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Propaganda Entrevistas


Entrevista com Olivieiro Toscani

Olivieiro Toscani

Fotógrafo e publicitário Italiano

Entrevista realizada por Paula Lobo e publicada inicialmente no Diário de Notícias de Lisboa em 13 de novembro de 2005


Título: Os estúpidos é que só Vêem a beleza nas coisas bonitas

Fonte: Portal DN On-line

Link: http://dn.sapo.pt/2005/11/13/artes/os_estupidos_e_so_veem_a_beleza_cois.html 
 
 

Obs: O cargo do entrevistado era o exercido por ele no momento da entrevista.
 

 

Esteve em Portugal em Maio de 1974 e na altura fotografou uma velha com um burro. Porquê transformar isso num projecto tantos anos depois?
Porque tenho memória instintiva, Sou como um burro! Para mim tudo é presente. No ano passado tive oportunidade de fazer algo em Portugal, em Santa Maria da Feira, e pensei nisto. A mim interessa-me fazer as imagens certas no momento certo, e acho que neste momento precisamos de olhar para os burros.

Faz também, neste trabalho, uma crítica ao mundo tecnológico...
Sim, à nossa maneira estúpida de viver, aos condicionalismos das televisões todas iguais... Estamos a desistir da teimosia, da nossa personalidade, precisamos dos burros!

Isso não é contradição, vindo de um homem que trabalhou sempre no mundo da comunicação, da publicidade?
Não, a comunicação é a arte de hoje. Antigamente, era a pintura e todos os grandes artistas trabalharam para os homens de poder. Hoje, todos trabalhamos para um certo tipo de poder, político, industrial ou religioso. A arte sempre esteve ao serviço do poder. Não é uma contradição, acredito na comunicação.

Mas não se fartou dessa faceta da comunicação? Afinal, está a criar cavalos e a produzir azeite na Toscana...
Isso, sempre fiz! Não, não me aborreci, pelo contrário, morrerei a fazer fotografia e comunicação. Fartei-me foi da Benetton e talvez me farte de uma ou outra marca, mas arranjo novos projectos. Nunca me aborreço da vida, e se as pessoas se aborrecem a culpa é delas!

Durante 18 anos fez para a Benetton campanhas de choque que o tornaram famoso, e sempre afirmou que as imagens publicitárias de falsa felicidade "vendidas" aos pobres e excluídos ainda resultariam em violência. Como vê o que está a acontecer em França?
É precisamente isso! E a situação vai piorar, a menos que comecemos a perceber que não podemos enganar assim as pessoas. A vida é feita de muitos problemas, não de falsas felicidades. A Benetton tinha mais visibilidade porque é uma marca internacional, mas trabalhei para muitas outras empresas e sempre procurei a beleza noutro lado. Os estúpidos é que só vêem a beleza nas coisas bonitas! Não podemos aceitar apenas o que nos dão. Toda a gente tenta parecer igual, os mesmos lábios e narizes, aquele tipo de beleza telegénica... Isso não é beleza, é uma grande treta.

Foi um passo importante as suas fotografias terem sido as primeiras de publicidade a entrar para as colecções dos museus de arte contemporânea?
Não as fiz para os museus. Para dizer a verdade, acho que os museus são muito conservadores e não me sinto particularmente lisonjeado! Interessa-me muito mais que toda a gente as possa entender. Quando queremos matar algo, colocamo-lo num museu! Mumifica-se! Mas o mercado também é um museu...

Então, o objectivo dessas imagens perdeu-se com a exibição nos museus?
Não, acho que foram entendidas por outras razões e que foram parar aos museus por ter sido compreendido o seu verdadeiro sentido. Mas não me importo, há algumas pessoas que visitam museus! [risos]

Depois da Benetton, dedicou-se a um novo projecto de experimentação.
Sim, para a Benetton fiz a Fabrica e agora estou a desenvolver com a Região da Toscana um novo centro, que já está a funcionar, chamado La Sterpaia. É um projecto muito interessante, de serviço público, dedicado aos problemas do território, arquitectura e comunicação.

Continua a trabalhar em projectos como Proibido Pensar, que visava a violação dos direitos humanos em Cuba?
Sim, fiz um trabalho sobre a anorexia, há uma exposição itinerante sobre a osteoporose (esteve há três anos em Lisboa), e outra sobre a pena de morte, com três cópias a circular pelo mundo - queria apresentá-la na China, mas não me deixam! No próximo ano quero começar a fotografar para uma campanha sobre o cancro da mama.

Oferece sempre os direitos de autor?
Não quero saber dos direitos de autor. Aliás, não possuo nada do que faço, não tenho arquivo, não quero aborrecer-me com isso.

Disse uma vez que os livros servem para nos sentarmos em cima, mas já publicou três. Porque continua escrever?
Bem, sempre é melhor sentarmo- -nos neles do que deixá-los sem uso nas bibliotecas! Escrevo porque quero desafiar-me. Quando me sento a escrever... não digo que seja uma tortura, mas às vezes parece!

É por não recusar um desafio que gosta tanto de provocar as pessoas ?
Eu não gosto de provocar as pessoas, só gosto de dizer o que tenho para dizer. Se as pessoas se sentem provocadas, tanto pior! Não o faço pela provocação, mas parte do público sente-se provocado. Porquê? Por estar as ver as coisas de outra perspectiva? Há pessoas que não querem ser incomodadas ou ver perturbado o modo como vivem, mas estou-me nas tintas! [risos]

O seu futuro passará mais pelas questões sociais do que pelos negócios?
Não faço assim tanta distinção. Depende. Um partido ou uma empresa, afinal de contas, são feitos por indivíduos. Temos é que encontrar os indivíduos certos, os inteligentes, sensíveis e criativos. Pode ser a melhor empresa ou organização, mas se for gerida por gente estúpida não se fará nada de interessante.
 

 





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