A história condenou mais de uma dúzia de publicações que circularam no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco entre 1808 e 1822/23, digamos que o marco da Independência como divisor de águas; quase todas desapareceram após consolidado o processo. Publicações que a história escrita pelos vencedores considerou como de segunda classe, algumas definitivamente estigmatizadas, primeiro por Helio Vianna e Carlos Rizzini (1945), mais tarde e com maior ênfase por Nelson Werneck Sodré (1966) e daí por diante por quase todos os autores que se debruçaram sobre o período cronológico aludido. Os historiadores avaliaram os títulos jornalísticos com um viés dogmático e nelas impingiram rótulos que as desmerecem e apequenam, cometeu-se uma grande injustiça. A metodologia de avaliar a imprensa apenas como um agente político no processo da independência favoreceu a discriminação aqui referida. E nesse propósito de construir a história, a partir de uma única janela, os historiadores tomaram partido, engajaram-se também, ainda que mais de um século após os acontecimentos de campo, como involuntários militantes a favor da Independência.

Esse processo estabeleceu dogmas que hoje urge reavaliar. Um deles definiu como imprensa de primeira classe os jornais que se alinharam nas lutas contra o sistema colonial: Correio Braziliense, Diário Constitucional, O Constitucional, O Independente Constitucional, Reverbero Constitucional Fluminense, A Malagueta, Segarrega e as primeiras Sentinelas de Cipriano Barata. Nenhum dos autores avaliou o seu conteúdo do ponto de vista da mídia, da informação, ou como prestador de serviços, destacando apenas o seu papel panfletário na mobilização da opinião pública. Por esse mesmo dogma estabeleceu-se que são jornais de segunda classe, rotulados como áulicos, oficialistas, demagógicos, reacionários, dentre outras denominações nada lisonjeiras, a Gazeta do Rio de Janeiro, Idade D’Ouro do Brasil, Semanário Cívico, Aurora Pernambucana, Minerva Baiense, O Espelho… dentre outros. Um contexto excludente onde o Semanário Cívico da Bahia, por exemplo, passou para a história como o “Semanário Cínico”.
A verdade é que uns e outros, os jornais favoráveis e os contrários à Independência, tiveram papel relevante. A polêmica em torno do assunto fomentou o debate no âmbito do próprio poder, expondo as suas contradições, não vamos esquecer que a opinião publica da época era formada pelos próprios agentes desse processo:autoridades, servidores públicos, comerciantes e senhores de engenho. Sem o contraditório, a imprensa engajada na causa libertária não teria prosperado. Uma se alimentava da outra. E era a polêmica incendiária que supria (preenchendo lacunas de informação) as omissões de notícias, em torno de fatos ocorridos, por uma ou outra parte. A verdade é que a imprensa pautou o poder no processo que resultou na Independência no Brasil e essa pauta não foi exclusividade de um grupo apenas.

O fato é que essas publicações discriminadas estão a merecer um estudo, não digo mais apurado, mais de fato. No mínimo deve-se avaliar a qualidade do texto, o seu viés (ou não) informativo e de prestador de serviços, a qualidade das fontes, a sua atualidade, a sua coerência, a sua postura ética, a sua originalidade, a sua importância como mídia e mesmo a sua real contribuição no processo da Independência. Dividir a imprensa entre áulica e engajada, reacionária ou liberal não é uma boa metodologia, é preconceito. E preconceito que induz a avaliações superficiais. Está na hora de se anistiar a imprensa “do outro lado da história” através de pesquisas nas próprias coleções dos títulos “sob suspeita”, ou seja consulta às fontes primarias e na sua abrangência midiática.
Autor: Nelson Varón Cadena
Portal Almanaque da Comunicação - 2011
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