Roberto Irineu Marinho
Presidente das Organizações Globo
Entrevista realizada por Rubens Glasberg e Samuel Possedon em fevereiro de 2005
Fonte: Site Tela Viva
Link: http://www.telaviva.com.br/revista/146/capa.htm
GIGANTE ATENTO
O grupo Globo saiu da UTI financeira e colocou a casa em ordem, mas sabe que ainda tem muitos desafios a enfrentar. Empresas de telefonia e grupos de mídia internacionais são os principais focos de atenção.
No dia 26 de abril de 1965 a história da televisão, da mídia e, por que não, até da política brasileira começou a mudar. Naquele dia, nascia a TV Globo, uma aventura que o jornalista e empresário de mídia Roberto Marinho resolvia levar adiante já com mais de 60 anos de idade. Em 1971, antes portanto de chegar aos 70, pôde ver a sua aventura assumir a liderança entre todas as emissoras de TV brasileiras, posição em que permanece até hoje.
Em 2005, 40 anos depois, a Globo não é mais a mesma. Não porque sua audiência tenha caído, a concorrência de outras redes crescido, ou sua importância política e econômica diminuído. O que mudou foram as preocupações. Na entrevista a seguir, Roberto Irineu Marinho, presidente do grupo Globo, mostra especial atenção ao desafio de manter protegido o espaço conquistado pela Globo como produtora de conteúdo nacional. O avanço das empresas de telecomunicações nos territórios antes restritos às empresas de mídia e a chegada de grandes grupos de comunicação multinacionais são questões de "soberania nacional", segundo suas próprias palavras. O desenho que a Globo imagina para se proteger destas ameaças passa por uma divisão clara de tarefas entre teles e grupos de mídia, divisão essa que poderia, na visão do grupo, vir até mesmo por meio de regras legais.
Aliás, quando se fala em regras, a Globo tem uma visão clara sobre o modelo institucional brasileiro. É "espetacular", segundo Roberto Irineu, pelo menos no que diz respeito à TV aberta. O que falta são regras aplicáveis para as empresas de telecomunicações e aos grupos estrangeiros de mídia no que se refere ao conteúdo. "Já que a legislação permitiu ‘vender o corpo’, que é a infra-estrutura, tem que ‘preservar a alma’, que é o conteúdo", diz o presidente do grupo Globo.
A polêmica mais recente foi o projeto de criação da Ancinav, que vinha acompanhado de uma proposta de reforma do arcabouço legal do audiovisual e que, definitivamente, não agradava ao maior grupo de mídia brasileiro. E assim como em outros episódios em que propostas polêmicas de regulamentação do setor audiovisual estavam fora de sintonia com a Globo, também este foi engavetado, o que mostra o inegável peso da emissora da família Marinho nas questões envolvendo a comunicação social no Brasil. Importância, aliás, que conscientemente fez o grupo Globo esperar algumas semanas antes de anunciar o default de suas dívidas, em 2002. Temia que a repercussão do fato pudesse interferir no resultado das eleições presidenciais daquele ano.
Nesta entrevista, a história do grupo Globo não foi repassada em detalhes, por uma opção da própria reportagem. Preferiu-se focar os desafios presentes e futuros, daí a ausência de temas sempre controvertidos, como a relação do grupo com a política.
A TV Globo admira sua própria produção, orgulha-se de um método de trabalho baseado em "talentos", "investimentos" e "riscos", ressalta que é nessa fórmula que está o segredo de seu sucesso e da preferência da audiência. A Globo faz questão de separar sua hegemonia sobre o mercado de um alegado monopólio, que ela assegura não ter. A Globo se vê como uma opção do telespectador, como uma "opção pela qualidade", e por isso não é simpática à idéia de sofrer restrições do ponto de vista concorrencial. Ou seja, não acha que a audiência conquistada deva sofrer limitações, como sofrem outros mercados quando existe excessivo predomínio de um player.
O grupo Globo como um todo tem passado também por momentos complicados nos últimos anos. Roberto Irineu descreve esses momentos de forma emocionada. Na entrevista, comoveu-se ao falar do momento em que o grupo optou por não pagar seus compromissos e partir para a renegociação. Também se emocionou ao descrever como naquele momento a família se viu obrigada a vender boa parte de seu patrimônio para tentar contornar a crise, decisão hoje vista como "burrice" pelo próprio Roberto Irineu, como quando venderam, em 2002, participações em emissoras de televisão afiliadas de pequeno e médio porte.
Depois de dois anos de negociação com os credores, apenas agora a Globo (como grupo) sai da UTI. Não que a TV Globo em si tenha sido pesadamente afetada. Ela faturou sozinha no ano passado perto de R$ 3,5 bilhões (R$ 1,68 bilhão até junho de 2004, segundo o último balanço público) e não perdeu audiência, muito pelo contrário. Mas a TV Globo era a principal garantidora das dívidas do grupo, que totalizavam US$ 1,34 bilhão. Após o acerto com os credores, a dívida deve cair para perto de US$ 800 milhões, com prazo até 2012 para pagar. O grupo teve no total receita líquida no primeiro semestre de 2004 de R$ 2,251 bilhões e EBITDA de R$ 614 milhões, o que permite estimar um EBITDA de US$ 400 milhões, por ano, para a dívida de US$ 800 milhões depois dos acertos.
Um grande desafio da TV Globo é ter, até 2012, esse compromisso de pagamento com os credores, e (pelo histórico de default) não terá facilidade de acesso a capital. Não pode, portanto, se dar ao luxo de perder mercado, fato que se soma aos interesses de preservação da "soberania nacional" quando fala em garantir a grupos nacionais o conteúdo veiculado sobre os diferentes meios.
TELA VIVA - A liderança da Globo se deve apenas às suas próprias competências ou faltou concorrência?
ROBERTO IRINEU MARINHO - Sempre fomos uma empresa de televisão que reinvestiu a maior parte de seus lucros, praticamente tudo, em seu próprio negócio, em talentos e em tecnologia. Corremos riscos, investimos na criação de um padrão de qualidade cultural, artístico, do texto, da linguagem, da interpretação, da cenografia, do figurino, da luz e por aí vai. Esse esforço em fazer um produto para atender ao gosto dos brasileiros e o reinvestimento constante fez com que a TV Globo se tornasse o que é. Se a história das outras televisões tivesse sido igual, provavelmente a concorrência teria sido muito maior. Como a história não foi essa, acho que a cada dia nos distanciamos mais.
E a rede de afiliadas, que peso tem?
O primeiro produto em rede foi o Jornal Nacional em 1969. Até então nossos programas eram distribuídos apenas no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Os dois primeiros afiliados foram a TV Triângulo, em Minas, e a RBS, na época TV Gaúcha, no Sul (cobrindo Rio Grande do Sul e Santa Catarina). Essa foi a rede original, cobrindo os cinco estados. Mas essa rede foi crescendo e foi fundamental ao longo dos anos seguintes até atingir a cobertura de toda a população brasileira. Quando você se propõe a ser uma emissora de massa, chegar a todos é fundamental, e a rede de afiliadas é o caminho. Elas levam o nosso sinal ao Brasil todo e nos aproximaram das comunidades, fazendo jornalismo local e ações comunitárias. E são também muito importantes para o mercado publicitário, porque oferecem condições para que pequenos anunciantes em todo o Brasil tenham acesso à televisão.
Qual é o peso comercial dos mercados regionais e do mercado nacional para a TV Globo em termos de faturamento?
Cerca de 25% da receita total da rede vêm de anunciantes locais. Em torno de 75% vêm de anunciantes nacionais, divididos em 40% de veiculação spot e 35% de veiculação nacional.
Para manter a liderança, a Globo pretende continuar correndo riscos ou será mais conservadora?
Ela deve continuar assim, assumindo riscos, como é e sempre foi. Está na nossa essência. A gente tem que sempre surpreender.
Vocês vêem algum indício de que o formato que a Globo ajudou a criar e consolidar, tanto do ponto de vista artístico quanto do ponto de vista de grade de programação, esteja se mostrando cansado?
Estamos batendo recordes de audiência desde que foi criado o mecanismo de aferição de audiência com o "people meter". Em 2003 e 2004 tivemos as maiores audiências desde 1997. Isso na medição das 7h à meia-noite. Mas em todos os horários nossa audiência é crescente.
O fato de ter tanta audiência não amarra a Globo do ponto de vista de criatividade, inovação?
Mas é exatamente o fato de sermos criativos que nos dá essa grande audiência.
Se vocês já estão dando o que as pessoas gostam, a tentação de manter tudo como está é muito grande, não?
As pessoas gostam de coisas novas, não podemos repetir sempre a mesma coisa. A Globo sempre tenta se superar. Para falar de dois exemplos mais recentes: a minissérie "Hoje é Dia de Maria" veio com uma linguagem, uma tecnologia completamente inovadora e com grande audiência. "Mad Maria" também envolveu uma equipe de 400 pessoas no meio da selva, o que é um risco imenso que se comprovou valer à pena. Também não é verdade quando se diz que nosso formato é sempre o mesmo. Mudamos a nossa grade todos os anos, sempre apresentamos algo diferente. Hoje temos "reality shows", o que não existia cinco anos atrás; também não tínhamos programas de entrevistas como os do Jô Soares, da Ana Maria Braga, do Luciano Huck e do Serginho Groisman. Futebol também é algo que não tinha espaço fixo, e agora tem. A grade da Globo tem como segredo justamente esta mobilidade, para que continue agradando. A estrutura de novela, jornal e depois outra novela realmente existe há muito tempo, mas é um hábito: as pessoas se encontram para ver a novela e o jornal. E queremos ser esse ponto de encontro.
Internet, celular, computador etc. mudam o hábito de consumo de informação e entretenimento das pessoas. Como a Globo responde a isso para não perder a audiência desta geração "online"?
Temos participado do surgimento e do desenvolvimento de todas as novas alternativas de distribuição. Não temos restrição em relação a isso. Todo veículo tem futuro se entregar o que o público quer com competência. A tecnologia em si não basta para nada. Ela não cria fascinação, a não ser para os fanáticos por tecnologia. Tem que ter conteúdo. E a escolha do usuário vai ser pelo melhor.
Vocês pretendem trabalhar outros formatos?
Sim, de forma integrada. É o que chamamos de "cross-media". Uma mídia não substitui a outra no nosso entendimento. Elas se estimulam e se complementam. Sempre foi assim, desde o rádio.
A TV aberta vai perder para outras mídias a importância que tem hoje na distribuição de conteúdo?
Eu acho que isso será muito difícil. Uma mídia de massa que tem capacidade de atingir a todos os brasileiros ao mesmo tempo, que chega a 160 milhões de pessoas, isso não é algo que possa ser superado. Ela só será superada se não tiver competência e capacidade para continuar administrando seus fatores de sucesso: seus talentos, sua capacidade de se auto-renovar.
Nem deixará de ser um hábito cultural...
A TV aberta é espelho e vitrine da sociedade. Falo da TV Globo. Quando a gente olha para os EUA, por exemplo, a coisa é diferente. As televisões abertas americanas parecem ter perdido espaço e a estima do telespectador. Talvez isto explique o maior crescimento da TV por assinatura, no mercado americano. A TV aberta só perde espaço quando perde eficiência.
Essa força da TV aberta talvez seja a razão de outras formas de distribuição não terem se massificado. Veja o caso da TV paga. Em sua última entrevista (à revista PAY-TV, em outubro de 2001), você até brincou dizendo que para a TV paga crescer era preciso jogar uma bomba na Rede Globo...
É claro que aquela frase foi uma brincadeira. Mas no fundo as pessoas realmente acham que para competir com a Globo é preciso acabar com a Globo. Não é por aí. É só fazer melhor. A TV por assinatura na Argentina, por exemplo, teve grande sucesso com os canais estrangeiros porque a TV aberta lá era muito ruim na época. Aqui os mesmos canais estrangeiros tiveram pouca repercussão, quase nenhuma, porque a TV aberta é ótima e os canais nacionais oferecidos pela TV paga também são. Quando um canal agrega alguma coisa ao espectador, ele faz sucesso. É só pegar a lista dos dez canais mais assistidos na TV paga brasileira: são quase todos canais feitos por brasileiros. Globo News é bem feito, SporTV é bem feito, por isso têm audiência. A Globosat tem a melhor oferta de canais da TV por assinatura do País, com padrão de qualidade internacional. Não tem jeito, é assim que funciona. Hoje os estrangeiros lideram nos segmentos onde faltam brasileiros como nos canais infantis e nos canais de seriados.
Quando brincava com a frase "joga uma bomba na Globo", o que eu dizia é que havia duas soluções: ou se nivela por baixo, destruindo o que é bom, ou se tenta competir com produção de qualidade, correndo-se o risco de investir para ser o melhor.
As novas mídias que surgem, pelo menos do ponto de vista publicitário, acabam crescendo justamente em cima das mídias que estão mais ultrapassadas, como jornais e revistas. Isso se vê, por exemplo, no mercado de TV paga, que em termos de mercado publicitário cresceu sobre as mídias impressas e não sobre a TV aberta.
Não tenho certeza de que este seja o comportamento padrão. A única coisa que nós aprendemos é que nas crises o anunciante procura concentrar sua verba naqueles veículos que considera mais eficientes. É assim no mundo inteiro, e sem dúvida no Brasil a TV aberta é o melhor veículo e a Rede Globo é, dentro das TVs, a mais eficiente, por isso a Globo cresce nas crises. Nos últimos anos, o que houve foi um encolhimento das outras mídias em benefício da TV aberta . Voltando o mercado a crescer, como está acontecendo este ano, acho que as outras mídias voltarão a ter uma participação maior. No nosso planejamento estratégico, reduzimos a participação prevista para a TV aberta no bolo total da publicidade, e estimamos pequenos crescimentos de todas as outras mídias nessa participação. Achamos que elas voltarão a crescer porque o País crescerá, só isso.
E o crescimento de outras formas de marketing e comunicação, que não envolvem compra de espaço de mídia, isso afeta a televisão?
Estão realmente crescendo algumas formas "non-advertising" de investimento em comunicação. São novas formas das empresas se comunicarem com os seus públicos, tirando alguma verba da publicidade tradicional. Mas não prevemos nada no horizonte que assuste ou inviabilize qualquer um dos veículos de comunicação que dependem essencialmente de publicidade.
O modelo da TV aberta está baseado na publicidade, que é um mercado já consolidado. Não terá mais grandes saltos. Ou seja, cresce ou se retrai com a economia. Esse mercado, que já está tomado, tem espaço para quantas empresas, na sua opinião?
Evidentemente, esse mercado hoje não tem espaço para cinco redes iguais. Mas ele já foi muito maior e está voltando a crescer. Há espaço no mercado para uma concorrência maior entre as empresas de televisão. As redes podem se diferenciar. Algumas, é claro, devem competir nos mesmos mercados. Umas devem ter estratégias mais globais. Outras mais segmentadas. As que optarem pelo modelo de massa disputarão com a Globo a preferência da população. É o papel deles tentarem e é o nosso papel competir com quem tentar.
Concorrência é muito bom porque estimula a melhoria de qualidade. E independentemente de concorrência, sempre tivemos uma motivação, uma espécie de concorrência interna, que nos faz melhorar sempre. Se você olha a TV Globo de 20, 15, dez anos atrás, você vai ver que em todos os aspectos a nossa TV melhorou progressivamente.
A Rede Globo deve ter, hoje, mais da metade da verba de publicidade do Brasil. É isso?
Não. Nem todas as televisões abertas juntas têm tal participação. Mas procuramos oferecer ao mercado publicitário o melhor retorno, a melhor relação custo benefício para o seu investimento.
Como a Globo vê a relação com as empresas de telecomunicações?
As empresas de telecom são empresas de infra-estrutura que distribuem conteúdos de terceiros. Não vejo lógica em elas serem produtoras de conteúdo. Aliás, no caso específico das empresas de telefonia fixa, isto fugiria ao escopo da autorização a elas concedida.
Acho que é missão das empresas de mídia produzirem conteúdos que atendam às demandas de geração de tráfego das empresas de infra-estrutura e, principalmente, dos usuários que desejarão acessar o conteúdo da sua TV, rádio ou jornal prediletos, através de diferentes plataformas.
Essa divisão de tarefas deve vir com o mercado ou deve vir com alguma imposição de regras?
Não sei. Existem iniciativas parlamentares nesse sentido, mas pessoalmente acredito que essa divisão de tarefas se consolidará pela via do mercado. Eu acho que o estabelecimento de regras nesse sentido tem um papel a desempenhar, mas a realidade de mercado sempre terá papel decisivo. Até agora muito se falou em colocar conteúdo em celular. Já nos pediram para colocar nossas novelas, filmes. Mas não é assim. Cada mídia tem uma linguagem, e o que falta ainda é identificar o produto e a linguagem exata para cada uma. Fizemos isso muito bem em várias mídias, mas ainda não se fez, nem nós oferecemos, uma boa linguagem e um bom formato para celular. Espero que sejamos nós os primeiros a fazê-lo e estamos trabalhando nisso.
Vocês buscam uma parceria com sociedade, como foi a Telecom Italia no Globo.com, ou é uma parceria de outra natureza?
Queremos alcançar os clientes através de todas as plataformas, mas para isto não precisamos participar acionariamente em redes de telecomunicação. O que queremos garantir é que sempre teremos um relacionamento muito especial com o nosso cliente final. É aí que fazemos diferença.
E a venda será em caráter exclusivo ou para quem quiser comprar?
Isso depende das negociações. O "Big Brother" tem exclusividade, por exemplo, mas vai depender de cada caso.
Como fica a Globo depois da mudança de estratégia na TV por assinatura e da consolidação no DTH?
Não houve mudança na nossa estratégia para a TV por assinatura. Fomos e continuamos a ser fortes em programação e produção de conteúdo nacional. Entramos na distribuição para estimular esse mercado, para que a TV por assinatura crescesse. Se a distribuição estivesse consolidada desde o início, esses investimentos não teriam sido necessários. Mantemos uma participação em empresas de distribuição porque esta acabou sendo a forma mais viável para fecharmos os acordos com as empresas de distribuição onde tínhamos posições dominantes ou muito relevantes. Estrategicamente sempre nos posicionamos e vamos continuar a ser empresas de programação, de produção, de entrega, por cabo, por satélite, por qualquer meio. Foi circunstancial o fato de termos estimulado, financiado a distribuição...
E perdido dinheiro...
Perder dinheiro não era parte da estratégia, mas de qualquer maneira fizemos isso para fazer crescer o negócio, e sempre tivemos clareza de que o negócio de TV paga não cresceria tão rápido quanto se projetava. Mas era necessário investir nesse mercado e ajudar a que ele se tornasse realidade no Brasil.
Por outro lado vocês abriram espaço para a News Corp., por exemplo, entrar no mercado e se firmar aqui com 840 mil assinantes, que é o que tem a Sky.
O modelo de parceria com a News sempre procurou garantir a preservação do conteúdo nacional. No satélite, a News é uma empresa de distribuição cujo conteúdo nacional é provido por uma empresa brasileira, a Net Brasil. Há acordos estabelecidos pelos quais a Net Brasil tem a responsabilidade pela programação e fornecimento de todo o conteúdo nacional.
E esse acordo é eterno?
Eterno só o "Pai do Céu"... Bom, esse acordo se mantém enquanto a Globo tiver um percentual na operação superior a 6%. Hoje temos 28%. Nosso objetivo nos acordos iniciais com a News e na negociação feita agora é coerente com a nossa visão de que uma plataforma estrangeira não deveria ter condições de criar obstáculos à distribuição de conteúdos nacionais e fazer com que a produção internacional se tornasse dominante em relação à produção brasileira.
A defesa do conteúdo nacional é para nós não só uma questão empresarial, mas também assunto relevante para a proteção da nossa identidade cultural e soberania nacional. O fato de a Net Brasil estar estabelecida no Brasil, com sócios brasileiros, dirigida por brasileiros e sujeita às nossas leis é uma proteção desses valores. Nem por brincadeira podemos conviver com a hipótese de uma situação como aquela retratada no filme de James Bond, em que alguém coloca no satélite só o que quer, só um determinado tipo de mensagem.
O acordo inicial com a News era parte de uma estratégia de parcerias do grupo. Mas a impressão que se tem é de que a Globo ofereceu o mercado, mas ganhou pouco em troca.
Não é verdade. Nossa parceria com a News sempre foi muito boa. Todo mundo diz que o Murdoch é a pessoa mais difícil do mundo, mas do dia em que o conheci até hoje só posso dizer que ele é absolutamente leal. Claro que ninguém é bonzinho negociando, nem é isso que se espera de um negociador, mas ele jamais fez qualquer tipo de deslealdade conosco.
Temos uma ótima parceria que mudou de configuração por envolver alguns investimentos que, pela consolidação do mercado de TV por assinatura, não era mais imprescindível fazermos. Além disto, era cada vez mais impossível acompanharmos os investimentos na mesma proporção que vínhamos fazendo. Mudamos a proporção societária e agora está tudo certo. Todo o mundo saiu ganhando.
A Globo terá possibilidade de distribuir seu conteúdo pelos veículos da News Corp.?
Isso já estava nos nossos contratos originais, mas agora está mais claro. Temos espaço garantido para colocar novos canais em plataformas mundiais da News. Há ainda questões contratuais a serem ajustadas. Podem ser canais em português, em espanhol ou em inglês. Nosso objetivo é ter a produção brasileira na maior quantidade de países do mundo.
E se eles quiserem fazer um Fox News no Brasil, poderiam?
Dentro dos princípios legais brasileiros e do modelo de parceria sobre os quais já falamos não há nada contra.
Em síntese, a Sky continuará sendo uma franqueada da Net Brasil?
Dentro deste conceito de franqueada, para conteúdo brasileiro, sim. A legislação brasileira estabelece que todos os sistemas de distribuição de TV por assinatura estrangeiros devem recorrer a empresas nacionais para oferecer programação no Brasil. Pelo nosso acordo na Sky, a Net Brasil será a empresa utilizada, ela será legalmente responsável pelo conteúdo que disponibilizar. O objetivo da legislação é este. É garantir que haja empresa "ao alcance das leis nacionais" que tenha a responsabilidade pelo conteúdo que é ofertado aos brasileiros. Não dá mais para pensar na idéia de existir um vilão, como o do filme do James Bond.
Que, aliás, era uma alusão indireta ao Murdoch, com a imagem de um grande magnata da mídia.
Se era uma alusão a ele, acho que era injusta. Ele não é nada semelhante. Mas aquela é uma fantasia de Hollywood, que coloca um cenário preocupante...
Na hipótese então deste "cenário" de Hollywood vingar, o Brasil estaria protegido, na sua visão?
Em boa medida sim. Não só por causa do nosso acordo específico, mas porque ele é o reflexo do princípio legal geral. Além disso, no nosso caso, a Globo também é membro do board da Sky, e continuaremos exercendo lá a nossa responsabilidade editorial.
Mas a legislação brasileira protege o conteúdo nacional?
A lei que criou a Ancine nos protege razoavelmente. Mas é preciso que se crie um aparato mais amplo e claro, que evite, por exemplo, a criação de empresas brasileiras de fachada, que na prática são controladas pelos distribuidores internacionais.
Imagino que o modelo que existe no caso da Sky, onde há uma empresa realmente brasileira responsável pela programação nacional, deve ser estendido a todas as plataformas. Acho que não deveria haver espaço para que o capital estrangeiro, dono da infra-estrutura, transmitisse diretamente um conteúdo sem passar por uma empresa brasileira programadora que esteja sujeita às leis brasileiras.
A mesma forma de proteção ao conteúdo nacional criada na Sky vale para a Net Serviços, operadora de cabo em que a Globo é sócia e na qual a Telmex tem a perspectiva de se tornar controladora?
Vale, claro, e deveria valer para todo o mundo.
Para a Telefônica também, por exemplo?
Claro, para todo o mundo. Como muitas empresas de infra-estrutura de distribuição são hoje internacionais, é um risco que controlem toda a cadeia de valor da comunicação social, desde a ponta da produção até a entrega ao cliente final. De novo, é uma questão de identidade e até de soberania nacional. Este tema precisa ser enfrentado no Brasil com firmeza, mas sem qualquer traço de xenofobia ou de temorà concorrência saudável.
E como se faz com tecnologias em que a princípio não há fronteiras, como a Internet, por exemplo?
No fundo há fronteiras... Claro que a gente consegue ler o Financial Times ou ouvir a BBC pela Internet, e não devem existir barreiras ao acesso, ao conteúdo. Somos contra qualquer forma de censura. Mas na hora que o Financial Times quiser fazer uma edição brasileira, ele deveria estar sujeito à mesma legislação das demais empresas que fazem comunicação social para brasileiros, como as TVs, rádios etc. Não é algo simples, mas é algo importante e que faz sentido.
O grupo Globo acha que seria necessário uma legislação específica para essas questões? Vocês sempre foram refratários a idéias desse tipo, como uma Lei de Comunicação, por exemplo.
Não somos refratários às leis que regulem o setor. Aliás, temos muitas leis e as cumprimos todas. O que não aceitamos é qualquer lei que afete a liberdade de criação, expressão e comunicação. Isto seria o fim dos meios de comunicação e risco inaceitável para a democracia brasileira. Estamos falando de leis que não interferem em conteúdo. Nos EUA, por exemplo, nenhum estrangeiro pode ser 100% dono de uma empresa de telecomunicação.
Mas aqui não dá mais para voltar atrás. Na privatização da Telebrás já se permitiu a entrada de empresas estrangeiras com 100% do capital das teles.
É fato consumado. Minha opinião pessoal é de que isso não foi o melhor para o Brasil. Mas agora essa é a regra do jogo. Então, é necessário separar claramente o que é infra-estrutura, com seus direitos e suas obrigações, e para isso existe a Lei Geral de Telecomunicações, a Anatel etc. Esses mecanismos são necessários porque o Brasil precisa ter meios para, por exemplo, evitar que, com uma crise na matriz de empresa internacional, se raspe o caixa da subsidiária aqui e se prejudique os serviços que devem ser prestados aos brasileiros. É preciso ter proteção e a solução dada é boa, estamos razoavelmente protegidos. O que precisamos regular melhor é a questão de conteúdo: já que a legislação permitiu "vender o corpo", que é a infra-estrutura, tem que "preservar a alma", que é o conteúdo.
Mesmo que isso implique o estabelecimento de regras recicladas para a própria TV aberta, que tem uma legislação antiga? É difícil fazer uma legislação dessas, valendo só para as teles e sem englobar a TV.
O essencial é a preservação do arcabouço legal brasileiro, dos princípios constitucionais que garantem liberdade de criação, expressão e comunicação, proibindo qualquer forma de censura ou constrangimento aos meios de comunicação. A partir daí, devemos aumentar a proteção ao conteúdo nacional? Sim, porque isso além de estar previsto na Constituição é essencial para o País.
E a regulamentação implicaria novas regras para a televisão?
Pode implicar, dentro dos princípios constitucionais, que garantem a liberdade e a democracia. Se os princípios valerem para todos, está ótimo.
Mas o poder de compra das teles pode causar distorções nesse mercado, não?
Pode. Mas com regras claras as empresas de distribuição estarão sempre buscando os melhores conteúdos nacionais que lhes permitam o melhor retorno dos investimentos feitos. Isto beneficiará as empresas nacionais, estimulando-as a serem cada vez mais competentes. Uma empresa de telecom quer conteúdo para aumentar o seu tráfego e seu faturamento. Se a Globo e outras empresas brasileiras produtoras de conteúdo forem capazes de atender à demanda, está ótimo. Todos sairão ganhando.
Como vocês vêem a entrada de sócios estrangeiros em empresas brasileiras de comunicação, como aconteceu com o Grupo Folha e a Portugal Telecom?
No caso do acordo da Folha, não conheço detalhes porque eles não foram publicados. Devem estar ainda finalizando as negociações para poder revelar. Mas me parece que não haja qualquer problema. Entraram com 21%. A Constituição fala que pode ser 30%, então está tudo certo.
Vocês seriam refratários a um sócio estrangeiro?
Não seríamos refratários a princípio. Teríamos que avaliar as condições, mas não vejo nesse momento nenhuma vantagem para nós. No caso da Folha, eles devem ter visto uma vantagem.
E em relação à abertura de capital?
É diferente. Uma coisa é chamar um sócio para adquirir um grande pedaço. Para fazer isso teria que agregar muito, e não vejo quem agregaria esse valor à nossa empresa agora.
Nem uma News Corp.?
Nem uma News. Não vejo onde eles agregariam. Outra coisaé abrir capital que pode até ser feito no Brasil mesmo, pulverizando algumas ações. É uma hipótese ainda não estudada. Nada contra, nem a favor. Pode acontecer, mas não tenho o que dizer a respeito disso porque não estamos trabalhando com essa hipótese.
A maior crítica que se faz à Globo é ao fato de ela ter praticamente o monopólio da audiência...
É indispensável entender a diferença entre hegemonia e monopólio. O que temos é audiência, que o telespectador elege, segundo a segundo, com o controle remoto. Mas nós temos menos concessões que muitos grupos. A Globo tem apenas cinco concessões.
E mesmo assim vocês conseguem ser o grupo de comunicação hegemônico.
Isso é decorrência da livre iniciativa e da democracia. Enquanto o público puder optar por aquilo que mais lhe agrada, cabe aos grupos concorrerem para agradar ao público. A Globo teria o monopólio se tivesse 50% das concessões ou qualquer vantagem competitiva que não pudesse ser conseguida por outras empresas do mercado. Mas é exatamente o oposto. Tudo o que conseguimos, conquistamos na livre competição do mercado. Temos a preferência na audiência porque trabalhamos para isso, para que as pessoas tenham o que elas querem. Mas o consumidor tem o poder de mudar a todo instante. Está ao alcance da mão, no seu controle remoto. E ele faz isto o tempo todo.
Ainda que a audiência da Globo seja um mérito dela, ou demérito dos outros, isso cria uma distorção de mercado, não? Há casos em que o governo intervém justamente para corrigir esse tipo de distorção, como ocorre em casos de fusões.
Na história da TV Globo nunca houve a fusão de dois grupos fortes para garantir a preferência do público. Ao contrário. Começamos mais fracos que as TVs pré-existentes e fomos conquistando o público dia a dia. Concorremos no Brasil com grupos economicamente muitas vezes mais fortes do que nós, que distribuem seus conteúdos em várias TVs abertas e fechadas. Muitas vezes os telespectadores optaram pelos conteúdos oferecidos por outros grupos de comunicação e nós perdemos audiência e faturamento. E muitas vezes trabalhamos duro e retomamos a preferência e a audiência.
A exemplo do que ocorre na maior parte do mundo, o que o governo precisa fazer é criar estímulos para que mais grupos de mídia nacionais se fortaleçam e jamais admitir a hipótese de enfraquecer qualquer grupo nacional. Somos uma empresa 100% brasileira que, apesar de comparativamente muito menor do que os grupos mundiais de mídia, consegue competir e garantir a presença de conteúdo nacional para o público.
Mas essa é uma realidade na regulação de outros mercados: o governo pode interferir no mercado para corrigir distorções se entender que elas existem.
Eu não vejo esse tipo de distorção no caso do mercado de informação e entretenimento. Eu acredito sim em competição justa. Se a Globo estivesse fazendo dumping ou qualquer outra forma de concorrência desleal, deveria ser detida. Mas nós não fazemos nada disso. Aliás, nosso preço e práticas comerciais são absolutamente transparentes.
Trabalhamos seriamente, remunerando bem nossas equipes e pagando todos os encargos e impostos. Não vejo porque alguém possa pensar em impedir a Globo de continuar a trabalhar com qualidade e seriedade e querer nivelar por baixo. Punir uma empresa pelo seu sucesso me parece inaceitável. Não falo como Roberto Irineu, presidente da Globo, mas como cidadão e pai de família. Não poder oferecer o melhor para meus filhos é absurdo.
Parte do setor de cinema pede mais possibilidade de distribuição pela TV aberta. Este casamento é possível?
Ele já existe. Nos momentos áureos do cinema brasileiro ele influenciou a linguagem e a estética da TV. E em momentos difíceis do cinema a TV manteve ativos os principais roteiristas, diretores e profissionais da área cinematográfica e audiovisual. Sempre tivemos semanas especiais de exibição de filmes nacionais. Fizemos uma parceria com grandes cineastas brasileiros e criamos o Canal Brasil. Criamos a Globo Filmes e em três anos apoiamos a produção de filmes de mais de 25 diretores independentes. Também há os acordos que fizemos com alguns produtores independentes para co-produções e os resultados são ótimos. Aliás, não é verdade quando falam que não damos espaço para co-produções e produções independentes, temos várias parcerias excepcionais.
O problema é que poucos conseguem e muitos querem esse tipo de parceria...
Mas aí não tem jeito. Infelizmente, não dá para fazer isso com todas as empresas e profissionais talentosos do Brasil. De qualquer maneira, as parcerias estão crescendo, desenvolvendo novos formatos que têm funcionado muito bem. As parcerias que temos com as afiliadas para trazer produção regional para a rede nacional também têm dado certo. Agora temos parceria com os clubes de futebol para desenvolver novos formatos e produtos e também para trazer mais público para os estádios, é um outro caso que eu acredito que teremos grande sucesso. Em resumo, parceria é uma mudança de atitude e que tem que ser feita pensando em ganhos para os dois lados, e temos evoluído muito nesse sentido. Vamos buscar parcerias com as teles e com outras redes de distribuição.
Existe algum critério para fechar parcerias com a Globo? Por exemplo, seguir um determinado padrão de qualidade?
A qualidade é sempre a melhor possível. Aliás, apontando a mira sempre um pouco acima do padrão. Isso se faz com pesquisa, com compreensão do que as pessoas vão querer não hoje, mas amanhã.
Vamos falar um pouco de erros e acertos da Globo.
Se eu começar a falar dos erros vou dar as pistas estratégicas para o futuro. Tivemos muitos erros, felizmente mais acertos do que erros. Mas não vou falar quais foram.
Por exemplo, nunca mais vão montar uma emissora na Itália?
O melhor caminho para a conquista do mercado mundial não é montar emissora em nenhum país estrangeiro. Não repetiremos esse projeto.
A entrada no setor de TV por assinatura foi um erro?
Não, foi um acerto. Foi um acerto estratégico em geral. Tivemos dificuldade porque apostamos numa estabilidade do mercado brasileiro que não aconteceu e numa oferta de crédito que desapareceu. O erro foi operacional, a estratégia estava correta.
Mesmo que isso tenha colocado a Globo em uma complicada situação financeira, com a suspensão do pagamento da dívida e tudo o mais?
É um processo muito duro e violento, é verdade.
Como foi o dia de declarar o default para vocês?
Muito triste, muito difícil. Eu particularmente me senti muito mal. É algo que não faz parte das regras e valores com que estamos acostumados a trabalhar. Nunca atrasamos deliberadamente um dia sequer o pagamento de nossos funcionários. Sempre pagamos os nossos fornecedores e impostos em dia, renegociando é claro quando foi necessário, mas sempre bilateralmente. Então tomar a decisão do default foi uma decisão difícil. Ainda que isso faça parte da vida e das possibilidades de um banco, isso não fazia parte da nossa vida.
A família Marinho sempre investiu tudo o que tinha aqui. Antes de entrar em default, vendemos um monte de ativos que tínhamos para colocar aqui e tentar resolver a situação, tentando adiar o default. Ainda assim não foi possível evitá-lo.
É fácil fazer engenharia para trás, mas por que não anunciaram o default antes de vender os ativos, como as participações em algumas afiliadas etc.?
Erramos, foi burrice... E não foi só a venda de participações em afiliadas. Vendemos fazendas, a casa de meu pai em Angra dos Reis, muita coisa querida da família. Erramos! É fácil falar isso agora. Tínhamos as análises, sabíamos da situação da empresa, mas acreditávamos que seria possível adiar o problema ou mesmo passar por ele sem ter que chegar ao limite. Em abril (o default foi em outubro de 2002), quando pagamos US$ 200 milhões de um vencimento e anunciamos que queríamos fazer um pré-IPO para capitalizar a empresa, o valor dos nossos bonds despencou de 80% para 40% do valor de face.
Acharam que vocês perdiam a capacidade de gerar mais caixa?
Não, acharam que estávamos malucos, foi isso que passamos para o mercado. Quando nos viram vendendo a participação nas emissoras e colocando dinheiro na holding o papel caiu muito mais. Quando declaramos o default o valor de negociação dos bonds finalmente subiu. Foi o jeito de dizerem que estávamos fazendo a coisa errada e depois a coisa certa. Se pegarmos os dados de mercado, o histórico, vamos ver exatamente a variação de nossos papéis em função dessas tentativas. A confiança na nossa capacidade de arcar com os compromissos caía enquanto estávamos fazendo o possível para pagar e passou a subir quando assumimos nossa incapacidade e começamos a renegociar. Claro que isso a gente consegue ver hoje, com a observação histórica, mas na verdade o mercado indicava os nossos erros. Deveríamos ter buscado a renegociação antes, com um caixa maior, com ativos que eram valiosos na nossa estratégia e para a nossa família. Mas o importante é que fizemos uma renegociação que foi muito benéfica para a empresa e para os nossos credores. A evolução dos nossos bonds, que hoje são negociados a 100%, reafirma isto.
Utilizar o patrimônio pessoal foi o que o seu pai fez quando montou a Globo...
E ele ainda havia hipotecado. Nós tivemos que vender coisas muito rentáveis. Uma emissora de TV pequena é mais rentável do que uma grande. E ainda vendemos em um ano péssimo, com o mercado retraído. O aprendizado, no final das contas, foi o seguinte: nas dificuldades, é melhor chamar logo os credores e estabelecer uma relação de parceria com eles, como depois fizemos. Buscar uma solução sólida e duradoura em que todos saiam ganhando é o que deve ser feito. Acho que foi o que conseguimos fazer.
E a questão da ajuda do BNDES, como foi?
Não foi uma ajuda, e é bom deixar isso bem claro. Nunca houve tentativa de ajudar a reestruturação da Globo via BNDES. Nem nós pedimos, nem nunca precisamos. O projeto do BNDES, que foi bombardeado por pessoas no mínimo desinformadas, era um plano de desenvolvimento da mídia. Todos os setores econômicos no Brasil têm projetos desse tipo no BNDES, da indústria de cigarros à de laticínios. Só a mídia não tem. E isto é grave porque o BNDES é o único financiamento de longo prazo existente no Brasil. Para se obter financiamento no BNDES é preciso dar garantias, mostrar um plano de negócios, eles são profissionais, técnicos, corretos. Quem pega dinheiro no BNDES paga e paga caro por isso, mesmo comparado com taxas no exterior. Nada é de graça. Se você tinha um jornal e queria ir ao BNDES pegar um financiamento para aumentar a gráfica, ou uma TV e queria montar um estúdio, não podia. Então as associações de jornal e TV contrataram a Maria Silvia Bastos para fazer um projeto que visava abrir três linhas de créditos específicas: para investimentos de longo prazo, para compra de papel para impressão de jornal e para refinanciamento de dívidas. Só que fazendo todos os cálculos, o programa pedido ao BNDES era de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões. Dividindo pelos três programas, daria perto de R$ 1,5 bilhão para cada linha. Supondo que só a Globo fosse atendida, o que é uma hipótese ridícula, não resolvíamos nem um terço do nosso problema e ainda ficaríamos amarrados ao BNDES de uma forma que não conseguiríamos acertar mais nada com os credores internacionais. Então, não era um programa para atender a Globo, era um programa para atender os pequenos jornais e emissoras. Por isso, a Abert apoiava o programa. Por isso, a ANJ também apoiava.
Mesmo assim a proposta foi suspensa indefinidamente...
Porque todo mundo achava que era para beneficiar a Globo, e não era. Achavam que sem o BNDES nós quebraríamos, e não só não quebramos como ficamos em uma situação melhor para negociar. A nossa renegociação com os credores nunca passou pela ajuda do governo. Nunca houve essa hipótese, nunca pedimos isso. Foi uma besteira dita por quem não sabe como as coisas acontecem. Não nos afeta essa história não ter ido adiante. É uma pena para os pequenos, que realmente precisavam de ajuda.
Como vocês vêem a situação de grupos radiodifusores que vivem com fontes de receita e financiamento que não são de mercado? Por exemplo, os grupos religiosos?
Eles atendem os segmentos deles e não vejo nada errado desde que estejam dentro da lei, com os aportes sendo feitos dentro da lei, com os impostos sendo pagos corretamente e com as demonstrações financeiras transparentes, nada contra.
Não é mais difícil concorrer com o dízimo sagrado?
É mais difícil, mas se estiver dentro da lei não posso reclamar. Claro que é preciso estar atento se as licenças estão corretas, se o dinheiro tem origem comprovada, mas até hoje não se provou nada errado contra ninguém.
Como a Globo avalia o governo em relação ao setor de radiodifusão?
A estrutura legal brasileira, sobretudo a Constituição no que se refere à liberdade dos meios de comunicação social, é um modelo para o mundo. Acho espetacular, é sábio e deve ser preservado. As decisões relevantes sobre a mídia dependem de mais de um Poder da República, dificultando o clientelismo e as formas de coação à liberdade de expressão que os modelos centralizadores tendem a criar. É uma estrutura de Estado que garante o processo democrático.
E o projeto da Ancinav?
Não gostamos da minuta, achávamos que havia mecanismos incompatíveis com a Constituição Brasileira, mas todo o debate se deu em cima de minutas. O que é fundamental é que exista uma grande agência de fomento da cultura brasileira, do audiovisual nacional, como existe em outros países. O que não se pode, quando se fala em cultura, é querer cerceá-la. Ela precisa é ser estimulada.
Como financiar o desenvolvimento do audiovisual onde é necessário? Em geral os investimentos vêm do próprio setor.
Nem sempre, às vezes é dinheiro do governo. Há modelos com participação na receita das emissoras, mas nestes casos elas são as mais beneficiadas por esses recursos. Há modelos baseados numa loteria, como na Inglaterra. Nos EUA, não há mecanismos de incentivo e eles dominam a mídia no mundo. Seja por conta da qualidade, seja por conta da escala, dos custos, o fato é que isso está acontecendo. Na Itália não há mais dramaturgia porque no horário nobre deles está a programação dos EUA. Na França, com toda a proteção ao conteúdo nacional, quatro dos dez programas mais vistos são norte-americanos. Na Inglaterra, seis dos dez programas mais vistos são americanos. No Brasil, nenhum. Então, imagine a vontade que as empresas americanas têm de dominar o conteúdo aqui. E é essencial que a Globo e cada vez mais emissoras brasileiras façam programação nacional. Enfraquecer a Globo e não criar mecanismos adicionais de fortalecimento da produção nacional como um todo é abrir o mercado para o conteúdo estrangeiro. Qual é o melhor modelo para o País? É uma opção que temos que fazer.
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