérica em torno do assunto, a mídia, que num primeiro momento enterrou a cabeça no chão para não enxergar a realidade, contabilizava as vítimas, através de projeções e estatísticas duvidosas. O “Times” de Londres, segundo registro da revista brasileira “Eu Sei Tudo”, edição de fevereiro/1919, imaginava 108 milhões de mortos se a gripe tivesse durado quatro anos” a julgar pelos estragos que produziu em apenas doze semanas”.

A gripe espanhola foi escamoteada pela mídia com exceção da imprensa da Espanha que por isso mesmo passou a ser referência da propagação do vírus e levou a fama, mesmo os primeiros casos tendo sido registrados nos Estados Unidos. Razões de Estado e a censura imposta aos veículos de comunicação, inclusive no Brasil, pelas circunstâncias da I Guerra Mundial, atrasaram o combate ao vírus que hoje se sabe era uma mutação da gripe aviária e, segundo outros estudos (Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. ANPUH/SP-UNICAMP. Campinas. 2004), uma mistura das gripes aviária e porcina, daí a sua virulência.

A “cautela” da mídia

O fato é que a cautela da imprensa (em especial dos países envolvidos diretamente na guerra) em noticiar o aparecimento e os efeitos da doença que foi denominada de Influenza, atrasou os procedimentos sanitários recomendáveis, ou seja, o isolamento dos enfermos, para evitar a sua propagação. Os comandos militares temiam que a divulgação dos fatos comprometesse o moral das tropas, já que se sabia que grandes aglomerações favoreciam o contagio. A imprensa espanhola foi a única da Europa a quebrar o silêncio e daí a percepção equivocada de que a doença se originara naquele país.

No Brasil os jornais “O Estado de São Paulo”, “O Combate”, “Gazeta”, “A Rua”, “Rio Jornal” noticiaram a partir de 10/10/1918 os primeiros casos suspeitos, os primeiros confirmados e os óbitos. “O “Diário da Bahia” em 11/10/18 clamava por uma intervenção dos órgãos de saúde: “influenza espanhola ou brasileira; a febre dengue, ou de papataci, qualquer que seja o mal que nos agride, deve ser combatido”. Já a revista “Fon Fon”, no seu cronológico semanal, tudo registraria a partir de novembro: os óbitos do médico Francisco de Castro, o poeta Arthur Lucinni, diplomata Rômulo Castanheda, diretor do Liceu Francês Leon Auguste Gouy, jornalista Simões Pinto do Jornal do Commercio, advogado Armando Dias, dentre outros… Inclusive a morte do Presidente da República Rodrigues Alves em janeiro de 1919, recém eleito, falecido antes de tomar posse.

A propaganda lucrou

Os anunciantes, no intuito do lucro fácil, deixaram de lado os escrúpulos e extrapolaram: “Nada de Pânico. Fume Sudam” apelava um fabricante de cigarros. Duas semanas após as primeiras noticias sobre a gripe espanhola que fez mais de cinco mil vítimas em São Paulo o antigripal Toluol apregoava a sua eficiência no trato do vírus. A Bayer, por sua vez, publicava anúncio de página inteira com o título “Grippe!” e o texto: “Para combater os casos de grippe, também conhecida por influenza espanhola não existe remédio mais enérgico eficaz e também mais inócuo que os comprimidos Bayer de Aspirina e Phenacetina”. Num outro anúncio recomendava o produto “para baixar a temperatura, restabelecer a circulação normal do sangue e suprimir as dores… para o pronto restabelecimento do individuo que sobre de influenza”.

Os médicos preferiam recomendar aplicações de mercúrio, quinino, injeções de óleo canforado e até doses do licor Van Swieten. Mas a imprensa também fazia a sua parte. O  Jornal “O Paiz” do Rio de Janeiro, no propósito de prestar um serviço a seus leitores, de forma didática recomendava em sua edição de 23/10/18: “Fazer diariamente uso de uma solução de essência de canela, conforme as seguintes doses: uma colherinha das de café em meio copo de água açucarada, de duas em duas horas, até desaparecer a febre. Depois tomar uma colherinha em meio copo de água três vezes ao dia”.

Prosseguia:  ” Evitar aglomerações, principalmente á noite. Não fazer visitas. Tomar cuidados higiênicos com o nariz e a garganta: inalações de vaselina mentolada com água iodada, com acido cítrico, tanino e infusões contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras… O doente, aos primeiros sintomas, deve ir para a cama, pois o repouso auxilia a cura e afasta as complicações e contagio. Não deve receber, absolutamente, nenhuma visita. Evitar as causas de resfriamento e de necessidade tanto para os sãos, como para os doentes e os convalescentes. As pessoas idosas devem aplicar com mais rigor ainda todos esses cuidados”.

Texto escrito por Nelson Varón Cadena

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