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A Descoberta do Gelo

Diante do pelotão de fuzilamento o coronel Aureliano Buendia, personagem de Gabriel Garcia Marquez, “havia de recordar aquela tarde remota em que seu paí o levou para conhecer o gelo… Desconcertado José Arcadio atreveou-se a murmurar: É o maior diamante do mundo. Não, corrigiu o cigano. É gelo”. Pela mesma época, não mais na Macondo da ficção do romancista colombiano, mas na Bahia nonacentista, os soteropolitanos conheceriam  a água congelada em bloco, seguramente com o mesmo espanto do personagem aqui referido. A chegada do produto foi anunciada com estardalhaço em reclame de 24 linhas, um exagero para a época, destacando supostas qualidades sanitárias: “esperamos que o público se acostume ao uso deste grande tônico que é muito proveitoso para as doenças do estomago, tão intensas nesta provincia, e para outras enfermidades como afirmam os melhores facultativos…”. No terceiro parágrafo o anunciante já não mais se dirige ao consumidor, mas ao atacadista, estimulando os comerciantes da praça a adquirirem o produto, apostando numa queda de preço, em função da concorrência. Ou seja o gelo era caro e o objetivo do reclame, mesmo, era justificar a sua utilidade.

Passariam-se 70 anos, após esse anúncio, para a Bahia importar os primeiros refrigeradores. Quanto o seu uso como tõnico estomacal, consideradas as precárias condições de higiene da provìncia, só pode ter contribuido para agravar o problema. Ficam no ar algumas questões: De onde vinha o produto? Onde era guardado? Em que condições de higiene? Como era conservado?, Como o consumidor o levava para casa ? Lombo de Burro, em barris? Por um descuido meu de cadastro não sei a data em que o anúncio foi publicado, mas posso estimar pela tipologia do título e a diagramação, característica dos jornais da década de 30. Arrisco até: deve ter sido publicado no Diário da Bahia, entre 1833 e 35.

Autor: Nelson Váron Cadena

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