
Nenhum argumento seria o bastante convincente para Dom João VI se decidir a embarcar, após semanas de hesitação, com a família Real rumo ao Brasil, do que o editorial do jornal “Lê Moniteur”, de novembro de 1807 que anunciava o fim de seu reinado. A publicação lhe foi apresentada pelo Lorde Strangford; segundo o historiador Kennet Light o jornal dizia com todas as letras que a família real seria aprisionada e deposta do trono. Dom João tinha motivos para acreditar na autenticidade da noticia e nos propósitos argüidos na gazeta, pois sabia da ascendência que Napoleão Bonaparte tinha sobre a publicação. Naquele tempo a melhor maneira de se conhecer os humores do Imperador Corso era a leitura das Gazetas que tinha sobre seu controle: “Lê Courrier de l’Armée d’ Italie” de Milão, “Courrier d’Egypte” do Cairo e “Lê Moniteur” de Paris, dentre outras. As primeiras, constituídas com o seu apoio para que ecoassem as suas vitórias na diplomacia e nos campos de batalha. Já um acordo com os proprietários deste último garantia-lhe a ascendência sobre a sua linha editorial.
Bonaparte cuidara, inclusive, de anular a opinião de outros periódicos, estimulados a reproduzir os artigos da gazeta parisiense da qual era colaborador assíduo com “correspondências” onde dissertava acerca de sua política expansionista. A mídia era um dos alicerces da desmedida ambição de Napoleão que se fazia acompanhar de jornalistas nas suas campanhas bélicas. Mantinha a seu lado um chefe de imprensa encarregado de influir, a seu favor, sobre a opinião pública parisiense. Dom João VI tinha, por tanto, motivos para se impressionar com a gazeta que o ministro inglês Lorde Strangford fizera chegar as suas mãos, apressando a sua decisão de partir rumo à América em 27 de novembro de 1.807, episódio registrado por um artista anônimo na pintura acima.
Autor: Nelson Varón Cadena
Portal Almanaque da Comunicação - 2011
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