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A primeira revista brasileira nasceu dentro da prisão

Diogo Soares da Silva de Bivar, preso político que aportou na Bahia para cumprir pena nas masmorras da Fortaleza de São Pedro, redigiu a primeira revista editada no Brasil, As Variedades. Ou, Ensaios de Literatura, dentro da prisão. O primeiro número, lançado em janeiro de 1.812, tinha trinta páginas de conteúdo e mais quatro de referências, incluindo a cap. Bivar era um rapaz de 24 anos, vasta cultura, militante maçon e todo o entusiasmo do mundo, descendente de Rodrigo Diaz de Bivar, o Cid Campeador de Castela. E tinha, suponho eu, costas quentes. De outra forma não teria conseguido editar a revista, publicação da Tipografia de Manoel Antônio da Silva Serva, “com as licenças necessárias”, ou seja, o beneplácito da censura, conforme consta no rodapé de capa.

“Variedades”, diferente das Sentinellas de Cipriano Barata, não era uma publicação clandestina, e sim impressa na mesma tipografia de Silva Serva que editava o Idade D’Ouro do Brasil, e não tinha propósitos políticos declarados, apenas o de disseminar cultura, através de longos artigos e transcrições de outras publicações européias congêneres. Teve pequena circulação, há referências de que tenha editado 60 exemplares apenas, e desapareceu no mesmo ano de 1812 por falta de apoio, ou seja, de leitores. Numa Bahia com índices de analfabetismo, na época, acima de 90% da população, difícil encontrar um público leitor para o conteúdo erudito.

Redator com privilégios?

Bivar tinha costas quentes sim e tenho minhas dúvidas se o homem dormia mesmo no Forte, ou cumpria uma espécie de prisão de meio turno, mesmo com as evidências de documentos encaminhados através do Governador Conde dos Arcos, onde o redator se queixa da falta de espaço e de sol e requer alguns privilégios. Negados. Admitindo que Bivar ficasse preso mesmo, temos de cogitar, então, que contava com uma biblioteca a seu serviço (ninguém poderia escrever de cabeça sem referências os artigos da revista) dentro da prisão e também de que manipulava documentos oficiais do Governo, nas masmorras. É essa parte da história que não bate.

Digo Soares da Silva de Bivar redigiu na prisão não apenas a primeira revista brasileira, mas também o segundo Almanaque do país. Que circulou na Bahia em dezembro de 1811, com capa de referência do ano seguinte, com o nome de Almanach Para a Cidade da Bahia, Anno de 1812. Ocorre que o conteúdo desta publicação, que relacionava funcionários públicos de todas as repartições e instancias de poder e também das instâncias militar e eclesiástica, dependia de uma consulta a documentos oficiais. È trabalho de compilação e ordenamento de dados e isso só seria possível, manipulando documentos carimbados.

Então, conclui-se que Bivar tinha acesso a esses papeis dentro da cela, ou mais provável, saia sim, tinha privilégios sim, e consultava os livros de registro dentro das repartições do Governo. Em todo caso, duvidas a parte, não deixa de ser emblemático e simbólico: o nascimento das revistas no Brasil, atrás das grades.

 

Autor: Nelson Varón Cadena, artigo publicado originalmente na Revista Imprensa, edição de janeiro de 2012

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