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Propaganda Entrevistas


Entrevista com Roberto Justus

Roberto Justus

Presidente do Grupo Newcomm

Entrevista realizada por Mirela Tavares em dezembrode 2004

Título: Quero ser Roberto Justus

Fonte: Revista Propaganda

Link: http://www.revistapropaganda.com.br/materia/index.php?id=327

Obs: O cargo do entrevistado era o exercido por ele no momento da entrevista.
 

Presidente e CEO do Grupo Newcomm, Roberto Justus é uma das principais atrações todas as terças e quintas-feiras à noite na TV Record. Com picos que já chegaram aos 15 pontos no Ibope, o programa que ele apresenta - "O Aprendiz", versão nacional do americano "The apprentice", comandado pelo megaempresário Donald Trump - chegou a colocar a Record em segundo lugar em audiência. Sem recorrer a mulheres seminuas e outras apelações, mostra que conteúdo também gera interesse.


Propaganda - É possível dizer que de alguma maneira "O Aprendiz" está popularizando o mundo glamourizado da publicidade?
Roberto Justus -
Sim. Colocar um publicitário à frente de um programa, em rede nacional, que foi comandado nos Estados Unidos por um megaempresário como Donald Trump já é um benefício para a nossa profissão. Até porque essa imagem de empresário bem-sucedido aqui é a de um publicitário. O fato de o emprego oferecido ser num grupo de comunicação também é importante, porque mostra o que é e como funciona essa área. Tudo isso ajuda a divulgar a nossa profissão.

P - Você tem toda autonomia para tomar as decisões do programa?
RJ
- Sofro zero de influência É uma decisão solitária. Nem mesmo o diretor do programa sabe. Eles até apostam quem eu vou demitir.

P - Quais são os pontos positivos e negativos do perfil dos participantes, ditos como representantes fiéis de um executivo brasileiro?
RJ
- Eles foram escolhidos entre quase 30 mil pessoas, mas isso não quer dizer que formem uma elite, mas, sim, que eram os que estavam dispostos a enfrentar o desafio. Um executivo tem de ter principalmente objetivo e garra para alcançá-lo, além de uma visão macro de tudo. No caso dos "aprendizes", imagina a criatividade e a visão que têm de ter para participar de um processo seletivo que, ao contrário do que acontece nos processos comuns de avaliação, exige que eles mostrem de uma forma mais completa que sabem comprar, vender, negociar, administrar, entender de marketing e fazer investimentos. Eles realmente têm de ter um perfil completo para se sair bem nessa história.

P - O executivo que está no mercado está mais preparado ou ainda deixa a
desejar?
RJ
- Não sei avaliar se hoje o perfil do executivo brasileiro está melhor do que no passado. O que eu acho é que o profissional que puder tem de se preocupar com a construção do seu currículo escolar e da sua base de informação de uma forma muito sólida, o que o brasileiro não faz. Depois, deve pensar em cursos de extensão, que atualmente são fantásticos. Desde um MBA até um doutorado, tudo que se puder fazer para complementar a formação vale a pena. As pessoas ainda chegam muito mal preparadas ao mercado. Eu não pego, por exemplo, estagiário que não esteja no último ano. Não se pode entrar na faculdade e já querer estagiar. Primeiro é preciso estudar, depois ter experiência. É importante também falar mais de uma língua. O espírito empreendedor é fundamental; sempre acreditar no seu objetivo e não desistir no primeiro revés. Quando comecei na publicidade, levei quase três anos para ganhar meu primeiro dinheiro. É difícil, as pessoas têm de se acostumar com você no mercado, têm de enxergar em você a profissão que realmente escolheu e respeitar sua expertise. Isso leva tempo, exige determinação e paixão. As pessoas têm mania de procurar aquilo que talvez dê mais dinheiro, quando na verdade deveriam procurar fazer aquilo pelo qual realmente têm paixão. Só assim vão poder fazer bem e ter sucesso.

P - Você fala muito no programa sobre ética, coerência na auto-avaliação e avaliação dos colegas, o que muitas vezes é pouco lembrado na prática. O que falta para o mercado ter essas regras como condição primordial?
RJ -
É muito difícil para o ser humano conseguir lidar dentro das corporações com a verdade o tempo todo. As pessoas estão sempre se protegendo e há o medo de serem demitidas. Não sou inocente e sei que transitar dentro de uma empresa exige habilidade. Não se pode achar que todo mundo pode falar o que pensa o tempo todo sem que isso lhe custe algo. Mas eu sempre pautei minhas atitudes por dizer o que penso, por me posicionar, ser leal, saber reconhecer quando erro, saber me retratar... Respeito é preciso conquistar. Mesmo sendo dono de uma empresa, essa "carteirinha" não adianta nada. Vira-se as costas e o cara dá risada de você. Mas se você conquistar esse respeito através de atitude, de lealdade, da ética, da decência no que faz, as pessoas vão respeitá-lo. Falta um pouco de transparência na convivência das pessoas.

P - Como você tem sentido a repercussão do programa entre as pessoas?
RJ
- Extremamente positiva. O desafio foi fantástico; a liberdade que a Record me deu para produzir, a produtora TV 7, também foi ótima. O programa tem conteúdo, é muito rápido, bem montado, as pessoas entendem, é interessante, então tudo é tão bacana que as pessoas ficam encantadas. Sempre há os que criticam, mas eu, sinceramente, não esperava essa repercussão nem essa audiência. Ficamos pensando se o povo iria entender a linguagem de negócio, os jargões. Estamos tendo uma penetração qualificadíssima, mas temos também muita gente da massa que está gostando.

P - Quantas pessoas efetivamente já demitiu na sua vida?
RJ
- Poucas. Sou mais de admitir. Agora, ter de demitir duas vezes por semana em rede nacional é realmente difícil. Gostaria de contratar todos eles. Quase me desculpo no ar toda vez que tenho de demitir.

P - E você recebe orientação para ser mais enfático ou para falar algo?
RJ -
Não, até porque a gravação é como se fosse ao vivo. Imagina ter de regravar a frase de demissão? Nem eu conseguiria nem o "aprendiz".

P - Qual frase lhe soaria tão decepcionante quanto a que você fala para os participantes: "Você está demitido"?
RJ -
Tanta coisa poderia me soar assim. Um funcionário dizer que está infeliz no trabalho, que ele não gosta da empresa... Qualquer coisa desse tipo me deixa profundamente magoado. Eu fico frustrado se as pessoas que estão comigo não estiverem felizes com o que estão fazendo. Em relação a "O Aprendiz", especificamente, eu ficaria muito triste se alguém falasse que o programa não lhe traz benefício nenhum, não lhe diz nada...

P - O que foi fundamental durante a sua formação para você se tornar um executivo de sucesso?
RJ
- O que me ajudou muito foi ter ficado algum tempo, quando estava na faculdade, vendo o meu pai trabalhar. A maneira dele de conduzir os negócios, a forma ética com que decidia as coisas, o empenho com o próprio negócio... Foi a maior escola para mim. É importante, quando temos algum ícone, segui-lo, nos espelhar, tirar exemplos. Eu comecei isso com meu pai.
 





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