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A cobertura da Copa do Mundo de 58

Na última semana de junho a Rede Globo e a ESPN exibiram flagrantes da Copa do Mundo de 1958, imagens que, naquele tempo, apenas dois milhões de brasileiros assistiram na televisão e nos cine-jornal, em torno de 3% da população brasileira, então estimada em 65 milhões (IBGE) de habitantes: a elite de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife que possuía um aparelho de TV. Privilegiados expectadores que  puderam assistir, com uma semana de atraso, os dribles de Garrincha ou o gol espetacular (de chapéu) do Pelé no jogo final contra a Suécia. Outros 32 milhões de habitantes apenas imaginaram e idealizaram as jogadas que a empolgação dos locutores de rádio, em tempo real, fazia parecer mágica pura. A platéia da TV assistia objetividade, a do rádio lidava com emoção.

A verdade é que a mídia, naquele tempo, com raras exceções se preparou para cobrir a Copa do Mundo. A expectativa do Brasil conquistar a taça Jules Rimet era remota, estado de espírito traduzido na charge de Fritz, revista Manchete, onde o cartunista ele próprio se apresenta sendo obrigado a embarcar, contra sua vontade, no avião que transportaria a seleção Brasileira. Os jornais diários, por sua vez, questionavam alguns nomes do elenco convocado. Os ecos do vexame de 1950 ainda se ouviam nas redações dos jornais e revistas.

Endereço trocado

A televisão, então sem maior estrutura, se fez presente, através de um acordo celebrado entre o jornalista Almeida Castro, representando a TV Tupi, e a TV sueca. O cinegrafista Ortiz Rúbio foi credenciado a cobrir os jogos, mediante o pagamento de US 5.000,00, imagens que deveriam ser despachadas, logo que revelados os filmes, via aérea, para ser exibido com três, quatro dias de atraso no Brasil. De fato as imagens do jogo de estréia foram ao ar, mas não pela TV Tupi, e sim através da TV Rio, que recebeu os rolos por engano e imaginou, e repercutiu essa informação, fosse uma cortesia da TV sueca. Não era. O pacote viera com a inscrição “Para a TV-Rio-Brasil”, induzindo a repartição dos Correios e Telégrafos ao erro.

Em 29 de junho de 1958 o Brasil conquistava a Copa do Mundo, enlouquecendo os brasileiros, na maior audiência até então registrada pelo rádio no país. A Folha da Tarde saudava o feito, no dia seguinte, com a manchete “O espetáculo que o Maracanã não viu”. A Gazeta Esportiva, mais contida, estampava as fotos dos jogadores erguendo a taça : “O Rei, a taça e os campeões do Mundo”. A chegada no Brasil, nesse clima, prometia ser apoteótica e desta vez a mídia não deixaria barato.

O escore
Assis Chateaubriand, oportunista, convidava familiares de alguns jogadores à sede da revista O Cruzeiro; a sua estratégia incluía em convencer o chefe dos batedores da Polícia Militar a desviar o percurso da comitiva, inicialmente programado para se dirigir à sede do Governo onde o Presidente Juscelino aguardava impaciente. A comitiva de fato desviava o caminho, parava no prédio do O Cruzeiro, os fotógrafos registrando com exclusividade as primeiras homenagens aos campeões do mundo com direito a beijos, abraços e o choro emocionado dos familiares. Empolgado com o sucesso da iniciativa o diretor e proprietário dos Diários e Emissoras Associadas, ainda debochou antes de cair na gargalhada: “Agora o escore é Chateaubriand 1 X Juscelino 0″.

Autor: Nelson Váron Cadena, originalmente publicado no Portal Imprensa em 07/07/08


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